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29 de outubro de 2009 - textos completos

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(Jornal Folha de São Paulo, 29 de outubro de 2009)
ALIMENTAÇÃO

Perigo na cozinha
Maus hábitos no armazenamento e na manipulação de alimentos podem levar a intoxicações alimentares; saiba como evitá-las 

RACHEL BOTELHO
DA REPORTAGEM LOCAL
Eles estão por toda parte: nas carnes, nos ovos, nos peixes e até nas folhas daquela insuspeita saladinha. Geralmente, não causam problemas, mas, quando a higiene não ajuda, os micro-organismos patogênicos proliferam-se na comida e provocam um grande estrago: náuseas, vômitos, diarreia e a sensação de que nada para no estômago são sintomas bem conhecidos por quem já teve um episódio de intoxicação alimentar -quase todo mundo.

Segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, mais de 117 mil brasileiros adoeceram e 64 morreram entre 1999 e agosto de 2008 por esse motivo.
Esses números, no entanto, estão subestimados, já que, entre outras razões, os sintomas de uma doença provocada por água ou alimentos costumam ser passageiros e, em cerca de 60% dos casos, não levam o doente a procurar um médico.

Nos Estados Unidos, onde o registro dessas doenças é muito mais amplo e eficiente, os CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) estimam que 76 milhões de pessoas sofram um episódio a cada ano.
Os alimentos não são estéreis, ou seja, contêm micro-organismos- mas isso não precisa ser um problema. "Só quando as bactérias patogênicas estão presentes e lhes damos a chance de se reproduzirem é que podem causar doenças", afirma Maria Teresa Destro, professora do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Temperatura inadequada e tempo de exposição a ela são os principais desencadeantes. "Mas existem alimentos com maior risco e pessoas mais suscetíveis", afirma Destro.
Nos Estados Unidos, uma entidade de defesa do consumidor baseou-se em dados recentes dos CDCs, da FDA (agência que regula fármacos e alimentos) e de universidades para apontar os maiores vilões da alimentação segura -por limitações técnicas, carne de boi e de frango, que estão entre eles, não entraram nesse ranking. Folhas verdes, ovos, atum, ostras, batata, queijo, sorvetes, tomate, couve-flor e frutas vermelhas, nessa ordem, foram os campeões de problemas.

No Brasil, onde a notificação dos surtos -episódio em que duas ou mais pessoas apresentam doença semelhante após ingerirem alimentos ou água da mesma origem- é compulsória, um terço deles não tem o veículo identificado. Entre os demais, os ovos crus ou mal cozidos ocupam o topo da lista do ministério -foram responsáveis por 22,8% dos 3.984 surtos de origem conhecida no período-, seguidos de alimentos mistos (como lasanha e estrogonofe, 16,8%), carnes vermelhas (11,7%), sobremesas (10,9%), água (8,8%) e leite e derivados (7,1%).

Para a professora da USP, o fato de os ovos ocuparem o topo do ranking não significa que eles estejam muito contaminados. "Como todos sabem que frango e ovo podem estar contaminados, quando ocorre um surto que afeta muita gente, a pesquisa do alimento é mais rápida e é mais fácil de apontar o culpado. O ovo é a "vítima'", diz.

Segundo ela, é difícil apontar os alimentos mais problemáticos porque os dados disponíveis no Brasil são esparsos. Ela se lembra, no entanto, do queijo-de-minas tipo frescal. "Ele é nota dez para contaminação devido à falta de higiene, desde a ordenha da vaca até o processamento. A contaminação por coliformes fecais é grande e, muitas vezes, a pasteurização não consegue evitá-la", diz.

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde o consumo de hambúrguer é elevado e a população tem preferência por carnes de espessura mais grossa -que não cozinham por inteiro-, a carne moída não chega a ser motivo de preocupação por aqui. Já o frango, temido pela contaminação por salmonela, tornou-se nos últimos anos um alimento mais seguro. Para Destro, a razão pode estar em um maior rigor na importação das aves, que chegam menos contaminadas ao país, e ao aumento dos cuidados na manipulação e na conservação do alimento. Isso se reflete também nos ovos. "Já fizemos várias pesquisas de salmonela em ovos e nunca conseguimos isolar uma", diz Destro.

Na opinião da professora, pescados e frutos do mar -que, por serem muito perecíveis, são apontados como ingredientes fáceis de provocar doenças- não aparecem entre os alimentos mais perigosos porque a coleta de dados não é sistematizada. "Isso leva a um desvio", afirma.

