Política de ingresso no Vestibular combinará diferentes critérios

O modelo contemplará mérito, justiça social, equidade e diversidade, de modo a fazer com que o conjunto da sociedade seja representado


A política de ingresso no Vestibular da Unicamp a partir de 2019 não será baseada num único critério. O modelo combinará princípios como mérito, justiça social, equidade e diversidade, de modo a fazer com que o conjunto da sociedade seja efetivamente representado na Universidade. A informação é da professora Eliana Amaral, pró-reitora de Graduação; e do professor José Alves, presidente do Grupo de Trabalho (GT) instituído pelo Conselho Universitário para elaborar proposta nesse sentido. “Existe a possibilidade de que diferentes cursos tenham diferentes composições de critérios para ingresso. A título de hipótese, um curso pode destinar 30% de vagas pelo sistema A, 30% pelo sistema B e 40% pelo sistema C”, infere Eliana Amaral.

De acordo com José Alves, que também é coordenador da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), a missão do GT será apresentar um desenho de política de ingresso que contemple a manutenção e aperfeiçoamento do Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais) e do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (PROFis), além da introdução das cotas étnico-raciais. O aproveitamento do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é outro ponto que será considerado. “O GT vai trabalhar pensando também na garantia da sustentabilidade dos programas. A sociedade e a comunidade interna têm que pensar que, uma vez aprovado o princípio das cotas, também precisamos assegurar a permanência e o desenvolvimento estudantil. Queremos fazer uma inclusão bem pensada, amadurecida e com a qualidade. Precisamos ter clareza de como iremos financiar o desenvolvimento das medidas na sequência”, observa.

Os trabalhos do GT terão início a partir de 20 de junho. As propostas preliminares serão encaminhadas para as unidades de ensino e pesquisa para debate. Na sequência, a matéria retornará ao GT, que fará os ajustes finais e enviará o documento para a apreciação da Comissão Central de Graduação (CCG). A decisão final sobre a política de ingresso será tomada pelo Consu, em novembro. Na entrevista que segue, Eliana Amaral e José Alves falam sobre os diferentes aspectos que envolverão as discussões acerca do tema ao longo dos próximos meses, entre eles mérito, qualidade, equidade, justiça social e avanço do conhecimento.

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Eliana Amaral, pró-reitora de Graduação: “O GT vai trabalhar para formular um modelo que permita a utilização de diferentes critérios de acesso para atingir alguns objetivos, incluindo os que são requeridos legalmente”

Jornal da Unicamp – Como serão conduzidas as atividades do Grupo de Trabalho?

José Alves – A partir da indicação, pelo reitor, dos nomes que integrarão o GT, nós realizaremos imediatamente uma reunião para definir um calendário de trabalho. Para nós, será uma tarefa inédita. Penso que não se trata de fazer uma discussão teórica em relação ao princípio das cotas étnico-raciais, visto que isto já está dado. Temos que refletir sobre uma série de recomendações presentes na Resolução do Consu, que versam sobre as cotas propriamente ditas, sobre os aperfeiçoamentos em relação ao Paais e também acerca da maneira como poderemos utilizar o Sisu no modelo a ser construído. Penso que vamos ter que buscar um conjunto de informações para subsidiar a proposta que será submetida inicialmente à Câmara Deliberativa do Vestibular e que depois será encaminhada às unidades de ensino e pesquisa para uma ampla discussão. Em seguida, a proposta voltará para o GT, que fará os ajustes necessários. Na sequência, a matéria será discutida na CCG e finalmente no Consu [Conselho Universitário].

JU – O Paais e o PROFis, então, serão mantidos?

Eliana Amaral – É importante que as pessoas entendam que haverá uma fórmula de acesso à Unicamp, que ainda não sabemos qual será, que não estará baseada num único critério. Vários critérios serão utilizados, dado que já há um consenso, e o próprio Consu deixou claro, que as ações afirmativas existentes devem ser mantidas. Então, o GT vai trabalhar para formular um modelo que permita a utilização de diferentes critérios de acesso para atingir alguns objetivos, incluindo os que são requeridos legalmente, como o de a Universidade ter um índice de 50% dos ingressantes provenientes do ensino público. Esta questão do ensino público, por exemplo, merecerá uma reflexão. Serão considerados os estudantes que fizeram apenas o ensino médio na rede pública ou ensino fundamental e médio? Isso terá que ser definido.

