Arqueologia, História e Estratégia
home | História Militar | História Antiga | Arqueologia, história e estratégia | Currículos | Contato

 

Publicado em: 1994 Roma, vida pública e vida privada. São Paulo, Atual (coleção "História Geral em Documentos")81 pp.; primeira edição (1994); segunda edição (1995); terceira edição (1995); quarta edição (1996); quinta edição (1997); sexta edição (1997); sétima edição (1998); oitava edição (1999); nona edição (1999); decima edição (2000) ISBN 85-7056-581-X.

 

 

Cole‡†o "Hist¢ria Geral em Documentos"

EDITORA ATUAL

 

PROPOSTA DE LIVRO

 

O AUTOR

 

                        Pedro Paulo Abreu Funari graduou-se em Hist¢ria (1981), obteve o t¡tulo de mestre em Antropologia Social (1985) e de doutor em Arqueologia (1990), sempre pela Universidade de S†o Paulo. Foi professor da UNESP (1985-1992) e leciona na UNICAMP desde 1992. Publicou os livros Arqueologia e  Cultura Popular na Antiguidade Cl ssica  e diversos artigos, no Brasil e no exterior. Pesquisou e proferiu palestras em diversas universidades brasileiras e em Londres, Southampton, Exeter e Barcelona, entre outras universidades estrangeiras. Fez trabalhos de arqueologia de campo em Roma, Pomp‚ia, Sevilha, e nos Museus de Londres e Britƒnico. Atualmente, dirige o Projeto Arqueol¢gico Palmares, na escava‡†o do quilombo do s‚culo XVII, na Serra da Barriga (AL). Desde 1990 ‚ associado de pesquisa da Universidade Estadual de Illinois, nos Estados Unidos. professor orientador do Projeto de Implanta‡†o do ensino de Hist¢ria Tem tica nas Escolas T‚cnicas Estaduais de Segundo Grau do Estado de S†o Paulo, desde 1991.

 

ROMA, VIDA PçBLICA E PRIVADA

 

PEDRO PAULO ABREU FUNARI

 

Coordena‡†o: Marly Rodrigues e Maria Helena Sim’es Paes

 

 

                                               Agrade‡o a Raquel dos Santos Funari, Norberto Luiz Guarinello e Robin Birley pela leitura do manuscrito, por sugest’es e pelo acesso a materiais aqui utilizados.

 

 

                                               Observa‡†o: Os documentos escritos foram traduzidos do original, em latim ou grego, diretamente pelo

autor.

 

                                               Para o Daniel

 

 

 

SUMâRIO

 

PARTE I                                                                                                                               3

 

ROMA, ESSA DESCONHECIDA                                                                                      3

 

PARTE II                                                                                                                              18

 

O DIA A DIA DE UM POVO                                                                                              18

 

CAPäTULO 1 OS HOMENS E O SOBRENATURAL                                                       18

CAPäTULO 2 VIDA PçBLICA E POLäTICA: TEORIA E PRâTICA                      25

CAPäTULO 3 AS CLASSES E O TRABALHO                                                                  35

CAPäTULO 4 A CIDADE E AS DIVERSOES                                                                    45

CAPäTULO 5 CASA E CASAMENTO                                                                              51

CAPäTULO 6 DA ESCOLA AO EXRCITO                                                                    60

CAPäTULO 7 OS CUIDADOS DO CORPO E DA ALMA                                    69

CAPäTULO 8 O TEMPO PASSOU E O MUNDO ACABOU...                            78

APàNDICE                                                                                                                          82

VOCABULâRIO                                                                                                                  82

CRONOLOGIA                                                                                                                   85

PARA SABER MAIS                                                                                               89

BIBLIOGRAFIA                                                                                                                  91

 

PARTE I

ROMA, ESSA DESCONHECIDA

 

A IDIA QUE TEMOS DE ROMA

 

                        Quando se fala de Roma antiga tem-se, em geral, uma sensa‡†o um tanto contradit¢ria, como se se tratasse de algo muito conhecido mas, ao mesmo tempo, distante, nebuloso e, por que n†o, obscuro. Quem n†o conhece os romanos, inimigos dos Gauleses de Asterix e Obelix? Quem nunca assistiu a um filme que se passasse na Roma Antiga, quem n†o torceu por esta ou aquela biga, quem n†o se espantou com a luta de gladiadores? Tudo isto, para n†o mencionar os legion rios romanos, em carne e osso, que sempre vemos nas representa‡’es da Crucifica‡†o, na Sexta-Feira Santa.

 

                        Vemos tantas vezes P“ncio Pilatos na Semana Santa que j  o tomamos como o t¡pico romano. Mas, que id‚ia temos do Romano, e de onde ela vem? N†o ‚ dif¡cil lembrar, al‚m dos filmes e das cerim“nias na Igreja, aquilo que aprendemos nos livros did ticos. Na escola, al‚m de uma lista intermin vel de acontecimentos importantes (mas, muitas vezes, chatos), aprendemos que os Romanos eram camponeses chucros, ao menos em compara‡†o com os gregos. Asterix sempre nos lembra como ‚ f cil enganar um romano, paspalh†o pouco refinado e propenso … violˆncia e, at‚, … crueldade. Diz-se que, talvez como solu‡†o para sua inteligˆncia curta e para sua falta de imagina‡†o criativa, o romano tenha se aperfei‡oado na guerra. Gra‡as …s armas, os romanos ter¡am dominado muitos povos, como os gauleses de Asterix e os judeus da Palestina, … ‚poca de Jesus. Sedentos de sangue, cruxificavam criminosos, escravizavam os conquistados e divertiam-se com as lutas at‚ a morte.

 

                        Ap¢s este desfiar de concep‡’es bem conhecidas e, em grande parte, por n¢s aceitas sem pensar muito a respeito, surge, por outro lado, uma certa sensa‡†o de incerteza, de d£vida sobre nossas pr¢prias id‚ias. Seriam os romanos assim mesmo? Ser¡am t†o cru‚is e porque? Sendo t†o incultos, como tantos povos ter¡am adotado sua cultura, sua l¡ngua? Seria apenas pela for‡a? J  que falamos uma l¡ngua derivada do latim, o portuguˆs, e que nossas leis baseiam-se, diretamente, nas romanas, ser¡amos tamb‚m chucros e violentos? Neste momento, percebemos que nossas id‚ias come‡am a embaralhar, e n†o h  quem n†o lembre da enigm tica express†o "quem tem boca vai a Roma". Vai a Roma para que? Por que?

 

                        Isto nos leva a outras tantas lembran‡as. Quantos ditados que usamos no dia-a-dia n†o passam de tradu‡’es de prov‚rbios latinos: "gosto n†o se discute" (de gustibus non est disputandum), " quem com ferro fere com ferro ser  ferido" (qui gladio ferit gladio perit) e at‚ mesmo "em terra de cego, caolho ‚ rei" (beati monoculi in regno caecorum). Por que h  tantas reminiscˆncias romanas, se  eram t†o incultos?

 

                        Chegamos … conclus†o, naturalmente, que estamos mal informados, para n†o dizer confusos. A verdade ‚ que h  muito pouca informa‡†o sobre Roma Antiga e, ainda menos, sobre qual a nossa rela‡†o com a Antiguidade Romana. Este ‚ um problema que n†o se restringe a n¢s, comuns mortais, mas afeta, igualmente, a imprensa e os chamados formadores de opini†o, aqueles que fazem a nossa cabe‡a, de jornalistas a professores. O primeiro objetivo deste livro consiste em mostrar que os romanos eram muito diferentes do que estamos acostumados a imaginar. Ou, em outras palavras, n†o eram eles que eram diferentes, nossas id‚ias ‚ que devem ser revistas. Mais ainda, abandonando generaliza‡’es enganosas do tipo "os romanos eram violentos, chucros", podemos come‡ar a descobrir uma civiliza‡†o quase desconhecida, instigante e, at‚, divertida. Este ‚ o percurso que vamos seguir, com a ajuda de documentos da pr¢pria ‚poca, na busca do dia-a-dia deste povo t†o comentado e t†o ignorado.

