Para tradutor, humanidades ampliam horizonte da discussão sobre a Bíblia

Frederico Lourenço fala da experiência em verter o Novo Testamento do grego para o português

A Bíblia, a exemplo de outros textos antigos, não chegou à contemporaneidade da maneira como foi originalmente escrita. Nesse sentido, precisa ser lida e compreendida a partir de problemáticas e perspectivas que digam respeito à existência humana no século XXI. Daí, a necessidade de diversas traduções do livro, pautadas por novas perspectivas que não se restrinjam ao viés teológico.

Essas são algumas das ideias defendidas por Frederico Lourenço, professor de estudos clássicos da Universidade de Coimbra, afamado tradutor da Ilíada e da Odisséia e tradutor da Bíblia direto do grego, recém-lançada no Brasil pela Companhia das Letras.

Diferentemente de outras traduções do livro em língua portuguesa, Lourenço adota como ponto de partida as humanidades, buscando manter-se fiel ao texto original em grego, o que abre ao leitor possibilidades de leitura e de compreensão da Bíblia distintas daquelas orientadas pela visão religiosa.

Foto: Antonio Scarpinetti
Frederico Lourenço, professor de estudos clássicos da Universidade de Coimbra: “Os textos têm sua história, sobretudo os textos antigos, que chegaram a nós de forma diferente daquela em que foram originalmente escritos”

Após ter participado da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), o professor e tradutor Frederico Lourenço fez uma conferência no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, no último dia 2, a convite do Centro de Estudos de Literatura (Celta). Na ocasião, ele falou sobre “A importância das humanidades para a leitura da Bíblia no século XXI” e concedeu a seguinte entrevista ao Blog da Editora da Unicamp.


Blog da Editora da Unicamp ­– Qual motivo o levou a empreender essa tarefa?

Frederico Lourenço – São vários motivos juntos. Fui criado e educado por católicos, tornei-me professor de grego e o Novo Testamento grego sempre me interessou muito. Além disso, quando passei a ser professor da Universidade de Coimbra, comecei a lecionar na área de Estudos Bizantinos, na qual tive de estudar a história do cristianismo, sobretudo a partir do século IV.

Foi interessante para perceber a evolução do cristianismo, mas, ao mesmo tempo, foi uma espécie de desilusão pensar que uma religião que havia começado de uma forma quase idealista, tornou-se a religião do Estado e do Império Romano.

Comecei a ter cada vez mais vontade de andar para trás e estudar o primeiro cristianismo: o cristianismo da religião ainda proibida, antes de ser autorizada e de ter se tornado obrigatória para cidadãos do Império. Tudo isto fez com que se tornasse óbvio para mim o estudo do Novo Testamento.

Ao mesmo tempo, percebia que as traduções que existem em Portugal poderiam estar mais próximas do texto grego, embora sejam traduções a partir do grego. Por isso, entendi que seria útil [fazer uma tradução do Novo Testamento direto do grego], pensando primeiramente no panorama português. Não tinha a ideia de que no Brasil também haveria este interesse.

Achei que seria útil uma tradução do Novo Testamento tão próxima quanto possível do texto grego para ser usada como comparação com outras traduções que são mais distantes, mais criativas, dinâmicas e que têm uma coloração teológica mais vincada.


Blog da Editora da Unicamp – Qual é a novidade da sua tradução da Bíblia a partir da língua grega em relação às traduções provenientes do hebraico?

Frederico Lourenço – A tradução do hebraico coloca-se em relação ao Antigo Testamento. Eu penso que não houve ainda nenhuma tradução do Antigo Testamento grego para português, o que leva, automaticamente, a uma diferença em relação ao Antigo Testamento hebraico. Não só uma diferença em termos de número de livros.

O próprio texto não é igual: quando existem os mesmos livros em hebraico e em grego, que é o caso da maioria deles, os textos são ligeiramente diferentes. São pequeníssimas diferenças de palavras interpretadas de formas diferentes, o que é muito importante para a história do cristianismo, pois os primeiros cristãos leram sobretudo o Antigo Testamento grego e basearam nele todo o desenvolvimento da teologia cristã.

Blog da Editora da Unicamp – E em relação às outras traduções, no caso do Novo Testamento, também advindas da língua grega?

Frederico Lourenço – A diferença é que a minha tradução é mais literal. Não adapta nada de modo a tornar a frase mais simpática do ponto de vista religioso ou teológico. Portanto, palavras que significam ódio são traduzidas por ódio. Odiar é odiar.

Quando Jesus se irrita, uma tradução católica diz “ele suspirou profundamente”, na minha tradução está “irritou-se”. É diferente de “suspirar profundamente”. Assim, coisas que são consideradas problemáticas porque podem levantar questões aos leitores, são “passadas a ferro”, digamos assim, nas outras traduções e aqui não. É para as pessoas terem a ideia do que está no texto grego, assumindo as consequências do que está nesse texto.


Blog da Editora da Unicamp ­– Durante a mesa de debate na Flip [Feira Literária de Paraty], o senhor ressaltou o caráter objetivo e histórico de sua tradução, em oposição a uma tradução teológica. De que modo essa escolha altera a leitura do texto?

Frederico Lourenço – Nesse campo temos sempre de admitir as limitações humanas. Óbvio que o ser humano, quando diz que é objetivo, é imparcial, está tentando ser objetivo, imparcial, mas não consegue... O ser humano não consegue fazer nada com perfeição a 100%, não é? Por isso, nenhuma tradução da Bíblia é perfeita, todas elas são propostas de tradução. Portanto, essa tentativa de olhar historicamente para esses livros.

Se só olharmos para o Novo Testamento, que é constituído por 27 livros, uma leitura histórica vai tentar perceber quais são as diferenças entre esses 27 livros. Quem é que os terá escrito? Qual é a ordem presumível ou plausível em que eles foram escritos? Eles foram escritos com o conhecimento um dos outros ou não? Foram escritos independentemente um dos outros?

A fundamentação dessa problemática deve ser tão objetiva quanto possível. Se tivermos dados para dizer que tal autor conheceu o texto de um outro autor, quais são os dados objetivos? E se esses dados não são objetivos, temos que levantar a possibilidade de não ser esse o caso.

No caso concreto dos quatro evangelhos, digo uma coisa diferente daquilo que se lê em praticamente todas as Bíblias: não há dados objetivos para afirmar que o autor do Evangelho de João conhecia os outros três evangelhos. Teologicamente diz-se isso, mas, de um ponto de vista objetivo, não há as coincidências verbais entre este e os outros três evangelhos.

A única frase supostamente igual entre o evangelho de João e um dos outros evangelhos, no caso o de Marcos, não é exatamente igual porque tem uma palavra a mais num deles. A abordagem histórica tenta equacionar as consequências de um autor, como o do evangelho de João, ter escrito isoladamente o seu evangelho sem conhecer os outros três – o que é uma problemática diferente daquela dos outros três (Mateus, Marcos e Lucas), que são muito entretecidos uns nos outros. Quando estudamos esses trechos, temos que utilizar uma metodologia objetiva, diferente daquela que utilizamos em relação a João.

Do ponto de vista acadêmico não podemos confundir metodologicamente coisas que fazem parte do próprio processo da leitura teológica, válidas nesse âmbito, mas que não são válidas na abordagem linguística, literária, histórica das humanidades.

Daí o tema de minha conferência, as contribuições das humanidades para a leitura e o estudo da Bíblia. Ou seja, o que as nossas áreas de especialidade podem trazer de útil, no século XXI, para conhecermos melhor esses textos. Não é para os destruir, não é para dizer que não valem nada, mas para valorizar outros pontos de vista.


Blog da Editora da Unicamp – O senhor ressalta a importância de uma leitura autônoma da Bíblia, defendendo a existência de diversas traduções, tanto com relação ao idioma traduzido quanto com relação à abordagem utilizada. Além de ter exposto a importância da leitura bíblica para uma reflexão pessoal. A partir disso, como a Bíblia, dado o distanciamento histórico, pode ser útil para pensarmos, atualmente, a nossa realidade e nós mesmos?

Frederico Lourenço – A resposta da segunda parte da pergunta é tão positiva quanto possível. Penso que as pessoas devem ler a Bíblia porque tem uma relevância enorme e terá enquanto houver seres humanos na Terra. Acho que é um livro que interessa ler e interessa conhecer, extraindo todas as coisas positivas que ele tem para a vida.

Em contrapartida, a primeira parte da pergunta remete à minha convicção de que não deve existir só uma tradução da Bíblia em português, e não temos. Precisamos de mais traduções, cada época precisa pensar de novo esses textos.

As perguntas que fazemos hoje acerca da Bíblia são diferentes das perguntas que eram feitas no século XVII. Por isso precisamos de edições atualizadas que nos tragam questionamentos e respostas relevantes para o nosso século XXI.

Quanto mais as pessoas puderem diversificar a leitura e formarem sua própria opinião, melhor também. Por que, por exemplo, os protestantes não leem a Bíblia católica para ver quais são os pontos de contato e quais são as diferenças? Isso é positivo. Informarmo-nos é bom.


Blog da Editora da Unicamp – Dado isso, qual a importância da leitura da Bíblia para as humanidades dentro do século XXI?

Frederico Lourenço – Entendemos as humanidades como um conjunto de disciplinas e especialidades, como a história, a filosofia, a linguística, os estudos literários. São diferentes de outra realidade universitária, a teologia. Essas disciplinas têm essa vantagem de nos dar outras perguntas, outras respostas, outro olhar, outra maneira de abordar o texto e de colocar este texto no nível de qualquer outro texto.

Isso não é desvalorizá-lo, mas é perceber que alguém o escreveu em algum momento. Os textos têm sua história, sobretudo os textos antigos, que chegaram a nós de forma diferente daquela em que foram originalmente escritos - desde Virgílio à Odisséia de Homero ou o Novo Testamento. Temos que ter isso tudo em conta. As humanidades servem para alargar um pouco o horizonte da discussão sobre a Bíblia. E eu penso que se deve apostar nisso.

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