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Comentário ao texto de Ciro Flamarion Cardoso, “Epistemologia
pós-moderna, texto e conhecimento: a visão do historiador”,
Diálogos, Maringá, 3,3,1999, 43-48.
COMENTÁRIO AO
TEXTO DE CIRO FLAMARION CARDOSO, “EPISTEMOLOGIA PÓS-MODERNA,
TEXTO E CONHECIMENTO: A VISÃO DE UM HISTORIADOR”, REVISTA
DIÁLOGOS.
Pedro Paulo A. Funari
Ciro
Flamarion Cardoso pode ser considerado, a justo título, um
historiador de renome mundial
e, em particular no campo da epistemologia da História, tem
produzido livros e artigos, sempre bem informados e que têm
contribuído, significativamente, para o debate
historiográfico. Neste contexto, comentar este novo estudo
constitui tanto uma honra quanto um desafio. Talvez deva
começar por ressaltar que o artigo apresenta uma seqüência de
idéias muito clara, os argumentos, de uma lógica cartesiana,
não deixam, em momento algum, de ser altamente convincentes.
Contribui para isso o estilo discursivo do autor, apodítico,
que toma certas posições como corretas e, eo ipso,
desqualifica as outras. Assim, “isso foi adequadamente
percebido” por um autor (p.5), Chartier “falha no trabalho
concreto” (p.9), Marc Augé “nos ensina”
(p.18), os pós-modernos dão “um apoio de facto ao
establishment capitalista e burguês” (p.20, grifo no
original). Esse recurso ao “efeito verdade”
acaba por induzir o leitor a
“adequadamente perceber”, “não falhar”, “aprender” e “não
apoiar” os autores e idéias criticadas, pouco incentivando o
desenvolvimento de uma leitura crítica. Além disso, o discurso
apodítico corre sempre o risco de não corresponder à
experiência do leitor informado, como no caso da afirmação de
que os arqueólogos “no mundo anglo-saxão são considerados
antropólogos” (p.8).
Os
temas suscitados pelo artigo não poderiam ser esmiuçados todos
em apenas cinco páginas e, por isso, tratarei, aqui, de apenas
alguns aspectos nele aventados. Assim, um aspecto central das
discussões epistemológicas contemporâneas remete ao caráter
discursivo da ciência, incorporado por Ciro F.S. Cardoso, como
o fazem outros críticos do pós-modernismo,
pela noção de “narratividade” (p. 13). Por influxo direto da
Lingüistica,
mas com origens na Filologia do século XIX,
os historiadores têm, de forma cada vez mais generalizada,
reconhecido a importância de se conhecer o que os alemães
designam por Sinneszusammehang
, o conjunto de conceitos de uma época, a serem retraduzidos
para o contexto do historiador, de outra época, sociedade,
grupo social.
Na medida em que o historiador produz, necessariamente, textos,
sua narrativa não pode escapar às regras de qualquer
construção discursiva.
A pesquisa histórica e a escrita da História ligam-se pela
estrutura narrativa,
como se tem reconhecido em historiografias tão variadas como a
norte-americana, a francesa e a alemã,
propondo-se a substituição da noção de escritor da História
por aquela de contador da História.
Assim, embora a consciência de que sempre produzimos discurso
tenha surgido em outros domínios,
generalizou-se, alcançando os mais variados horizontes
historiográficos.
Não sei se poderíamos considerar que a importância da
discursividade, abordada, na verdade, de forma tão variada,
por diferentes autores, possa ser reduzida a uma desconstrução
reacionária, de êxito momentâneo (p. 8 et passim),
ainda que se deva concordar com o autor que não se pode
prescindir da busca da objetividade científica.
O pluralismo característico do abandono do modelo normativo e
holítico de cultura
pode, ao contrário, abrir espaço para abordagens, surgidas na
linhagem da Kritik de Marx,
que criticam o capitalismo
e mostram como se construíram conceitos a partir dele,
buscam os liames de classe das situações sociais,
exploram opressões variadas, de gênero, étnicas, entre outras,
constituindo-se em contribuições para o conhecimento, como
admitem os próprios críticos do pós-modernismo.
“Levar em conta Gadamer, Foucault
e Derrida não implica abandonar a objetividade histórica”.
O
pluralismo e a interdisciplinaridade,
antes que tendências paradoxais e condenáveis, podem
significar, assim, novos engajamentos
por parte do historiador. O pluralismo significa admitir-se
como salutar que, em 1998, se fizesse uma defesa da História
das Mentalidades, como o fez Ingrid Gilcher-Holty,
assim como saudar que Natalie Zemon Davies, referindo-se a
Marc Bloch , tenha propugnado as ligações interdisciplinares
da História.
F.R. Ankersmit, fazendo um balanço da historiografia
anglo-saxônica, concluía que a proliferação de interpretações
era melhor que sua redução.
Estas características de um mundo pós-moderno, se reduzidas a
uma artimanha conservadora, ligadas a Margareth Thatcher,
parecem antes uma caricatura condenatória. Prefiro uma
abordagem mais matizada, que percebe na crítica dos conceitos
e na historicização do discurso histórico
vias de interpretação que podem ser utilizadas para alterar o
status quo,
tanto na academia como fora dela
.
Russel Jacoby
ressaltava, muito apropriadamente, que generalizações sobre
disciplinas acadêmicas são tarefas ingratas, pois não se pode
contemplar senão uma parcela ínfima da totalidade e, assim,
não se pode senão louvar o esforço de Ciro F.S. Cardoso em
abarcar o que ponderou ser o mais relevante. Não seria o caso,
pois, de cobrar que tratasse de autores e problemáticas
deixadas de lado. No entanto, ao terminar seu artigo com uma
apresentação do que considerou serem os elos entre as posições
pós-modernas e o conservadorismo e a defesa do capitalismo,
talvez fosse o caso de se notar uma ausência: o estudo da
ciência como campo de poder. De fato, nos últimos anos, tem-se
estudado como a ciência, qualquer ciência, não existe no
vácuo, não apenas social, como acadêmico. Estruturas
acadêmicas de poder explicam hegemonias, formação de escolas e
de cartilhas, a transformação do aceito pelos pares em senso
comum acadêmico, na feliz e exaustiva análise de Pierre
Bourdieu.
O estudo da produção historiográfica, em conjunção com seu
contexto burocrático, permitiria, talvez, encontrar liames
outros entre os historiadores, as tradições historiográficas,
seus discursos e as lutas sociais. O multiculturalismo (p.8),
longe de ser uma artimanha dos tories da senhora
Thatcher, pode estar a servir a interesses sociais precisos,
assim como os estudos de gênero estão antes a contribuir para
a emancipação do que para a opressão. Por outro lado, nem todo
modelo holístico é libertador dos oprimidos, pois a própria
noção de totalidade e de reta via implica a sujeição de todos
à norma, à autoridade daqueles que conhecem, “de facto”, o
caminho a ser percorrido.
Pode
concluir-se com a certeza de que o texto de Ciro F.S. Cardoso
apresenta o que mais importa em um artigo acadêmico, a busca
pela reflexão. E o faz de forma erudita, bem argumentada e
criativa, com uma clareza que a todos permite uma leitura
proveitosa, mérito tanto maior quanto se trata de um artigo
acadêmico. Professores e alunos de História podem saborear
seus argumentos, sempre argutos e bem escorados em literatura
pertinente, sobre os caminhos da disciplina. Só isto já
estaria a recomendar a leitura atenta e o debate em torno de
suas considerações epistemológicas.