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(Correio Popular, 13 de agosto de 2009)
Opinião
Pau de galinheiro
EZEQUIEL THEODORO DA SILVA
Ter de assistir à desfaçatez de José Sarney na televisão e na imprensa é demais para o meu gosto! Quanto mais ele fala, esperneia e vocifera, mais sujo fica o pau do galinheiro. Dá nojo! O difícil nesse episódio reiterativo é saber que, com o nosso dinheiro, contribuímos para sustentar tamanho grupo de parasitas travestidos de homens públicos. Já afirmei mais de uma vez aqui no Correio Popular e agora repito: esse clube inglês radicado no Congresso Nacional (ambas as casas) vai ainda levar ao endurecimento do regime no Brasil, bastando que apareça no horizonte um salvador da pátria moralizador e peitudo.
Não cabe caracterizar todos os desvios e desvãos que irromperam e irrompem continuamente a partir do interior do Senado, pois eles, pela extensão e gravidade, talvez tomassem todo o espaço desta reflexão neste jornal. Cabe, isto sim, mostrar como aquela casa legislativa está bichada, putrefata, reunindo dentro de si brasileiros sem escrúpulos, burladores das leis por eles mesmos formuladas. Ao tentar apagar o fogo atiçam ainda mais o fogo, numa demonstração inquestionável de que o Senado se transformou numa casa da mãe joana, numa imensa pizzaria e/ou num balcão nepotista e maldito para manobras e negociatas.
Essa “cultura” tem suas raízes no período imperial e amadurece ao longo do século 20, quando o político provinha das elites econômicas e tinha como objetivo, além da defesa e da reprodução dos privilégios da classe dirigente, enriquecê-la ainda mais através do acesso fácil aos cargos pagos com o dinheiro público ou através dos lobbies incentivados pelos representantes do poder econômico. Nestes termos, ao invés de tratar e discutir as necessidades da população, que persistem e crescem no passar do tempo, os senadores sorrateiramente agem no sentido de fazer com que a verba pública seja revertida para os seus benefícios pessoais e familiares.
Esse sujeito, político de araque, nunca teve noção das relações entre representantes e representados (seladas através das eleições), entre aspirações populares e o seu trabalho nas casas legislativas, nunca teve consciência do chamado “interesse comum” e muito menos de valores como equidade, compromisso, ética, etc. — pelo contrário, o cargo de deputado ou de senador significa para ele tão somente uma possibilidade de locupletação pelo trabalho improdutivo ou do movimento contra qualquer corrente conscientizadora ou transformadora do status quo da Nação.
José Sarney, agora ícone maior das barbaridades maiores da classe política brasileira (as menores ninguém nunca sabe, porque convenientemente abafadas...), quer nos fazer engolir um significado que se desvia dos fatos concretos, acontecidos no Senado federal nestes últimos anos. Para quem tem memória e é movido por consciência crítica, as suas bravatas discursivas e o seu permanente cinismo produzem mais ódio ainda, deixam mais sujo o pau do galinheiro e enlameiam a imagem de alguns políticos (poucos, diga-se) que, apesar das tentações e delícias de Brasília, nunca se esqueceram do seu trabalho de representação política e das suas obrigações para com o nosso País.
Ezequiel Theodoro da Silva é professor da Faculdade de Educação da Unicamp.