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(Jornal Correio Popular, 30 de outubro de 2009)
Cidades
Cenário XXI - Para salvar a fauna, use o cérebro
Adolescentes criam aparelho que pode ajudar na preservação da maior ave de rapina brasileira
Patrícia Azevedo
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
patricia.azevedo@rac.com.br
Um grupo de estudantes campineiros ganhou o espaço e batizou de Brasileirinhos um asteroide descoberto pelo astrofísico venezuelano Orlando Naranjo, em 1998. Eles conquistaram a façanha depois de vencer o 3º Grande Desafio, projeto idealizado pelo Museu Exploratório de Ciências (MC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Maria Pavanatti Fávaro criaram um braço hidráulico para ajudar no programa de preservação da harpia (Harpia harpyja), a maior ave de rapina do Brasil.
A espécie está ameaçada de extinção. Um dos motivos é a dificuldade de reprodução. A ave bota dois ovos, mas apenas um sobrevive porque o filhote mais velho destrói o segundo ovo ou mata seu irmão mais jovem, numa estratégia de conservação. Com um só filhote para cuidar, as chances de a mãe garantir sua sobrevivência são maiores. Os ninhos são feitos geralmente na copa de altas árvores, dificultando a recolha dos ovos para fins de preservação.
Este ano os estudantes foram desafiados a criar um mecanismo que aumente as chances de sobrevivência da ave. A equipe da Emef, denominada Protetores do Futuro, venceu o desafio criando um braço hidráulico para ser usado na coleta do segundo ovo. O mecanismo permite que o ovo que seria destruído seja chocado em cativeiro, possibilitando o aumento da população da ave.
A professora Rosa Maria Sivieiro conta que a equipe desenvolveu a ferramenta com materiais inusitados como canos de PVC, mangueiras de aquário e seringas. “Eles conectaram as mangueiras à seringa e ao braço. Cada uma das seringas executa um movimento. Uma delas move as garras, outra eleva o braço e a terceira movimenta para a direita e a esquerda”, afirma.
O estudante do 9º ano, antiga 8ª série, Michael Silveira, explica que o braço se move com a força da água. “O bom é que essa é uma solução ecologicamente correta”, acrescenta. Mas chegar a esse resultado não foi tarefa fácil. “Gastamos muito tempo na etapa de pesquisa, que foi o mais difícil. Em compensação, a união da equipe facilitou a construção”, diz.
Essa não foi a primeira vez que Michael e os colegas Danklas Juan, Jonatas Silva Santos, Fernando César, Heloísa Souza e David Guedes participam do Desafio da Ciência. “No primeiro ano construímos uma bomba para retirar água de uma lagoa para apagar um incêndio. No segundo ano fizemos uma ferramenta para colher laranjas”, conta.
O rapaz de 14 anos já traça planos de um futuro dedicado à ciência. “A gente pretende seguir na área. Formamos um grupo que faz tudo pela ciência”, resume. O estudante presta vestibulinho para entrar em um curso do Cotuca, mas já decidiu que quer ser um cientista.
A professora Rosa Maria Sivieiro orientou o trabalho da equipe e conta que a participação no projeto do Museu de Ciências da Unicamp tem contribuído para o desenvolvimento pessoal e intelectual dos alunos. “Estivemos presentes nas três edições do evento e percebemos que os estudantes se tornaram mais independentes e autônomos em relação aos estudos. Além disso, estimulou os alunos a trabalhar em equipe e estreitou o relacionamento com os professores”, afirma.
Segundo Rosa, o sucesso obtido no desafio deste ano já está estimulando outros alunos a participar da próxima edição do evento. “Já temos uma lista de alunos que querem participar do desafio em 2010”, diz. Para a professora, o desafio está cumprindo o papel de despertar o interesse dos estudantes pela ciência.
