Arqueologia, História e Estratégia
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A trajetória do MUSEU do ÍNDIO como fonte para a investigação da inserção social do desenvolvimento e construção do conhecimento nas disciplinas de Arqueologia e Antropologia

 

         Uma abordagem da história do Museu do Índio é relevante já que a história intitucional reflete o despertar do interesse em formar coleções , documentar, o estudo das populações indígenas e em seguida, a necessidade de desenvolver mecanismos de salvagarda e comunicação.  Estas tendências refletem as primeiras iniciativas da instituição para incluir as populações indígenas  como parte de nossa identidade cultural.  O Museu do Índio, contou com pesquisadores em Arqueologia e Etnologia e se tornou um agente unificador entre a produção destes conhecimentos, e consequentemente dos respectivos acervos, no empenho de construir um conhecimento e uma narrativa eloquente do passado e do presente das populações indígenas.  A relevância de uma abordagem histórica da intituição não nos serve apenas para percebermos os mecanismos iniciais que levaram ao processo de acúmulo do acervo - despertando as necessidades de salvaguarda e comunicação, ou simplesmente para uma análise das tendências teórico-metodológicas das várias gerações de antropólogos e arqueólogos que desenvolveram suas pesquisas no museu.

 

         A trajetória do museu deve ser vista como a história de uma instituição responsável pela produção do conhecimento a respeito do passado e do presente das populações indígenas que sofreu o impacto direto do contexto social e político que de acordo com os diferentes regimes - ora promoveram, ora abandonaram a necessidade da inclusão das populações indígenas como parte da identidade nacional.  Logo, história cíclica do museu não reflete apenas a relação entre a instituição e o contexto sócio-político, mas também a forma como este contexto veio a influenciar a produção do conhecimento na Arqueologia e Antropologia e cosequentemente a construção das identidades culturais das populações indígenas.  A crescente pesquisa a respeito da  História da Arqueologia (Funari 1995) e Antropologia (Schwartz ????, e Skidmore ????) no Brasil, contando com uma análise teórico-metodológica enfatizando a inserção social da produção científica, acabaram conduzindo a uma nova leitura da trajetória do Museu do Índio.  Uma trajetória institucional que reflete claramente o ambiente político - a existência ou a ausência de um cenário democrático.

        

     Para entender o processo de formação e consolidação do Museu do Índio, é necessário recuar ao final do século XIX,  quando em 1890, foi criada a Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grossso ao Amazonas; esta sob a chefia do General Antonio Ernesto Gomes Carneiro.  Além do investimento e atuação que proporcionariam meios de alta tecnologia em comunicações para a época, a comissão também buscava obter informações sobre os índios, mantendo contato e quando posssível relações.

 

         Com a passagem do século, Cândido Carneiro Mariano da Silva Rondon, tomou a chefia da comissão, redirecionando as suas atividades – o que ficou conhecida como Comissão Rondon.  A preocupação desta comissão com os índios culminou com a criação do Serviço de Proteção aos Índios, orgão então ligado ao Ministério da Agicultura Indústria e Comércio.  O SPI teve como primeiro diretor, o próprio responsável pela comissão – que por sua vez, executava a política indigenista (Gomes e Paula 1983:9).  A Comissão Rondon gerou enormes acervos cinefotográfico e de artefatos, que não tinha um perfil acadêmico e que começaram a ser arquivados e guardados dando início ao arcervo do futuro museu.

 

         Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI), orgão asssessor e deliberativo ligado ao Ministério da Agricultura.  Quanto ao perfil dos levantamentos  feitos pelo SPI, esses mudam radicalmente com a criação da Seção de Estudos (SE), que tinha a função de desenvolver pesquisas etnológicas e linguísticas – utilizando diversos suportes  para documentar aspectos da cultura indígena.  Também cabia ao SE manter um museu, que só veio a existir em 1953.

       

          As atividades do SE foram criadas, de certa forma, para nortear cientificamente as ações do SPI.  Até 1947,  o orgão já havia reunido um amplo acervo cinefotográfico, sonográfico, e de artefatos - que jamais poderia ser contituído novamente já que estas populações já haviam desaparecido ou passado por transformações.  Os cuidados com o acervo, muitas vezes se limitavam à classificação e documentação do acervo, muitos artefatos eram utilizados como coleções didáticas em sala de aula (Gomes e Paula 1983:10).  O reconhecimento da carência de um museu crescia junto a preocupações ligadas à preservação do acervo.

