[19/11/2009] “As especificidades em saúde vêm adquirindo importância crescente. Conhecer as características de determinados grupos populacionais – no caso de hoje, enfocando pessoas idosas, negras e de diversas orientações sexuais – permite respeitá-los em sua integralidade, orientar uma atuação destinada à superação de suas vulnerabilidades específicas e alcançar o que nós todos pretendemos e temos como utopia: a equidade na saúde”, afirmou a pesquisadora Estela Maria Garcia Pinto da Cunha, do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp, em mais uma edição do Fórum Permanente e Interdisciplinar de Saúde, realizada nesta quinta-feira (19), no Centro de Convenções.
Sob o tema “Promoção da Saúde, Populações Específicas e Empoderamento”, o evento organizado pelo Nepo, Centro de Estudos de Línguas (CEL) e Instituto de Pesquisas Especiais para a Sociedade (IPES) teve a proposta de discutir a saúde como uma das dimensões que levem a transformações sociais. Além das palestras sobre as especificidades na atenção à saúde, foram apresentados no Fórum os resultados das experiências de promoção da saúde em Campinas e Pedreira, como parte do convênio Programa Comunidade Saudável (OPAS-OMS/Unicamp).
Ao falar sobre “Saúde e População Negra”, a pesquisadora Estela da Cunha lembrou que o Brasil possui cerca de 50% dos seus habitantes autoclassificados como negros – é a segunda maior concentração no mundo, superada apenas pela da Nigéria. “Em função do processo histórico iniciado com a escravatura a partir do século 16, foi se dando uma construção social de desigualdades e oportunidades entre brancos e negros, que condicionou e condiciona a forma de viver desses grupos, tornando evidentes as disparidades das condições e da qualidade de vida”.
Segundo a pesquisadora do Nepo, os mapas da pobreza no país se sobrepõem aos mapas da distribuição por raça ou etnia. “Isso implica que os negros ocupam as posições menos qualificadas, apresentam níveis de instrução mais baixos, residem em áreas que oferecem menos serviços de infraestrutura básica e sofrem as maiores restrições de acesso aos serviços de saúde – que, quando prestados, são de pior qualidade e de menor resolubilidade”.
Citando outras fontes, Estela da Cunha observou que, entre os negros, o risco de morrer por tuberculose é 70% maior; que as mulheres negras grávidas morrem mais de causas maternas, como por hipertensão gravídica; que as crianças negras morrem mais por doenças infecciosas e desnutrição. “Na pesquisa, 31% das mulheres negras que estavam grávidas declararam não ter desejado a gravidez, o que denota um problema de informação ou de resistência do parceiro ao uso da contracepção. A percentagem de partos normais com alívio da dor, através de medicação, era de 34% entre as brancas e de 27% entre as negras”.
De acordo com a pesquisadora, há um consenso entre diversos estudiosos sobre três agrupamentos de doenças e agravos com maior prevalência na população negra brasileira: as doenças geneticamente determinadas, tais como anemia falciforme, deficiência de glicose6-fosfato, foliculite; as adquiridas em condições desfavoráveis, entre as quais, desnutrição, anemia ferropriva, doenças do trabalho, DST/Aids, mortes violentas, mortalidade infantil elevada, abortos sépticos, sofrimento psíquico, tuberculose, transtornos psíquicos (derivados do uso abusivo de álcool e outras drogas); e as de evolução agravada ou tratamento dificultado, como hipertensão arterial, diabetes melito, coronariopatias, insuficiência renal crônica, câncer e miomatoses.
Estela da Cunha está envolvida na implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, reconhecida pelo governo federal, já uma realidade em estados como São Paulo. “Essa política define princípios, objetivos, estratégias e responsabilidades de gestão. Ela inclui ações de cuidado, promoção, prevenção, gestão participativa, produção de conhecimento e formação de trabalhadores da saúde para a promoção da equidade em saúde da população negra”.
