A Ressaca do Prozac e os Milagres da Fala

CONTARDO CALLIGARIS


Contardo Calligaris é psicanalista e autor de "Hello Brasil" (editora Escuta).
Nos últimos dois anos tivemos direito à moda do Prozac. Jornalistas, escritores e psiquiatras -em concerto com o dr. Kramer, profeta da dita droga- vieram nos dizer que a felicidade estava ao alcance de qualquer um que pudesse tomar Prozac com regularidade. Alterar os níveis da sorotonina no cérebro era a panacéia.

Foi quase impossível colocar um pouco de ordem na agitação de bandeiras que se alastrou desde então. Vimos pensadores questionarem as psicoterapias, pois seria a química, e não a palavra, o que comanda o cérebro. E vimos outros atacarem os remédios, como se seu uso contestasse alguma dignidade humana básica.

Em suma, reagiu-se como se psicoterapias e biopsiquiatria não operassem em última instância sobre o mesmo objeto: o cérebro. Felizmente, os profissionais mais sérios não pararam de trabalhar em conjunto, quando necessário.

De fato ninguém duvidava, nem duvida, que alterar quimicamente as funções cerebrais seja possível e oportuno em uma série de casos. Mas não é preciso por isso confundir a cozinha com a ciência: se está provado que Prozac & Cia. Alteram o nível da sorotonina, só conhecemos por via empírica e incerta quais resultados isso implica no estado de espírito do paciente.

Isso apareceu, por exemplo, quando psiquiatras foram convocados como experts pela defesa de um sujeito original que colocou fogo no metrô de Nova York. Eles afirmaram que o coquetel de dois antidepressivos (um dos quais o Prozac) e um antibiótico esteve na origem da incapacidade de entendimento do criminoso durante toda a sua laboriosa premeditação. Mas não nos tinham dito que os efeitos do Prozac eram "cientificamente" conhecidos?

Na verdade só era e é cientificamente certo que o Prozac tem efeitos químicos definidos -o que é ótimo. Agora, quais efeitos psíquicos correspondem a essa intervenção química, já é outra história, da qual é possível indicar algumas tendências (o Prozac é um antidepressivo), mas nada mais preciso.

De fato, são tantos histórias quanto os pacientes, pois as variáveis que entram em jogo dependem da singularidade de cada um -e elas não são apenas os remédios que o paciente absorve. Há também e sobretudo a complexidade de sua história, de suas memórias e de seu estado de espírito. Este, aliás, pode ser apresentado como um equilíbrio químico singular, mas incalculável, demasiado complexo. Por isso não são inteiramente previsíveis as suas reações a uma intervenção -seja ela química ou não.

Na mesma linha, um novo tema está ocupando a imprensa americana ("New York Times", de 15/2/96, e "Newsweek", de 26/2/96). Trata-se de uma experiência interessante, mas curiosamente apresentada como extraordinária descoberta.

Os "Archives of General Psychiatry" acabam de publicar um artigo, resultado de uma pesquisa do dr. Jeffrey Schwartz, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Ele comprovou que terapias não químicas -comportamentais ou cognitivas- alteram a bioquímica do cérebro. Escolheu um sintoma obsessivo compulsivo (tipo verificar dez vezes se o gás está fechado), para o qual os psiquiatras americanos prescrevem habitualmente Prozac, obtendo sucesso em 70% dos casos.

Mostrou, primeiro, que o sintoma é um falha do núcleo caudato do cérebro, o qual tem a função (digamos assim) de endereçar ou não a atenção do córtex orbital para novas coisas. Conseqüência: a gente fica parado no mesmo pensamento.

Ele submeteu então 18 pacientes a uma terapia meio comportamental, meio cognitiva: tratava-se, ao surgir o pensamento obsessivo, de identificá-lo explicitamente como alteração química e de se concentrar sobre alguma outra atividade construtiva.

Depois de dois ou três meses de terapia, 12 dos 18 pacientes se sentiam muito menos obcecados por seus pensamentos compulsivos e -sobretudo- mostravam uma imagem "scanner" do cérebro, onde claramente a atividade do núcleo caudato era modificada, como o seria por uma intervenção química. A experiência mostra que efeitos descritivamente comparáveis de ações tão diferentes quanto uma intervenção química e uma técnica verbal seriam equivalentes do ponto de vista cerebral. É alguma coisa. Mas não deveria ser uma grande surpresa para quem não acredita que o espírito tenha vida distinta do cérebro.

