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Benedito Nunes fala de seu ‘caminho na crítica’ ao ser homenageado na Unicamp

Edição das imagens: 
Luís Paulo Silva

Benedito Nunes: sinto-me um pouco póstumo

[12/11/2009] Benedito Nunes, corpo franzino, mas filósofo e crítico literário de estatura internacional, marcou presença no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp na quarta-feira (11). Veio prestigiar o segundo de uma série de quatro eventos em sua homenagem - Rio de Janeiro, Unicamp, USP e Belém – no mês em que completa 80 anos de idade. “É embaraçoso. Não posso deixar de me sentir um pouco póstumo, que morri e estão falando de mim; ao menos, que falem bem”, brincou.

No congresso “Benedito Nunes, o diálogo entre literatura e filosofia”, o homenageado deu a conferência magna que intitulou “Meu caminho na crítica”. Começou lembrando o primeiro livro que leu, A caçada da onça, de Monteiro Lobato – bem como da imagem dos caçadores do Sítio do Pica Pau Amarelo, Pedrinho à frente, rebocando a onça já morta – e terminou com reticências aos pensamentos de Heidegger, o filósofo alemão de quem preferiu se afastar por ora, temendo cair no “heideggerismo”.  

O autor assina um exemplar de ‘A clave do poético’, o primeiro de sete livros com ensaios esquecidos na bibliotecaA forma como Benedito Nunes promoveu a aproximação entre literatura e filosofia, analisando uma em função da outra e como elas se entrosam (ou não), vem sendo o mote dos debates envolvendo inúmeros pesquisadores do país nos eventos em sua homenagem. “Desde Kant, a filosofia também foi chamada de crítica. Não sei por qual das críticas comecei, se foi pela literatura ou pela filosofia. O fato é que este nexo tornou-se, para mim, um privilegiado objeto de reflexão”.

Antes da conferência, o intelectual paraense falou um pouco da sua trajetória no mundo das letras, que foi toda construída a partir de Belém – longe do eixo São Paulo-Rio, porém mais perto da Europa. Conta que não conheceu o pai, de quem herdou o mesmo nome e que morreu no mês anterior ao do seu nascimento em novembro de 1929. “Meu pai me deixou livros. Tive a sorte desse incentivo que veio de longe, sem nada de sobrenatural, mas que me influenciou desde o início”. 

Tratava-se de parte da biblioteca da família, já que a outra parte estava em São Paulo, com o tio Carlos Alberto, que também lhe enviava muitos livros. Alguém disse que aprendeu a ler aos 4 anos, mas Benedito acha que isso se deu um pouco mais tarde. Foi educado pela tia, em casa, onde funcionava a Escola Sagrado Coração de Jesus, e depois do quinto ano passou pelo exame de admissão no Colégio Moderno.  

Já estava combinado com o tio que viria estudar filosofia em São Paulo, mas acabou cursando a Faculdade de Direito do Pará, que mais tarde seria incorporada pela Universidade Federal do Pará (UFPA). “Meu tio era dono de um banco, que faliu. Fiz direito, mas comecei a dar aulas de filosofia no secundário e depois na universidade; sou um dos fundadores do curso. Numa família muito religiosa, sentia a pressão das crenças e também uma rebeldia em relação a isso. A filosofia foi o apoio que encontrei para sustentar essa rebeldia”. 

Os primeiros ensaios surgiram um pouco antes da década de 1950, no suplemento literário do jornal Folha do Norte, fundado e dirigido por Haroldo Maranhão. “Era um suplemento muito bom, que publicava de trovadores e poetas locais a nomes consagrados. Eu escrevia em forma de retalhos, uma mistura de literatura e filosofia, como trechos de uma confissão – ‘Confissões solitárias’. Passei a colaborar com o Jornal do Brasil, no tempo em que Mário Faustino tinha uma página de poesia, e fui chamado também pelo O Estado de S. Paulo”.

Embora Belém tenha sido sempre seu porto, Benedito Nunes navegou por outras universidades brasileiras (inclusive a Unicamp, dando aulas de estética no IEL recém-criado por Antonio Candido) e também da França e dos Estados Unidos. “Tenho a impressão de que esse movimento de sair para o estrangeiro e depois voltar ao meu lugar – de afastamento e retorno – foi muito importante. Agora estou aposentado e leciono somente onde quero e quando quero”.  

