O que o Brasil ‘disse’ aos goeses?

Antropólogo revisita nossos vínculos com ex-colônia de Portugal na Índia

Havia, sobretudo na década de 1950, forte conexão intelectual entre Brasil e Índia, mas ela foi sendo progressivamente perdida até praticamente inexistir nos dias de hoje. Para o antropólogo e cientista social Lucas Mestrinelli, que acaba de concluir estudo sobre o tema, o epicentro desse vínculo foi Goa, território do Estado Português da Índia. A pesquisa sobre o Estado dominado pelo governo de António de Oliveira Salazar até dezembro de 1961 traz elementos relevantes para compreender o que o Brasil dizia, nos anos de 1950, aos goeses.

“A circulação de ideias entre Brasil e Índia se dava intensamente via Goa. Os goeses se viam, na década de 50, como colonizados por Portugal, do mesmo modo que o Brasil havia sido. Eles viam no exemplo brasileiro a possibilidade de superação do colonialismo português. E também, a promessa de que a prosperidade social e econômica residiria nesta ruptura em relação a Portugal”, revela Lucas Mestrinelli.

Foto: Antonio Scarpinetti
O antropólogo e cientista social Lucas Mestrinelli: “Goa hoje é praticamente esquecida no Brasil”

Um dos autores estudados pelo pesquisador da Unicamp, o goês Telo de Mascarenhas, fez constantes referências no periódico Ressurge, Gôa! aos seus “amigos brasileiros”, caracterizados por ele como liberais. “Parte da esperança do autor com a visita de Gilberto Freyre a Goa era descrita justamente nesses termos, embora, assim como aconteceu em outros contextos, muitos goeses se decepcionaram com a aproximação de Freyre com o governo de Salazar”, relata o antropólogo


Diálogo oriente e ocidente

No estudo, Lucas Mestrinelli investigou as visões sobre o futuro de Goa às vésperas da incorporação do Estado ao governo indiano. “Goa hoje é praticamente esquecida no Brasil. Há um esforço de retomar essa experiência porque ela diz não só sobre Goa, mas sobre o lugar em que o Brasil ocupava dentro de um contexto mais amplo de relações que, na época, não se davam somente entre Brasil e Portugal.”

O tema, segundo o autor do estudo, também se torna relevante no atual contexto de aproximação entre os países emergentes, do qual Brasil e Índia fazem parte. “A última reunião dos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul[, em 2016, ocorreu em Goa e essa não foi uma causalidade. A região é considerada, na Índia, o Estado mais ocidentalizado e que, portanto, poderia fazer a ponte entre Oriente e Ocidente.”

A pesquisa conduzida por Lucas Mestrinelli integrou o seu mestrado defendido junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Os professores do IFCH, John Manuel Monteiro, falecido em 2013, e Omar Ribeiro Thomaz, orientaram o trabalho. Parte da pesquisa foi realizada na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) financiou os estudos.

Oriente-Ocidente
O pesquisador do IFCH concentrou-se na narrativa de três autores que estiveram em Goa entre 1952 e 1956: o brasileiro Gilberto Freyre, o goês Otelo de Mascarenhas e o geógrafo português Orlando Ribeiro. “Todos esses autores dialogam em torno de uma ‘harmonização’ que Goa poderia promover entre Oriente e Ocidente.”

Lucas Mestrinelli conta que, nos escritos de Otelo de Mascarenhas, por exemplo, há uma tentativa de retomar, a partir do encontro oriente/ocidente, o que a Índia poderia ensinar à Europa e vice-versa. Em Orlando Ribeiro, há clara valorização do que o autor chama de “duplo tesouro de civilizações”. Conforme o pesquisador, Ribeiro tenta mostrar como Goa seria a prova de que o colonialismo português era diferente do colonialismo britânico.

“Para ele, a cultura portuguesa permitia, por exemplo, ‘a coexistência pacífica e tolerante de duas religiões, a ausência de conflitos, o convívio entre cristãos e hindus’. Enfim, Ribeiro acaba reproduzindo um pouco a retórica do governo português do período do Salazar.”

Ideologia colonial portuguesa
A principal característica da circulação de ideias e referências destes autores tinha por definição conceitos chaves para a ideologia colonial portuguesa: ideias como raça, cultura e a miscigenação, esta última fundamental para o governo de Salazar. “Quando Gilberto Freyre vai a Goa, ele relata que encontra o mesmo processo de miscigenação do Brasil, ausente, por exemplo, na Índia colonizada pelos britânicos.”

Embora reconheça
que o período foi de grande consolidação da ideologia nacional portuguesa pelo salazarismo, o pesquisador da Unicamp ressalva que a herança portuguesa em Goa foi permeada de sentidos múltiplos e complexos. Lucas Mestrinelli observa que, apesar de haver uma ideologia oficial, havia muitas divergências entre os três autores estudados.

“Eles viram, por exemplo, futuros distintos para Goa.
Freyre defendia que Goa havia sido intimamente reestruturada no sentido lusotropical de vida, e que seria, portanto, para sempre portuguesa. Mascarenhas afirmava, por sua vez, que seu futuro espelhava nada mais que seu passado remoto: neste aspecto, Goa, seria inevitavelmente, indiana. Para Orlando Ribeiro, o futuro do Estado estava em aberto.”