Poderíamos perguntar: será que o dr. Schwartz nunca ficou preso em um engarrafamento, ou foi cortado por um motorista, que ainda expressou dúvidas sobre a moralidade de sua mãe? E nunca lhe passou pela cabeça que as alterações produzidas no seu estado de espírito por tais eventos eram alterações químicas de seu cérebro? Isto não era suficiente para pensar que a conduta e a palavra influenciam o funcionamento cerebral?

O título do artigo da "Newsweek" -"A mente pode curar o cérebro"- deixa pensar que antes da descoberta do dr. Schwartz todos estivessem acreditando na dualidade do corpo e do espírito, ou da alma. E deve ser assim. Por isto, aliás, a biopsiquiatria pôde anunciar tão triunfalmente há anos a banalidade segundo a qual nossa vida psíquica corresponde a estados químicos de nosso cérebro. Por isto, também, agora pode-se anunciar como descoberta que a intervenção química não é o único jeito de alterar nossa vida psíquica.

Somos vítimas de uma contradição cultural. Prezamos a autonomia individual ao ponto de acreditarmos na alma separado do corpo, irredutível à miséria da anatomia. Mas, por outro lado, esta alma tão autônoma é evidentemente desejosa de descansar um pouco, encontrando certezas. Ela acaba assim sonhando com sua própria naturalização, ou seja, com sua redução a uma função biológica. Imaginem que alívio: poder descrever a felicidade e realizá-la em termos de equilíbrio químico, escolher parceiros perfeitos via DNA...

De fato, se o funcionamento psíquico pode ser descrito em termos de química cerebral, seu equilíbrio pode ser alterado quimicamente. Mas é também evidente que a química cerebral é ligada a nossa exposição a um ambiente infinitamente complexo de relações (atuais e memorizadas) com o mundo e sobretudo com os outros com quem cruzamos ou vivemos. Esta relação complexa regula nossas serotoninas e outras.

Para agir rapidamente e sem se questionar muito, é possível esquecer esta complexidade toda e optar por um Prozac bem feito, esperando que venha a reduzir química e diretamente as alterações produzidas pelos avatares de nossas vidas.

Risco: a complexidade esquecida pode se vingar, nos mandando colocar fogo em algum metrô, pois ela é uma variável singular que se interpõe entre a intervenção química e as mudanças de humor produzidas em cada um.

Mas, se o estado de nossa química é um efeito das coisas que nos acontecem, que nos são ditas, que dizemos e pensamos, então é também possível corrigir este estado pelo mesmo caminho que o produziu, ou seja, pela via da palavra e dos atos.

Nesse caso, pode-se escolher entre intervenções mais limitadas, como na terapia do dr. Schwartz, que almejam produzir via palavras uma mudança circunscrita comparável àquela produzida pelo Prozac. Ou então caminhos mais indiretos, como nas psicoterapias todas, onde se trata de obter também o mesmo resultado, mas alterando globalmente o equilíbrio psíquico (e portanto químico) no qual o sintoma está incluído.

Aqui também há riscos: dar sentido diferente, fazer lutos, reconstruir uma história a partir do que nos aconteceu é um processo complicado e que introduz variáveis novas em nossa vida psíquica -por exemplo, as palavras de um terapeuta. Portanto, é um processo aberto, que não pode antever seu fim.

No entanto, graças ao pirômano de Nova York e ao dr. Schwartz, ficaram plantados na mesa dois ovos de Colombo, que talvez acalmem um pouco a chatice das discussões entre freudianos e antifreudianos, psicocoisas e biocoisas:
    1. Os efeitos das intervenções químicas em nossa vida psíquica são rápidos, mas talvez tão incertos quanto os efeitos produzidos pelas palavras e os atos de um psicoterapeuta;

    2. De qualquer forma, atos e palavras modificam nosso cérebro.


    Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 17 de março de 1996, página 3.


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