[15/6/2005]
Madri foi receptiva à experiência de 25 anos em estudos de parto humanizado do obstetra e professor da Unicamp Hugo Sabatino. A Cátedra da Unicamp na Espanha, realizada na Universidade Complutense de Madri (UCM), permitiu a Sabatino apresentar, em primeira mão na Europa, uma tecnologia idealizada e desenvolvida no Brasil: a cadeira obstétrica, que permite a realização de partos de cócoras e exames ginecológicos de rotina. Além da novidade, a cátedra, na sua opinião, foi um meio de levar à Europa um método de atenção ao nascimento próprio do Brasil. "Foi uma inversão do processo, já que, normalmente, as novas tecnologias são trazidas para cá", disse.
Um dos precursores da discussão sobre parto humanizado no País, o autor da cadeira atraiu a atenção de quase 400 profissionais participantes do 1º Seminário Internacional Novas Perspectivas na Atenção ao Parto de Baixo Risco. "A conferência agradou a médicos da mesma linha de pensamento e profissionais de outras áreas da medicina", informou. Como o interesse pelo tema teve uma demanda maior, Sabatino ministrou um curso pós-seminário, com a ajuda da Casa do Brasil em Madri.
A permanência de três meses em território espanhol rendeu algumas parcerias para o aprofundamento e a divulgação do tema em outras universidades espanholas. Segundo Sabatino, foi assinado um convênio entre a Reitoria da Unicamp e da Universidade de Alcalá. A cláusula com relação à colaboração na área de obstetrícia prevê a oferta do cursos de pós-graduação O método de Preparação e Atenção ao parto de Baixo Risco, que está sendo traduzido para o espanhol; o ensino dos procedimentos do parto de cócora; o aprendizado sobre a tecnologia da cadeira e cursos de extensão a profissionais da área de saúde e parteiros sobre o método.
Sabatino disse que a receptividade não foi boa no início, pois "de todas as profissões a medicina é a que resiste mais em aceitar mudanças. É difícil o intercâmbio de comunicações e informações de evidências científicas nesta área", acrescenta. Mesmo existindo um movimento internacional de mulheres pela discussão de processos humanitários no atendimento ao nascimento, utilização dos métodos que são estudados há 25 anos sem autorização para que os procedimentos sejam colocados em prática.
Foram muitos os impasses na história da medicina , que Sabatino se dá o direito de citar alguns exemplos neste trecho de um de seus artigos:
A introdução da anestesia teve um grande impacto tanto sobre a cirurgia ginecológica como a analgesia em obstetrícia. A extração dentaria sob o efeito do óxido nitroso se levou a cabo na pessoa do Horacio Wells pelo Dr. Riggs em 1844. Dois anos mais tarde. James Young Simpson (1811-1870), do Edimburgo, utilizava com êxito o éter em uma paciente obstétrica. No seguinte ano utilizou clorofórmio como analgésico durante o parto. Entretanto, não foi até que John Snow de Londres administrasse clorofórmio à rainha Vitória em 1853, que a anestesia e a analgesia no parto se converteram socialmente aceitáveis. Previamente a isto tanto a lei pública como muitos profissionais médicos realizavam ativas campanhas contra su emprego." (Historia da Ginecologia e Obstetrícia, Edit. M.J. Ou'Dowd and E.E. Philipp, 1995). Estes são alguns exemplos históricos negativos.
(Maria Alice da Cruz)
Foto: Neldo Cantanti