 

         O SE se consagra com o um grande centro de pesquisas etnógicas, contando com a participação de grandes nomes da etnólogia brasileira.  As coleções e arquivos eram devidamente classificados e colocados à disposição de especialistas.  A seção criada inicialmente como um ponto de apoio, para as ações do SPI, oferecendo uma abordagem científica, passa a ter vida própria.  Em primeiro lugar, desenvolvendo pesquisas de campo, coletando, documentando, classificando; mas a abrangência da comunicação desse patrimônio se limitava ao público especializado.  Entre 1948 e 1951, parte do acervo passou por um tratamento museológico. A museóloga Helza Cameu fez um levantamento articulando instrumentos musicais, festas, e danças elaborando um fichário técnico (Gomes e Paula 1983:10).  Talvez, essa seja a primeira tentativa em artitular o acervo visando a comunicação a um público mais abrangente.

 

         Em 1953, no cenário da comemoração do Dia do Índio Americano, após dez anos, foi cumprida a resolução do Decreto – Lei nº 5.540 de 20 de junho de 1943 criando finalmente o Museu do Índio (Gomes e Paula 1983:10).  O museu garantia os mecanismos de extroversão para divulgar os trabalhos do SE, para interagir com um público mais abrangente.  Segundo Marília Duarte Nunes (1983:48), durante o planejamento da organização do museu, foi realizado um estudo de público, visando entender: “ 1) qual a representação mental que o público comum tem dos índios;e  2) o que procura e o que encontra o visitante dos museus tradicionais de Etnologia.”  O resultado dessa enquete, talvez seja muito parecido com a visão que o público tem ainda hoje, segundo Nunes (1983):  “ O resultado da enquete revelou uma imagem completamente deformada dos indígenas brasileiros. Uma faixa de público os descrevia como seres congenitamente inferiores, povos rudes e embrutecidos dos quais não se podia esperar qualidades humanas; outros lhes fantasiavam o modo de viver com  idealizações, igualmente falsas, de vida indígena idílica e aventureira, atribuindo aos índios excelsas qualidades de nobreza e altruísmo.

Verificou-se, também, que  as crianças brasileiras imaginavam o índio como aquela figura do “pele vermelha” divulgada pelo cinema americano nos filmes de farwest.” (1983:48)

 

         Ainda justifica que esta descaracterização  é uma consequência de como os índios foram tratados nos museus tradicionais de Etnologia: “ como exóticos, fósseis vivos da espécie humana!”  Esses problemas identificados foram fatores determinantes que orientaram para a definição da missão do museu, que prevalecem  até os dias de hoje.  A missão do museu é: “combater preconceitos e esteriótipos contra o índio.” Houve a necessidade de criar um museu voltado para uma compreensão humanística do índio brasileiro (Nunes  1983:48).  Como colocou a autora, o museu buscou uma  forma de abordagem aproximando universos culturais diferentes, com um denominador comum – seres humanos: “ o novo museu colocaria em destaque as semelhanças entre indígenas e brancos, apresentando-os com sua verdadeira face de seres humanos, movidopelos mesmos impulsos fundamentais, sujeitos aos mesmos defeitos e qualidades  inerentes à natureza humana, com problemas de defesa e sobrevivência iguais aos nossos.”(Nunes 1983:48).

 

         O museu passa a ter sua sede em um andar do prédio do Ministério da Agricultura, que por sua vez foi reformado e adaptado segundo as necessidades do museu.  O novo museu, contava com um espaço expositivo de 250m2, arquivo cinematográfico, câmara de projeção, auditório, discoteca e uma biblioteca voltada à Etnologia brasileira (Gomes e Paula 1983:11).

 

         Apesar da estrutura organizacional da Seção de Estudos separar a divisão de pesquisas do museu, os pesquisadores viam no museu, uma entre outras maneiras de cumprir a sua função social.  O SE, passsou a ser crítico às perspectivas da Etnologia tradicional empregadas pelo SPI; e tomou um novo rumo buscando aprimorar os métodos assistenciais.  Iniciando um programa de colaboração, a Seção de Estudos proporcionou pesquisas de suma importância para a Etnologia Brasileira, tendo como pesquisadores nomes ilustres no âmbito nacional e internacional. Entre os resultados dos trabalhos desenvolvidos temos colaborações de orgãos como a UNESCO, O Museu do Homem (França), Museu da Basiléia (Suiça) e a Universidade de Hamburgo.  O programa também incluiu outras áreas colaborando com levantamento em musicologia, medicina, etnobotânica, etnozoologia; tendo como desdobramento ainda o Curso de Aperfeiçoamento em Antropologia Cultural (1955).

 

         As atividades do museu andavam em passo acelerado também.  Entre 1953, data da criação do museu, até 1958 o museu já havia apresentado seis exposições – além de ter organizado uma exposição para o IV Centenário de São Paulo.  O Museu do Índio foi reconhecido como um orgão de indiscutível importância, encarregado de representar todo o resultado das pesquisas apresentando para o público “a influência indígena na formação da sociedade brasileira.” Esse é um marco importante reconhecendo as populaçóes indígenas como parte da formação de nossa identidade nacional. 

