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14 de outubro de 2009 - textos completos

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(Jornal Valor Econômico, 14 de outubro de 2009)
Os emergentes e o tsunami de liquidez global
Luiz Gonzaga Beluzzo
14/10/2009
A marca registrada das crises capitaneadas pela finança é o colapso dos critérios de avaliação da riqueza que vinham prevalecendo. As expectativas dos possuidores de riqueza capitulam diante da incerteza e não é mais possível precificar os ativos. Os métodos habituais que permitem avaliar a relação risco/rendimento dos ativos sucumbem diante do medo do futuro. A obscuridade total paralisa as decisões e nega os novos fluxos de gasto. Em tais circunstâncias, a tentativa de redução do endividamento e dos gastos de empresas e famílias em busca da liquidez e do reequilíbrio patrimonial é uma decisão "racional" do ponto de vista microeconômico, mas danosa para o conjunto da economia, pois leva necessariamente à deterioração dos balanços. É o paradoxo da "desalavancagem".

A riqueza concentra-se, agora, na posse do dinheiro em si (ou substitutos próximos, os títulos da dívida pública). Essa corrida privada para as formas imaginárias, mas socialmente incontornáveis do valor e da riqueza vai afetar negativamente a valorização e a reprodução da verdadeira riqueza social, ou seja, a demanda de ativos reprodutivos e de trabalhadores. Diante da busca coletiva pela liquidez, os preços inflados dos direitos sobre a riqueza real - ações e dívidas privadas - despencam e, não raro, arrastam os preços de bens e serviços.

Depois do colapso financeiro deflagrado pela quebra do Lehman Brothers, os preços dos ativos privados foram atropelados pelos mercados em pânico, na busca impossível da desalavancagem coletiva. Vendedores em fúria e compradores em fuga fizeram evaporar a liquidez dos mercados e prometiam uma deflação de ativos digna da Grande Depressão dos anos trinta. As intervenções dos bancos centrais e dos Tesouros, sobretudo nos Estados Unidos, conseguiram, aos trancos, barrancos e trombadas legais, estancar a rápida deterioração das expectativas. Contrariando os augúrios mais pessimistas, a ação das autoridades foi capaz de afetar positivamente as taxas do interbancário e restabelecer as condições mínimas de funcionamentos dos mercados monetários.

A reação das autoridades dos países desenvolvidos, no entanto, foi menos eficaz para restabelecer a oferta de crédito no volume desejado e impotente para reanimar o dispêndio das famílias e dos negócios. Empresas e consumidores trataram de cortar os gastos (e, portanto a demanda de crédito) para ajustar o endividamento contraído no passado à renda que imaginam obter num ambiente de desaceleração da economia e de queda do emprego.

A economia real nos Estados Unidos e na Europa segue em compasso de espera. Como bem observou o economista Willem Buiter, os otimistas vacilam na matemática ao confundir a primeira derivada - negativa - com a segunda, positiva. Isso significa que o produto e o emprego seguem em declínio, mas a uma velocidade menor.

Seja como for, as injeções de liquidez, os programas de compra de ativos podres, as garantias oferecidas pelas autoridades e a capitalização das instituições financeiras não fizeram pouco. Além de construir um piso para a deflação de ativos, as intervenções de provimento de liquidez suscitaram, diriam os keynesianos, um movimento global no interior da circulação financeira. O inchaço da circulação financeira teve efeitos mesquinhos sobre a circulação industrial, ou seja, sobre a movimentação do crédito e da moeda destinada a impulsionar a produção e o emprego. Observa-se, no entanto, um rearranjo dentro do estoque de riqueza que responde aos preços esperados dos ativos "especulativos" por parte dos investidores que sobreviveram ao colapso da liquidez. Agarrados aos salva-vidas lançados com generosidade pelo gestor em última instância do dinheiro - esse bem público objeto da cobiça privada - os senhores da finança tratam de restaurar as práticas e operações de "normalização dos mercados", isto é, aquelas que levaram à crise.

Nas circunstâncias atuais, a realocação de carteiras favorece as bolsas, as moedas dos emergentes e as commodities, enquanto o dólar segue uma trajetória de declínio, depois da valorização observada nos primeiros meses de crise. Diante do frenesi que ora turbina as bolsas, as moedas dos emergentes e as commodities, não faltam prognósticos que anunciam o fim da crise e preconizam uma recuperação rápida da economia global, liderada pelos emergentes. Os movimentos observados no interior da circulação financeira, em si mesmos, não prometem à economia global uma recuperação rápida e brilhante, mas indicam que os mercados não temem a formação de novas bolhas de ativos nos mercados emergentes.

