Como a pesquisa foi parar na universidade?


Ilustração: Luppa SilvaA universidade é uma instituição quase milenar com uma história complexa de modelos e tipologias, que é em geral pouco apreciada, seja fora ou dentro dos limites acadêmicos. Um dos vários conceitos, que passou a ser mencionado com certa frequência é o da universidade de pesquisa, afinal hoje a universidade é vista como um lugar próprio e natural da pesquisa científica. Sua origem é sempre ligada à Universidade de Berlim, engendrada por Wilhelm Von Humboldt em 1810, dando origem ao chamado modelo Humboldtiano de ensino superior, com as ideias de liberdade acadêmica e unindo ensino e pesquisa sob um mesmo teto [I]. Quando se evoca esse modelo em conversas neste século XXI, imagina-se (muitas vezes) que a pesquisa no caso se referiria às ciências naturais, mas para von Humboldt e seus conterrâneos e contemporâneos, a prioridade eram as humanidades. Então surge a pergunta: como as ciências naturais e seus laboratórios foram parar na universidade?

Essa mudança foi na verdade bem lenta, durando quase todo o século XIX, como podemos degustar através de alguns casos envolvendo, por um lado a Física na Alemanha e, por outro, a Biologia na Inglaterra e, de novo, também na Alemanha. A primeira parte é abordada pelo historiador da ciência Armin Hermann no livro Weltreich de Physik (O império da Física) no curioso capítulo “As oficinas dos físicos”. Uma das histórias é sobre Georg Cristoph Lichtenberg (1742-1799), o primeiro professor de Física Experimental da Alemanha, que lecionava na Universidade de Göttingen. Física experimental pressupõe a existência de um laboratório, que não existia na universidade. Lichtenberg relata em uma carta que gastou o montante de 1.500 táleres na aquisição ou construção de equipamentos, que ele levava para demonstrações em suas aulas. Ou seja, o laboratório ficava mesmo na casa do professor e não na universidade. Em 1786 o docente propôs ao governo regional em Hanover a cessão de seu laboratório à instituição de ensino superior em troca de uma modesta pensão. A universidade assumiu pouco a pouco o laboratório com seus instrumentos, instituindo “O gabinete de Física”, precursor naquelas bandas dos institutos e departamentos de Física que viriam ao longo do século seguinte.

A comunidade científica alemã no início do século XIX era modesta e dispersa, comparada com a francesa, preocupação de um ou outro cientista alemão espalhados por lá. Um dos mais preocupados era Gustav Magnus (1802-1870), químico e professor de Física da Universidade de Berlim. Adquiriu, sendo de família abastada, os instrumentos para suas pesquisas e aulas, instalando um laboratório particular em sua casa, convidando seus estudantes da universidade para experimentarem e discutirem Física, dando origem a um “colóquio de Física”, que evoluiu para a Sociedade Alemã de Física em 1845. A casa de Magnus em Berlim foi aclamada como o “primeiro Instituto de Física da Alemanha”, mas Hermann relativiza esse título, pois a casa era propriedade privada do eminente professor e apenas parte dos instrumentos era do Estado. Com a pressão da comunidade docente, toda a coleção acabou sendo abrigada na universidade, onde, no entanto, havia espaço apenas para a exibição dos mesmos, sendo inviável seu uso, seja por docentes para pesquisa ou estudantes para ensino. Em 1863 (ou seja, 53 anos após o “marco histórico” da fundação da Universidade de Berlim) o governo passou a pagar um aluguel para Gustav Magnus, para que as práticas experimentais fossem realizadas pelos estudantes em alguns dos cômodos de sua casa. Foi apenas nesse ano que surge a primeira faculdade voltada exclusivamente às ciências naturais na Alemanha e não foi em Berlim, e sim na pequena e simpática cidade de Tübingen. Na capital apenas na década seguinte é que foram inauguradas instalações adequadas para laboratórios de Física para ensino e pesquisa.