 

ROMA E SUA HISTåRIA

 

                        A Roma que estamos habituados a conhecer tem uma Hist¢ria bem definida, datada e estabelecida. Roma foi fundada em 753 a.C., segundo a tradi‡†o, por R“mulo e Remo. Foi governada por reis at‚ 509 a.C., quando uma revolta contra a crueldade do monarca levou … proclama‡†o da Rep£blica. Em lugar de um rei, a assembl‚ia passou a eleger dois c“nsules para exercer o poder por um ano. O ex‚rcito romano, composto por todos os cidad†os (camponeses), passou a conquistar toda a It lia e, a partir do final do terceiro segundo a.C., domina a Espanha, vence os Cartagineses no Norte da âfrica e, no s‚culo segundo, incorpora a Gr‚cia. No  primeiro s‚culo a.C., termina por conquistar a âfrica do Norte, Palestina, Oriente Pr¢ximo e G lia (Fran‡a). Por fim, no s‚culo primeiro d.C., chega at‚ o Norte da Inglaterra e … Alemanha Ocidental.

 

                        Com a conquista da G lia por J£lio C‚sar, nos anos 50 a.C., prepara-se o caminho para a luta entre os republicanos e C‚sar, acusado de querer implantar uma monarquia. C‚sar ‚ assassinado em 44 a.C. Segue-se uma guerra civil entre os republicanos e os herdeiros pol¡ticos de C‚sar, Marco Ant“nio e Ot vio. Ap¢s a derrota dos assassinos de C‚sar, Marco Ant“nio e Ot vio entram em conflito. Marco Ant“nio ocupava o Oriente do Mundo Romano, vivendo em Alexandria com Cle¢patra, enquanto Ot vio costurava uma alian‡a no Ocidente, a partir de Roma. Em 31 a.C. ocorre a batalha de Actium, na Gr‚cia, entre as duas for‡as, resultando na derrota de Marco Ant“nio. A partir desse momento, fala-se em Imp‚rio Romano, na medida em que h  um imperador … frente do Estado Romano. Chega a falar-se em Monarquia, como se os imperadores fossem reis. Em geral, ressalta-se a "loucura" de diversos imperadores romanos, tal como Nero, que teria incendiado Roma, culpado e perseguido os crist†os impiedosamente. Haveria, por alguns s‚culos, uma decadˆncia moral generalizada, que acabaria por resultar na queda do Imp‚rio Romano.

 

                        Ser  que esta vis†o da Hist¢ria de Roma pode ser aceita? Na verdade, alguns aspectos desta Hist¢ria tˆm sido questionados pelos historiadores. Assim, por exemplo, n†o parece prov vel que a substitui‡†o dos reis pelos c“nsules tenha ocorrido em 509 a.C. mas, ao contr rio, h  ind¡cios de um per¡odo de transi‡†o at‚ meados do s‚culo quinto a.C. (cerca de 450 a.C), antes do surgimento dos dois c“nsules eleitos pelo per¡odo de um ano. Tamb‚m a id‚ia de que o Imp‚rio Romano seria uma monarquia n†o resiste … constata‡†o que os romanos nunca chamaram os imperadores de reis, nem muito menos usavam termos como rei ou monarquia. Ao contr rio, o imperador era chamado de Pr¡ncipe que, em latim, significa "primeiro". O Imperador era o "primeiro do Senado". A id‚ia de monarquia heredit ria, que n¢s associamos a Imp‚rio, em parte devido … monarquia brasileira, n†o existia e, portanto, assimilar os imperadores romanos a reis, no sentido moderno, ‚ desprovido de qualquer fundamento.

 

                        Talvez a id‚ia mais comum sobre o Imp‚rio Romano seja a mais injustificada. Refiro-me … no‡†o de decadˆncia moral, associada a exageros na comida e nas divers’es, que teria levado … decadˆncia de Roma. Em primeiro lugar, essa decadˆncia moral teria durado s‚culos antes de levar … ru¡na de Roma: ao menos cinco s‚culos (s‚culos I a.C. a IV d.C.), o que representa mais que toda a Hist¢ria do Brasil! Em segundo lugar, a "queda" do Imp‚rio Romano j  foi assinalada em momentos totalmente diferentes, desde 330 d.C., com Constantino, passando por 398 com a divis†o entre Imp‚rio Romano do Ocidente e Oriente, 410 com a tomada de Roma pelos godos, ou at‚ mesmo em 1453, quando Constantinopla, ainda oficialmente capital do Imp‚rio Romano do Oriente, ou Bizantino, ‚ tomada pelos turcos.