 

         Em 1958, com o patrocínio da UNESCO, o museu recebeu especialistas de mais de 80 países, quando foi elogiado como  “a maior experiência de um Museu moderno de após-guerra” pelo representante do Museu do Homem de Paris (Gomes e Paula 1983:14).  Ainda neste ano, o Setor de Etnologia e Pesquisa organizou uma equipe para a remodelação e classificação do acervo, e ainda contou com pesquisas arqueológicas aumentando o acervo de artefatos e fotografias.  O museu, neste momento, tem reconhecimento nacional e internacional, recebeu visitantes ilustres, mas até na documentação administrativa, o Museu do Índio e a Seção de Estudos, se tornaram “sinônimos”- refletindo a integração da pesquisa e a Museologia.

 

         Com pesquisas e trabalhos inéditos como o arquivamento de vocabulários indígenas, e outros trabalhos voltados à catalogação e  classificação do material etnográfico, o Museu do Índio passou a servir como modelo para outras instituições, que o consultavam para esses fins e como melhor expor o acervo (Gomes e Paula 1983:14).

        

         Quanto à década de sessenta, pouco se sabe sobre as atividades do Museu do Índio por decorrência das reformas administrativas.  Em 1961, o SPI foi transferido para Brasília, e em seguida, em 1963, a Seção de Estudos também foi transferida.  O Museu do Índio passou a fazer parte da Seção de Documentação e Divulgação do Conselho Nacional de Proteção aos Índios.  Essa mudança desarticulou a organização anterior que ligava o museu diretamente à pesquisa.

 

         Em 1967, pleno regime ditatorial, o CPNI foi extinto sendo criada a FUNAI, a Fundação Nacional do Índio.  Muitos setores antigos foram paralisados com o afastamento de técnicos com experiência.  No mesmo ano, o acervo do SPI, transferido para Brasília, é destruído em um grande incêndio (Gomes e Paula 1983:15).  Só em 1976, foi criado o Centro de Documentação Etnológica, visando estabeler um sistema de arquivos tendo como objetivo a salvaguarda de documentos etno-históricos, onde a FUNAI e outras instituições reuniram esforços para a reconstrução – tão completa quanto possível – do acervo perdido no incêndio.  Apesar das tentativas de transferência de sua sede para a Praça da República e para o Parque Lage, em 1978, o museu mudou-se para um casarâo no Botafogo.

 

         A FUNAI se estruturou em departamentos, e o Museu do Índio ficou subordinado ao DEP, Departamento de Estudos e Pesquisa, e vários  profissionais na chefia do museu foram afastados até 1981.  Durante estas gestões houveram tentativas de mudança no organograma e também da própria sede do museu, que ora foram negadas, ora não se concretizaram; entre elas a tentativa de criar uma Divisão de Museologia, incluindo um Setor de Exposição, o Setor Educativo Cultural, um Setor de Pesquisa e Documentação Museológica.  Na Divisão de Documentação e Pesquisa,  houveram propostas de reestruturação acrescentando o Setor de Arqueologia (1979), e um  Setor de Pesquisa Etnológica, Etno-histórica, e Linguística (1981).  O Setor de Arqueologia só passou a existir em 1986.

 

         Apesar de todos os problemas e mudanças que ocorreram desde a década de 60,  o museu se rearticulou na década de 80.  Na gestão de Ney Land (à frente da instituição até 1981), o acervo cresceu com novas coleções e peças doadas por pesquisadores.  As exposições foram renovadas, e foi etabelecido um sistema de “coleções de estudo”, para o público especializado;  e uma exposição- itinerante em malas didáticas voltadas ao público escolar.  Além dessas preocupações com a comunicação,  o museu  criou um boletim, e firmou convênios com outras instituições para a restauração do acervo cinematográfico, e para a produção de documentários. 

 

         As pesquisas do museu não se limitaram à Etnologia, através de convênios com o Instituto Superior de Cultura Brasileira (ISCB) o e Centro Brasileiro de Arqueologia (CBA), foram realizadas pesquisas arqueológicas.  Outros  convênios garantiram o financiamento de projetos de pesquisa e estágios, tendo como desdobramento a orientação e treinamento de futuros profissionais nas áreas de Etnologia, Linguística, Arqueologia,  Biblioteconomia e Museologia. 

 

        Neste cenário, também tomaram impulso os cursos de extenção universitária ligados à Antropologia, e a organização das Jornadas de Arqueologia, e o Iº Encontro Museologico.