Travessa suja
Segundo o levantamento do ministério, as residências são o principal local de contaminação (45,2%), seguidas por restaurantes (19,7%), instituições de ensino (10,7%) e refeitórios (7,4%). A comida vendida por ambulantes responde por apenas 0,5% dos surtos. "O problema ocorre mais em casa e também nos quilos, em que não se limpa a travessa e se coloca a nova comida por cima", afirma Maria Bernadete de Paula Eduardo, responsável pela Divisão de Doenças Transmitidas por Água e Alimentos do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde.

A refeição que estragou um feriado da advogada carioca Janaína Pinheiro Rufilo, 32, não foi feita em um desses locais, mas em um restaurante de uma rede internacional. Durante uma viagem a São Paulo, Janaína foi parar no hospital. "Jantei uma salada com camarão e de madrugada tive vômitos, diarreia, meus lábios ficaram roxos, comecei a tremer. Acabei na emergência do hospital", recorda-se ela, que teve que atrasar o retorno para casa em cinco dias, período em que ficou internada. Apesar de tudo, Janaína não excluiu o camarão da dieta.

A analista de compras Carolina Pimentel, 32, também sofreu depois de comer em um restaurante -de "junk food", comida porcaria, como ela define. "Comi costeletas de porco com muito "sour cream" [creme azedo], o que provavelmente gerou o problema. Tive enjoo, diarreia, muita dor abdominal e de cabeça e vomitei várias vezes. Fiquei muito debilitada, mas não fui ao médico", conta.

Para José Luiz Pereira, professor de microbiologia de alimentos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), excetuando-se os industrializados -que passam por rigoroso controle interno de qualidade-, todo alimento manipulado está sujeito a riscos. "A contaminação ocorre por falta de conhecimento sobre como manipular e refrigerar os alimentos. Guardam comida pronta por mais tempo do que deveriam, deixam-na à temperatura ambiente. Em geral, o alimento deve ser consumido em no máximo 24 horas, isso quando refrigerado", afirma. 

Em sua opinião, os de origem animal são os principais responsáveis por doenças porque têm que ser preservados em baixas temperaturas. "Os frutos do mar são muito delicados. O cozimento mata os micro-organismos, mas algumas substâncias tóxicas produzidas por eles são termorresistentes."
Segundo Paulo Olzon, clínico-geral da Universidade Federal de São Paulo, quando os sintomas aparecem, o indicado é consumir alimentos que não agravam os sintomas. "Se tomar remédio para prender o intestino, a recuperação demorará mais", diz.

É preciso ficar atento a sinais de desidratação, como tontura, cansaço e sede -nesse caso, deve-se ir a um hospital. A febre também deve ser avaliada.

(Jornal Folha de São Paulo, 29 de outubro de 2009)
TENDÊNCIAS/DEBATES

Uma mincada é uma mincada...
ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE

Quem ganha com a redução do consumo do álcool? Está, enfim, ficando claro a quem serve o "novo" Ministério do Meio Ambiente

DUAS INICIATIVAS do governo federal surpreenderam a nação nas últimas semanas. A primeira foi a decisão de limitar a expansão da cana-de-açúcar, impedindo-a de ocupar a Amazônia, o Pantanal, as vizinhanças do alto Paraná, o cerrado, a caatinga etc. Ora, tudo bem. Vamos ser ecologicamente corretos. Todavia, todo mundo sabe que a expansão da cana-de-açúcar ocorreu em áreas de pastos abandonadas e de culturas agrícolas decadentes. Apenas 2% dessa expansão ocorreu no cerrado e, assim mesmo, em cerrado semidesértico.
A invasão das terras agora protegidas contra a cana foi feita, como todo mundo sabe, principalmente para plantio de soja e criação de bovinos -cujas expansões, ao que parece, continuam sendo bem-vindas nessas áreas sensíveis.

E é bom lembrar que essas penetrações na Amazônia e no cerrado ocorreram décadas antes da expansão da cana-de-açúcar e, portanto, não foram deslocadas devido ao avanço dessa última. Essa história me lembra uma anedota. Manuel vai a Joaquim e lhe diz: "O Joaquim, tua mulher anda te traindo com o francês Pierre e também com Giovanni, o italiano". Enfurecido, Joaquim sai em busca do japonês da quitanda e dá-lhe uma surra.

Questionado por um atônito Manuel, Joaquim explica: "É melhor prevenir do que remediar".
Uma interpretação benevolente é a de que, com isso, estaríamos dando uma satisfação aos ecoidiotas e ecossafados da União Europeia que acusam o Brasil de desmatar a Amazônia para produzir álcool.
Todavia, essa legislação vai ser interpretada como uma confissão de que a cana estaria invadindo essas áreas sensíveis -assim, seriam justificáveis atitudes restritivas de eventuais países compradores.

É, pois, mais provável que tal iniciativa sirva só para adoçar a boca da poderosa bancada ruralista, dominada pela soja e pela pecuária, que, aliás, será beneficiada pela interdição à cana-de-açúcar, pois não terá que disputar terras valorizadas. Uma mincada é uma mincada é uma mincada... Ainda mais surpreendente foi a segunda ação do Ministério do Meio Ambiente contra o álcool combustível. Foi publicada uma hierarquia em que se ordenavam os carros produzidos no Brasil de acordo com os respectivos graus de contribuição à poluição. Adivinhem quem ganha nessa escala? Os carros flex seriam os mais poluentes, obviamente.

Só que esqueceram de explicar que os principais componentes responsáveis pela poluição emitidos pela combustão da gasolina -o dióxido de carbono e o metano, principais causadores do efeito estufa, além do benzeno e olefinas, agressivos cancerígenos- não constam da análise. Também não foram considerados os óxidos de enxofre. Ou seja, foram excluídos os contaminantes que incidem sobre a gasolina.

Tampouco foi considerado o diesel, que, no Brasil, é entre 50 e 100 vezes mais poluente que o diesel europeu e principal causador de doenças de todas as espécies em nossas cidades mais populosas. E que, além do mais, tem tido a data limite para sua correção protelada "ad infinitum", porque não convém à industria do petróleo.
Se o MMA tivesse alguma preocupação com a saúde do brasileiro urbanizado, deveria se preocupar com o diesel de baixa qualidade ambiental, e não com o álcool. Mas uma mincada é uma mincada é uma mincada...
E que me perdoem os leitores, pois outra historieta me ocorre. "O Joaquim, como é que conseguiste que o júri do concurso de Miss Brasil Ecologia elegesse a Maria Gordita, filha do chefe?", pergunta Manuel. "Ora", responde o outro, "foi muito simples: raspar a perna é antinatural, não é?

Usar perfume, batom etc. também é artificial. Dentes clarinhos, arrumadinhos, são sinal de que houve intervenção estética. Certeza, só nas banguelas. Pele lisa é sinal de botox. Pois bem, quem faz as regras faz o campeão, não é?" Mas quem tem a ganhar com a consequente redução do consumo do álcool? Os idiotas que acreditarem nessa outra mincada e que forem por acaso bons cidadãos vão mudar do álcool para a gasolina ou, pior ainda, para o diesel envenenado que se vende no Brasil, uma vez que não é mais possível acreditar no gás da Bolívia.

Está, enfim, ficando claro a quem serve o "novo" Ministério do Meio Ambiente, pois quem é beneficiada por essas mincadas senão a indústria do petróleo? Com um MMA como esse, quem precisa das enchentes e dos furacões ao Norte e ao Sul do Brasil? Uma mincada é uma mincada é uma mincada...

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE , 78, físico, é professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e membro do Conselho Editorial da Folha.


(Jornal Valor Econômico, 29 de outubro de 2009)
Queda do muro mudou violência política
Caxambu (MG)
29/10/2009

O mundo contemporâneo - e as ciências sociais desse tempo - assumiram como marcos simbólicos a queda do Muro de Berlim, início do fim do socialismo real representado pela fúria popular que derrubou pedra por pedra do muro que separava as duas Alemanhas, em 1989, e o 11 de setembro de 2001, quando uma brigada fundamentalista derrubou as duas torres gêmeas de Nova Iorque, no maior atentado terrorista já ocorrido no mundo ocidental. Se há um consenso entre os especialistas de que estes marcos transformaram o mundo política e geograficamente, e de que, na esteira das modificações sofridas nas articulações entre os grupos sociais, produziu-se também formas de manifestação diversas de demandas políticas, eles ainda não conseguiram um terreno comum para compreender as novas articulações e a convivência com antigos elementos da ordem pré-muro, segundo Osmar Ribeiro Thomaz, da Unicamp, que ontem coordenou a mesa redonda "20 anos sem muro de Berlim: novas faces da violência política", no segundo dia do Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

Os elementos da velha ordem nas novas configurações geográficas e nas estratégias políticas contemporâneas do poder imperialista foram trazidos pelo antropólogo Florian Mühlfried, do Max Planck Institute for Social Anthropology. O estudo antropológico de uma guerra de passaportes é uma tentativa de entender, a partir da particularidade do conflito da Rússia com a Geórgia em torno das repúblicas separaristas de Ossétia do Sul e Abcásia, os dilemas de construção democrática no Cáucaso pós-queda do Muro de Berlim.