O NÚMERO
110
EQUIPES
Participaram do 3º Grande Desafio
SAIBA MAIS
O nome da espécie foi inspirado na mitologia grega, segundo a qual as harpias eram retratadas ora como monstros, ora como sedutoras mulheres. Acreditava-se que tinham penas mais resistentes que o aço e, portanto, eram impossíveis de ser destruídas.
Astrofísico venezuelano descobriu astro em 1998
Depois de vencer o 3º Grande Desafio, a equipe de estudantes campineiro denominada Protetores do Futuro ganhou como prêmio a oportunidade de renomear o asteroide XD96, nº 15453, descoberto em 1998 pelo astrofísico venezuelano Orlando Naranjo. “Escolhi o nome para homenagear todos os estudantes brasileiros”, diz Michael Silveira, capitão da equipe.
A sugestão do nome será encaminhada ao astrofísico Naranjo, que tratará de dar seguimento aos trâmites burocráticos para a oficialização do batismo. A palavra final caberá à União Astronômica Internacional (UAI). Segundo as normas da UAI, a denominação desse tipo de corpo celeste não pode ter mais de 16 caracteres, não deve ter sentido ofensivo e precisa ser pronunciável em qualquer idioma.
Os asteroides foram descobertos no início do século 19, logo depois de o matemático Johann Titus e o astrônomo Johann Bode descobrirem uma sequência matemática nas distâncias dos planetas a partir do Sol. Essa sequência previa a possibilidade de um planeta orbitar entre Marte e Júpiter a 2,8 UA (unidades astronômicas) do Sol. Os cientistas passaram, então, a procurar esse possível planeta e, em 1801, o astrônomo italiano Giuseppi Piazzi descobriu um corpo indistinto nessa distância. Ele concluiu que o novo corpo era menor que os planetas Marte ou Júpiter. Posteriormente, Piazzi descobriu novos corpos, que foram então chamados de asteroides. (PA/AAN)
Harpia: uma poderosa águia das nossas matas
Predador tem até preguiças e macacos entre suas presas
A harpia, também conhecida como gavião-real, é a maior ave de rapina do Brasil. Ela vive solitária em montanhas, nas margens de rios e lagos e até mesmo à beira-mar. No Brasil a espécie é encontrada na Amazônia, no Paraná e Rio Grande do Sul, além de algumas florestas da Mata Atlântica.
Seus hábitos alimentares incluem moluscos, crustáceos, peixes, serpentes, lagartos e até alguns mamíferos, como macacos e a preguiça. De grande porte, a harpia pode atingir 1,15m de comprimento e 2,5m de envergadura e seu peso varia de 4,5 a 10 quilos. Seus pés e garras são fortes a ponto de permitir que a ave carregue mamíferos pesados. Predadora eficaz, tem garras mais compridas do que as de um urso-cinzento.
Ela vive em árvores altas, dentro de vasta mata, onde constrói seus ninhos. Escolhem árvores de até 40 metros de altura e que tenham galhos bem separados. O casal dá uma cria a cada dois ou três anos. O período reprodutivo vai de junho a novembro e o período de incubação é de 30 dias. As fêmeas depositam um ou dois ovos, mas caso ambos sejam incubados com sucesso, somente o primogênito sobrevive, já que o filhote que nascer antes matará o menor. (PA/AAN)
(Jornal Valor Econômico, 30 de outubro de 2009)
Para não dar um passo à frente e dois atrás
Maria Cristina Fernandes
30/10/2009
Nunca na história desse país um presidente da República teve tantos entreveros com o Tribunal de Contas da União. Em seus 118 anos de existência, é a primeira vez que o TCU exerce tão plenamente seus poderes.
O que um natural conflito político decorrente do aperfeiçoamento das instituições, não pode - pela soma de personalismo do presidente e oportunismo do Congresso - é engendrar retrocessos numa trajetória de permanente avanço do controle externo do Executivo.
Com a Constituição de 1988 veio a participação do Legislativo na indicação dos ministros do tribunal, prerrogativa antes exercida apenas pelo presidente da República. Hoje dois terços do Tribunal são indicados pelo Congresso. Dos três ministros de indicação do presidente, dois devem ser egressos do corpo técnico da instituição.
