[18/11/2009] Lutar pela revisão do conteúdo programático da residência médica, aumentando sua duração de dois para três anos, a fim de que um ano inteiro seja dedicado a hematologia e hemoterapia; buscar a valorização dos médicos da área, que vêm perdendo espaço para outras especialidades como a oncologia; garantir maior segurança na transfusão de sangue através da implantação na rede do teste de ácidos nucléicos (NAT) para reduzir a transmissão de doenças, particularmente de hepatite C; internacionalizar a Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, com a sua publicação em língua inglesa.
Temos acima algumas das principais bandeiras levantadas pelo professor Cármino Antonio de Souza, coordenador do Hemocentro da Unicamp, que acaba de ser eleito presidente da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH). Ele é o primeiro a presidir uma entidade que ressurge da reunificação da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia e do Colégio Brasileiro de Hematologia, que estavam separados há 45 anos. Recebeu mais de 50% dos votos na eleição realizada durante o maior evento da especialidade da América Latina, o Hemo 2009, em Florianópolis (SC), há uma semana.
Natural da cidade de Santos, Cármino de Souza considera-se “filho da Unicamp”, onde está desde a graduação em medicina e hoje atua como professor titular de Hematologia e Hemoterapia, disciplina que ele próprio implantou na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), onde também é chefe da Unidade de Transplante. É responsável ainda pela criação do Hemocentro em 1985 e foi secretário estadual da Saúde no governo de Luiz Antonio Fleury Filho (1991-95).
“A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia é mais velha do que eu e a sociedade americana. Nasceu no Hotel Quitandinha, Rio de Janeiro, na presença de apenas quinze hematologistas. Passados 15 anos, houve uma briga política, cujo motivo não se sabe ao certo, o que resultou na cisão e criação do Colégio Brasileiro de Hematologia. Com o tempo, a memória da briga foi se apagando, os mais jovens nunca entenderam essa divisão”, recorda o especialista.
Por volta de 2004, as duas diretorias decidiram estabelecer uma agenda de fusão. Os eventos, por exemplo, passaram a ser promovidos conjuntamente, com custos e lucros partilhados. “A fusão foi aprovada em novembro de 2008, em assembléias individuais, iniciando-se uma gestão pró-tempore com ambas as diretorias. Os presidentes dividiram a gestão neste ano de 2009 e, curiosamente, compartilhei a diretoria científica com o professor Fernando Costa, reitor da Unicamp – eu pela Sociedade e ele pelo Colégio”.
O novo presidente acrescenta que no correr desse ano se elaborou o estatuto, com o posterior registro da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. “O primeiro desafio trazido pela fusão é a extinção formal das duas entidades anteriores, visto que cada qual possui seus funcionários contratados e respectivos patrimônios. É um trabalho jurídico-institucional para fazer com que Associação exista efetivamente”.
História única
Segundo Cármino de Souza, sua gestão será baseada em três pilares: educacional, profissional e científico. “A história da hematologia no Brasil é diferente de todos os demais países, pois abriga dentro dela a hemoterapia, sendo que ambas formam uma única especialidade. Este modelo construído – e não importado – foi fundamental para vencer desafios como da transmissão dos vírus HIV e de hepatite C por transfusão de sangue”.
O docente da Unicamp esclarece que a hemoterapia envolve conhecimentos médicos, técnicos, gerenciais e investigativos da transfusão, enquanto a hematologia, que em sua origem cuidaria do diagnóstico e tratamento das doenças do sangue, agora também se estende à área transfusional. “Provavelmente, nosso profissional é mais completo. Não se trata de uma especialidade que se baste totalmente, mas devido à sua área de abrangência, ela necessita de pouco suporte externo além das técnicas de imagem e da infectologia. Juntando hematologia e hemoterapia, há um espectro enorme de atuação”.
O sangue no Brasil é comparável ao de países do primeiro mundo por causa desta qualificação, que foi sendo adquirida ao longo das últimas décadas, conforme o presidente da ABHH. “O hematologista teve um papel importante para que atingíssemos esse nível de qualidade. Veja que praticamente todos os diretores de hemocentros ou de setores de transfusão em hospitais de grande porte são hematologistas por formação”.
Residência médica
Em relação ao pilar educacional de sua gestão, Cármino de Souza toma a questão da residência médica como prioritária, defendendo uma revisão de conteúdo programático. “Vemos que os dois anos para a formação de um hematologista e hemoterapeuta são insuficientes. Minha opinião é que o programa de residência deve ser aumentado para três anos, concedendo-se um ano inteiro para a especialidade, que hoje ocupa penas 20% da carga, ou seja, quatro meses. É muito pouco para formar profissionais de uma área tão complexa e avançada do ponto de vista tecnológico”.
Outra preocupação do professor da FCM está em motivar o jovem médico para a hematologia, em detrimento da atração exercida por especialidades mais em voga, como de imagem, oftalmologia e dermatologia. “A hematologia está em expansão, havendo emprego para todos e em qualquer lugar. Um problema das cadeiras clínicas e cirúrgicas é que a metade das vagas na residência médica não é preenchida. Pretendemos promover um simpósio no próximo ano para abordar o tema, reunindo professores de todo o país”.
Em defesa do profissional
No que se refere ao profissional que já está no mercado, o presidente da Associação considera que o hematologista vem perdendo terreno para outras especialidades, principalmente para a oncologia. “Historicamente, quem trata de doenças onco-hematológicas como a leucemia é o hematologista, que tem seu mercado invadido por quem, às vezes, não possui formação para isso. Outro aspecto que denota a desvalorização do nosso profissional é o pagamento dos procedimentos conforme tabela da Associação Médica Brasileira de quinze anos atrás. A luta vai ser pela nova tabela, que está pronta há mais de cinco anos”.
De acordo com Cármino de Souza, no campo do exercício profissional há a preocupação com a segurança transfusional, já que a seu ver, em geral, ainda não se faz o melhor no país em termos de controle de qualidade. “Precisamos implantar urgentemente o teste chamado NAT (teste de ácidos nucléicos) que vai reduzir bastante a transmissão de doenças, particularmente do vírus C da hepatite – problema gravíssimo que leva a hepatite crônica, cirrose e câncer de fígado. Estima-se que existam três milhões de portadores sãos, que não manifestam a doença, muitos doando sangue”.
Internacionalização da revista
O presidente assegura o apoio da ABHH a todas as iniciativas de caráter científico, considerando que a hematologia brasileira é extremamente competitiva e produz uma ciência reconhecida mundialmente. “Estamos prontos para internacionalizar a Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, que está completando dez anos e já cumpriu todas as suas metas no âmbito nacional. Vamos criar um conselho de política editorial formado por eminentes especialistas e lançar a publicação em inglês. A ideia é garantir aos colaboradores o mesmo impacto que seus artigos têm quando publicados em revistas do exterior”.
Cármino de Souza afirma, sem medo de errar, que a hematologia ocupa a liderança em publicações da área médica no país, embora seja uma especialidade pequena, com cerca de 1.500 médicos hematologistas. “Sabemos informalmente que a hematologia está muito bem no ranking brasileiro de pesquisadores. Também devemos ressaltar seu caráter multiprofissional, existindo enfermeiras, fisioterapeutas, biologistas, biomédicos e dentistas que se especializaram no trabalho com doentes hematológicos”.