Buiter rejeita as dúvidas dos colegas sobre a possibilidade dos países desenvolvidos - sobretudo os Estados Unidos - de reequilibrarem os respectivos balanços de pagamentos. Sarcástico, ele dispara contra a afirmação de que os Estados Unidos e outros países desenvolvidos com déficits externos crônicos não podem corrigir seus desequilíbrios externos porque nada têm a exportar. Segundo Buiter, essa constatação é incorreta. Eles podem, sim, exportar crédito, explosão de preços de ativos e bolhas com a melhor tecnologia que possuem.

No rol de vencedores da batalha contra a depressão global, figuram em posição de respeito a China, a Índia e o Brasil, cada qual com suas forças e fragilidades. Entre as fragilidades, sobressaem a pressão para valorização das moedas nacionais e as ações de esterilização dos governos, com efeitos indesejáveis sobre a dinâmica da dívida pública dos países receptores da "chuva de dinheiro externo". Tais inconvenientes são particularmente danosos nos países com taxas de juros reais desalinhadas e métodos de intervenção inadequados nos mercados cambiais. Seja como for, a crise demonstrou que, na ausência de um emprestador de última instância internacional, a acumulação de reservas e a defesa da taxa de câmbio, a despeito dos custos, é uma forma racional de proteção para cada país individualmente.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras. Este mês, excepcionalmente, na quarta-feira.
E-mail: BelluzzoP@aol.com

(Jornal Valor Econômico, 14 de outubro de 2009)
Combustíveis: Brasil pretende enfatizar a ideia de que o álcool de cana-de-açúcar é simultaneamente uma ferramenta para o desenvolvimento econômico e de proteção ao meio ambiente
Etanol vai ganhar defesa mais firme durante as negociações
Rosangela Capozoli, para o Valor, de São Paulo
14/10/2009

O Brasil chega a Copenhague em dezembro para a COP-15, a Conferência das Partes, com enormes desafios, mas com bons argumentos. Uma das tarefas mais complexas será convencer as nações ricas e as em desenvolvimento que o etanol é o combustível limpo das próximas décadas num momento em que os holofotes estão voltados para as enormes reservas de petróleo descobertas no pré-sal.
Os investimentos em combustível fóssil transformam o país em vidraça. Mas a importância do etanol é vista como escudo contra as críticas de ambientalistas e as restrições tarifárias e não-tarifárias impostas pelos países ricos. Mais agressivo que em encontros anteriores, o Brasil pretende mostrar que pode ser exemplo mundial e líder em combustíveis verdes.

"A posição do Brasil não será apenas valorizar a experiência em etanol de cana e mostrar como essa experiência pode ser replicada", diz Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro. O foco é destacar a "origem da matéria-prima utilizada na sua fabricação porque, no âmbito da COP-15 e de todas as ONGs e entidades multilaterais que tratam de sustentabilidade e de proteção do meio ambiente, existe uma consciência de que há relação entre a produção de etanol a partir de grãos e a segurança alimentar". Ou seja, ocupar terras com a plantação de milho para etanol também reduz as emissões de CO2, mas pode levar à pobreza, o que não acontece com a cana-de-açúcar.

Segundo Nastari, o Brasil vai defender o etanol como estratégia de desenvolvimento econômico e de proteção do meio ambiente, ressaltando que se trata de combustível produzido a partir de matérias-primas consideradas avançadas, dentre as quais a cana. Para convencer sua "plateia" de nações e especialistas, o país terá de mostrar os avanços regulatórios no zoneamento da terra, com a proteção de biomas e garantias para os trabalhadores. Sem isso, diz Nastari, o etanol brasileiro será barrado pelos países importadores.

Carlos Cavalcanti, diretor do Departamento de Energia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), afirma que todos os números favorecem o etanol brasileiro. Ele cita estudos, entre eles o do professor Isaías Macedo, da Unicamp, que apontam a capacidade do etanol de reduzir em até 80% as emissões de gás carbônico. "Um programa de adição de 10% de etanol na gasolina consumida nos automóveis do mundo todo reduzirá de 5% a 8% a emissão de CO2", afirma.

Eduardo Leão de Souza, diretor executivo da União Nacional dos Produtores de Cana-de-Açúcar (Unica), considera fundamental o estabelecimento de um marco regulatório energético confiável, com o alinhamento das diferentes áreas de governo e políticas do setor - o que traria benefícios internos e atrairia investimentos externos.

(Jornal Correio Popular, 14 de outubro de 2009)
Opinião
Schmitt, Mozart e nazismo
Romano

Quem examina o elogio da Igreja Católica feito por Carl Schmitt, percebe a virulência do seu ataque à “A Flauta Mágica”. Schmitt atribui à peça a glória (duvidosa...) de antecipar as operetas vienenses. “Todos concordam que ela é um hino às Luzes, na luta entre sol e noite, luz e trevas. De fato, nela tudo seria harmônico com o sentimento de uma era democrática. Por comparação, seria menos aceitável dizer que a Rainha da Noite, contra quem lutam os sacerdotes da Maçonaria, é a mãe em sentido específico. Alarmam os homens dos séculos 19 e 20 a viril arrogância e a autoconfiança autoritária daqueles sacerdotes, o seu diabólico desprezo pelo homem comum figurado em Papageno (...) Nada é mais capaz de causar medo do que esta apreciada ópera, se alguém tem coragem de empregar tempo para a entender num contexto mais amplo da história das idéias”. (Schmitt, Carl: Catolicismo Roman o e Forma Política” (1923, trad. inglesa da Greenwood Press, 1996). Schmitt, antes de nazista, é católico e romântico. Para ele, o elogio das Luzes se revela insuportável.

“A Flauta Mágica”, de fato, pertence à era das Luzes. Nela, o jogo entre o lado sombrio (a rainha da Noite) e o solar (Sarastro) se resolve na guerra onde vence o brilho da nossa estrela. É o que entoam os versos finais da obra: “die Strahlen der Sonne vertreiben die Nacht,/Zernichten der Heuchler erschlichene Macht” (“Os raios do Sol afastam a Noite, destruindo o Poder maligno”). Graças são dadas a Osíris e Isis, porque eles permitiram que o poder luminoso triunfasse “premiando a beleza e a sabedoria com uma coroa eterna”. O romantismo luta contra a Luz celebrada por Mozart em nome da Razão. Os românticos tentam dizer que os humanos são dotados de forças mais amplas (entre elas, o sonho e o dom dos poemas) do que a racionalidade científica e tecnológica. A imaginação é poder cujo ápice encontra-se na fantasia, segundo Fr. Schlegel. Para ele, a razão só conhece o mundo exterior ao homem. A imaginação, em sentido oposto, conduz ao divino. Ela não brota apenas do intelecto e da pura lógica matemática. O seu lado mais livre de amarras lógicas, a fantasia, gera sonhos e beleza anímica. O termo alemão para a força em questão é “das Wunder”, o maravilhoso que vence o cotidiano prosaico e “racional”. Os mitos entram na perspectiva romântica deste maravilhoso, em favor do lado noturno da alma. Na fantasia, não existem contrários ou contraditórios insolúveis. Nela, afirma M. Alexandre, “a princesa nasce da gota de sangue, as árvores cantam, ocorrem chuvas de vinho, as rosas caem como neve, as correntes dos riachos são de puro leite”.

O romantismo une-se à Noite e à Morte. Diz Novalis: “É na morte que o amor transforma-se em mais doce; para o amante, a morte é noite nupcial, segredo de suaves mistérios”. Logo, o universo concebido enquanto máquina e ordenado pelo cálculo matemático seria pesadelo ameaçador. Não é verdade, dizem os românticos, que animais e homens sejam mecanismos automáticos e sem liberdade. Eles acusam Hobbes, que comparava o Estado a um relógio. A sociedade e o Estado seriam, pelo contrário, organismos que reúnem indivíduos capazes de sentimentos, afetos, solidariedade. Se fosse verdade que a consciência lógica seria a única atividade além da operação corporal, se o corpo fosse apenas máquina, desapareceriam a poesia, o sonho, a liberdade, pois máquinas ignoram sentimentos. O grito de Novalis resume o alvo: “é preciso romantizar o mundo (...) introduzir alma na máquina”. A política romântica prega o sonho medievo: cavaleiros, fábulas, milagres, Igreja Católica organizada como um corpo e não como fria máquina burocrática.

Com românticos do feitio trazido por Carl Schmitt, o sonho se tornou pesadelo. Para exorcizar o inferno nazista de ontem e de hoje, nada melhor do que assistir a “Flauta Mágica”. Se possível, na bela versão cinematográfica de Ingmar Bergman. Outro antídoto poderoso contra seu irracionalismo assassino é a valorização da ciência e da técnica, em conjunto com as artes (e não contra elas...)

Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp.