[27/9/2004]
[28/9/2004] A Unicamp formalizou segunda-feira (27) uma parceria com o Serviço Aerotático da Polícia Civil do Estado de São Paulo que permitirá agilizar o procedimento para transplantes. O convênio garante a utilização de um helicóptero da instituição no transporte da equipe de captação e retirada de órgãos. A medida diminuirá o tempo entre a retirada e o implante, o que também deverá reduzir o índice de rejeições.
Os termos constantes do convênio não atendem especialmente a Unicamp, mas qualquer unidade ligada à Organização de Procura de Órgãos (OPO/HC/Unicamp), responsável pela procura, captação, orientação, treinamento e promoção de campanhas no sentido de aumentar a doação de órgãos em uma região de cobertura de aproximadamente 120 municípios.
A operação deve priorizar o transporte de órgãos que têm menor tempo de manutenção após a retirada. No caso do coração, por exemplo, este tempo seria de apenas quatro horas. O rim resiste 36 horas. O coordenador geral da Organização de Procura de Órgãos (OPO), Adriano Fregonezzi, explicou que, ao ser retirado, o órgão deixa de ser oxigenado. Para que o metabolismo não continue alto e a célula morra, é necessário abaixar a temperatura, colocando-o numa caixa com gelo. "O helicóptero ou o avião otimizam o tempo do transplante. Quanto menor o tempo de isquemia fria, maior a chance de o transplante dar certo", esclarece.
No Brasil, segundo Fregonezzi, 60 mil pacientes esperam por um transplante. Desse total, 20 mil estão no Estado de São Paulo. O Hospital de Clínicas da Unicamp vem desempenhando importante papel nesse contexto. Desde 1984, quando foi realizado o primeiro transplante na unidade, o número de operações desse tipo vem aumentando significativamente. Só esse ano, já foram realizados 61 transplantes de rim, 56 de medula, 80 de córnea, 22 de fígado e 1 de coração. (Veja tabela).
Entretanto, apesar da evolução crescente no número de transplantes a relação de doadores ainda é pequena. Segundo Fregonezzi, o panorama é de cinco doadores por milhão de habitantes. No período de janeiro a setembro de 2003, havia 30 doadores de órgão múltiplos. No mesmo período de 2004, o número dobrou para 60, porém as campanhas de doação devem ser contínuas.
Vida nova – Ex-pacientes que ganharam vida nova após receberem um transplante são unânimes em destacar a importância das campanhas de doação de órgãos. "Estou vivo graças a Deus, acima de tudo. Mas se a família do doador não assinasse o termo de doação, talvez eu não estivesse aqui", diz o empresário Dalécio Pastor, de 60 anos. De bem com a vida, o quinto paciente transplantado na Unicamp diz que o transplante o rejuvenesceu. A angústia experimentada durante um ano, após ter o fígado comprometido por contrair Hepatite C, foi sanada em 1996, com o transplante realizado pela equipe de Adriano Fregonesi. Ele recebeu os órgfãos de um rapaz de 18 anos que teve morte cerebral. "Os órgãos dessa iriam apodrecer, e eu também", diz. Graças à consciência de sua família, estou aqui, vivo, e tenho uma filha de 6 anos", completa.
A auxiliar de informática Débora Pereira Fernandes Domingues também ganhou fôlego novo após sete anos de espera na fila para receber um rim. "Desconheço o doador, mas a operação mudou minha vida", conta. Segundo ela, o transplante lhe devolveu o prazer das coisas simples. "Viajar sem precisar apressar o desejo de voltar. Tomar água na quantidade que se deseja, alimentar-se do que tem vontade, viver sem ter de depender de máquina alguma; liberdade, acima de tudo", destaca Débora. " A benevolência e tomada de atitude de um outro ser me possibilitou deixar para trás uma vida de angústia, incertezas, depressão e as sessões de hemodiálise".
(Maria Alice da Cruz)
Fotos digitais: Neldo Cantanti