O PROFis também será considerado, inclusive porque se mostrou uma experiência de sucesso. O programa trouxe para a Unicamp estudantes com perfis que nós esperávamos, tanto em relação a egressos da escola pública, no caso 100%, quanto em termos de distribuição de autodeclarados pretos e pardos. Desse modo, a associação de critérios levará em conta as boas experiências já existentes na Universidade, as correções das eventuais falhas desses programas e a introdução das contas étnico-raciais, que pela legislação deverá acompanhar a diversidade da população, que no Estado de São Paulo varia de 35% a 37% de pretos e pardos, dependendo das estatísticas consideradas.

JU – Esse índice será aplicado por curso e turno?

Eliana Amaral – Por curso e turno. Este é um aspecto que já está estabelecido por legislação federal. O grande “mistério” que terá que ser resolvido pelo GT é como trabalhar isso em relação a cursos com realidades distintas. Com Paais, no modelo atual, a Medicina, que é a minha área de origem, praticamente alcançou o índice de 50% de alunos provenientes de escolas públicas. E também já atingiu a proporção de pretos, pardos e indígenas no primeiro e segundo anos. Então, é importante que se entenda que nós vamos fazer um movimento que não parte do zero para o 100. O que vai ocorrer é um aperfeiçoamento do que já temos, obedecendo as recomendações que incluem uma meta proporcional de estudantes pretos, pardos e indígenas.

JU – Como fica a questão do mérito no contexto dos critérios de seleção que serão adotados?

Eliana Amaral – Todos serão selecionados pelo mérito. O Paais e o PROFis já promovem a seleção pelo mérito. Assim será também para as cotas étnico-raciais. O que o GT terá que encontrar é a melhor fórmula de promover a inclusão social, integrando os mecanismos que já temos com a introdução das cotas. Isso será feito a partir de estudos sobre o tema, tanto em plano nacional quanto internacional, e também com base nas projeções que serão realizadas com os números que já dispomos sobre o perfil dos candidatos que procuram nosso Vestibular.

JU – O Sisu, como o professor José Alves citou, deverá ser considerado nas análises que serão realizadas?

José Alves – Sim, isso está expresso na Deliberação do Consu. Trata-se de uma demanda de algumas unidades de ensino e pesquisa. Como a proposta será amplamente debatida nas faculdades e institutos, a comunidade universitária poderá se posicionar sobre o assunto. Pessoalmente, vejo vantagens em sinalizar a possibilidade de atrair estudantes dentro de um universo maior, que é composto por concluintes do ensino médio do país inteiro. Estamos falando de uma base de 6 milhões de pessoas, muito superior ao número de inscritos no nosso Vestibular, que girou em torno de 70 mil candidatos nos últimos certames.

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Eliana Amaral – Existe a possibilidade de que diferentes cursos tenham diferentes composições de critérios para ingresso. A título de hipótese, um curso pode destinar 30% de vagas pelo sistema A, 30% pelo sistema B e 40% pelo sistema C. Outro pode ter 70% das vagas preenchidas pelo sistema A e 30% pelo sistema B. A maneira como isso será feito dependerá de estudos sobre o público que tem procurado o nosso Vestibular. Também dependerá de projeções, por exemplo, sobre os impactos que a adoção do Sisu como critério de ingresso trará para os cursos. Ou seja, vamos ter que olhar curso a curso e achar fórmulas que atendam às necessidades deles, seja de forma isolada, seja em conjunto.

JU – A Comvest já dispõe de dados suficientes para realizar essas projeções?

José Alves Sim, dispõe. Uma das características da Comvest ao longo do tempo foi a construção de um banco de dados denso, que tem subsidiado estudos e ações de diversas naturezas. Temos pesquisas feitas por professores da própria Unicamp que investigam temas como acesso, permanência e desenvolvimento de carreira. Então, a Comvest colocará toda a sua equipe e toda a sua expertise para abastecer o GT com informações que possam balizar escolhas e decisões.

JU – A professora Eliana mencionou que a questão do mérito será sempre considerada, a despeito do modelo a ser adotado. Poderia explicar melhor isso?

Eliana Amaral – Qualquer critério que venhamos a utilizar, estará baseado também no mérito. Os estudantes que serão admitidos serão sempre os melhores que concorreram às vagas especificadas. A Unicamp sempre prezou pela qualidade das suas atividades, o ensino incluído. Mas a Universidade também é reconhecida pela sua capacidade de inovar. Essa capacidade de se adaptar ao novo, mantendo a excelência, está no DNA da instituição. Nós já temos uma ampla experiência com ações afirmativas. O Paais foi criado em 2004. O PROFis, que demonstrou ser um mecanismo muito eficiente de inclusão, é de 2011. Os alunos do PROFis, por exemplo, frequentemente constituem a primeira geração da família a cursar o ensino superior. São estudantes que têm demonstrado excelente desempenho.

