[6/6/2006]
[7/6/2006] Representantes de comunidades quilombolas do médio Vale do Ribeira estão na Unicamp em busca de adesões de estudantes e pesquisadores à campanha contra a construção de barragens no rio Ribeira de Iguape, o único grande rio do Estado de São Paulo que ainda corre livremente da nascente até a foz. O evento que começou nesta terça-feira no auditório da Biblioteca Central "Cesar Lattes" – "Barragem de Tijuco Alto: Barreiras ao desenvolvimento do Vale do Ribeira", faz parte do projeto "Quilombos na Unicamp", em parceria com o Ministério da Educação. A temática foi escolhida pelas próprias comunidades quilombolas, que vêem neste encontro um espaço estratégico de articulação e fortalecimento de suas lutas.
A manhã de palestras foi aberta pelo professor Mohamed Habib, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, que deu as boas-vindas aos participantes, ressaltando que muito tem se falado dos impactos ambientais e socioeconômicos do modelo de geração de energia elétrica adotada pelo Brasil nas últimas décadas, mas muito pouco sobre a ameaça ao patrimônio cultural, ao conhecimento popular e à relação homem-ambiente das comunidades locais. "Falamos dessas pessoas apenas como vítimas, mas elas trazem culturas que desenvolveram durante séculos e que devem ser preservadas", afirma.
As comunidades do médio Vale do Ribeira vêem como principal ameaça a construção da Usina Hidrelétrica Tijuco Alto, pela Companhia Brasileira do Alumínio, do Grupo Votorantim. Ela seria construída entre as cidades de Adrianópolis (PR) e Ribeira (SP), afetando diretamente mais três cidades, em cuja área estão comunidades de remanescentes de quilombos e ricos patrimônios naturais e culturais. A bacia hidrográfica do rio Ribeira de Iguape é composta por praias, cavernas, montanhas, rios, cachoeiras e manguezais, e lá estão 20% dos remanescentes contínuos da Mata Atlântica.
Nilto Tatto, do Instituto Socioambiental, que explanou sobre os impactos ambientais das barragens na região, ressalta que o foco não deve ser apenas sobre a Usina de Tijuco Alto. "Este é o discurso de todos do Vale do Ribeira que são favoráveis às barreiras, dando a entender que o objetivo é construir a de Tijuco Alto, e só. Nós sabemos que esta usina faz parte de um projeto maior e sua implantação implicará na construção de várias outras, aumentando a área inundada. A campanha, portanto, é contra todas as barragens", observa.
O professor Oswaldo Sevá, da Faculdade de Engenharia Mecânica, apresentou um mapeamento das outras barreiras já erguidas na bacia e deu explicações técnicas sobre as construções. Ele alertou os representantes do movimento para o fato de que praticamente toda a população brasileira já está servida com energia elétrica e que o único interesse dos grupos econômicos envolvidos com a construção de usinas é captar mais energia para aumentar sua produção. "Ninguém deve ter a atenção desviada, por exemplo, para supostos programas alternativos de geração de energia. Eles não estão interessados nisso", avisa.
A programação do evento na Unicamp prevê para hoje (7) a formação de grupos de trabalho para qualificar o debate acerca da temática e discutir meios de fortalecer o Comitê da Campanha contra Barragens no Rio Ribeira. O Instituto Socioambiental criou uma página aberta à participação dos interessados em ajudar o movimento: www.socioambiental.org
(Luís Sugimoto)
Foto: Antoninho Perri