Mau exemplo na telinha

Pesquisa feita nos Estados Unidos
mostra que a TV influencia, sim, o comportamento
de crianças e adolescentes

EURÍPEDES ALCÂNTARA

Quando a TV mostra... AGRESSIVIDADE MEDO INDIFERENÇA
...agressor atraente provoca
...vítima atraente provoca
...violência justificada provoca
...violência não justificada inibe provoca
...armas de fogo provoca
...violência excessiva/detalhada provoca provoca provoca
...violência realista provoca provoca
...violência trazendo benefícios provoca provoca
...violência punida inibe inibe
...dor e indícios de crueldade inibe
...violência temperada com humor provoca provoca

A violência na TV produz violência na vida real? Segundo um dos mais amplos estudos sobre o assunto, divulgado na semana passada nos EUA, a resposta é sim. A violência concentrada dos filmes, seriados e novelas de televisão, sugere o estudo, aumenta o grau de tensão social, insensibiliza as pessoas para os dramas reais do cotidiano e estimula jovens e crianças a reagir com agressividade. Patrocinado pela Associação Americana de Televisões a Cabo, o estudo, cujas principais conclusões estão no quadro acima, envolveu professores e alunos de quatro grandes universidades dos Estados Unidos. Durante o ano passado, os pesquisadores passaram 2.500 horas assistindo a 2.693 programas transmitidos pelas redes de televisão e pelas TVs a cabo nos mais diversos horários, sete dias da semana. Na média, 57% dos programas exibem cenas que podem ser classificadas de violentas.

O estudo, coordenado por uma entidade independente, o Mediascope, da California, é o primeiro do gênero que foi além da simples catalogação do tipo e da frequência com que as cenas de violência aparecem no vídeo. "Todos os programas violentos ensinam às crianças técnicas de brutalidade. Muitos infundem medo nelas, e alguns contribuem seriamente para torná-las insensíveis com relação ao sofrimento dos outros", diz a professora Barbara Wilson, da Universidade de California, em Santa Barbara (UCSB), uma das autoras da pesquisa. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores entrevistaram crianças e seus pais e analisaram os dados à luz das mais modernas pesquisas sobre as causas da violência.

"A Universidade de Santa Barbara foi escolhida para essa etapa da pesquisa sobre TV porque aqui temos longa tradição de estudo do comportamento agressivo das pessoas nas mais diversas sociedades, da tribo ao shopping center", diz o antropólogo Napoleon Chagnon, professor da UCSB especialista nos índios ianomâmis. "Em qualquer época, em qualquer povo, a exposição exagerada a cenas de violência torna os indivíduos insensíveis",diz Chagnon. A pesquisa do Mediascope sugere que a televisão contribui de forma mais acentuada para anestesiar os telespectadores para o sofrimento real das pessoas quando mostra a violência num contexto de humor ou então exibe em detalhes os ferimentos das pessoas.

O medo infundado do mundo real e o incentivo à agressão são fruto, segundo a pesquisa do Mediascope, de outras características muito comuns nos programas da televisão americana: a impunidade dos agressores e a ausência de consequências negativas tanto para os personagens violentos quanto para suas vítimas. "Em 73% das cenas violentas os agressores saem da pancadaria para uma viagem às Bahamas ou vão tomar uma cerveja e dormir como anjos", diz a professora Wilson. Em 58% das cenas violentas, mostra o estudo da semana passada, as vítimas nem sequer sentem dor e em 47% elas parecem ser de borracha porque não sangram nem apresentam ferimentos". "Esse tipo de situação martelada no vídeo todos os dias incentiva a agressividade mesmo na ausência de causas sociais, como, por exemplo, a miséria", diz a professora Wilson. "Acho que conseguimos provar algo que as emissoras de televisão sempre tentaram negar: crianças e adolescentes imitam fortemente os maus comportamentos a que assistem na televisão".


Veja, 14 de fevereiro de 1996, página 88
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