Esta, aliás, é um a preocupação manifestada por algumas pessoas, que temem que possa ocorrer perda de qualidade no ensino oferecido pela Unicamp com o advento das cotas étnico-raciais. Isso não corresponde à realidade. Pesquisas variadas demonstram que a diversidade no ambiente educacional faz com que o processo de aprendizagem seja vantajoso para todos. Ocorrem avanços. Estudos desenvolvidos na Unicamp e por outras universidades atestam também que pessoas alcançadas pelas ações afirmativas, quando se tem o mérito associado e quando a instituição dá apoio para a adaptação inicial, apresentam desempenho igual ou melhor que o dos seus colegas.

José Alves Eu gostaria de complementar o que a professora Eliana falou sobre a questão do mérito, que é um aspecto que muitas pessoas cobram. Temos que pensar que o mérito prevalecerá porque a seleção será feita entre os melhores que chegaram para disputar as vagas disponíveis. Mas também temos que pensar qual é a nossa visão de mérito. Os estudantes para os quais as cotas serão destinadas também concluíram o ensino médio. Eles passaram por experiências que eventualmente venham a ser bonificadas, mas também têm o mérito de terem chegado ao estágio em que se encontram. O que estamos dizendo é que nós temos uma sociedade diversa e complexa, e que temos que buscar a sua representatividade no interior da Unicamp. Isso significa dizer que temos que buscar, igualmente, meios diversos e complexos para poder atrair os melhores estudantes.

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José Alves, presidente do GT e coordenador da Comvest: “Queremos fazer uma inclusão bem pensada, amadurecida e com a qualidade. Também precisamos ter clareza de como iremos financiar o desenvolvimento das medidas na sequência”

Eliana Amaral Outro conceito que precisa ficar claro é que qualquer processo de seleção para ingresso numa universidade ou no mundo do trabalho não busca mais um padrão único de candidato. O que se busca são as potencialidades das pessoas. Então, não é correto achar que um vestibular ou uma prova seja a única maneira de se avaliar a potencialidade de alguém para um desempenho qualificado e inovador, que é o que buscamos num aluno da Unicamp. Isso fica claro, por exemplo, nos cursos que exigem, além do exame que apura os conhecimentos gerais do vestibulando, também provas específicas de habilidades. Hoje, os processos seletivos devem ampliar a sua visão e levar em consideração as diversas potencialidades do candidato.

Na prática, para ficar claro, nós estamos falando da inclusão baseada em três ou mais critérios de seleção. Há uma discussão, por exemplo, de como identificar esses potenciais através dos alunos que são premiados em olimpíadas do conhecimento, promovidas no ensino médio. Será que a Universidade deve oferecer algum tipo de bonificação para essas pessoas? Essa e outras possibilidades farão parte das reflexões que o GT fará ao longo dos próximos meses.

Tem mais um ponto que eu gostaria de enfatizar. Há um problema da autoexclusão por parte dos alunos do ensino médio de escolas públicas. O bom aluno da rede pública nem sempre sente que pode concorrer a uma vaga na Unicamp. Estamos começando a pensar em como a gente pode divulgar melhor o nosso vestibular e o nosso ensino para esse público, que pode vir a ingressar na Universidade. O PROFis mostrou isso claramente: jovens que jamais pensaram em estudar na Unicamp hoje fazem parte da nossa comunidade.

JU – O que a senhora está dizendo é que a sociedade está em transformação, assim como as suas demandas. O que a Unicamp pretende fazer é responder a essas demandas da melhor forma possível, é isso?

Eliana Amaral – Exato. A Unicamp tem respondido a essas demandas, mas como você disse, a sociedade é dinâmica e está sempre em transformação. Apesar de termos feito coisas importantes, precisamos continuar realizando, para responder às necessidades dos novos tempos.

JU – O texto da Deliberação Consu destaca a necessidade de a Unicamp adotar, junto com as ações afirmativas, uma política que garanta a permanência e o desenvolvimento dos estudantes. Como esse ponto será tratado pelo GT?

Eliana Amaral – A permanência inclui um pacote de ações que a Pró-Reitoria de Graduação tem a responsabilidade de cuidar. Sempre teve, mas a agora o mecanismo será reforçado por causa das mudanças que ocorrerão. Isso inclui a concessão de bolsas, auxílios moradia, transporte, alimentação etc. Isso nos obrigará a rever e sermos criteriosos com nossos programas de bolsas. Como estamos em um momento de crise financeira e essas medidas exigirão investimentos, vamos ter que avaliar quais serão os impactos em termos de recursos, de maneira a nos prepararmos para atender às necessidades dos alunos em 2019, quando os novos critérios serão efetivamente aplicados.

