A História sobe ao pódio

Organizada pela Unicamp, Olimpíada Nacional em História do Brasil terá seus vencedores conhecidos neste fim de semana

Enquanto este texto estava sendo redigido, uma equipe formada por três estudantes e um professor de História da cidade de Coari, no Amazonas, distante seis horas de barco da capital Manaus, arrumava as malas para viajar até Campinas, onde participará neste fim de semana (19 e 20) das atividades finais da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), organizada pelo Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Aqui, os coarienses se juntarão a outras 306 equipes de todo o Brasil para encerrar a nona edição do evento, uma das mais importantes ações de extensão da Universidade.

A ONHB nasceu em 2009, já como um evento de grandes proporções. A primeira edição contou com 15 mil inscritos. De lá para cá, só fez crescer. A versão atual registrou 42 mil participantes, que foram divididos em 12 mil equipes compostas por um professor de História e três estudantes do 8º e 9º anos do ensino fundamental e do ensino médio, tanto de escolas públicas quanto particulares. Entre esses times, 307 (cerca de 1,2 mil pessoas) foram convocados para participar da final da competição. O Ceará é o Estado com maior número de finalistas (119 equipes), seguido por Rio Grande do Norte (60 equipes), São Paulo (37 equipes) e Bahia (24 equipes).

Foto: Antonio Scarpinetti
Segundo a professora Cristina Meneguello, coordenadora da ONHB, evento proporciona a confraternização entre pessoas de locais, trajetórias e culturas diferentes, mas que têm em comum o amor pela História

Para chegar a esta etapa presencial da Olimpíada, os “atletas” cumpriram outras cinco fases nas quais tiveram que se submeter a provas formuladas de forma online, com duração de uma semana cada. Eles solucionaram questões de múltipla escolha e realizaram tarefas a partir de debates, de pesquisas em livros e na internet e da orientação do professor, que tem a função de capitanear a equipe. “Esse procedimento é importante porque estimula o trabalho em grupo e contribui para o desenvolvimento da análise crítica desses estudantes”, considera a coordenadora da ONHB, professora Cristina Meneguello, que tem como coordenadora associada a professora Alessandra Pedro.

De acordo com Cristina, a prova final será realizada na manhã de sábado, nas salas do Ciclo Básico II, sem a presença do professor-capitão. O resultado será anunciado na manhã de domingo, em cerimônia que ocorrerá no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp (GMU). “A cerimônia de encerramento é sempre muito emocionante. Ocorre uma confraternização entre pessoas de locais, trajetórias e culturas diferentes, mas que têm em comum o amor pela História”, define a docente.

Ao todo, serão entregues 15 medalhas de ouro, 25 de prata e 35 de bronze, de acordo com a pontuação. Os demais participantes também receberão medalhas de honra ao mérito. “Essa premiação é a forma que encontramos para destacar a importância da Olimpíada mais como uma ferramenta para o aprendizado e o ensino de História que como uma competição”, explica a coordenadora do evento. As nove edições da ONHB, continua Cristina, proporcionaram resultados muito expressivos.

Foto: Divulgação
Antes de participarem da final, equipes cumpriram cinco etapas nas quais tiveram que fazer provas online e realizar trabalhos em grupo

Um deles é o fato de vários participantes de edições anteriores terem feito graduação em História e hoje estarem capitaneando novas equipes de alunos. “Além disso, nós temos um banco de dados composto por provas e trabalhos realizados pelas equipes, que constituem um rico material para pesquisa. Aliás, algumas dissertações de mestrado e trabalhados de conclusão de curso já foram realizados sobre a Olimpíada, em diferentes universidades do país”, informa a docente.

A coordenadora da ONHB ressalta necessidade da valorização do ensino de História, notadamente no momento atual. Cristina lembra que vivemos uma fase na qual ocorre o que ela classifica de “propagação da ignorância”, amplificada pelo uso das redes sociais. “As pessoas argumentam a partir de falácias, de informações que não são baseadas na História ou em pesquisa, e sim em achismo. Ocorre que os jovens podem se tornar presas fácies da internet e de grupos que parecem dar a eles algum pertencimento. É por isso que precisamos estudar História; para não cair nesse tipo de armadilha”, pondera.

Outra razão para se valorizar o ensino de História nos dias que correm, continua Cristina, vem do fato de o governo Temer ter alterado, via medida provisória, sem discussão com a sociedade, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. As mudanças, afirma, representam um ataque aos institutos federais, na medida em que estabelece que seus professores não precisam ser formados. Além disso, a MP deixa para a Base Curricular do Ensino Médio, que ainda não se reuniu, a decisão de transformar História, Geografia e Química, por exemplo, em conteúdos, tirando delas o caráter de disciplinas. “Com isso, um professor de Literatura, por hipótese, pode abordar algo de História em uma das suas aulas e considerar que o conteúdo foi cumprido”, alerta.

Se História deixar de ser uma disciplina, teme a coordenadora da ONHB, isso pode favorecer a volta de disciplinas como Educação Moral e Cívica e Estudos dos Problemas Brasileiros, que serviam a propósitos de governos ditatoriais. “Seria uma afronta estudar sem aprender a História do próprio país”, entende Cristina. Segundo ela, após o encerramento da ONHB, 32 professores das equipes com maior pontuação permanecerão por mais uma semana em Campinas, oportunidade em que participarão de um curso de formação, composto por aulas, palestras e visitas técnicas a museus e arquivos. O evento conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp.