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(Folha de São Paulo, 11 de outubro de 2009)
Dupla de brasileiros decifra o genoma de levedura do álcool
Cepa industrial de microrganismo resiste a ambiente hostil e ajuda usineiros a produzir etanol que abastece automóvel
Organização diferenciada de trechos do DNA ajuda micróbio a manter potencial de adaptação; grupo busca aplicações biotecnológicas
EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL
A levedura responsável por 10% de toda a produção de álcool combustível no mundo não é mais uma incógnita genética para os cientistas. Usado há décadas de forma empírica, o microrganismo conhecido como PE-2 ou Pedra-2, uma variante robusta do fungo microscópico Saccharomyces cerevisiae, teve o conjunto de seu DNA finalmente "soletrado".
O genoma será uma plataforma de trabalho importante, dizem os autores do sequenciamento, Gonçalo Pereira (Universidade Estadual de Campinas) e Juan Argueso (Unicamp e Universidade Duke, EUA). Vários outros cientistas também assinam o artigo sobre o trabalho, publicado na revista "Genome Research".
"Temos agora muitas informações genéticas. Podemos tentar manipular essa levedura para que ela seja mais eficiente ainda", diz Pereira.
Casca-grossa
A genética, em parte, constatou o que os empregados das grandes usinas brasileiras já sabiam. A levedura que produz o álcool é muito versátil. Por viver no interior do suco de fermentação das caldeiras, existem várias pressões ambientais sobre ela. Há, por exemplo, as altas temperaturas e as substâncias que circulam pelo mosto (caldo que vai fermentar). E por que ela aguenta todos esses tipos de estresse, que outras leveduras de laboratório não suportam? A resposta, diz a dupla, está nos genes.
"Essa levedura [que tem 16 cromossomos] apresenta genes essenciais no centro do genoma. Mas, nas pontas, a variabilidade verificada é muito grande", diz Argueso. Os cientistas se depararam com uma espécie de híbrido natural. Enquanto a parte central do genoma mantém as características evolutivas transmitidas ao longo de muitas gerações, a variabilidade periférica encontrada agora é que foi permitindo uma melhor adaptação aos vários ambientes.
"Nas indústrias, essa levedura selvagem [uma espécie heterotálica, ou seja, que necessita de dois talos isolados compatíveis para se reproduzir de maneira sexuada] foi sendo melhorada de forma empírica, por sucessivos cruzamentos, na base da tentativa e erro", diz Pereira. Tanto é assim que histórias curiosas foram observadas dentro de usinas paulistas no final do século 20.
Um empresário guardava a sete chaves uma levedura importada da Alemanha, considerada o grande segredo da sua produção. Uma análise mais detalhada do mosto, entretanto, mostrou que a levedura importada era totalmente engolida, em questão de dias, pela levedura brasileira.
Por ironia, "era a levedura nacional, que vem junto com a cana-de-açúcar normalmente, que fazia todo o trabalho de fermentação", conta Pereira.
Corrida tecnológica
Para melhorar a produtividade, o problema agora passa a ser menos de engenharia química e mais de engenharia genética, brinca Pereira, que é do segundo time. "Estamos na frente, mas não muito", diz Argueso.
A informação científica gerada pelo grupo brasileiro não é passível de patenteamento. Mesmo assim, empresas como a ETH e a Braskem patrocinam a pesquisa nacional. O que significa que todos que trabalham com leveduras terão acesso à plataforma genética que acaba de ser decodificada.
Esse conjunto de dados não é útil apenas para a produção de álcool. Existem várias outras aplicações. A corrida tecnológica está aberta.
Ela pode levar a plásticos feitos a partir de etanol ou ainda ao tão cobiçado combustível de segunda geração. Para isso, é preciso montar um microrganismo que seja eficiente na quebra da celulose que existe na cana-de-açúcar. Ou, no caso dos Estados Unidos, no milho.
(Folha de São Paulo, 11 de outubro de 2009)
REGULADOS
Norma para regular atuação em TI avança no Senado
DA REPORTAGEM LOCAL
Os profissionais de tecnologia da informação viram o projeto de lei nº 607/2007, que quer regulamentar a profissão de analista de sistema, dar mais um passo recentemente.
Em agosto, o PL chegou à última comissão do Senado -a de Assuntos Sociais. Se for aprovado, o documento seguirá para a Câmara dos Deputados. Se não houver mudança em seu teor, rumará à sanção presidencial.
Pelo texto, poderão exercer a profissão os trabalhadores com curso superior em análise de sistemas e correlatos, com diploma estrangeiro revalidado, com pós-graduação na área ou com ao menos cinco anos de experiência na atividade.
Atualmente, não há restrição quanto à formação ou ao tempo de experiência do profissional.
O projeto provoca polêmicas. "Há profissões que têm manifestado repúdio ao projeto sob a alegação de que teriam mais condições de desenvolver softwares para suas atividades do que os analistas de sistemas; discordo frontalmente", considera o senador Expedito Júnior (PSDB-RO), autor do projeto de lei.
"Não há necessidade de diploma para o exercício da profissão", argumenta Ricardo Anido, diretor de relações profissionais da SBC (Sociedade Brasileira de Computação) e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O certificado, acrescenta, é importante para aferir a qualidade do profissional, "mas não apenas aquele que fez um curso tem competência".
Caminhos diferentes
Há nesse mercado de trabalho uma série de profissionais autodidatas, corrobora Anderson Fabiano, 31.
Ele mesmo iniciou o bacharelado em informática em 1997, mas não o concluiu. Priorizou o trabalho em TI, que lhe rendia, na época, R$ 3.000 ao mês, em vez de se dedicar à graduação. "Em algum momento, pretendo voltar à vida acadêmica, mas não agora", diz Fabiano, líder de tecnologia da iFactory.
"Sou contra a regulamentação. Isso desautorizaria pessoas com capacidade [mas sem curso superior]", destaca o presidente da Macdata, Antonio Carlos de Macedo, 56.
O executivo começou a carreira há 35 anos e diz não ter sentido falta de curso superior.
O arquiteto de software da Cast Informática Cedric Lamalle, 27, no entanto, ressalva que diplomas fazem a diferença no exercício da profissão.
Começou em TI aos 18 anos, graduou-se em linguística e fez mestrado em linguística computacional. "Com orientação, ganha-se tempo", sinaliza.
(Folha de São Paulo, 10 de outubro de 2009)
Relatório vê falhas graves em estudo de impacto
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
Relatório produzido por grupo de 40 pesquisadores ligados a centros como USP, Unicamp, ITA, Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e UFPA (Universidade Federal do Pará) identificou falhas graves nos estudos de impacto ambiental para a construção da megausina de Belo Monte (PA). O conjunto de pareceres analisou ponto a ponto o que foi entregue para o governo federal.
Eles foram protocolados no Ibama e serão, segundo o órgão, rigorosamente analisados antes da decisão de dar ou não a licença prévia para a obra.
O quadro que as análises do painel de especialistas pintam é de morte e extinção de animais e plantas, perda de recursos hídricos, caos causado pela migração de dezenas de milhares de pessoas e prejuízo à cultura indígena -um "desastre anunciado", diz o texto. Sentencia que, sob a ótica dele, o projeto é inviável economicamente.
Em diversos aspectos, dizem, o EIA-Rima (estudos de impacto ambiental), produzido a pedido de empreiteiras interessadas no negócio, não toca nos problemas ou tenta escondê-los. Além disso, por vezes passa por cima da metodologia científica. O objetivo é conseguir construir a usina a qualquer custo, afirmam.
Os estudos do ictiólogo Geraldo Mendes dos Santos, do Inpa, por exemplo, indicam que a construção da usina secará partes da bacia do Xingu, trazendo consequências diretas para a biodiversidade local.
"Por certo, o conjunto das espécies que vivem nesse trecho do rio não sobreviverá sob um regime de vazão imposto por decreto ou norma administrativa, venham estes do governo, das empresas ou mesmo da ciência." E, para ele, as medidas propostas pelos possíveis empreendedores para mitigar o problema são insuficientes.
Outro ponto falho dos estudos, afirmam os especialistas, é a maneira como foram calculados os impactos na população e na economia da região.
Segundo Sônia Magalhães, antropóloga da UFPA, erros metodológicos fizeram com que o número de pessoas afetadas de maneira direta pela hidrelétrica fosse subdimensionado. Em vez de cerca de ao menos 2.822 impactadas, diz ela, este número seria o dobro.
O relatório também faz referências a "ausência de referencial bibliográfico", "correlações que induzem ao erro" e "classificação assistemática de espécies, com riscos para o conhecimento e a preservação da biodiversidade local".
Outro problema apontado, já conhecido: Belo Monte deve gerar muito menos energia do que os 11,2 mil MW de potência instalada, durante cerca de quatro meses por ano, quando as águas do rio estão baixas.
Só esse fator, diz Francisco Hernandez, engenheiro eletricista da USP, já põe em questão o sentido de uma obra tão grande -a hidrelétrica deve ser a terceira maior do mundo.
Feitos de maneira voluntária, os estudos tiveram apoio logístico de cerca de R$ 60 mil, vindos de ONGs como WWF Brasil e International Rivers.
(Folha de São Paulo, 10 de outubro de 2009)
LIVROS
Crítica/"O Albatroz Azul"
João Ubaldo costura tramas de romance com habilidade
Primeira incursão do autor no gênero em sete anos tem momentos comoventes
ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA
O mais recente romance de João Ubaldo Ribeiro, "O Albatroz Azul", lê-se com gosto, do começo ao fim. Há momentos engraçados e alguns comoventes. Mas não muito engraçados, nem muito comoventes. O livro simplesmente flui fácil, e quando termina, dá vontade de ler mais.
Até para se descobrir se o que se leu até ali pode ser mais que um livro agradável, que não deixa arranhão após ser lido.
O romance tem estrutura convencional, em três partes perceptíveis. A primeira se centra na intuição certeira do protagonista, o velho Tertuliano Jaburu, nascido e vivido na ilha de Itaparica, de que o neto temporão que lhe havia de nascer era homem e não mulher. Ao contrário do que assegurava a parteira e toda a gente, confiada no passado da mãe, que já gerara outras sete filhas.
Predominam conversas com amigos e referências a personagens de apelidos pitorescos, como Saturnino Bororó, Ludmilo Sororoca e Tininho Gumex. No meio deles, Tertuliano assunta o nome certo e um padrinho de categoria para o neto varão. O colorido da nomeação, amplificado no parnasianismo filológico do barbeiro, Nascimento Clarineta, feliz possuidor de um precioso "Repositório Onomástico Luso-Brazileiro", dá bem ideia de onde Ubaldo assentará a graça do livro.
A segunda parte remonta aos tempos do avô de Tertuliano, emigrante português que fez fortuna na Bahia, antes de tornar a seu país. Deixa cá o pai de Tertuliano, que se amanceba com as duas filhas da comadre Iá Cencinha, "mulher sabidamente com coragem para mamar em onça". Fora ela mesma a mentora do cômodo concubinato, pois não ficava espaço para filhos fora da família. Também a ela se devia o contrato feito com dois negros para conjurar o demônio contra a nova mulher portuguesa do avô, a fim de que não sobreviesse herdeiro a competir com o duplamente genro, além de afilhado.
De volta ao presente, ocorre a nova intuição de Tertuliano: a de que é chegada a hora de sua morte. Não a morte final, pois a ela se sucederia o renascimento, numa outra vida, a ser vivida ao lado do neto. As providências fúnebres ocupam esta parte, incluindo a visita a seu Zé Honório, autoridade financeira e moral da ilha, para pedir-lhe que aceite ser padrinho e tutor do neto.
E ainda um encontro no bar com Zirinha Quadra, "que nunca acatou homem nenhum mandando nela".
Contradições e apelo
Os dois encontros são perturbadores, um pelas contradições do pragmatismo moral de Zé Honório; o outro pelo novo apelo de vida que sentira ao lado da mulher sexual e forte, que não admitia dependência.
Se a primeira parte é sobretudo romance de costume, e a segunda, romance histórico, esta última tem um viés psicológico a dominar as ações. A costurar a narrativa há o emprego habilmente estilizado da fala da ilha e de um sem fim de provérbios, que dizem o que quer que se precise. Afetivamente, o tom baixa quanto mais se aproxima o final, e um fio de melancolia se esbate contra o anedótico. Não é arranhão o bastante.
ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp.
(Jornal Correio Popular, 11 de outubro de 2009)
Cidades
TAV: região é cotada para transferência de tecnologia
Unicamp e três indústrias estão na lista do governo federal
Maria Teresa Costa
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
teresa@rac.com.br
O governo federal identificou uma universidade e três empresas na região de Campinas com capacidade para desempenhar papel ativo no processo de transferência de tecnologia do trem de alta velocidade (TAV) e que poderão ser diretamente beneficiadas com a implantação da ligação ferroviária entre Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Levantamento do Ministério da Ciência e Tecnologia reconhece a capacidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tanto em via permanente quanto em material rodante. A prospecção junto ao setor industrial identificou as empresas Hewitt Equipamentos Ltda. e a Amsted-Maxion, ambas com fábrica em Hortolândia, e a Adantech, de Itupeva, com potencial produtivo e disposição de absorver tecnologia associada ao TAV.
O estudo identificou na Unicamp competência em dormentes, serviços, caixa, interiorismo, truque e motor de tração. Além da Unicamp, a prospecção também apontou o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) e o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA).
O levantamento relacionou a Amsted-Maxion como empresa interessada em absorver tecnologia em itens de material rodante, como caixa, acoplamentos, truque, montagem e rodas, e apontou a Hewitt com interesse em aparelhos de mudança de vias. A Adantech foi identificada como empresa interessada em absorver tecnologia em fricção de freios. Além das três empresas com fábricas na região, o Ministério da Ciência e Tecnologia apontou mais nove indústrias com capacidade para absorver tecnologia não disponível no País.
Para o professor Orlando Fontes Lima Júnior, do Departamento de Geotecnia e Transporte da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, a universidade tem capacidade de pesquisa instalada e poderá colaborar muito no processo de transferência de tecnologia. “Temos um grupo forte de pesquisa em engenharia ferroviária”, afirmou.
O professor Carlos Alberto Bandeira Guimarães lembrou que a Unicamp tem grande experiência em pesquisa para o setor ferroviário, com laboratórios na Faculdade de Engenharia Mecânica e na Faculdade de Engenharia Civil. “A Unicamp tem todo o interesse de participar do projeto, mas tudo vai depender das característica da transferência de tecnologia”, disse.
O repasse de tecnologia é um aspecto considerado relevante pelo governo no processo licitatório para a concessão do TAV, disse o secretário executivo do Ministério dos Transportes, Paulo Sérgio Passos. “O que vamos fazer é estabelecer um conjunto de requisitos e de exigências no que diz respeito a esse ponto. Quem atender está dentro. Quem não atender está fora. Sem dúvida, esse projeto resultará na absorção de tecnologia de ponta para as indústrias brasileiras”, afirmou.
Irá ganhar a concessão para construir e operar o trem de alta velocidade brasileiro o consórcio que somar o maior valor de capital próprio na empresa que será criada para cuidar da transferência de tecnologia. A menor tarifa não entrará como variável porque o governo optou por fixar preços-tetos que serão ajustados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA).
O concessionário terá liberdade tarifária, respeitando o teto de R$ 0,60 por quilômetros em classe econômica, independentemente do destino e um teto para a primeira classe baseado em um adicional de até 75% sobre o preço do quilômetro da tarifa econômica. Assim, a tarifa de Campinas ao Rio de Janeiro em classe econômica será de R$ 200,00 e, na classe executiva, de R$ 350,00. De Campinas a São Paulo, o preço será de R$ 31,20.
SAIBA MAIS
De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o edital de licitação do trem rápido será publicado neste mês e as empresas terão até janeiro de 2010 para apresentar as propostas e até junho do mesmo ano para a assinatura do contrato.
Nova empresa vai gerenciar processo
Etav, que ainda será criada, receberá investimentos públicos e privados
A transferência de tecnologia é condição básica do governo para definir o consórcio que irá construir e operar o TAV. Para cuidar disso, o governo vai criar uma empresa. A minuta do projeto de lei que autoriza a criação da Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade S.A. (Etav) está pronta e deverá ser encaminhada ao Congresso nos próximos dias.
Essa empresa irá se dedicar a promover o desenvolvimento do transporte de alta velocidade de forma integrada com as demais modalidades de transportes, por meio de estudos, pesquisas, administração e gestão de patrimônio, desenvolvimento tecnológico e atividades destinadas à absorção de tecnologias.
A Etav será formada com o aporte direto de R$ 3,4 bilhões do governo, sendo que R$ 2,3 bilhões irão custear as desapropriações exigidas para o projeto. Os empreendedores terão de ingressar com R$ 6,9 bilhões. Os recursos públicos e privados formarão o capital da Etav.
No gerenciamento de transferência de tecnologia, a Etav, segundo o governo, irá participar como sócia ou acionista em outras sociedades, supervisionar a execução das obras de infra e superestrutura, a produção e implantação do material rodante, além dos equipamentos e sistemas de operação, eletrificação, comunicação e segurança. A empresa irá também atestar a conformidade do material rodante, da infraestrutura e dos demais sistemas a serem utilizados no transporte ferroviário de alta velocidade. (MTC/AAN