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Charles Darwin: “ciência privada” na gênese de “Origem das Espécies”

Do outro lado do Canal da Mancha a situação não era muito diferente. O laboratório do grande físico e químico Michael Faraday não estava em uma universidade e sim no porão da Royal Institution [II], entidade extramuros das universidades para promover a ciência. Na Inglaterra de meados do século XIX, o cardeal Newman formula o “modelo inglês” de universidade, declarando que “se a missão da universidade fosse promover a descoberta científica e filosófica, não vejo por que ela devesse aceitar estudantes”. A University College de Londres, por exemplo, passou a ter um ensino de Física experimental (ou seja, com laboratórios) apenas em 1876. Morris Bermann argumenta no artigo “Hegemonia e a tradição amadora da ciência Britânica” [III], que na Inglaterra, “durante grande parte do século XIX, persistiu a visão de que a ciência era apenas outra faceta do repertório de ‘cavalheiros cultos’”. Um desses cavalheiros cultos era justamente Charles Darwin, e sua “Origem das Espécies” foi desenvolvida em grande parte como “ciência privada” e não pública. [IV]

Esse é o cenário necessário para abordar uma questão que ficou em aberto. Se agora conhecemos “causos” que ilustram como os laboratórios foram parar nas universidades, precisamos saber ainda quando a pesquisa passou a ser um monopólio da universidade [V]. E voltamos a Charles Darwin e seu interesse por Botânica com seus experimentos sobre geotropismo realizados em sua casa de campo e contestados por Julius Sachs, professor da universidade de Würzburg na Alemanha e figura fundamental da Botânica. A história da controvérsia é contada por Soraya De Chadarevian no artigo Laboratory Science versus Country-House Experiments. The Controversy between Julius Sachs and Charles Darwin [VI].

A leitura é deliciosa, mas o ponto a ser destacado aqui é que a autora apresenta um estudo de caso para uma ciência em particular (Botânica) “sobre a institucionalização da prática científica durante as últimas décadas do século XIX.” Uma institucionalização que “implicou numa exclusão de praticantes amadores” com suas atividades realizadas fora da universidade. Sachs desprezava os resultados das experiências de Darwin, que seriam não confiáveis, pois obtidos sem os procedimentos institucionalizados em um laboratório de pesquisa de uma universidade. Parece que os resultados de Darwin estavam corretos, mas isso só ficou estabelecido muito tempo depois, quando foram reproduzidos seguindo o modelo de experimentação de um laboratório “moderno” formulado por Sachs. Mas já era tarde para a ciência diletante derrotada pelos laboratórios consolidados nas universidades.

Sabemos, no entanto, que, embora seja praticamente impossível conseguir apoio financeiro de agências de fomento para montar um laboratório de pesquisa em casa, trabalhos interessantes podem ser realizados no aconchego do lar [VII]. E a própria pesquisa sediada na universidade às vezes busca ajuda aos recursos domésticos de cidadãos sem doutorado. Essa história fica para a próxima coluna.

 


[i] Para se aprofundar sobre o conceito e suas consequências recomendo “O conceito de universidade no projeto da Unicamp”, de Fausto Castilho, organizado por Alexandre Guimarães Tadeu de Soares. (Editora da Unicamp)

[ii] http://www.rigb.org/our-history/michael-faraday/magnetic-laboratory

[iii] "Hegemony" and the Amateur Tradition in British Science de Morris Berman, Journal of Social History, Vol. 8, No. 2 (1975), pp. 30-50

[iv] Charles Darwin in London: The Integration of Public and Private Science, Martin J. S. Rudwick Isis, Vol. 73, No. 2 (1982), pp. 186-206

[v] Monopólio que é compartilhado com institutos de pesquisa públicos ou privados.

[vi]The British Journal for the History of Science, Vol. 29, No. 1 (1996), pp. 17-41

[vii] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/passeios-pelos-territorios-da-ciencia

 

Imagem de capa JU-online

O laboratório do físico e químico Michael Faraday, que funcionava no porão da Royal Institution, em Londres | Reprodução