 

                        Ainda mais importante, no entanto, ‚ o fato que no‡’es como "decadˆncia" s†o por demais subjetivas. Teria havido decadˆncia moral? Ou os costumes eram, simplesmente, diferentes dos nossos? As "loucuras" dos imperadores n†o poderiam ter ocorrido sem apoios e n†o eram menos atos pol¡ticos do que as "loucuras" de Stalin, Hitler ou da Ditadura Militar, no Brasil, para ficar em alguns exemplos contemporƒneos autorit rios.

 

                        O segundo objetivo desta nossa viagem pelos documentos romanos consiste, portanto, em mostrar a parcialidade da vis†o corrente que temos de Roma e como h  diferentes pontos de vista sobre a sociedade romana.

 

SERäAMOS HERDEIROS DE ROMA?

 

                        Na vis†o tradicional, ter¡amos herdade de Roma uma s‚rie de institui‡’es. Quem j  n†o ouviu falar que nosso direito deriva, diretamente, do Direito Romano? Nossos  pensadores s†o os primeiros a recorrerem a Roma para pensarem o Brasil. Recentemente, o ex-ministro da fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira, defendia, em artigos publicados na grande imprensa, o modelo da constitui‡†o romana para o Brasil. Citando um texto do historiador antigo Pol¡bio, Bresser Pereira n†o hesitava em propor um sistema mixto de governo. Seguia, neste aspecto, longa tradi‡†o de buscar origens romanas cujo melhor exemplo recente talvez tenha sido Ulysses Guimar†es.

 

                        Ser¡amos, mesmo, herdeiros de Roma? Ou viver¡amos sob o dom¡nio de referˆncias romanas desprovidas de sentido? Um bom exemplo da falsa "heran‡a" romana consiste num dispositivo constitucional, em geral mal compreendido, sobre a idade m¡nima para se poder pleitear a Presidˆncia da Rep£blica e o Senado Federal. Por que se estabelece a idade m¡nima de 35 anos? N…o h  explica‡†o expl¡cita, em nossa constitui‡†o. Em geral, quando se faz esta pergunta, a resposta gira em torno do seguinte: "bem, deve ser porque o Senador e o Presidente da Rep£blica devem ter certa experiˆncia, que s¢ a idade traz". Mas por que 35 anos, e n†o 30, 40 ou 45? Se fosse esta a explica‡†o, por que n†o estaria explicitada na constitui‡†o? No final das contas, esta limita‡†o do direito do cidad†o menor de 35 anos (ali s, a grande maioria da popula‡†o!), n†o encontra qualquer amparo no restante da constitui‡†o. Ao contr rio, se somos iguais perante a lei, com os mesmos direitos e deveres, a limita‡†o et ria dos 35 anos infringe os princ¡pios b sicos da igualdade jur¡dica.

 

                        Na verdade, esses 35 anos n†o se baseiam numa suposta maior experiˆncia destes cidad†os. Trata-se de um empr‚stimo … constitui‡†o romana que, por sua vez, n†o  exigia 35 anos para o Senado ou o Consulado. O que se passa ‚ que os Romanos deviam seguir uma carreira militar antes poder pleitear o consulado (e, por consequˆncia, o Senado). Essa carreira exigia o exerc¡cio de uma s‚rie de cargos anuais, o que fazia com que o romano apenas pudesse candidatar-se quando tivesse completado essas magistraturas. Isto ocorreria, na melhor das hip¢teses, quando o romano tivesse 35 anos, nunca antes mas, frequentemente, ap¢s essa idade. Portanto, em Roma n†o havia uma idade m¡nima de 35 anos, havia a exigˆncia de uma s‚rie de cargos que n†o poderiam ser exercidos em menos de 18 anos, a partir dos 18 anos. evidente que a sociedade romana, o servi‡o dos cidad†os no ex‚rcito e seu sistema de governo, nada tˆm a ver com nosso sistema pol¡tico. Portanto, a ado‡†o da idade de 35 anos, fora do contexto original que lhe dava sentido, constitui um uso do passado para justificar desigualdades no presente.Neste sentido, na medida em que nos deixamos reger por "heran‡as" deste tipo, acabamos por ser, de certo modo, ludibriados. Contudo, para n†o sermos iludidos, para questionarmos essa "heran‡a", ‚ preciso conhecer melhor os romanos e sua cultura.