Idosos trazem novos desafios
Nos últimos anos, o Brasil passou por transformações demográficas e epidemiológicas que, por sua vez, mudaram a estrutura por sexo e idade da população, em que os idosos vêm adquirindo uma importância relativa, além de aumentarem em volume absoluto. “O fenômeno desse envelhecimento nos coloca novos desafios no campo da saúde, provocando a necessidade de prestarmos muita atenção a esse grupo, que requer tratamentos específicos e uma visão bem mais humanista na ação em saúde”, comentou Estela da Cunha.
O médico Jamiro da Silva Wanderley, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), que concedeu a palestra sobre “Saúde do Idoso”, atentou que as pessoas com mais de 60 ou 65 anos já não trazem a imagem de degeneração física e de prenúncio de morte. “Quando Jesus Cristo passou por aqui, a expectativa de vida era de 40 anos; no Brasil dos anos 1970, era de pouco mais de 50, e nossos poetas morriam jovens, de tuberculose e infecções. Hoje, a maior parte dos idosos não segue por esse caminho e chega com melhores condições de saúde; há pessoas de 70 anos que não se acham idosos”.
Entretanto, não temos apenas idosos saudáveis, conforme Jamiro Wanderley, que soma aqueles que vivem sob tratamento constante e outros que acabam abandonados. “Somos os velhinhos de amanhã e é importante saber como estamos cuidando da nossa saúde e dos nossos relacionamentos. O avô chato, que reclama do barulho dos netos e recusa convites de amigos para sair, vai ficando cada vez mais isolado. O confinamento é algo que ele mesmo cultivou”.
Do ponto de vista da saúde física, o médico ressalta os avanços na medicina que contribuem para esta longevidade, mas também vira o lado da moeda. “A pessoa idosa é acometida de vários males que se associam. Ela passa pelo gastro, pelo cardiologista, pelo dermatologista; começa tomando alguns remédios e depois precisa recorrer a outros para combater os efeitos colaterais dos anteriores. Muitas vezes, só precisava ser ouvido e exercer alguma atividade em que se sentisse importante e não apenas um bibelô da casa, sem direito a voz”.
Wanderley defende a ampliação e aprimoramento de programas que incorporem os idosos a atividades variadas, como reuniões para troca de ideias e viagens. “Já temos muitas organizações que promovem esse acolhimento aos idosos, que continuam merecendo o nosso respeito, apesar das suas manias e dificuldades. Hoje temos mais instrumentos para oferecer esse convívio e maior acesso aos cuidados com a saúde para que todos cheguem em melhores condições lá na frente”.
Mulheres com baixo acesso à saúde
A pesquisadora Regina Barbosa, do Nepo, tratou do tema “Saúde e Diversidade Sexual” recorrendo a uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo com foco em mulheres homossexuais. “Procuramos entender porque mulheres com práticas homoeróticas não conseguiam chegar ao serviço de saúde. Uma das questões centrais é que a própria organização do serviço pressupõe que todas as pessoas são heterossexuais. Não se pergunta ao usuário qual é sua orientação. Vimos casos de meninas que se relacionam com outras e às quais solicitaram testes de gravidez ou indicaram métodos de anticoncepção. É a forma como o serviço de saúde está organizado”.
Outra dimensão importante, na opinião da pesquisadora do Nepo, é o preconceito por parte de profissionais da saúde. “Uma ideia ligada ao preconceito, embora não inteiramente, é de que mulher que procura outra mulher terá um estereótipo sempre masculinizado, o que absolutamente não é verdadeiro. Se o profissional não enxerga e não se informa sobre essas mulheres, também não vai perceber suas diferenças”.
Segundo Regina Barbosa, o estudo aponta ainda que algumas das mulheres não se sentem afetadas por questões relacionadas com a saúde reprodutiva. “Dentro desta lógica da medicina voltada ao pressuposto de que a sociedade, em princípio, é heterossexual, elas percebem o ginecologista como um médico que atende mulheres apenas para que tenham filhos; ou, também por falta de informação, como um médico que trata de DSTs, que elas veem como doenças transmitas por homens”.