Personagem aglutinador
Maria Eugênia Boaventura, do IELExtremamente solícito e bem humorado, Benedito Nunes também é humilde demais para falar de suas qualidades. Os elogios ficam por conta da professora Maria Eugênia Boaventura, do IEL, que passou uma temporada em Belém na década de 90, convidada para reorganizar e republicar um livro do filósofo com os poemas de Mário Faustino. “É interessante como ele construiu sua vida de Belém, de onde vai mais à Europa do que vem a São Paulo. Fez sua carreira com muita persistência, determinação”.

Segundo Maria Eugênia, Benedito Nunes era e continua sendo um elemento aglutinador de jovens, escritores, poetas e pesquisadores em Belém. “Não esqueça que foi amigo de Mário Faustino, com quem agitava a cidade nos anos 40. Lá também moraram grandes escritores, inclusive Clarice Lispector, e havia um jornal importante, a Folha do Norte, que publicava as mesmas críticas que saiam nos jornais do ‘sul maravilha’”. 

A docente da Unicamp refere-se ao filósofo e crítico literário como “o bruxo de Belém”, conhecido e bem recebido por todos. “Uma carta que tenha no envelope apenas o seu nome, certamente vai chegar à sua casa. É uma figura humana incrível, de generosidade e simplicidade a toda prova. Pude constatar a sua forte influência na vida cultural local, juntamente com a mulher [Maria Silvia], especialista em ópera que promove inúmeros eventos no belo teatro da cidade”.  

Livros trazem ensaios esquecidos
Victor Pinheiro, que coordena as atividades do mestre: ajudando também na reedição de ‘O dorso do tigre’, depois de 40 anosTal como o mestre, Victor Sales Pinheiro é formado em direito e apaixonado por filosofia (tendo mestrado e iniciando o doutorado) e coordena as atividades que Benedito Nunes desenvolve no Centro de Cultura e Formação Cristã (CCFC) da Arquidiocese de Belém. “Ele é professor emérito aposentado da UFPA, mas continua ativo dando cursos e participando de seminários literários e filosóficos. Eu passei a ajudá-lo e a me interessar por sua obra”.  

Com acesso à biblioteca do intelectual, Victor Pinheiro se deparou com um vasto material esparso – ensaios publicados em revistas e jornais, separatas e alguns inéditos – que vão resultar em sete livros. “Encontrei mais de 200 ensaios, que organizei em pastas e mostrei a ele, recebendo sua autorização para procurar as editoras. A acolhida tem sido muito boa, pois é uma obra original, importante e profunda”.  

O primeiro livro é A clave do poético” (Companhia das Letras), organizado por Pinheiro e lançado nesta quinta-feira na USP, em evento similar ao realizado na Unicamp. “O livro traz uma parte com crítica, teoria e história literária, e outra com críticas de autores como Drumond, Clarice Lispector e clássicos como Machado de Assis, Euclides da Cunha e Padre Vieira. Também ajudei na reedição de O dorso do tigre, clássico de 1969 que volta depois de 40 anos pela Editora 34”.

Benedido Nunes, homem das letras.

Quantas forem as homenagens a Benedito Nunes ainda serão poucas. Isso pelo simples fato de ele ser um dos grandes pensadores brasileiros. O seu caminho na crítica, iniciado nos anos 40, foi simplesmente algo fora dos parâmetros, posto que, num momento em que o modernismo paulista já se gabava de ter ocupado as mentes literárias do país, Bené e alguns amigos como Haroldo Maranhão, Alonso Rocha e Max Martins fundaram a Academia dos Novos, lugar onde cultivavam uma literatura fortemente parnasiana. Depois que o mestre Francisco Paulo Mendes falou em modernismo, em palavras soltas, sem rimas, os jovens começaram a deixar o passadismo. Benedito Nunes, a partir desse momento iniciou seu novo estilo na poesia, a qual não deu muitos frutos, por que a seu ofício estava mesmo na filosofia de tendência existencialista e crítica literária. Pode-se ver um pouco dessa história intelectual da Amazônia na minha dissertação (O epicentro do Hotel Central: arte e literatura em Belém do Pará, 1946-1951), disponível no site do mestrado em História social da Amazônia da Universidade Federal do Pará. 
Dawdson Soares Cangussu