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Publicado em Resenha de “Mi son talian, grassi a Dio!, Globalização, nacionalidade, identidade étnica e irredentismo lingüístico na região colonial italiana do Rio Grande do Sul”, de Florence Carboni e Mário Maestri, Crítica Marxista, 9, 148-150, 1999.
PROPOSTA DE RESENHA PARA CRÍTICA MARXISTA
Florence Carboni e Mário Maestri. Mi son talian, grassi a Dio!. Globalização, nacionalidade, identidade étnica e irredentismo lingüístico na Região Colonial Italiana do Rio Grande do Sul, Passo Fundo, Núcleo de Estudos Histórico-Lingüísticos da Universidade de Passo Fundo, 1999, 75 páginas.
Resenhado por Pedro Paulo A. Funari (Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas)
A Universidade de Passo Fundo inaugura sua série de publicações do Núcleo de Estudos Histórico-Lingüisticos com um volume dedicado a questões altamente relevantes na atualidade: identidade, nacionalidade e globalização. O livro resulta da compilação de cinco artigos em torno desses temas, publicados ou inéditos, e que constituem uma unidade temática. Inicia-se com um estudo sobre a questão nacional, étnica e social na História do Brasil (7-16), destacando-se que os regionalismos prevaleceram até a difusão, a partir da década de 1950, da indústria cultural que criou condições para a gênese efetiva do Brasil como Estado-nação, ainda que o português tenha sempre sido fator de unidade nacional e condição para a conquista da cidadania. O racismo científico foi superado ainda na década de 1930, pela defesa da necessária integração, embora diferenciada, das três raças fundadoras da brasilidade – européia, nativa e africana. A partir das últimas décadas, os movimentos indianista e negro dissolveram a ficção de uma brasilidade homogênea. Um modelo normativo de cultura homogênea, já tão criticado nas ciências sociais, não resiste à realidade multifacetada.
O segundo capítulo (17-24) trata do separatismo no contexto internacional da dissolução do chamado Bloco Socialista, com o aprofundamento de espaços supranacionais, como a União Européia, e, por outro lado, com o crescente apelo das micro-nacionalidades, como no caso da desintegração da Iugoslávia. Os autores voltam-se, no capítulo seguinte, para o separatismo no Rio Grande do Sul (25-36), questão que se espraia pelos outros dois capítulos, formando o cerne do volume. Distinguem-se o separatismo do século XIX, tratando-se da secessão farroupilha, entre 1835 e 1845, patrocinado pelas elites pastoris sulinas, e o neo-separatismo de nossos dias. Assim como na Europa a União Européia tem servido ao regionalismo, em nosso caso, o Mercosul pode, também, fortalecer tendências centrífugas. Brasília, no imaginário de elites locais interessadas no poder regional, identifica-se com uma Roma imperial, devassa, improdutiva, perdulária, à maneira da Roma atual, nas imagens dos camisas verdes da Lega Nord. A Padânia idealizada pelas elites reacionárias do norte da Itália serve de modelo para um Estado independente no Sul do Brasil. Como em outros casos, inventa-se uma tradição, neste caso o mito da “democracia pastoril”, segundo a qual a sociedade gaúcha, baseada na criação, não teria conhecido contradições de classe, à diferença de outras regiões do Brasil.
Esta ideologia parte da noção que há ilhas de primeiro mundo que poderiam, se fossem independentes, livrar-se do atraso do Brasil. Sem o peso-morto, haveria micro-Estados bem sucedidos. Note-se que estas propostas não diferem muito daquelas explicitadas por regiões industrializadas e ricas, no interior da própria Europa, que também propugnam o estabelecimento de Estados homogêneos, com uma só língua e etnia. Naturalmente, lá como cá, não é à toa que parte da população, os trabalhadores, em particular, não estejam bem incluídos nessa imagem de homogeneidade. Na Europa, os trabalhadores podem falar outra língua, ter outros costumes religiosos, culinários, entre outros, enquanto no Brasil, além desses fatores, há, ainda, as diferenças raciais (índios, negros e pessoas de origem mesclada) a opor os separatistas, de um lado, à massa. No caso do Rio Grande do Sul, os autores ressaltam que bolsões semi-homogêneos de imigrantes não-lusitanos, em particular populações de origem alemã e italiana, podem servir de caldo de cultivo de ideologias esclusivistas.
O capítulo seguinte está dedicado à questão nacional e à região colonial italiana no Rio Grande do Sul (37-60). Remonta-se à origem da imigração italiana, no século XIX, destacando-se que os italianos que aqui chegaram eram, sobretudo, dialetófonos. Na medida em que os chamados dialetos italianos não são mutuamente inteligíveis, sendo verdadeiras línguas da península itálica, o italiano, como língua franca apenas iniciava, naquela época, a tarefa de formar um povo italiano que falasse uma só lingua. Lembre-se que até a difusão dos meios de comunicação de massa, primeiro o rádio e, depois, o cinema e a televisão, associados à expansão da escolaridade na língua italiana, o italiano era falado por uma minoria da população. Não há dúvida, pois, que a maioria dos imigrantes não falava o italiano. Na comemoração do cinqüentenário da imigração, em 1925, durante o Fascismo, as autoridades italianas constatavam que os descendentes de italianos “salvo poucas exceções, sentem-se e desejam ser brasileiros” (p. 45). No entanto, verificam os autores, nas últimas décadas, com a baixa auto-estima nacional do brasileiro e com o milagre italiano, o sonho do passaporte cor de vinho tem alimentado o sonho de muitos que querem far l’Italia, como seus antepassados haviam feito a América. O ativismo nacionalista italiano no sul desenvolve-se na esteira do preconceito dominante contra aqueles que têm alguma origem africana, indígena ou mestiça.
O último capítulo trata do irredentismo lingüistico no Rio Grande do Sul (61-70), procurando mostrar como se inventa, atualmente, uma língua vêneta que seria falada no sul. Inventada, pois, como já se disse, os dialetos, mesmo em uma região como o Vêneto, variavam de local a local. Em seguida, porque os italianos que vieram para o Brasil falavam diversos dialetos e, hoje em dia, quase que exclusivamente falam o português, poucos falam o italiano, aprendido, e pouquíssimos os dialetos[1]. Buscam criar um idioma próprio, o talian, elemento de discriminação e de exclusão social, aliado ao separatismo de regiões do norte da Itália, hoje, que também procuram livrar-se do peso-morto do sul do país, de Roma e...de outras partes do próprio norte! Identidade homogênea, levada ao paroxismo, que serve aos interesses de alguns que baseiam seu poder na divisão dos subalternos e na criação de inimigos, os “outros”.
A publicação deste pequeno volume demonstra o interesse, crescente em nosso país, mas ainda pouco explorado pelo pensamento crítico brasileiro, pelas questões da identidade nacional e étnica[2]. O esforço dos autores concentrou-se em demonstrar como mecanismos de exclusão social têm atuado utilizando-se de ideologias exclusivistas, racistas e francamente preconceituosas. Há muitos anos, estudiosos têm demonstrado que o modelo normativo de cultura, que a concebe como homogênea, serve para discriminar, maiorias ou minorias[3]. No caso brasileiro, há que considerar, ainda, o caráter patriarcal de nossas relações sociais, pois a invenção de tradições, por parte de intelectuais ligados a grupos exclusivistas, apenas pode ter algum êxito por meio dos mecanismos ubíquos de compadrio[4]. Talvez a mensagem maior deste opúsculo seja que, mais que talian, nativo, africano ou alemão, almejamos ser cidadãos, antes que homogêneos, somos heterogêneos e companheiros, antes que compadres e cúmplices.
[1] Cf. S.C.O. Muniz, Núcleo Pedrinhas História e Imagem, Cultura Material e Arqueologia Histórica, organizado por P.P.A. Funari, Campinas, IFCH-UNICAMP, 1998, 221-250.
[2] Cf. P.P.A. Funari, Archaeological Theory in Brazil: Ethnicity and Politics at Stake, Historical Archaeology in Latin America, 1996, 12, February, 1-13.
[3] Sobre o modelo normativo de cultura e sua crítica, veja-se, de publicação recente, Siân Jones, The Archaeology of Ethnicity: Constructing identities in the past and present, Londres, Routledge, 1997.
[4] Sobre isto, com bibliografia anterior, consulte-se P.P.A. Funari, Cidadania e compadrio: relações de poder e atividade acadêmica em questão, em Cultura e Cidadania, organizado por C. DeNipoti e G. Arruda, Londrina, ANPUH-PR, 1996, 11-24.