Edição nº 606

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Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 15 de setembro de 2014 a 21 de setembro de 2014 – ANO 2014 – Nº 606

Telescópio


Posição política influencia atitudes morais

Uma pesquisa realizada por meio de questões transmitidas via smartphones a uma amostra de mais de 1,2 mil voluntários, nos Estados Unidos e no Canadá, indica que a inclinação política, mais do que a religião, afeta o modo como uma pessoa encara questões de moralidade.

De acordo com artigo que descreve o estudo, publicado na revista Science, os pesquisadores enviaram aos voluntários, quatro vezes ao dia ao longo de três dias, um questionário onde perguntavam se eles haviam praticado, sofrido, testemunhado ou ouvido falar de um ato moral ou imoral na última hora; que ato tinha sido esse; e como se sentiam a respeito.

O resultado, dizem os autores, dá apoio a teorias sobre a natureza da fofoca (as pessoas ouvem falar mais sobre os atos imorais dos outros do que sobre atos morais), do “contágio moral” (receptores de atos morais tendem a se comportar de modo moral mais adiante) e da “licenciosidade moral” (vítimas de atos imorais tendem a se comportar de modo imoral). 

Pessoas religiosas não se mostraram mais morais na hora de agir, mas revelaram-se mais chocadas e indignadas ao testemunhar uma imoralidade. Já a dimensão política revelou uma divisão clara de pontos de vista: pessoas liberais mostraram-se mais afetadas emocionalmente por atos morais ou imorais envolvendo questões de justiça ou injustiça, enquanto que conservadores deram mais peso a atos de lealdade ou traição.

 

Placas tectônicas de gelo em lua de Júpiter

Europa, lua de Júpiter dominada por um enorme oceano coberto por uma crosta de gelo e um dos principais focos de especulação sobre a possibilidade de vida fora da Terra, tem um sistema semelhante ao das placas tectônicas que formam a superfície de nosso planeta, dizem pesquisadores que analisaram imagens feitas pela sonda Galileu, da Nasa. 

Na Terra, as placas, que sustentam os continentes, são feitas de rocha. O material que as compõe emerge, derretido, das profundezas da Terra, no fundo do mar, e solidifica-se. Quando placas de encontram, pode acontecer de a borda de uma delas mergulhar sob a outra, num processo chamado subdução. 

Em Europa, as placas são de gelo. Cientistas já haviam visto a expansão do material congelado, à medida que água do oceano brotava de fissuras na superfície e se solidificava, mas ainda não tinham observado o fenômeno de subdução. Isso foi feito agora, em imagens da Galileu. A descoberta aparece no periódico Nature Geoscience.

“Europa pode ser mais semelhante à Terra do que imaginávamos”, disse, por meio de nota, um dos autores do artigo, Simon Kattenhorn, da Universidade de Idaho. “Esta descoberta não só faz dela um dos corpos mais interessantes do sistema solar, do ponto de vista geológico, mas também implica uma comunicação de mão dupla entre a superfície e o oceano, um processo com implicações significativas para o potencial de Europa como mundo habitável”.

 

Objetividade, no jornalismo e na ciência

Jornalistas e cientistas têm conceitos diferentes em mente quando falam em “objetividade”, diz artigo publicado no periódico Journalism. O estudo, realizado na Alemanha, envolveu o envio de questionários a centenas de pesquisadores e jornalistas, sendo que cerca de 150 representantes de cada categoria, ou um terço da amostra inicial, responderam à pesquisa.

Para os cientistas, o conceito de objetividade reflete a necessidade de “métodos sistemáticos e informação transparente”. Já os jornalistas encaram a objetividade como o esforço de “deixar que os fatos falem por si mesmos”. 

Diferentes áreas de estudo e de cobertura – como ciências sociais e exatas, ou jornalismo econômico ou cultural – também têm visões diversas quanto à importância da objetividade. “O tanto que se reconhece a força ou se lamentam as limitações da objetividade é muito menos uma questão da profissão do que do assunto tratado”, escreve a autora, Senja Post, da Universidade de Koblenz-Landau.

A pesquisadora nota que ao jornalismo falta “um critério praticável de objetividade para se fazer inferências causais”, e que os jornalistas “recusam-se” a adotar padrões científicos de objetividade. “Fica em aberto a questão de quais tipos de padrões os jornalistas poderiam adotar para aumentar seu otimismo quanto à objetividade”.