 

EM CASA E NA RUA: OS ROMANOS EM CARNE E OSSO

 

                        Ser  que os romanos brincavam, choravam, riam? Comiam, iam ao banheiro? Claro que sim! T†o distantes parecem os antigos que acabamos por esquecer que eram humanos, como n¢s, com sentimentos, emo‡’es e necessidade. A verdade, contudo, ‚ que temos muito pouco contato com o dia-a-dia de outras ‚pocas e, mesmo, de outros lugares. Pois n†o ‚ que, …s vezes, acabamos nos pegando pensando, a respeito dos nossos ind¡genas, "como ‚ poss¡vel que vivam sem geladeira?". Estamos um tanto acostumados a achar que os homens sempre, e em toda parte, viveram como n¢s vivemos hoje em dia. Faltam-nos, em grande parte, informa‡’es. Embora tenhamos, ao menos na escola, acesso … Antiguidade, em geral esta se apresenta na forma de fatos e datas a serem decorados. Ou, ent†o, como conceitos complexos, abstratos e pouco interessantes, como "modo-de-produ‡†o escravista".

 

                        Um dos objetivos deste livro ‚ mostrar como era o dia-a-dia em Roma Antiga. Veremos como viviam, o que sentiam os romanos, mostrando, ao mesmo tempo, como tinham sentimentos universais, como o amor ou a raiva mas, tamb‚m, como eles se manifestavam de maneira espec¡fica, diferente da nossa. Assim, a busca da divers†o est  por tr s seja da torcida de futebol, na atualidade, seja na luta de gladiadores, na Antiguidade. As diferen‡as entre uma partida de futebol e uma luta de gladiadores, no entanto, demonstram que este desejo universal de divers†o se manifesta de maneira diversa devido …s diferen‡as entre a nossa sociedade e a romana. Como veremos adiante, o car ter religiosos dos jogos gladiat¢rios e a existˆncia da escravid†o na sociedade romana est†o na origem da especificidade deste tipo de divers†o.

 

                        Os historiadores tˆm estudado, nos £ltimos anos, a vida quotidiana, na casa e na rua, dos homens comuns, em busca de uma hist¢ria que, em £ltima an lise, explique aquela sucess†o de datas e fatos importantes que estamos acostumados a aprender.De fato, grandes acontecimentos s†o o resultado de incont veis a‡’es di rias de an“nimos como cada um de n¢s. Os historiadores perceberam que n†o s†o os governantes que fazem a Hist¢ria, isoladamente e como queiram, mas somos todos n¢s que a fazemos, somos n¢s que, no fundo, somos os respons veis, coletivamente, pelos nossos destinos. Isto significa que, ao nos voltarmos para essas pequenas a‡’es di rias, al‚m de estarmos descobrindo um mundo novo, cheio de surpresas, estamos, tamb‚m, mais pr¢ximos da compreens†o da sociedade e das suas transforma‡’es.

 

ESTE LIVRO

 

                        Vamos fazer, juntos, uma viagem pela vida dos romanos. Para tanto, vamos mergulhar na fonte prim ria do historiador, aquilo que chamamos documentos de ‚poca. A £nica maneira de chegarmos ao passado ‚ atrav‚s de testemunhos e vest¡gios de determinada ‚poca. N†o podemos fazer uma excurs†o para Roma Antiga pois, como diz o ditado, "aquilo que passou, passou". Isto ‚, o passado ‚ algo que n†o n†o existe mais. A maneira que temos de saber como viviam as pessoas consiste no estudo daquilo que chamamos documentos. Estes n†o se restringem …quilo que, comumente, designamos "documento", como carteira de identidade, certid†o de nascimento ou caderneta escolar. Tudo que registra o passado pode e deve ser considerado documento, pois documenta aquilo que se passava em determinado lugar ou ‚poca.

 

                        Nossa viagem ao passado, portanto, significa um passeio pelos documentos. Percorreremos as fontes antigas, ou seja, os registros escritos deixados pelos autores que viveram na Antiguidade. Estes testemunhos s†o muito importantes porque, atrav‚s da sua leitura, podemos saber o que pensavam, quais suas opini’es e pontos de vista. Veremos, nos cap¡tulos seguintes, textos de historiadores, como Tito L¡vio e Pol¡bio, de pol¡ticos, como C¡cero, de juristas, como  G io, romancistas, como Petr“nio. Todos estes escritos chegaram at‚ n¢s gra‡as … sua transcri‡†o pelos copistas medievais. Estas fontes possuem, contudo,duas limita‡’es a serem ponderadas. Em primeiro lugar, refletem as opini’es de seus autores que, quase por defini‡†o, faziam parte de uma reduzid¡ssima minoria capaz de bancar a publica‡†o de suas obras. Como n†o havia a imprensa, a publica‡†o de um livro, na forma de manuscritos, era um privil‚gio ainda maior do que em nossos dias. Devemos, portanto, ter isto em mente ao lermos estes textos.

 

                        A este primeiro cuidado deve acrescentar-se um segundo. Al‚m de refletirem as opini’es de uma estreita minoria, as obras hoje dispon¡veis foram selecionadas pelos copistas medievais que decidiam quais obras preservar e, em alguns  casos, chegavam a alterar ou censurar o que liam. Estes dois pontos significam que cada documento deste tipo deve ser encarado como resultado de uma sele‡†o, de uma escolha por parte do autor e dos copistas posteriores, que representa um ponto de vista a ser, necessariamente, interpretado para poder adquirir sentido. N†o se trata, assim, de acreditar no que diz o documento, mas buscar o que est  por tr s do que lemos. Quais as inten‡’es e interesses que explicam a opini†o emitida pelo autor, este nosso foco de aten‡†o.

 

                        N†o nos restringiremos, entretanto, a estes documentos. H  uma s‚rie de escritos que nos chegaram n†o atrav‚s da tradi‡†o medieval, como no caso dos livros, mas diretamente, atrav‚s de descobertas arqueol¢gicas. Este ‚ o caso de cartas particulares, de l pides funer rias e de grafites ou isncri‡’es em paredes ("picha‡’es"). Estes textos abrangem um espectro de pessoas muito mais amplo do que os autores de livros. Assim, temos acesso a pobres, escravos, mulheres. A importƒncia disto pode ser avaliada quando pensamos que n†o h  uma £nica autora latina e, portanto, n†o possu¡mos um s¢ livro que nos tenha chegado pela tradi‡†o medieval. J  foram descobertos, por seu lado, alguns escritos femininos, um dos quais apresentado mais adiante, neste livro. O mesmo pode ser dito de escravos e pobres em geral.

 

                        N†o s†o apenas os textos que nos informam sobre Roma Antiga. Desenhos e pinturas mostram-nos, por exemplo, como as pessoas se penteavam, como eram suas casas e, por que n†o, o que apreciavam como decora‡†o para embelezar seus ambiente. Desta forma, podemos "enxergar com os olhos dos antigos" seu pr¢prio mundo. Esta ‚ uma experiˆncia fascinante!

 

                        Outra maneira de chegarmos … antiguidade consiste nos vest¡gios materiais ou restos arqueol¢gicos. Relevos podem nos mostrar como era uma loja em antividade ou uma padaria em funcionamento. Algumas quest’es s¢ podem ser respondidas pelos restos materiais, pois nunca se escreveu nada a respeito. Um bom exemplo que veremos adiante: como era um banheiro. Boa parte do que fazemos nunca foi ou vai ser registrado por escrito. Atrav‚s dos objetos, no entanto, podemos descobrir muito sobre uma sociedade, …s vezes o inesperado ou o insuspeitado. Afinal, as pessoas podem mentir, as coisas n†o. Embora n†o mintam, os objetos precisam ser lidos, interpretados. o que faremos com plantas de edif¡cios e planos de cidades.

 

                        No primeiro cap¡tulo, seguiremos os caminhos da religiosidade, observando a liga‡†o entre a religi†o e a constitui‡†o romana. No cap¡tulo segundo, acompanhamos  a vida p£blica e a pol¡tica, acompanhando como se processavam as elei‡’es. O terceiro cap¡tulo trata das classes sociais e das profiss’es, o cap¡tulo quarto, da cidade e das divers’es. A partir do quinto cap¡tulo, enveredamos pela vida privada, a come‡ar pela casa e o casamento (cap¡tulo 5), passando pela escola e a vida militar (cap¡tulo 6) e terminando com a correspondˆncia particular e o cuidado do corpo (cap¡tulo 7). Concluimos com o fim do mundo romano (cap¡tulo 8). Por fim, ‚ importante lembrar que, nesta viagem que vamos fazer por Roma Antiga, estaremos, sempre, atentos …s diversas possibilidades de interpreta‡†o dos documentos. Quando ‚ um propriet rio de escravos falando sobre a escravid†o est  claro que n†o devemos, simplesmente, aceitar sua vers†o. De uma maneira ou de outra, este comprometimento dos textos escritos ‚ inevit vel e devemos, portanto, tentar interpretar suas informa‡’es. Mesmo os objetos e vest¡gios materiais s†o pass¡veis de diferentes leituras ou interpreta‡’es. importante, pois, apresentar diversas leituras que permitam ao leitor tanto identificar a vis†o do autor deste livro como fazer sua pr¢pria id‚ia a respeito. Ao fazer sua pr¢pria id‚ia, leitor, torna-se, vocˆ tamb‚m, interprete do passado, autor de sua reconstru‡†o da Hist¢ria, historiador.

 

PARTE II 

 

O DIA-A-DIA DE UM POVO

 

 

CAPäTULO 1 OS HOMENS E O SOBRENATURAL

 

AT A GUERRA ERA SAGRADA

 

                        Os romanos eram muito religiosos mas num sentido muito especial da palavra: consideravam o respeito aos rituais como fundamental para a manuten‡†o da vida em sociedade. Esse tipo de religiosidade signficava que se dava origens fabulosas a ritos cuja observƒncia era de importƒncia vital. O historiador romano Tito L¡vio descreve, no in¡cio do Principado (s‚culo I d.C ), da seguinte maneira, o fundamento religioso da guerra, instituido no come‡o da Hist¢ria Romana:

 

                        "Assim sendo, do mesmo modo que Numa havia instituido pr ticas religiosas para a paz, Anco M rcio resolveu institu¡-las para a guerra. N†o bastava declarar guerra, mas era necess rio fazer a declara‡†o de acordo com um rito. Tomou, ent†o, de empr‚stimo … antiga na‡†o dos equ¡colas as f¢rmulas para apresentar uma reclama‡†o, ainda hoje <oito s‚culos depois>  usadas pelos sacerdotes chamados feciais. Quando o emiss rio chegava …s fronteiras do pa¡s ao qual ia fazer sua reclama‡†o, cobria a cabe‡a com um v‚u de l† e dizia: "ouvi-me, ¢ J£piter, ouvi-me, fronteiras - aqui nomeava os povos a que pertenciam as fronteiras - ouvi-me, ¢ Justi‡a Divina. Sou o mensageiro oficial do Povo Romano. Venho encarregado de uma miss†o justa e sagrada. Pe‡o que confieis em minhas palavras". Em seguida, expunha suas reclama‡’es e, tomando J£piter por Testemunha, dizia: "se pe‡o de modo injusto e ¡mpio que me sejam devolvidos aqueles homens e aqueles objetos do povo romano, n†o permitais que eu regresse jamais … minha p tria". Esta f¢rmula ele a repetia ao atravessar a fronteira, repetia-a ao entrar na cidade e repetia-a ao penetrar no F¢rum, com ligeiras modifica‡’es introduzidas na invoca‡†o e na f¢rmula de juramento. Se n†o fosse devolvido o objeto de sua reclama‡†o decorridos 33 dias - tal era o prazo consagrado -  ent†o ele declararia guerra proferindo estas palavras: "ouvi-me, ¢ J£piter, e tu, Jano Quirino! Todos v¢s, deuses do C‚u, v¢s, deuses da Terra, e v¢s, deuses do inferno, ouvi-me! Eu vos tomo por tetemunhas de que aquele povo - aqui designava-o pelo seu nome - ‚ injusto e n†o paga o que deve. Quanto a este assunto, consultaremos na p tria aos nossos anci†os sobre o meio de obter o que nos ‚ devido" (Tito L¡vio,Hist¢ria de Roma , X, 32).

