BRASIL: A DIMENSÃO ESTRATÉGICA DA POTÊNCIA REGIONAL*
Geraldo
Lesbat Cavagnari Filho**
Chamar
países do Terceiro Mundo, que se encontram em processo de desenvolvimento,
de mercados ou potências “emergentes” é apenas uma maneira elegante de
se dirigir a eles, embora se admita a possibilidade real de alguns virem a
ser grandes potências regionais num futuro não muito remoto – como é o
caso da África do Sul, do Brasil e da Índia. Aliás, o debate atual sobre
a possibilidade de o Brasil vir a ser a grande potência sul-americana, num
futuro imediato, não é inédito [1].
Houve
um projeto geopolítico para o Brasil, cujo objetivo era construir uma
poderosa unidade sob a hegemonia brasileira, abrangendo a América do Sul, o
Atlântico Sul e o Pacífico Sul-Americano. Essa possibilidade era admitida
na perspectiva de que o País viesse a ser uma grande potência no século
XXI. A partir da década de 70, o discurso geopolítico enfatizava o
argumento de que ele já poderia ser candidato a esse status
– o de grande potência regional. Tendo em vista sua base de recursos
naturais e o crescimento de alguns indicadores econômicos, o Brasil poderia
ser considerado uma potência média, capaz, dada a dinâmica de seu
desenvolvimento, de desempenhar um papel internacional de crescente
autonomia – o que poderia acelerar sua ascensão na hierarquia das potências.
No auge do chamado “milagre econômico” já se admitia a condição de
potência emergente para o Brasil.
A
possibilidade de o Brasil vir a ser uma grande potência já nas primeiras décadas
do século XXI era a conclusão de um argumento geopolítico, cujas
premissas se apoiavam em evidências geopolíticas e em alguns indicadores
significativos do perfil do País. Do mesmo modo como se apoiava nas
categorias geopolíticas (o espaço e a posição), privilegiando a dimensão
do território, a população, os recursos naturais e a posição geoestratégica,
esse argumento acentuava a condição de maior potência sul-americana, de
primazia entre os países em desenvolvimento, de maior produtor de
armamentos do Terceiro Mundo e de oitava economia do mundo ocidental.
A
construção da grande potência foi se afirmando, no pensamento militar
brasileiro, como tarefa necessária porque seria a conseqüência natural de
todo o processo de desenvolvimento nacional. A grande potência realizaria a
inserção do Brasil, numa posição privilegiada, nas relações de força
mundiais e afirmaria sua hegemonia regional, abrangendo um espaço geopolítico
de interesse ampliado – a América do Sul, o Atlântico Sul, o Pacífico
Sul-Americano e a África Austral –, mas na perspectiva de uma aliança
preferencial com os Estados Unidos. De certo modo, a grande potência seria
para a estratégia o meio principal de exercício da hegemonia no âmbito de
uma pretensa unidade geopolítica [2].
Infelizmente
a grande potência não se realizou e o objetivo geopolítico principal, por
sua vez, não foi atingido porque a hegemonia regional não se afirmou como
objetivo político. Sua consecução poderia implicar o uso da força, não
compensando o investimento militar em confrontos desnecessários com os países
sul-americanos. Para a política brasileira a guerra não chegou a ser
admitida na extensão em que a conquista da hegemonia a exigiria, já que não
compensaria os custos políticos e econômicos. Além de comprometer a
economia do País, poderia induzir à formação de poderosa oposição aos
interesses brasileiros em seu espaço geopolítico de interesse imediato –
a América do Sul e o Atlântico Sul. Se a estratégia foi conduzida de
acordo com as restrições impostas pela política e não segundo as
possibilidades geopolíticas, a diplomacia, jamais admitindo pretensões
hegemônicas por parte do Brasil, procurou, por sua vez, promover e garantir
os interesses nacionais sem criar complicadores que pudessem implicar
confrontos desnecessários.
Devido
a um conjunto de deficiências do País – e, por extensão, de insuficiências
–, a estratégia brasileira orientou-se defensivamente na garantia de
poucos interesses nacionais, que poderiam implicar o uso limitado da força
militar na frente continental, mas jamais as Forças Armadas chegaram a
desenvolver expressiva capacidade de destruição por meios militares
convencionais. De certo modo, os meios militares não foram considerados no
jogo político, nem lembrados como componente importante da capacidade
estratégica da grande potência. Assim, a estratégia brasileira limitou-se
ao alcance da capacidade militar existente. Na Guerra Fria, ela
apresentou-se como variável dependente do alinhamento com os Estados
Unidos, apoiado num consenso ideológico e estratégico. No meio militar
foram até significativos os avanços no caminho da grande potência –
tais como a implantação e o desenvolvimento da indústria bélica e o início
dos projetos de tecnologia avançada [3].
