[5/3/2008]
Daniel Ribeiro Jansen Ferreira defendeu, em 25 de fevereiro último, dissertação de mestrado no Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia (IB), sob a orientação da professora Fosca Pedini Pereira Leite. Intitulada "A fauna de anfípodes associada à Caulerpa racemosa (Forsskal) J. Agardh, 1872 em duas praias do Litoral Norte do Estado de São Paulo", a dissertação, segundo sua orientadora, é uma valiosa colaboração à área de pesquisa relacionada com a fauna de substratos biológicos, porque identificou cerca de 30 espécies de pequenos crustáceos que vivem em algas marinhas em associação com a alga e o sedimento por ela retido. Essa seria, sem dúvida, mais uma pesquisa que faria parte da excelente estatística da pós-graduação da Unicamp, a não ser pelo fato de que Daniel é autista, portador da síndrome de Asperger, que tem como uma de suas características a grande dificuldade de interação social dos seus portadores.
Mas não foi só o mestrado que Daniel concluiu na Unicamp. Em 1999 ele cursou durante seis meses o curso superior de Tecnologia Sanitária, no Centro Superior de Educação Tecnológica (Ceset) da Unicamp. Através de remanejamento interno ingressou no curso de Biologia, no período noturno. Daniel conta que nessa época começou a estagiar no laboratório da sua orientadora. "Durante algum tempo participei da triagem do Programa Biota (Projeto: Biodiversidade Bêntica Marinha) e foi a partir daí que adquiri os primeiros conhecimentos sobre taxonomia", explicou. Aluno de notas boas, Daniel transferiu-se para o período diurno e começou a participar de novas atividades no laboratório e, também, a aprender coisas mais específicas sobre taxonomia, como identificar as famílias e espécies de crustáceos.
Algumas disciplinas, segundo Daniel, foram fundamentais para o seu aprendizado e, também, para reafirmar o seu interesse pela zoologia, particularmente pela biologia marinha. "Comecei a pesquisar a bibliografia, a partir da qual escrevi um projeto e, em 2003, quando concluí minha graduação, participei do processo seletivo para o mestrado em Ecologia. Fui aprovado e, em 2004, iniciei meus trabalhos", revelou.
Sobre essa sua fase acadêmica, Daniel disse que foi uma experiência nova e desafiadora. No início, segundo ele, parecia uma coisa impossível da qual não daria conta. "Até a questão da triagem do material no início eu tinha muita dificuldade. Mas acabei gradativamente ficando mais acostumado e melhorando minha prática. Aprendi rapidamente a questão da taxonomia, os nomes, e depois de um tempo já conseguia identificá-los", contou.
Um fator que colaborou decisivamente no seu trabalho de identificação foi a excelente acuidade visual que possui. "Conseguia ver os animais bem pequenos que os outros não conseguiam. Eu me lembro que na época da triagem do Biota eu conseguia ver algumas coisas que, apenas com o aumento da imagem, outras pessoas conseguiam ver. A minha dificuldade está na questão da coordenação motora fina e, dessa maneira, o processo de triagem demorou um tempo maior para ser finalizado", comentou Daniel.
Para Daniel, o trabalho tem uma importância muito grande uma vez que o conhecimento nessa área, mesmo de taxonomia de gamarídeos, é relativamente limitado. A respeito da questão dos hábitos de vida e também da biologia desses animais, Daniel realizou uma pesquisa bibliográfica relativamente extensa. "Encontrei algumas espécies de anfípodes que não foram encontrados nos últimos trabalhos, especificamente nessa alga estudada. Isso mostra que a fauna existente nela parece ser bem diversa e, com hábitos de vida diferentes. do que a encontrada na alga sargaço que é a mais estudada", afirmou.
Dificuldades - Nascido em São Paulo (SP) e morando em Campinas desde os nove anos, Daniel revela também que todo esse processo foi bastante difícil. O autismo e, conseqüentemente, a síndrome de Asperger só foram detectados quando ele tinha 23 anos. "Não havia a possibilidade de um diagnóstico preciso antes disso porque o conhecimento sobre isso é bem recente, principalmente no Brasil. Há dez anos atrás nem tínhamos idéia do que seria", observou.
Teve uma ajuda muito grande por parte da Associação para o Desenvolvimento dos Autistas em Campinas (Adacamp), inclusive na sua auto-estima. "Fiz várias palestras e fui gradativamente perdendo a inibição para falar em público. Até temia em dar uma aula. Porém, com a ajuda da Adacamp e o apoio fundamental dos meus pais e da Fosca, comecei a ver que tinha condições de falar em público e colocar minhas idéias da forma mais clara possível. Cada pessoa, dentro de sua limitação, vai tentando superar seus limites. Passei por um processo de seleção relativamente rigoroso e apesar das minhas dificuldades eu consegui me adequar e consegui trabalhar com as coisas que eu mais gosto e ao mesmo tempo podendo contribuir para a pesquisa. Fiquei muito feliz por isso e acho que consegui atingir os meus objetivos", concluiu Daniel.
Para Fosca, nada será como antes. "Mudou tudo no meu laboratório. Tivemos que superar várias dificuldades, vários limites pois muitas vezes as pessoas, entre as quais me incluo, não estão preparadas para receber pessoas que diferem um pouco do padrão esperado. De uma maneira geral o Daniel foi muito bem recebido, recebeu ajuda de todos no laboratório e a gente viveu aqui uma experiência nova e acho que todos amadurecemos muito", disse ela.
A orientadora conta que Daniel foi bem nas disciplinas, sendo aprovado em todas. "Posso dizer que nunca foi favorecido em qualquer momento. O sucesso dele no desenvolvimento da tese, veio em função da capacidade que ele apresenta. Se ele teve que estudar mais, e se adequar, acho que faz parte do aprendizado e das dificuldades de qualquer atividade", disse Fosca.
Segundo ela, o trabalho científico que ele desempenhou nada tem a ver com a síndrome. Ele concluiu o trabalho como um pesquisador. Em nenhum momento o fato dele ter a síndrome serviu para favorecer o seu desempenho. "Ele desenvolveu um trabalho científico de maneira correta, com metodologia correta e, portanto, pode ser publicado em periódico científico como o trabalho desenvolvido por qualquer outro aluno do meu laboratório. É um trabalho importante porque traz informações novas especialmente sobre a composição faunística ", concluiu Fosca.
(Jeverson Barbieri)
Foto: Antônio Scarpinetti
Edição de imagens: Natan Santiago
==
* Comente esta notícia * Índice do Portal Unicamp * RSS * Jornal da Unicamp * Agenda de eventos da Unicamp