Mas não apenas isso. Existe algo igualmente importante no que toca à permanência, que é oferecer um ambiente para que o estudante se sinta acolhido e possa desenvolver seu potencial. Reduzir preconceitos de todos os tipos, ter o máximo de equidade e promover trabalhos coletivos são medidas que contribuem para criar esse ambiente acolhedor. São iniciativas que provocam impactos positivos no desempenho acadêmico. Isso tem relação, ainda, com a revisão dos currículos e das formas de ensinar e aprender. Precisamos ver de que maneira vamos trabalhar com os currículos, particularmente nos dois primeiros anos. Tudo isso faz parte do conceito geral de permanência estudantil.

JU – Quando a proposta seguir para as unidades de ensino e pesquisa, o GT participará das discussões?

José Alves - Essa é uma questão que o GT terá que discutir. Pessoalmente, penso que, ao serem convidados, os integrantes do GT devem participar das reuniões para esclarecer pontos que as congregações considerarem pertinentes, da mesma forma como fez o GT anterior, que promoveu as audiências públicas. A ideia é facilitar a escolha de certas balizas, para que mais facilmente possamos sistematizar os critérios. O GT vai trabalhar para que se apresente o desenho de uma política de ingresso na Universidade, pensando também na garantia da sustentabilidade dos programas. A sociedade e a comunidade interna têm que pensar que, uma vez aprovado o princípio das cotas, também precisamos assegurar a permanência e o desenvolvimento estudantil. Queremos fazer uma inclusão bem pensada, amadurecida e com a qualidade. Também precisamos ter clareza de como iremos financiar o desenvolvimento das medidas na sequência.

Eliana Amaral Nesta etapa de discussões nas unidades de ensino e pesquisa, o GT terá um papel importante de ajudar as congregações a compreenderem melhor esta ou aquela proposta. Vamos ter que trabalhar com relatórios objetivos, que façam com que as diferentes comunidades entendam porque, hipoteticamente, a fórmula proposta para o curso A é diferente do modelo do curso B. A ideia é subsidiar as unidades para que elas tomem suas decisões.

JU – Após a aprovação do princípio das cotas étnico-raciais pelo Consu, surgiram algumas reações negativas à decisão. A Unicamp anunciou que criará a Secretaria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade. Qual a importância dessa instância para qualificar as discussões sobre todas essas questões abordadas pelos senhores?

Eliana Amaral Nós já temos ações que poderiam ser congregadas na Secretaria, mas nós precisamos, sim, definir uma política mais clara da própria instituição a respeito de temas como diversidade e equidade. Existem secretarias similares em outras instituições, o que nos permitirá interagir com elas, para aproveitarmos as experiências exitosas. Nós vivemos uma época na qual não são somente as universidades têm que lidar com essas questões. Na sociedade em geral, há sérios problemas em relação à discriminação, preconceito e falta de equidade. Então, compreender mais profundamente essas questões é importante para a comunidade interna e também para a sociedade em geral. Entendo que algumas manifestações isoladas não representam o pensamento da Universidade. A Unicamp é, por princípio, uma instituição muito receptiva ao diferente, ao diverso. Reações diferentes disso, insisto, não representam o pensamento da instituição.

JU – Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o professor Sidney Chalhoub, do IFCH, disse que as melhores universidades do mundo consideram a diversidade como pressuposto de qualidade. É assim que a Unicamp também entende?

José Alves – Exatamente. Na própria sessão do Consu, quando o princípio das cotas foi aprovado, o diretor da Faculdade de Farmácia [João Ernesto de Carvalho] falou sobre os saberes e conhecimentos tradicionais, que exemplificam bem a importância da diversidade para a construção do conhecimento sistematizado na Universidade. Essa pluralidade enriquecerá as nossas atividades e a nossa convivência. A curiosidade do estudante dentro da sala de aula tem caminhos complexos e variados. Uma Universidade aberta que convive com culturas e povos diferentes fomentará necessariamente o surgimento de outros questionamentos, de outras formas de se fazer ciência. Penso que isso é uma forma de fazer com que o conhecimento não fique estagnado.

Eliana Amaral Qualquer forma de diversidade e de heterogeneidade faz com que possamos pensar um problema sob diferentes perspectivas. Dentro de um pensamento crítico e pró-ativo, surgem novas dúvidas que deverão ser abordadas, tanto do ponto de vista do ensino quanto da pesquisa e da extensão. É possível descobrir, a partir da história ou da experiência do outro, novas abordagens dentro do fazer científico. Isso só acontece se o grupo não for homogêneo. A heterogeneidade é importante porque proporciona essa variação de experiências. Insistindo, isso qualifica. O que estamos propondo não é para perder, mas sim para ganhar qualidade. Está bastante consagrado na literatura que a diversidade é vantajosa para o ambiente educacional.