 

Energia renovável: exemplo chinês

Maior emissor de gases do efeito estufa do mundo, a China já produz quase tanta energia a partir de fontes limpas e renováveis quanto a Alemanha e a França somadas, diz comentário publicado na revista Nature. O artigo de opinião, assinado por dois pesquisadores australianos, lembra que o país asiático multiplicou sua produção de células solares em 100 vezes desde 2005, e é o maior produtor mundial de turbinas eólicas.

Isso mostra que “a industrialização pode andar junto da decarbonização”, escrevem os autores, mas a possibilidade depende da expansão do mercado para fontes limpas. “Como na China, fontes renováveis têm de ser vistas como fonte de segurança energética”, e não apenas como um imperativo ético ou ecológico. “As discussões atuais sobre segurança energética têm como foco quase exclusivo a preservação do acesso a combustíveis fósseis”, o que, argumentam, é um erro, já que esse acesso é constantemente ameaçado por tensões geopolíticas.

 

Babuínos amigos

Machos da espécie de babuíno Papio papio, da Guiné, são capazes de formar fortes laços de “amizade” entre si, mesmo quando não há parentesco entre os indivíduos, diz artigo publicado no periódico PNAS. “Essa espécie exibe uma organização social de vários níveis, na qual os machos mantêm fortes laços e são altamente tolerantes uns com os outros”, escrevem os autores, do Senegal e da Alemanha. Esses machos ainda apresentam “baixo índice de agressão explícita”.

O trabalho começa lembrando que as relações entre machos, na maioria das espécies de mamíferos, são marcadas por forte competição. Os autores relatam que os machos dessa espécie de babuíno executam rituais elaborados de saudação quando se encontram, e são menos agressivos em relação às fêmeas que babuínos de outra espécie, a Papio hamadryas

O fato de os laços de amizade, entre babuínos da Guiné, não dependerem de parentesco faz com que a espécie possa ser um modelo para o estudo da evolução da cooperação entre seres humanos, afirma o artigo.

 

Pêssegos vêm de Xangai

O pêssego foi domesticado há 7,5 mil anos no vale do Rio Yangtzé, numa região da China próxima a onde hoje fica a cidade de Xangai, diz artigo publicado no periódico PLoS ONE. O estudo, de autoria de pesquisadores do Canadá e da China, se valeu da comparação de caroços de pêssego encontrados no vale do Yangtzé e datados como pertencentes a um período de 5 mil anos. 

Comparando o tamanho dos caroços encontrados em vários sítios arqueológicos da região, os autores notaram que os pêssegos foram ficando cada vez maiores com o passar do tempo, o que sugere um processo deliberado de seleção artificial e domesticação, diz nota emitida pela Universidade de Toronto.

 

Matemática do lixo 

Um modelo matemático criado por pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, pode ajudar a determinar a origem dos detritos que se acumulam nas chamadas Grandes Manchas de Lixo dos oceanos. A mais famosa, localizada no Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, já contém uma massa de plástico superior à de plâncton presente no mesmo trecho de oceano.

Determinar o país de origem do lixo que compõe cada mancha é difícil, porque os detritos são arrastados e concentrados por correntes oceânicas de movimento complexo. “Há casos em que um país bem distante de uma mancha de lixo está contribuindo diretamente com ela”, disse, por meio de nota, um dos autores do trabalho, Gary Froyland. O artigo que descreve o modelo foi publicado no periódico Chaos.

Segundo o novo modelo proposto de correntes marítimas, partes dos oceanos Índico e Pacífico têm ligação mais estreita com o Atlântico Sul, enquanto que outro trecho do Índico deveria ser considerado parte do Pacífico Sul, diz nota divulgada pelo periódico. “Nós redefinimos as fronteiras das bacias oceânicas”, afirmou outro autor do estudo, Erik van Sebille.

 

Comer vicia, comida não

Pesquisa conduzida por cientistas do consórcio NeuroFAST, criado pela União Europeia para estudar a neurobiologia da alimentação, do vício e do estresse, concluiu que as pessoas podem se viciar em comer – desenvolvendo uma compulsão psicológica para consumir alimentos – mas não em nutrientes específicos, como açúcar ou gordura. O vício em comida é mais semelhante ao vício em jogos de azar do que em substâncias como tabaco ou cocaína, dizem os autores. O trabalho está publicado no periódico Neuroscience & Biobehavioral Reviews.