Estudo desnuda fase ‘voyeur’ de Alair Gomes em fotos feitas nos EUA

Fotógrafo trocou o (semi)nu masculino da orla carioca por imagens que apenas o sugerem

Em Glimpses of America, trabalho inédito do fotógrafo Alair Gomes (1921-1992) se vê, pela primeira vez, o interesse do artista pelas paisagens, pela arquitetura estadunidense, por jovens de etnia oriental e trabalhadores do campo. O corpo seminu ou nu masculino, que tornou Gomes conhecido e consagrado com as fotografias da orla carioca realizadas na década de 1970, não está lá, ou pelo menos não da mesma maneira. Coberto de roupa, mesmo se em praias californianas, o corpo masculino só pode ser desnudado na imaginação do voyeur por sugestão do fotógrafo, que mantém nas imagens da série o mesmo olhar “erotizante” que marcou sua obra.

Foto: Antonio Scarpinetti
A pesquisadora Aline Ferreira Gomes, autora da dissertação: olhar de Alair para o corpo masculino é revelador de uma outra masculinidade que não só a viril

A constatação foi feita pela pesquisadora Aline Ferreira Gomes na dissertação “A fotografia de Alair Gomes”, desenvolvida na área de História da Arte no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. O trabalho foi orientado pelo professor Jorge Coli. Aline estudou as cenas de representação masculina na série que é composta por 1.527 fotografias, feitas durante a segunda viagem do artista aos Estados Unidos nos anos de 1975 e 1976. A coleção é da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Com Glimpses of America, algo como “Vislumbres da América”, Gomes pretendia fazer um documento do jovem americano na década de 1970.

Mas ainda que registre apenas o estacionamento de uma universidade, por exemplo, lá estarão as motocicletas aparecendo como um indício do universo masculino. “Ele mantém o fascínio pelo corpo e pelo mundo masculino, que sempre estão presentes”. O olhar erotizante, como Aline descreve, está em todas as coisas.  “Ele conseguia ver erotismo em tudo. Mesmo os animais que ele fotografa, parecem estar flertando graças ao ângulo e ao momento escolhido por Alair”.

Fotos: Reprodução
Glimpses of America: a sentimental journey - It's the same anywhere (no matter where) -1975-1976. (fragmento), EUA. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Para Aline, em Glimpses of America o fotógrafo adaptou seu olhar a um ambiente completamente diferente. “As praias de lá não são calorosas e quentes como no Rio, e quem ele fotografou surfando no Rio está usando sunga. Já os surfistas da Califórnia estão todos cobertos com roupas de neoprene e mesmo assim ele consegue ter esse olhar atento e curioso para o mundo masculino”. Nas fotos de arquiteturas ou museus, os rapazes aparecem fazendo corridas em pistas no topo de prédios ou observando obras de arte.

De acordo com a pesquisadora, o olhar do fotógrafo para o corpo masculino é revelador de uma outra masculinidade que não só a viril. O artista foi inovador em associar a sensualidade e o erotismo à representação do corpo do homem. “O conceito tradicional da representação do corpo masculino não tem muito lugar para o erótico, porque precisava do respaldo da Antiguidade, da cultura greco-romana. Na década de 1930, quando começaram a surgir as edições americanas de revistas masculinas para público gay, os homens apareciam seminus, mas quase sempre imitando posições de esculturas porque mostrar simplesmente o masculino nu não seria aceitável”.

Fotos: Reprodução
Glimpses of America: a sentimental journey - CA, 1975-1976. (fragmento), EUA. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Aline ressalta que, na história da arte, a admiração pelo nu masculino sempre existiu, porém, vinculada mais à funcionalidade do corpo em suas formas anatômicas, exploradas em álbuns fotográficos utilizados por pintores como Eugène Delacroix, por exemplo. Algo muito diverso comparando-se ao corpo feminino. A obra de Alair Gomes não se prende às amarras. Ele fotografa o corpo pelo corpo, com ênfase nos contornos e pelos. Nenhum modelo que posou para o artista em seu estúdio, que funcionava no apartamento próximo à praia de Ipanema, se apresenta como um “fauno”.

“Enquanto o nu feminino foi naturalizado, ainda hoje existe um desconforto relacionado ao nu masculino. Vemos pouquíssimos nus masculinos frontais, isso ainda é cheio de tabu”. As fotografias do período são conhecidas do público e até lhe renderam uma reprimenda de organizadores de uma exposição que ele fez em um shopping no Rio de Janeiro. Discreto, ele não fazia exposições de nus ou militava na causa gay. “O Alair não se mostra um militante das liberdades individuais, mas a obra dele diz muito sobre essa subversão. Porque ele desenvolve esse trabalho em plena ditadura militar”.

Fotos: Reprodução
Glimpses of America: a sentimental journey - Denver VI, 1975-1976 (fragmento), EUA. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

De acordo com Aline o acervo da obra de Alair Gomes na Biblioteca Nacional é muito grande. Dentro da série escolhida para a pesquisa, a autora fez alguns recortes, selecionando algumas imagens. Para compreender o universo do artista ela também estudou uma coleção de cartões postais que pertencia ao fotógrafo, além de textos que ele escrevia. “O Alair era um intelectual, um erudito que publicou em vários veículos de imprensa. Ele tem muitos textos inéditos, trago um deles para a dissertação, que é sobre a arquitetura americana”.

Ainda compõem a pesquisa três entrevistas que a autora fez com pessoas que se relacionaram de alguma maneira com a obra ou a pessoa, como o colecionador e fotógrafo Joaquim Paiva, o fotógrafo Pedro Vasques, e o documentarista Luiz Carlos Lacerda. A autora da tese enfatiza que ainda há muito a ser estudado na obra de Alair Gomes, um artista erudito e inovador tão importante para a história da arte brasileira.

Fotos: Reprodução
Glimpses of America: a sentimental journey - Vietnam XVI, 1975-1976 (fragmento), EUA. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.