Se vagas atribuídas ao Legislativo são reservadas a políticos em fim de carreira em busca de uma aposentadoria estrelada, é outra história. É um avanço que o Congresso detenha o controle das indicações. Cabe aperfeiçoar a escolha desses ministros com exigências técnicas de conhecimento da máquina pública e não minar a origem democrática de sua indicação.
A última mudança significativa nos poderes do TCU decorreram de um escândalo amplamente explorado pela oposição petista no final do governo Fernando Henrique Cardoso.
O tribunal ganhou poderes para embargar obras quando veio à tona que diversos relatórios que apontavam indícios de irregularidades na sede do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo haviam sido ignorados pelo Legislativo e pelo Executivo. Só depois que o prédio já estava erguido é que foram comprovadas as irregularidades que levaram o juiz Nicolau dos Santos à cadeia.
É a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que, anualmente, reitera o poder de embargo do TCU. A partir dali, o tribunal viu crescer o número de obras paralisadas graças ao trabalho de um dos mais bem conceituados corpos técnicos da capital federal. Bruno Speck, cientista político da Unicamp e um dos maiores especialistas brasileiros em tribunais de contas, considera o embargo um dos mais importante poder adquirido pelo TCU na centenária história da instituição.
Na LDO de 2010 o Executivo tentou emplacar uma mudança que, sob o manto da discussão tecnicista do parâmetro de preços usado pelo TCU, praticamente acabaria com o critério mais eficiente à sua disposição para averiguar o superfaturamento de uma obra e decidir sobre sua paralisação.
O teto dos preços das obras públicas é estabelecido por uma tabela elaborada a partir de um banco de dados do IBGE gerido pela Caixa Econômica Federal. Esse teto, tivesse prevalecido a pressão governista, deixaria de ser limite, para passar apenas a balisador do preço a partir do qual o TCU julga a regularidade de obras.
O que o governo conseguiu, com o aval da oposição, foi acrescentar um dispositivo que dá uma flexibilidade maior às exigências de preços unitários mas não detona o poder de embargo do TCU. Se o Executivo foi obrigado a recuar da mudança maior pretendida é porque o respeito que o Tribunal de Contas ganhou nos últimos anos levaria a ofensiva governista a ultrapassar os ditames da moralidade.
O poder de embargo é um dos poucos que o TCU preserva independentemente de outros órgãos. O tribunal, em todos os estudos comparativos de Speck, aparece como um dos mais poderosos do mundo. Pode responsabilizar administradores públicos, aplicar multas, excluir fornecedores de licitações e elaborar lista de administradores inelegíveis. Essa delegação, no entanto, não prescinde da colaboração da Advocacia-Geral da União (AGU), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do próprio Congresso. Nas contas de Speck, por exemplo, 300 administradores chegam a ser multados anualmente mas o ressarcimento desses valores é inferior a 1% porque a execução dessas multas cabe à AGU.
O Executivo tem um encontro marcado com o avanço institucional do país no julgamento que ocorre, sob sigilo, na AGU. A Controladoria Geral da União (CGU) que tem, para o controle interno, funções similares ao TCU no externo, quer fiscalizar o BNDES. O banco resiste à investigação sob o argumento de que, apesar de gerir recursos públicos, tem, como instituição financeira, que respeitar os sigilos fiscal e bancário. Em disputa semelhante, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que o Banco do Brasil está sujeito à auditoria do TCU.
O debate da corrupção é promessa de audiência certa em debates eleitorais. Tratado como fraqueza pessoal, eleva paladinos da moralidade pública a candidatos respeitáveis. Eleitos, transformam o compromisso de acabar com a corrupção em grandiosos e inexequíveis projetos de reforma política, quando o verdadeiro avanço, no mais das vezes, está em deixar as instituições funcionarem.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br