 

         Na década de 90, a estrutura do museu passou por modificações, perdendo o Setor  Pedagógico e o Setor de Arqueologia, que entre 1989 e 1990, foram destituídos pelo próprio diretor do museu.  O Museu do Índio ficou fechado por alguns anos, entre 1991 e 1993, quando reiniciou o seu trabalho e funcionamento; reorganizando, classificando, reacomodando e expondo o seu acervo.

 

     A influência do contexto sócio-político está presente nos diversos momentos do processo da formação do museu.  O primeiro impulso foi gerado acidentalmente pelo desenvolvimento tecnológico da comunicação, acumulando uma documentação e um acervo das populações colonizadas.  O museu foi criado somente após a Era Vargas, e a consolidação do museu garantiu não apenas a inciativa de proteger as populações indígenas, mas também o desenvolvimento de pesquisas em Etnologia e Arqueologia, e o resgate da imagem e da memória das populações indígenas e a possibilidade de comunicação com o público.  Durante os anos de regime ditatorial, a ausência de um cenário democrático resultou  na desarticulação e divisão dos setores do museu, e na destruição de parte significativa do acervo em um incêndio; e a rearticulação do museu, somente possível com o fim do regime militar e os primeiros suspiros da democracia.  Em 1990, apesar do ambiente democrático, o museu sofreu o corte de setores significativos, junto as promessas neo-liberais do ex-presidente Fernando Collor.  E desde 1993, com o renascimento do museu, a instituição se empenha em uma odisséia hercúlia, superando os problemas gerados nas décadas anteriores.

 

     O reflexo do cenário político não está presente apenas na trajetória da instituição mas também na produção do conhecimento na Arqueologia e Antropologia, e que devem ser vistos junto à memória institucional.  Devemos nos voltar para uma análise de como as identidades culturais das populações indígenas foram construídas e tratadas pela produção na Arqueologia e Antropologia como parte da identidade nacinal -e como e quando - foram deformadas pela produção científica, ou simplesmente excluídas  por meio dos mecanismos de extroverção da instituição.  A produção  que trata a História da Arqueologia e da Antropologia na literatura recente apontam para a relêvancia de uma análise holítica da produção e comunicação do conhecimento nas ciências sociais, e como se tornaram vulneráveis aos seus contextos sócio-políticos; onde a orientação teórico-metodológica indica tendêcias polícas no discurso acadêmico da Arqueologia (Jones 1999), e na Antropologia (Patterson 2001); ou quando arqueólogos e antropólogos a serviço do estado, reproduziram o discurso político na interpretação de seus dados (Kohl and Fawcet (eds.) 1995) e (Funari 1995).  Abordagens propondo uma revisão da memória institucional, junto a História da Arqueologia e Antropologia analisando a inserção da produção acadêmica no contexto social, nos oferecem uma visão holítica de como o passado, o presente e a memória das populações indígenas foram tratadas no decorrer da nossa trajetótia política.  E por outro lado, nos indicam também  quanto o discurso acadêmico afetou a imagem que diversas gerações tiveram quanto ao papel das populações indígenas como parte da identidade nacional. 

 

     A história e trajetória do Museu do Índio é peculiar, por ter surgido de um orgão voltado à proteção das populações indígenas, que desenvolveu uma seção de estudos, que não tinha como finalidade a pesquisa acadêmica; e sim pesquisas para dar um respaldo ao SPI.   Essas pesquisas acabaram construindo um acervo, que gerou um processo museológico.  Desde sua existência o museu esteve vinculado às pesquisas, salvo alguns momentos em que mudanças na estrutura impediram essa aproximação.  As mudanças na maior parte das vezes prejudicaram o funcionamento do museu, e ao depararmos com sua história percebemos claramente seus ciclos, entre momentos aureos e desarticulação.  Esses ciclos nos remetem ao mito de Phoenix, que percebendo o momento de sua morte, constroi um ninho, e o coloca em chamas, e das cinzas nasce um novo pássaro.  Ao passar por tantas reestruturas, o museu passa por crises e renasce, mas com novas feições, essas, na tentativa de garantir os mecanismos de comunicação e salvaguarda, e um vínculo com a pesquisa.

 

AGRADECIMENTOS

    

Este ensaio é resultado de minhas observações durante um estágio no Museu do Índio em julho de 2000, que foi também a oportunidade de conhecer e apreciar o trabalho admirável que o museu vem desenvolvendo, e aproveito para agradecer Ione Helena P. Couto, chefe da Seção de Museologia.  Agradeço a leitura e comentários de Carine Alekian.  Agradeço, também a Pedro Paulo A. Funari o convite para que escrevesse este ensaio, e pelas leituras e comentários que permitiram diminuir suas deficiências, mas aquelas que permanecem são de minha responsabilidade.  

 

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