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(Jornal Correio Popular, 5 de outubro de 2009)
Cidades
Vinho paulista quer ‘encarar’ o gaúcho
Cooperativa vai padronizar a produção das adegas artesanais, herança cultural dos europeus
Rogério Verzignasse
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
rogerio@rac.com.br
Pequenos produtores rurais de 15 cidades se unem para fundar uma cooperativa que promete alavancar a produção de vinho no Interior. Com uma entidade instituída em Valinhos e Vinhedo, o grupo pretende concentrar o cultivo de uvas em uma gleba única. A vantagem é que as propriedades, juntas, terão força para negociar com fornecedores de vasilhames, rolhas, embalagens, desengaçadeiras, recipientes de fermentação e armazenamento, além de conseguir regularizar adegas artesanais, oferecer emprego formal e benefícios trabalhistas à mão de obra que, no Estado, tende a trocar a roça pela indústria. Outro potencial do segmento é transformar os tonéis em atrações turísticas, opções de lucro garantido.
Hoje, o mercado nacional é controlado basicamente pelas vinícolas do Rio Grande do Sul. De 1,28 milhão de toneladas de uva colhidas a cada ano no Brasil, nada menos que 697 mil nasceram em parreirais gaúchos. O Estado de São Paulo, segundo do País, produz 194 mil toneladas/ano nas propriedades do Circuito das Frutas. Ainda assim, a safra não vira vinho. O setor lucra basicamente abastecendo o mercado com uvas de mesa, de variedades adocicadas (como as norte-americanas niagara e bordô). A produção do vinho é modesta, simbólica, mantida apenas por gente que pretende preservar tradições familiares. As garrafas são compradas por quem conhece e frequenta as pequenas adegas.
Mas, para se ter uma ideia, se os 11,6 mil hectares de parreirais paulistas estivessem cultivados com variedades viníferas, São Paulo teria capacidade para produzir, a cada ano, 94 milhões de litros de vinho. Segundo a pesquisadora Aline Camarões Teles Biasotto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a bebida é capaz de agregar valor à uva e gerar mais renda aos produtores.
A cientista, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), fez em 2008 um levantamento inédito sobre a caracterização do processo produtivo e constatou parâmetros físico-químicos, perfil sensorial e aceitação do vinho paulista. Ela constatou que, graças às condições de clima e relevo, São Paulo é capaz de produzir um vinho tão bom quanto o gaúcho. Basta que o segmento invista nas diretrizes da boa fabricação da bebida, adotando metodologias especializadas.
Para entrar no mercado e ser competitivo, o vinho paulista precisa ter uma linha produtiva padronizada, de qualidade absoluta que, além de conquistar o cliente pela aparência, sabor e aroma, seja garantia de saúde. E é exatamente esta a padronização sonhada pelos fundadores da Coopervinho Paulista. Cerca de 50 fabricantes de vinho já se inscreveram no grupo. Por enquanto, duas dezenas de dornas estão em um galpão adaptado de 180 metros quadrados, no Jardim Santa Rosa, em Valinhos. O vinhedo único vai dar frutos dentro de dois anos, numa primeira gleba arrendada, de três alqueires, em Vinhedo. Mas já está em fase final a negociação para a compra de outros dez alqueires.
Os idealizadores sabem o potencial do mercado que os espera. O consumo de vinho do Brasil é baixíssimo. Enquanto na Argentina cada cidadão bebe quase 30 litros da bebida ao ano, por aqui não se toma nem dois litros. “O Brasil ainda tem a concorrência forte da cerveja, mas a mudança de hábitos vai acontecer no momento em que o vinicultor investir na produção de vinhos de qualidade, com características sensoriais que caiam no gosto popular”, diz a pesquisadora.
Pensando nesta qualidade, 43 produtores valinhenses já integram, há três anos, a Associação dos Vitivinicultores de Valinhos (Aviva). Embrião da Coopervinho Paulista, a entidade fechou contrato com uma única fornecedora de vasilhames, de Porto Ferreira, e espalhou pelo galpão as dornas de aço fabricadas em Guarulhos. Além disso, investe na importação de rolhas portuguesas. Os produtores pagam R$ 300,00 por um milheiro. A rolha brasileira sairia a R$ 100,00 o milheiro. “A gente quer conquistar o mercado usando equipamentos e técnicas que fazem do vinho europeu o mais apreciado do mundo”, afirma o atual presidente da Aviva, Nivaldo Tordin, bisneto de um imigrante italiano que se estabeleceu na região e começou a plantar parreiras.
