Além da Ipiranga com a São João

Ilustra: luppa SilvaComo qualquer grande metrópole, São Paulo possui contradições infinitas. Qualquer tentativa de descrevê-las é reducionista e, muitas vezes, injusta ou ufanista. A maior cidade do país é objeto constante de análises e representações que tentam esquadrinhá-la como se houvesse um dado novo a ser debatido em seu gigantismo. Em linhas gerais, a cidade ora é mostrada como um modelo inviável e insustentável por sua hipertrofia, pela ausência de planejamento, ora por ser espaço de engenhosas soluções para torná-la mais humana. São Paulo transborda em si mesma em tantos discursos sobre ela. Na ausência de um marco natural ou arquitetônico irrefutável, a cidade se basta.

Nos últimos 30 anos, data em que cheguei à cidade para estudar, vi a cidade procurar caminhos variados. Pensando apenas em administradores a cidade elegeu uma mulher nordestina, outra da elite quatrocentona, um negro, um filho de imigrante da Mooca, um representante do show business e três descendentes libaneses. Da direita à esquerda, em modelos de gestão megalomaníacos ou mais comedidos, tendo um olhar mais ou menos social, a população da cidade demonstra um amplo cardápio de afinidades e atitudes em momentos específicos.

Há uma questão histórica que perpassa o olhar sobre a cidade que é seu conservadorismo e sua forma de excluir, supostamente integradora. As predileções da “cidade que não para”, que é “extremamente profissional”, que “tem pressa”, que “acelera”, que é uma “ilha de eficiência” indicam um comportamento supostamente asséptico, sem vinculações e responsabilidades maiores do que acontece ao seu redor e com a maioria de seus habitantes. Em nome da ideologia do êxito as pessoas se atropelam e seguem desconhecendo o que está próximo delas. 

A cidade dos noticiários é dividida assim: começa na Cidade Universitária e avança até a Mooca, quando se trata de lazer, de opções culturais etc. Os confins da Zona Leste e da Zona Sul só aparecem nas chacinas e violências desmedidas. A cracolândia, recentemente removida do centro, espalhou por vários bairros um problema de complexa solução e marcada por decisões imediatistas. A indiferença brutaliza e vai se naturalizando como se a questão fosse apenas a simplicidade de constatar que existem pessoas que vagam como almas penadas pelas ruas da cidade e, para as quais, não há alternativas.

A cidade frenética parece não ter tempo para esperar que alguma política pública dê resultados, sobretudo, em saúde e educação.  Ou, em alguns casos, a paciência é seletiva e tolera atrasos imensos em obras de transporte, como o metrô.

Foto panorâmica mostra a grandeza da metrópole (Foto Jorge Maruta)
Foto panorâmica mostra a grandeza da metrópole (Foto Jorge Maruta)

O Pátio do Colégio e o que
a cidade procurou ocultar de si

A cidade que se orgulha de seu surgimento a partir da fundação de um colégio tem um marco curioso. A Igreja e o colégio, que não é a construção original, mas está assentada no mesmo lugar é reveladora de como a cidade se constituiu. A construção está num ponto alto, mas de costas para o vale. A porta da frente não está na direção em que a vista deveria espraiar-se. Para quem São Paulo deu as costas? Tal como no caso de políticas higienizadoras recentes, a cidade parece ter uma fórmula relativamente simples: desaparecido do olhar, desaparecido está.

Em primeiro lugar, nos anos 1560, estava de costas para os indígenas que estavam nos aldeamentos mais distantes. Os índios convertidos, como Tibiriçá, estavam ao redor da capela.  Os demais, considerados mais “selvagens”, eram submetidos em regiões que formaram bairros como Guaianases e cidades como Itaquaquecetuba e Guarulhos.  Os aldeamentos tornaram-se concentrações de grupos oriundos de sociedades distintas e as rebeliões eram frequentes. Portanto, a cidade sentia-se protegida estando de costas para onde, supostamente, residia o perigo de guaianás e tupiniquim “selvagens” e “ferozes”.

No século XIX, com a ferrovia, o café e o advento do final da escravidão, a cidade se transformava com os imigrantes. A população passou de pouco mais de 20 mil habitantes, por volta de 1870, para mais de 120 mil pessoas, em 1890. A hospedaria dos imigrantes era na região do Brás, que teve uma “explosão” populacional, chegando a ter um quarto de toda a população local. A cidade, entretanto, se expandia em serviços e construções por distritos como Santa Ifigênia e Consolação que, somados, tinham a metade da população paulistana, em 1890.  O fluxo indicava o movimento de urbanização da elite que, alguns anos depois, construiu o seu Campos Elíseos.