As duas repúblicas declararam independência da Geórgia no final dos anos 90; em 2000, alegando questões humanitárias, a Rússia passou a distribuir passaportes e nacionalidade russa aos cidadãos de ambas as repúblicas. Em agosto de 2008, a Georgia atacou a Ossétia do Sul - e a Rússia, alegando que tinha por dever defender cidadãos seus em qualquer lugar do mundo, entrou no conflito com aquele. Naquelas alturas, a Ossétia do Sul já tinha 70% da população com nacionalidade e passaporte russos. Essa política de anexação informal foi completada pela extensão de direitos sociais dos cidadãos soviéticos às minorias da Ossétia do Sul e da Abcássia que pouco a pouco foram sendo incorporadas, novamente, a um mundo de domínio russo, via nacionalidade e passaportes; por um quase controle de seu comércio pelas Rússia; por pesados investimentos da estatal de petróleo russa - com os empregos que isso representa. Cerca de 80% da economia do país, segundo Mühlfried, gira em torno das articulações políticas e econômicas com a Rússia.

A guerra dos passaportes foi uma política assumida pela Rússia assim que os dois países separatistas declararam independência em relação à Geórgia. Sem serem reconhecidas internacionalmente como repúblicas autônomas, ficaram impedidas de emitir passaportes, com grandes limitações não apenas à circulação de pessoas, mas também de mercadorias. As minorias étnicas dos dois países também foram vítimas de políticas de extermínio da Geórgia. A Rússia, país hegemônico da União Soviético, na construção do seu capitalismo e de sua democracia vai regionalmente assumindo-se numa nova etapa de imperialismo.

Para o sociólogo português João de Pina Cabral, embora a democracia tenha sido a marca das últimas décadas, o otimismo não é recomendável. "Isso não é nostalgia, mas avaliação lúcida", afirmou. No início dos anos 90, a queda do Muro de Berlim e a revolução na informação, que apontavam para uma nova ordem mundial mais humanizada, levaram à ganância da globalização financeira. A crise financeira do ano passado - que segundo ele ainda não terminou - não resultou numa mobilização internacional para mudar a "ganância suicida", mas em instrumentos que foram suficientes apenas para evitar um colapso. O fim do ciclo neoliberal e a eleição de Barack Obama não conseguiram conter esse processo, o que mostra uma "incapacidade dos EUA de reestruturar-se internamente" e que os conflitos apenas foram estendidos, sem solução previsível.

Se surgem atores que a médio prazo podem substituir o protagonismo dos EUA no cenário mundial, também não é essa uma razão para apostar na felicidade certa no futuro, pois estão entre os países que se colocam em ascensão a China e a Rússia. (MIN)

(Jornal Valor Econômico, 29 de outubro de 2009)
Dólar: Para Roberto Padovani, do WestLB, acumulação traz mais benefícios que perdas
Custo das reservas vai a R$ 110 bi

João Villaverde, de São Paulo
29/10/2009
A contínua valorização cambial no ano está ampliando o custo das reservas internacionais do país. O impacto exclusivo da variação do câmbio sobre o custo de carregamento das reservas brasileiras em moeda estrangeira representou R$ 110,6 bilhões no ano até agosto, calcula o economista José Roberto Afonso, especialista em contas públicas da Unicamp. O número não inclui o diferencial de juros para aplicação das reservas no exterior. Segundo Afonso, o movimento cambial deste ano já reverte o lucro de R$ 171 bilhões auferido em 2008, quando o dólar se valorizou em relação ao real e chegou a bater R$ 2,33.

Segundo o economista, que trabalhou com dados do Banco Central, o efeito do câmbio foi "brutal" para o endividamento público, representando 45% do aumento da relação dívida líquida/PIB em 2009. Entre janeiro e agosto, a dívida pública saiu de 38,8% para 44% do Produto Interno Bruto (PIB), registrando uma dinâmica "péssima", segundo Afonso, para a solvência do Estado. O acúmulo de reservas internacionais por parte do Banco Central ao mesmo tempo em que amplia a blindagem externa do país também deteriora o quadro fiscal do Estado e a discussão em torno de benefícios e prejuízos dessa política é acalorado no Brasil e fora.