Embora
o Brasil esteja diante de um futuro incerto, não se deve deixar de pensá-lo
como capaz de resolver
seus problemas – que são muitos –, cuja solução é garantia da
estabilidade, do crescimento e da modernização. Se ele é ainda um país
de economia sólida e competitiva, não é frustrante visualizá-lo, num
futuro próximo, na condição de grande potência regional, apesar das
dificuldades que estão se apresentando. Mas, se as condições geopolíticas
e os ativos econômico e tecnológico indicam pensar o País nessa
perspectiva, o passivo social, por sua vez, não estimula pensar a grande
potência sem antes pensá-lo próspero, rico e, sobretudo, exemplar com
seus compromissos sociais.
Um
país é reconhecido como grande potência se tiver a determinação de
afirmar sua autonomia estratégica no contexto das relações de força –
que lhe permita articular e comandar alianças militares, criar e manter área
de influência própria, repelir alinhamentos indesejáveis e, sobretudo,
defender seus interesses com a força militar, se necessário, além de suas
fronteiras. A autonomia estratégica visa à ampliação da liberdade de ação,
indispensável a uma decisão em todo momento estratégico, em todo momento
de possibilidade de conflito. Aliás, a autonomia estratégica é
basicamente a luta constante pela liberdade de ação [4].
A
autonomia estratégica jamais esteve explícita – nem mesmo implícita –
no projeto geopolítico. Ao admitir o exercício da hegemonia regional na
perspectiva de uma aliança preferencial com os EUA, esse projeto estaria
legitimando o alinhamento estratégico com eles – ou melhor, estaria
admitindo a subordinação estratégica do Brasil à superpotência
norte-americana, desde que eliminasse os riscos conseqüentes no processo de
construção da grande potência. A rejeição militar a tal alinhamento não
se deu em 1977, quando foi denunciado pelo governo brasileiro o Acordo
Militar de 1952, mas quando os Estados Unidos intensificaram as pressões
contra os principais projetos de tecnologia avançada – o nuclear autônomo
e o espacial –, em meados da década de 80 [5].
É a partir daí que os militares se convencem
de que o Brasil deveria buscar caminho próprio nas relações
internacionais, sem desqualificar o projeto geopolítico.
De
certo modo, a possibilidade da grande potência está implícita nos
principais objetivos da política externa brasileira. Ou seja, quando busca
liderar o processo de integração sul-americana e participar do processo de
decisão mundial. A liderança que o Brasil alcançou no desenvolvimento de
um espaço econômico forte e competitivo na América do Sul já é uma
decorrência da sua condição atual de potência regional, de maior potência
sul-americana – apoiada nos seus indicadores geopolíticos e econômicos,
mas sobretudo no seu mercado interno.
É
louvável que o Brasil recupere sua credibilidade honrando seus compromissos
internacionais e se apresente como um país pacífico, privilegiando a solução
pacífica dos conflitos de interesses e participando com forças militares
de missões de paz da Organização das Nações Unidas. No entanto, para
ser protagonista no processo de decisão mundial – por exemplo, como
membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com direito a voz, voto
e veto –, o
Brasil tem de ser reconhecido como grande potência regional. Para
efetivar tal protagonismo não basta ter bom apetite para ser uma grande potência,
mas também ter bons caninos para sustentá-la – ou melhor, não basta
querer, tem de ter a força reconhecida. Participar do processo de decisão
mundial é deter parte do poder concreto que resolve as grandes questões
internacionais – aquelas questões que trazem subjacente a perspectiva da
guerra. Perspectiva que impõe a prontidão da força e indica a
possibilidade de seu emprego.
Felizmente
o Brasil não tem dilemas angustiantes referentes à sua segurança que o
atormentem, nem vizinhos fortes que venham a se constituir em perigos
futuros. Tanto a frente continental, a América do Sul, quanto a frente marítima,
o Atlântico Sul, são estáveis. É uma estabilidade político-estratégica
que já se apresentava na Guerra Fria. Não há dúvida, existem ameaças
aos interesses brasileiros – mas nenhuma delas, por enquanto, é de
natureza militar, ou impõe resposta militar. Em face dessa realidade, o País
pode manter uma capacidade militar mínima – com alguma possibilidade de
pronta resposta –, para
atender à defesa do território, enquanto não for próspero e rico.
Mas, na condição de grande potência regional, deverá perceber as ameaças
a partir de sua própria perspectiva e não da perspectiva da potência
hegemônica, os Estados Unidos – como ocorreu na Guerra Fria. E, com maior
razão, deverá assumir responsabilidade maior no tocante à sua própria
segurança, de modo que possa desenvolver uma capacidade de defesa autônoma
dos seus interesses.
O
Brasil impôs limites ao desenvolvimento do componente militar da sua
capacidade estratégica, ao renunciar à posse das armas de destruição em
massa – nucleares, químicas e biológicas. Essa autolimitação implica
que, na condição de grande potência regional, só lhe resta desenvolver
uma capacidade militar convencional para combates de alta intensidade. Mas
é nessa opção que reside a dificuldade maior: o custo de manutenção de
uma capacidade militar convencional para combates de alta intensidade é
maior do que o de manutenção de uma capacidade militar nuclear, ou de uma
capacidade militar de destruição em massa. A dificuldade decorre da
necessidade de que o País teria para manter eficaz sua capacidade para
combates de alta intensidade – ou seja: para manter essa eficácia, ele
teria de investir num desenvolvimento tecnológico permanente e crescente
das armas empregadas em tais combates. Daí o paradoxo: não há uma razão
direta entre custo de manutenção e nível de destruição [6].