No século XX, um novo movimento migratório, marcadamente de nordestinos, tornou a Zona Leste o lugar prioritário. A Penha, que entre 1870 e 1890, perdeu a metade de sua população e tinha apenas 1200 habitantes, foi totalmente reconfigurada. São Paulo tinha, em 1940, mais de 1.300.000 habitantes. A cidade crescia em torno de fábricas e bairros operários. Enquanto a “zona central” tinha um novo centro e a vida “efervescente” era distante da maioria da população.

No século XXI, a cidade passou a ser um polo de atração de outros imigrantes, os dos países vizinhos ou do continente. A cidade é cada vez mais latino-americana, mesmo que esta identidade não esteja bem delineada. São mais de 85 mil bolivianos, 15 mil haitianos e 12 mil argentinos que ingressaram na cidade entre 2001 e 2017, segundo dados oficiais. O extraoficial, no caso de bolivianos, chega aproximadamente em 3% da população da cidade de São Paulo, ou seja, mais de 300 mil pessoas. Os bolivianos são uma presença marcante na cidade. Porém, diferentemente de outros grupos que fazem parte da narrativa acolhedora para italianos, libaneses, japoneses e outras nacionalidades, os bolivianos sofrem preconceitos e estigmas variados. A invisibilidade do grupo para a cidade como um todo, com grande parte fazendo trabalho análogo à escravidão na indústria têxtil do Brás, contrasta com a vitalidade da eira gastronômica e cultural que acontece na Praça Kantuta,  aos domingos.

Boliviana vende chás na Praça da Kantuta (Foto Everaldo Luís Silva)
Boliviana vende chás na Praça da Kantuta (Foto Everaldo Luís Silva)

De forma genérica e imprecisa, a cidade se orgulha das misturas e dos processos de interação. Mas o marco fundacional ostenta, do alto de seu marco fundacional, o que ela não quis colocar como prioritário em sua integração. As marcas e ações governamentais foram menores que as demandas transformadoras de sua população. A cidade cresceu e se expandiu com as marcas da desigualdade interna. Nesse sentido, São Paulo simboliza exemplarmente o país.

Uma outra cidade

É injusto reduzir a cidade ou qualificá-la apenas pelo que ela não quer ver diante de si ou que tenha internalizado como algo natural. Há uma quantidade incrível de pessoas criativas, dinâmicas, atuantes e que tornam a cidade fascinante e mais inclusiva. A cidade de movimentos artísticos, políticos, culturais e sociais importantes para ela e para o país também deve ser reconhecida.

São Paulo, como mencionei, foi a cidade que me acolheu há 30 anos. Não sou ingrato e reconheço que nela me constituí, construí vínculos e identidades profundas. Efetivamente, amo São Paulo e, convenhamos, há mais nobreza no amor que não arrebata pela excelência de suas qualidades, mas que se constitui no interior de mútuas imperfeições.

Viver em São Paulo dá dimensões e condições para transitar em qualquer parte do mundo. Concretamente, amo São Paulo e tenho saudades do que vivi na cidade. A cidade demanda que você se localize, que encontre alguns espaços para torná-la familiar e próxima. As multidões se formam a partir de seres atomizados e portadores de desejos e demandas que nos humanizam. Se, por um lado, há uma brutalidade que torna invisíveis muitas questões, por outro, há um traço quase instintivo de mobilização e transcendência para fazer com que existam tantas cidades, quantas pessoas há nela. Os olhares específicos, os sons, os sentidos que produzem a transcendência para se habitar um espaço, compartilhar expectativas e destinos com tanta gente diferente.

Frequentadores na Galeria do Rock
Frequentadores na Galeria do Rock

Estes traços não tornam SP uma cidade fácil.  A tornam, apenas e tão somente, um espaço construído por pessoas e pelas contradições que as acompanham. O excesso e o vazio são sensações experimentadas cotidianamente na cidade de mais de 12 milhões de habitantes. A sensação de estar só, esvaziado de significados e explicações é muito fácil de ser narrada por um morador de Sampa. Também é fácil identificar os excessos e as turbulências caóticas de seu cotidiano. Difícil é encontrar alguém que seja indiferente a São Paulo. Seja pelo que oculta ou pelo que escancara.

Parabéns, São Paulo!

 

Imagem de capa JU-online

São Paulo vista da São João com a Ipiranga (Antonio Scarpinetti)