O
LEGISLATIVO E A DEFESA NACIONAL*
Eliézer
Rizzo de Oliveira**
O presidente da República
comanda as Forças Armadas e dirige a política externa, havendo pouco a
compartilhar com o Poder Legislativo quanto à formulação dos conceitos e
objetivos. No caso da Defesa Nacional, passa-se como se não devesse constar dos
grandes temas que compõem a pauta parlamentar.
Convém entender este
quadro e mudá-lo. Vigora entre nós a percepção social da ausência de riscos
para a defesa do país, pois não temos vizinhos ameaçadores, não existe
corrida armamentista na região e ruiu o sistema da Guerra Fria. Há quem
pergunte para que existem as Forças Armadas. A resposta cabe ao Executivo e ao
Legislativo, que, no entanto, mal incluem a Defesa Nacional em suas preocupações
principais. Ora, não é preciso um risco concreto para o Brasil manter os seus
instrumentos militares adestrados e adequadamente orientados. Basta olhar o
nosso mapa e ver o mundo com os olhos no futuro: a subsistência da República
Federativa do Brasil pressupõe a existência das Forças Armadas, nas quais
nosso Estado soberano construiu um dos seus pilares mais importantes. O outro
pilar é formado pelo conjunto das instituições políticas, estando ambos os
pilares amalgamados pelo contrato social que se expressa na Constituição.
Não percebendo perigo para
a Defesa Nacional, os parlamentares ocupam-se de temas mais prementes aos quais
oferecem respostas efetivas (recursos do orçamento) ou simbólicas (políticas);
deste modo, criam condições para a sua reeleição, profissionais que são da
política. Pois a Defesa Nacional raramente elege alguém e um especialista
neste tema pouco interessará aos partidos, que são destituídos de
conhecimento neste campo. Para dedicar-se à Defesa, o parlamentar há que ser
mais do que representante da sua região: é preciso encarar a dimensão
nacional e internacional do Brasil.
Faltando ao Legislativo uma
cultura estratégica (agradeço ao Almirante Mário César Flores esta expressão
correta), as comissões de Defesa Nacional (que abrigam Relações Exteriores)
subordinam este tema à segurança pública, que é grave e urgente. No entanto,
sem uma especialização temática e sem comissões especializadas, o
Legislativo continuará pesando pouco na Defesa Nacional. Não basta convocar e
reverenciar autoridades militares e o ministro da Defesa. É preciso ao
Legislativo ser protagonista, criar fatos políticos, convidar a sociedade, as
universidades e os centros de pesquisa até mesmo para assessorá-lo.
Fique à consideração dos
parlamentares e partidos algumas sugestões que contribuirão para a ampliação
da participação e responsabilidade do Legislativo na temática da Defesa
Nacional. Primeira, participar das decisões do emprego militar na segurança pública
dos Estados; segunda, participar das revisões da Política de Defesa Nacional;
terceira, pressionar o ministério da Defesa a produzir o Livro da Defesa
Nacional; quarta, incluir parlamentares nos conclaves internacionais sobre
Defesa; quinta, realizar seminários temáticos. Ainda, visando conhecer a
realidade da Defesa Nacional, visitar unidades militares, escolas e tropas,
inclusive no exterior: em decorrência, o Legislativo votará o orçamento da
Defesa com conhecimento de causa.
Em suma, se o Legislativo
considerar a Defesa Nacional na sua dimensão estratégica, portanto, nacional,
ampliará o seu poder neste domínio. Se não o fizer, permanecerá como Poder
subalterno.
*Artigo originalmente publicado no Correio Braziliense, Brasília, 02/05/2002.
**Fundador e membro do Núcleo de Estudos Estratégicos e professor do Departamento de Ciência Política do IFCH/Unicamp.