A geografia dos empregos, do poder e do saber

Ilustra: Luppa SilvaNo começo do século XX, Lenin cunhava sua famosa frase a respeito da era imperialista: o essencial não era mais a exportação de mercadorias, mas a exportação de capitais. Contudo, o investimento interno estrangeiro (capitais europeus, mas já também americanos) era dirigido para segmentos definidos: agricultura, extração, minérios, serviços de utilidade pública, como a energia, trens, portos. A manufatura era parte menor da coisa. Sim, a Singer já no século XIX montara uma planta na Inglaterra, para produzir in loco suas máquinas de costura. Mas a internacionalização da manufatura é algo próprio do pós II Guerra – as corporações norte-americanas, em especial, instalavam plantas em outros países, para, entre outras razões, saltar barreiras alfandegárias, explorar recursos locais e evitar protecionismos de natureza vária. Um exemplo que vem a calhar é a instalação da General Motors em São Bernardo do Campo, nos anos 1950, praticamente construindo uma cópia reduzida de sua fábrica em Detroit. Um rico manancial de estudos da velha esquerda americana – Paul Baran e Harry Magdoff, principalmente – debruça-se sobre esse fenômeno (tratei disso em Estado, Desenvolvimento e Globalização, Editora Unesp, 2005). Magdoff mostra como no final dos anos 1960 a rede de filiais de manufaturas americanas já podia ser considerada a segunda economia industrial do mundo.

Essa expansão modificava com certa profundidade uma velha divisão internacional do trabalho – que fora a base das teorias do subdesenvolvimento, como a de Raul Prebisch: países exportadores de manufaturas versus países exportadores de matérias-primas. Alguns dos países da periferia se industrializaram – não necessariamente superando os problemas da fase anterior. Nesses países se formou uma classe trabalhadora (em manufaturas e indústrias de utilidade publica) bastante significativa. O Brasil é exemplo, em todos os sentidos. Celso Furtado certa vez lembrou que o país era o caso comprovador de que a industrialização estava longe de ser suficiente para que um país superasse os males do subdesenvolvimento.

Já nos anos 1960, havia uma Nova Divisão Internacional do Trabalho (NDIT) – ou, pelo menos, uma diferenciação no interior dos países da “periferia”, com a emergência dos “semi-industrializados” [1]. Na América Latina, os exemplos notáveis são Argentina, México e Brasil.

Nesse novo enquadramento, as empresas multinacionais redistribuíam a produção geograficamente, mas ainda dentro da firma. Mantinham pesquisa, desenvolvimento e decisões superiores nas matrizes, transferindo atividades de produção para regiões periféricas do mundo. A filosofia do “crie aqui, produza lá”.

Essa distribuição era particularmente viável para as empresas norte-americanas, que tinham levado ao extremo, desde seu nascedouro, a lógica Taylor-fordista, em que a prancheta e a oficina se distanciam.

Aqui, cabe uma digressão histórica rápida. A manufatura norte-americana foi aquela que levou mais longe a lógica exposta por Adam Smith no seu famoso exemplo da fábrica de alfinetes (Riqueza das Nações, 1776) – a produção da peça fragmentada em numerosas operações simples, de modo a reduzir a necessidade de habilidades especiais (no trabalhador) e potenciar a possibilidade de invenção de dispositivos dedicados, para realizar as operações. Essa lógica presidiu a organização dos arsenais norte-americanos, no início do século XIX – quando se colocava a necessidade de simplificar a produção e reparo de armas. Instaurava-se assim, ainda que de forma algo tosca e imprecisa, a norma da produção através de partes intercambiáveis e padronizadas. Esse procedimento foi estendido à produção de diversos bens – como as máquinas de costura, bicicletas e ferramentas agrícolas – constituindo aquilo que se usou chamar, já naquela ocasião, de Sistema Americano de Manufatura. Esse sistema pode ser visto como uma espécie de antecipação do Taylor-fordismo, a produção em massa que distinguiria fortemente a maquinofatura americana com relação à europeia, no começo do século XX.