Nenhuma
potência média tem condições de sustentar um desenvolvimento tecnológico
permanente e crescente de armas não-nucleares para combates de alta
intensidade. No entanto, tem condições de adquiri-las no mercado
internacional, comprometendo sua economia ou atropelando prioridades
essenciais. O Brasil ainda não tem aquelas condições, mas sensatamente não
tem demonstrado interesse na aquisição de tais armas. Por enquanto, o País
se satisfaz com recursos militares modestos – sua capacidade militar está
aquém das necessidades de defesa do território nacional. E, em face dessa
realidade, o Brasil nem se permite pensar a organização da defesa regional
no âmbito da integração sul-americana.
Para
liderar o processo de integração regional, basta ao Brasil ser a maior
economia sul-americana, desde que essa liderança implique, apenas, a busca
do consenso – sem custos nem riscos. Mas a condição de país
industrializado, próspero e rico, não é suficiente para ser protagonista
no processo de decisão mundial – nem para liderar aquele processo
contrariando interesses da potência hegemônica, os Estados Unidos. Esse
protagonismo e essa liderança exigem que o Brasil seja reconhecido como
grande potência regional. Ou melhor, com credibilidade na defesa dos seus
interesses vitais e com capacidade para dar respostas militares
significativas no campo da segurança coletiva, quando solicitado.
Não há dúvida, o Brasil com o status de grande potência regional poderá ser visto pelos Estados Unidos como um complicador aos seus interesses nas relações hemisféricas. Se os fatores básicos (geopolítico, econômico, tecnológico e militar) forem favoráveis e houver uma elite dirigente capaz de administrar a ascensão do País a tal status, as dificuldades opostas por eles poderão ser superadas. Mas, se a sociedade brasileira não estiver determinada a sustentar essa ascensão, não haverá a grande potência regional.
1.
O debate anterior sobre a construção da grande potência teve sua
fase de maior intensidade na década de 70. Exponho nos cinco parágrafos
que se seguem deste texto parte da análise que fiz sobre os fundamentos
geopolíticos da estratégia brasileira (ver Geraldo Lesbat Cavagnari Filho,
“Estratégia e Defesa (1960-1990)”, in Premissas
7, NEE/Unicamp, agosto de 1994).
2.
Meu entendimento de estratégia (ou grande estratégia) é stricto sensu: é a arte, ou o método, de atingir os objetivos
fixados pela política nas relações interestatais – nas relações de
força, nas relações de potência –, por todos os meios disponíveis,
militares e não-militares. Embora o emprego da força (ou mesmo a ameaça
de emprego) seja eventual, a estratégia deve ser obrigatoriamente pensada e
realizada na perspectiva desse emprego, na perspectiva da guerra – se, em
dado momento, algum motivo político justificá-la. A perspectiva da guerra
é o conceito central da grande estratégia, assim como a perspectiva do
combate é o conceito central da estratégia militar (ver Geraldo Lesbat
Cavagnari Filho, “Notas sobre Estratégia e o emprego futuro da força”,
in Braz Araújo (coord.), Estratégia no novo cenário mundial: anais do II Encontro Nacional de
Estudos Estratégicos, v. 5, São Paulo, Naippe/USP, 1996).
3.
Projetos de tecnologia avançada: Programa Autônomo de
Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear, Missão Espacial Completa Brasileira
e Programa AMX (de aeronáutica avançada).
4.
A tese da “autonomia estratégica” foi apresentada originalmente
no seminário Argentina-Brasil, Perspectivas Comparativas e Eixos de Integração,
organizado pela Flacso-Programa Buenos Aires e realizado em Buenos Aires,
Argentina, de 19 a 21 de outubro de 1988 (ver Geraldo Lesbat Cavagnari
Filho, “Brasil-Argentina: autonomía estratégica y cooperación
militar”, in Monica Hirst (org.), Argentina-Brasil:
perspectivas comparativas y ejes de integración, Buenos Aires,
Editorial Tesis, 1990).
5.
Geraldo Lesbat Cavagnari Filho, “Pesquisa e tecnologia militar”,
in Simon Schwartzman (coord.), Ciência
e tecnologia no Brasil: a capacitação brasileira para a pesquisa científica
e tecnológica, v. 3, Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio
Vargas, 1996, pp. 341-347.
6. Sobre tal “paradoxo”, ver Geraldo Lesbat Cavagnari Filho, “Reflexões sobre a estratégia contemporânea”, NEE/Unicamp, mimeo, 1998, texto apresentado no IV Encontro Nacional de Estudos Estratégicos, realizado na Unicamp, Campinas, SP, de 11 a 14 de maio de 1998.
*Artigo originalmente publicado em Carta Internacional, Funag-USP, ano VII, nº 80, outubro de 1999, pp.1-3.
** Fundador e coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp e professor convidado do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP.