Núcleo de Estudos
Estratégicos da UNICAMP e Laboratório de Antropologia Biológica da UERJ
Projeto Conjunto
Estratégias de
ocupação e defesa do litoral sul fluminense: uma análise da rede de
fortificações na baia de Ilha Grande
Nanci Vieira de
Oliveira – LAB/UERJ
Pedro Paulo A. Funari
– NEE/UNICAMP
O Projeto
conjunto do NEE/UNICAMP e LAB/UERJ estuda as estratégicas de ocupação e defesa
do litoral sul fluminense, a partir de uma análise da rede de fortificações na
Baia de Ilha Grande. Podemos observar nos documentos dos séculos XVII e XVIII
que o litoral sul fluminense era considerado altamente vulnerável pelo governo
da cidade do Rio de Janeiro. Diversas embarcações de corsários são mencionadas
em águas da baía de Ilha Grande e Sepetiba. Nesta região foi aprisionado
Antony Knivet, marinheiro do navio inglês comandado por Thomaz Cawendish
(1591), que permaneceu como escravo da família Sá durante alguns anos e que
por diversas vezes percorreu o litoral sul fluminense negociando escravos com
os Guaianá, cuja aldeia localizava-se provavelmente na baia de Sepetiba.
Joris van Spilbergen (1614), comandante holandês, esteve por um bom tempo
ancorado provavelmente próximo às ilhas de Jaguanon e Itacuruçá, até que
Martim de Sá, avisado pelos índios de sua sesmaria, atacou com o auxílio dos
índios do aldeamento de São Barnabé, as embarcações holandesas que se
encontravam na enseada da Marambaia. Para a vigilância constante do litoral,
Martim de Sá utiliza como estratégia o deslocamento de aldeias de índios de
outras áreas para as bandas de Cabo Frio e baia de Ilha Grande, de forma a
garantir a defesa. Com a intensificação da
exploração aurífera nas regiões de São Paulo e de Minas Gerais podemos
observar que os caminhos do sul fluminense mostraram-se, ao mesmo tempo,
eficientes para o escoamento do ouro legal e ilegal. A presença de navios
franceses no litoral sul fluminense era responsável por grande entrada de
escravos africanos e pelo contrabando do ouro no século XVIII. O interesse e a
importância desta região para os franceses pode ser observado em seus mapas
estando sempre assinalados a cidade do Rio de Janeiro, Parati, Ilha Grande e
Marambaia, com detalhes do relevo, locais para abastecimento e construções
existentes na região. Após um período de declínio, o ciclo do café revitaliza
o tráfico ilegal, agora predominantemente voltado para o suprimento de
mão-de-obra na região do Vale do Paraíba. O café levará os núcleos urbanos do
sul fluminense a seu apogeu, criando verdadeiras dinastias em ascensão que
irão produzir na área um surto econômico tão significativo a ponto de
projetarem Angra dos Reis como segundo maior ponto de exportação do Brasil
meridional. Já em 1830, Angra dos Reis torna-se um dos pontos principais tanto
para escoamento de café como de entrada de escravos africanos, legal e ilegal,
devido o desenvolvimento da cafeicultura em Areias e Bananal. Mambucaba,
Paratimirim e Bracuí também foram portos utilizados pelos navios negreiros
ainda depois da proibição do tráfico. O projeto, a partir de levantamentos
arqueológicos, prospecções e escavações, permitirá o estudo detalhados das
estratégias de ocupação e resistência no litoral sul fluminense.