O taylor-fordismo iria reduzir bastante a influência do trabalhador qualificado e do artesão. As tarefas produtivas são fragmentadas em funções rotinizadas simples que necessitam de treinamento mínimo.  Com o desenvolvimento de tecnologias avançadas de transporte e comunicação, a produção pode ser feita virtualmente em qualquer canto do planeta. Os leitores de Machado de Assis devem lembrar dos seus personagens anunciando a chegada de um “paquete” com encomendas de Paris. O termo, depois associado ao ciclo menstrual, tinha uma simples explicação: uma carta ou pacote levava 30 dias para transitar de Lisboa para o Rio. Hoje, a transmissão de um desenho industrial (CAD) e sua preparação para manufatura (CAM) faz-se praticamente em tempo real sem perda de informação. De outro lado, complementar, o jato, as inovações dos cargueiros e portos (a containeirização, sobretudo) baratearam enormemente o trânsito de bens finais e componentes.


Uma nova divisão do trabalho se anuncia

Essa NDIT será substituída (ainda uma vez: parcialmente) por uma Newer DIT a partir dos 1980, com a generalizada subcontratação, a encomenda para firmas locais. As multinacionais adquirem assim uma flexibilidade ainda maior para trocar de fornecedores locais e evitar os custos envolvidos em investimentos comprometidos com ativos fixos no local.

Aliás, o agronegócio também fizera algo assim, progressivamente. Desinteressava-se da propriedade das terras e da operação do “chão de fazenda” ou do “chão de granja”. Praticava a “agricultura contratada” ou a pecuária contratada: em possuir o terreno de plantio ou a granja, garante o grão ou o frango. Na cadeia da agroindústria, a produção propriamente dita é apenas um elo (e não o mais aquinhoado). Algo desse esquema aparece em livrinho que organizei: As cidades cercam os campos - Estudos sobre projeto nacional e desenvolvimento agrário na era da economia globalizada (Editora Unesp, 2008).

O livro de Jamie Peck – Offshore - Exploring the Worlds of Global Outsourcing – avança um passo a mais nessa análise. Peck lembra que a descentralização dessas operações intensivas em trabalho, eram concentradas em um grupo mais ou menos restrito de segmentos: produção manufatureira em material elétrico e eletrônico, automotivo, tecidos e confecções, por exemplo. Mas o movimento se estenderia logo para atividades white-collar como atendimento a cliente, operações elementares de escritório, programação e, mesmo, contabilidade, análise financeira, pesquisa e desenvolvimento, interpretação de exames médicos, etc.

A disposição de acomodar o outsourcing em um offshore bem distante é, desse modo, um dos aspectos da conhecida e alardeada “evaporação” dos empregos bem pagos nos EUA – e um elemento a mais na reengenharia das empresas, somando-se à (e combinando-se com) automação e redesenho dos procedimentos produtivos, dos modelos “enxutos”, centrados no atividade nuclear da empresa. Funções “não-nucleares” seriam expelidas para subcontradas – e isso poderia incluir (por que não?) os empregos ditos “médios” relativamente qualificados.  Processamento administrativo, tecnologia de informação, por exemplo, poderiam ser fornecidos por provedores terceiros em virtualmente qualquer ponto do planeta, já que o crescimento econômico anterior permitira a esses centros locais a geração de supridores com capacidade para tanto.

O trabalho rotineiro manual, blue-collar, já era expelido para o Exterior desde muito tempo. As inovações tecnológicas – mormente a transformação da web em aparato civil e o assombroso desenvolvimento de aplicações comerciais para essa mídia – permitiam, agora, a extensão desse offshore para muitas e muitas partes do chamado setor de serviços e atividades auxiliares da manufatura.

Segundo alguns analistas, esse desenvolvimento conduz a uma espécie de “leilão global”, em disputa de talentos em todo o globo. As perguntas, ansiosas, se multiplicam: qual a dimensão do emprego que pode ser deslocalizado e “exportado”? Quais os segmentos ocupacionais e as economias regionais mais atingidas? Quais as implicações para as economias nacionais, suas receitas? E, no campo em que estamos: quais as consequências dessa onda sobre as políticas de educação e treinamento?  

Como se vê, ainda temos muitas perguntas em busca de respostas.

 


 

[1] Ver a esse respeito: Froebel, F, J. Heinrichs e O. Kreye – The New International Division of Labour, Cambridge University Press, 1980.