Ele, dono de um único alqueire de roça cultivada, movimenta a própria adega com uva plantada nas Serras Gaúchas. Ele admite que a produção de vinho, 7 mil litros ao ano, serve para distribuição em eventos, casamentos e brindes de final de ano. “A gente pensa grande”, diz, já apontando para os resultados da Aviva: a produção dos associados não passava de 5 mil litros anuais em 2006. Hoje, juntos, produzem 30 mil.
Desafio
O vice-presidente do grupo, outro idealizador da Coopervinho Paulista, Antônio Trento, afirma que o produtor vai deixar de ver o vinho como um hobby ou um culto a ancestrais. Ele é neto de um imigrante italiano que produzia vinho em Valinhos em 1920. A seu ver, a cooperativa vai ser uma ferramenta útil para compensar vantagens históricas dos gaúchos na disputa pelo mercado. Por lá, diz, a vitivinicultura cresceu porque famílias permanecem na roça. Aqui, fala, as adegas fecharam porque a especulação imobiliária colocou prédios no lugar das parreiras. “O alqueire que se compra a R$ 30 mil no Sul chega a custar R$ 150 mil na nossa região”, compara.
Além disso, a indústria paulista arrancou milhares de lavradores da zona rural, década após década, oferecendo condições de trabalho e salários melhores. Não se consegue mão de obra para a roça. “Hoje, quem insiste em produzir vinho é obrigado a gastar muito dinheiro, trazendo em caminhões refrigerados a uva plantada no Sul”, explica. “O desafio da Coopervinho é tornar a adega viável, lucrativa, interessante para se investir”, fala.
Agricultor já adere à iniciativa
O rótulo no vasilhame é charmoso. Lá está a imagem da velha estação ferroviária da Companhia Paulista, inaugurada na segunda metade do século 19, em Louveira. Nas prateleiras, as fotografias de ancestrais se misturam aos garrafões e objetos artesanais. A adega fica nos fundos de um casarão construído por seu avô há mais de 50 anos. O imóvel, que antes era rodeado de plantas, hoje fica no meio da Vila Pasti, na movimentada zona urbana. O herdeiro, Daniel Miqueletto, se mantém firme na produção de uva. A roça, hoje, fica longe da cidade. O Sítio Santa Rita, forrado de parreirais, é formado por quatro alqueires de terra, é lá pelas bandas do bairro rural de Luiz Gonzaga. Miqueletto explica que ganha a vida produzindo, a cada ano, 15 toneladas de uva de mesa. Para isso, tem quatro hectares cultivados. Mas meio hectare tem uvas viníferas. Pouco, ainda. Mas o entusiasmado produtor rural, de 30 anos, quer fazer da roça um modelo. Primeiro, porque as parreiras são protegidas com telas contra o granizo. Lavradores trabalham, pacientes, na aplicação de defensivos agrícolas. A produção anual de vinho não passa dos 6 mil litros.
Mas, no alto do sítio, a paisagem prova: Miqueletto aposta em produção bem maior. É que ele está erguendo um imóvel onde vai instalar sua nova adega. Aquela da Vila Pasti será apenas um memorial dos ancestrais italianos. O empreendedor quer incentivar o turismo rural. “As pessoas vão conferir, in loco, os cuidados com a parreira e cada procedimento da fabricação. Eu acho que o vinho paulista vai ganhar espaço quando os consumidores descobrirem o carinho que a gente tem com esta arte”, afirma. O vinho que chega aos mercadinhos da cidade é feito com uva de variedades diversas. No seu sítio, ele conseguiu colher a sauvignon blanc e a sirah, matéria-prima de bebidas finas. Mas foi com a máxima, desenvolvida pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) na década de 70, que Miqueletto e outros vitivinicultores de Louveira começaram a apostar no potencial econômico do mercado. “A gente, hoje, pode contar com o amparo dos institutos públicos de pesquisa, para resgatar uma atividade que fez parte da história de nossas famílias”, afirma. (RV/AAN)