Skip to content

Di Giovanni: invasão está na contramão dos movimentos sociais

[20/6/2007] (Correio Popular - Opinião - 21/06/2007)

A dissidência do homo sapiens

GERALDO DI GIOVANNI

O grande ensaísta Terry Eagleton, da Universidade de Manchester, disse em algum momento que a principal característica dos radicalismos contemporâneos é a ignorância. Os radicais de hoje desconhecem por completo a história dos movimentos sociais do passado, seja do ponto de vista de sua inspiração (libertária ou autoritária), seja do ponto de vista de seus métodos (pacifismo ou violência), ou seja, ainda, do ângulo de sua pertinência ao campo do estado democrático (legal ou ilegal). Isso parece ser verdade.

Se nós procurarmos entender o que vem se passando com o recente surto de invasões de unidades universitárias, vamos nos deparar com um universo caótico de práticas, violências e discursos que acabam sempre se negando uns aos outros.

Se tal discurso – nem sempre coerente – reveste-se de elementos libertários, como a autonomia universitária e a democratização dos processos decisórios, contraditoriamente, a prática verdadeira é a violência facista: arrombamento de portas e instalações, impedimento da locomoção de pessoas, violação do direito de trabalhar e estudar, profanação do espaço institucional com festinhas regadas a álcool e infladas por outros odores. O conjunto todo emite ainda uma simbologia sombria.

Quem viu as fotos da primeira invasão, a da Reitoria da Unicamp, e deparou com pessoas encarapitadas nos telhados, com máscaras improvisadas com camisetas, não saberia distinguir um ato "estudantil" de uma rebelião de presídio, pois o efeito estético é exatamente o mesmo. E talvez a retórica também o seja, na medida que sua conotação revela uma espécie de marginalidade voluntária, assumida por grupelhos políticos, às vezes mais, às vezes menos organizados, que se recusam ou não conseguem – por pura ignorância ou também por burrice – adentrar o universo do diálogo democrático, regrado por normas institucionalizadas de convivência, fruto de um longo processo civilizatório.

Entretanto, por princípio, é sempre necessário compreender os radicalismos. Muitas vezes eles surgem por falhas institucionais que não permitem a expressão das demandas geradas na dinâmica da vida social e dos processos políticos, alijando grupos e comunidades das possibilidades de participação cidadã. Outras vezes, são respostas a situações autoritárias que se sobrepõem às regras institucionais. Não parece ser esse o caso das universidades paulistas, que vêm aperfeiçoando nas últimas décadas seus arranjos institucionais e suas formas internas de participação política, seja pela via de seus órgãos diretivos (departamentos, congregações, conselhos, entre tantos outros), ou seja pela via associativa (associações de docentes, sindicatos e diretórios estudantis). A institucionalidade de nossas universidades nos dias de hoje permite que todas as questões sejam solucionadas dentro da legalidade, da legitimidade e das boas práticas da sociabilidade política democrática.

Mas como então explicar tal surto de radicalismos? De um lado, trata-se de uma profunda ignorância sobre a natureza e os processo de participação política democrática vigente, o que poderia ser corrigido com um bom esforço pedagógico. De outro, trata-se de burrice e oportunismo (dos quais Eagleton não fala) de grupos atavicamente ressentidos que, dentro ou fora das academias, são os perdedores constantes no advento de nossa jovem democracia, Para eles a universidade e seu papel social não importa. O que lhes é caro, além de seus próprios interesses pessoais ou políticos, é a interminável sucessão de confrontos, não com pessoas ou instituições, mas com a democracia. É a dissidência do homo sapiens.

Geraldo Di Giovanni é professor aposentado, ex-diretor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da mesma universidade

==
* Comente esta notícia * Índice do Portal Unicamp * RSS