Como as reservas são denominadas em dólares, a valorização do real ao longo de 2009 diminui o ativo brasileiro, ampliando o custo de carregamento. Até agosto, o real já tinha se valorizado 23,89% frente ao dólar, fechando aquele mês a R$ 1,88 e, desde então, apreciou-se mais 7,44 pontos percentuais, acumulando valorização de 33,95% no ano. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), que trabalha com o conceito de dívida bruta, o endividamento público brasileiro fechará o ano em 70% do PIB. Atualmente, essa relação está em 66%. "É a segunda maior relação entre os países emergentes, apenas a Índia, com 85%, nos supera", afirma Afonso.

Segundo Maurício Oreng, analista do Itaú, há uma mudança contábil na análise dos dados do BC, uma vez que as reservas cresceram e o real valorizou-se. Ou seja, a dívida aumentou por um movimento do câmbio, que subiu e desceu no período de 12 meses. No ano passado, diante da desvalorização cambial - que saltou de R$ 1,56 para R$ 2,33 entre agosto e dezembro - a dívida líquida sofreu retração.
"Essa deterioração fiscal deve ser debitada da conta do Banco Central, que ampliou enormemente a compra de dólares depois da crise", afirma Amir Khair, especialista em contas públicas. Segundo Khair, diante do impacto que a valorização cambial exerce sobre a dívida, o acúmulo de reservas acaba funcionando como "perda de patrimônio". Em sua opinião, as reservas são importantes, como a experiência da crise evidenciou, mas seu custo de carregamento é um demérito para o Estado.

Para ampliar o volume de reservas e, ao mesmo tempo, suavizar a derrocada do real, o Banco Central adquire os dólares que ingressam no país emitindo reais, que depois são esterelizados com a venda de títulos públicos. Os dólares são aplicados, em sua maior parte, nos títulos do Tesouro americano, os treasuries, que rendem pouco - a taxa básica de juros dos EUA está entre zero e 0,25% ao ano. O endividamento, no entanto, é construído sob títulos remunerados pela taxa Selic, atualmente em 8,75% ao ano. Quando as turbulências mundiais se intensificaram, no último trimestre do ano passado, as reservas brasileiras eram de US$ 205 bilhões. Nos dez meses até anteontem, o BC acumulou mais US$ 27 bilhões entre novas compras e a remuneração do estoque aplicado.

Segundo Khair, o dólar tende a perder valor nos próximos anos, diante da lenta recuperação da economia americana, e, com isso, deixa de ser estratégico como porto seguro para aplicações soberanas. Para ele, o Banco Central poderia trocar dólares por reais sem necessariamente emitir títulos públicos, diminuindo, assim, o aumento da dívida interna. Segundo o economista, o ingresso de recursos para o país se tornará permanente nos próximos anos. "O Brasil é uma bomba de sucção de recursos externos. Temos juros altos, uma bolsa de valores atrativa, projetos para o pré-sal e eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. O real valorizado é uma realidade e seu impacto sobre o endividamento é irreversível", afirma.

"O custo fiscal existe, afinal, o diferencial de juros não pode ser desprezado, mas os benefícios são amplamente superiores", afirma Roberto Padovani, estrategista do WestLB. Para Padovani, as reservas já demonstraram sua importância durante a crise mundial, quando sinalizaram que o país tinha dinheiro para honrar seus compromissos externos e eventuais fugas de capitais. "Não devemos olhar o custo para as contas públicas. As reservas são um prêmio de risco que devemos ter para transmitirmos segurança ao mercado internacional", diz. Segundo Padovani, diante do excesso de recursos, o governo deve continuar comprando divisas, depois remetidas ao exterior para fortalecerem as reservas. "Reservas maiores trazem mais investimentos internacionais que, por sua vez, implicam em mais emprego e, na ponta, em aumento da arrecadação", raciocina.

Para Afonso, uma parte do maior endividamento público neste ano pode ser também explicada pelas operações compromissadas do Banco Central. Nessas operações, o BC oferece títulos públicos ao sistema bancário, que deixa a liquidez sendo remunerada pela Selic. Segundo Afonso, essas operações já alcançam 15% do PIB - algo como R$ 440 bilhões. "Depois que o governo liberou os depósitos compulsórios, os bancos ampliaram a demanda por este instrumento", afirma.

Para Khair, o governo deveria terminar com as operações compromissadas. "Essas operações são uma perda completa para o setor público, é um jogo em que o governo perde sempre porque o dinheiro não vai para a economia, por meio do crédito, e ainda é remunerado por uma taxa de juros absurda", critica. Para ele, esse mecanismo desrespeita a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que, em maio de 2002, proibiu o BC de emitir títulos, mesmo aqueles remunerados pela Selic, vendidos pelo Tesouro.