 

                        A guerra, que sempre esteve na base da conquista romana, era, como nos conta Tito L¡vio, o resultado de um ritual no qual o sacerdote, chamado fecial, reclamava bens e homens romanos a um outro povo, nas fronteiras. Para os romanos, o essencial n†o estava na justifica‡†o efetiva, ou seja, n†o se esperava a devolu‡†o do que teria sido roubado (j  que, na pr tica, nem mesmo precisaria ter ocorrido qualquer apropria‡†o  ind‚bita). Portanto, o que importava era o rito, a f¢rmula que, repetida corretamente, assegurava o apoio dos deuses. O fecial tomava cuidado de pedir o favor de todos os deuses, fossem os de cima (do C‚u), os da Terra e os debaixo (dos infernos). Novamente, esta era uma preocupa‡†o meramente formal, ritual, visando incluir todos os deuses do lado romano e contra o inimigo.

 

                        A declara‡†o de guerra pelo fecial, ap¢s decis†o por parte do Senado, referido no texto acima, de forma arcaica como "os anci†os", tamb‚m era ritual:

 

                        "Geralmente o fecial levava um dardo de ferro ou de terebinto, com a ponta previamente queimada, at‚ a fronteira do inimigo. L , na presen‡a de pelo menos trˆs adultos, dizia: "uma vez que o povo dos antigos latinos cometeram atos e delitos contra o povo romano, uma vez que o povo romano decidiu entrar em guerra contra os antigos latinos, ou que o Senado do Povo Romano decidiu, votou e decretou que se declarasse guerra ao povo dos antigos latinos, por esses motivos, eu e o povo romano declaramos guerra e a come‡amos contra o povo dos antigos latinos" . Ditas estas palavras, lan‡ava o dardo no territ¢rio inimigo. Desse modo as queixas foram apresentadas aos latinos e foi declarada a guerra. Esse costume passou … posteridade <chegando at‚ n¢s>." (Tito L¡vio, Hist¢ria Romana, X, 32).

 

                        S‚culos depois, continuava o rito a ser seguido! Embora n†o saibamos, ao certo, quando se cristalizou essa f¢rmula, a partir de um certo momento tornou-se um imperativo que, na fronteira, local onde sempre mora a disc¢rdia e o perigo, o sacerdote, com o apoio do mundo sobrenatural, jogasse os dados e obtivesse a gra‡a divina. O uso de frases repetidas, do tipo "uma vez que tal e tal", demonstra bem como o que valia era a fala, a queixa oral. Novamente o car ter jur¡dico do rito ‚ ressaltado, seja pela linguagem, seja pela insistˆncia na presen‡a de, ao menos trˆs testemunhas, tal como exigia a lei. Tratava-se, assim, de estabelecer um contrato com os deuses, garantindo seu apoio ao lado romano, contra o inimigo. Veremos, no quinto cap¡tulo, como o contato dos romanos com os deuses era sempre intermediado pelo ritual e pela palavra. Os gestos formais eram mais importantes que os motivos reais e os romanos "compravam" (ou ganhavam)-os deuses mais do que os temiam.

 

UMA RELIGIOSIDADE FORMAL...E OUTRA NEM TANTO!

 

                        Pl¡nio, o velho, escrevia, no s‚culo primeiro d.C. sobre a importƒncia do respeito …s formalidades na religi†o de estado:

 

                        "Sacrificar animais, sem ora‡’es, n…o funciona, aparentemente, nem produz a correta rela‡†o ritual com os deuses. As f¢rmulas variam; uma para conseguir um bom agouro, uma segunda para evitar o mal agouro e uma terceira para cultuar as divindades. Os magistrados superiores rezam segundo f¢rmulas estabelecidas, tomando muito cuidado para n†o omitir ou trocar palavras; uma pessoa deve ler a prece de um livro e o magistrado deve repetir, fielmente, palavra a palavra; uma outra pessoa confere, cuidadosamente, se o que ele fala bate com o texto. Um terceiro preocupa-se em manter um silˆncio sagrado... Ainda hoje, um homem e uma mulher gregos, ou v¡timas de outra na‡’es hostis, foram enterrados vivos no Mercado de Gado. Ao usarmos as preces costumeiras neste ritual, admitimos a efic cia destas f¢rmulas, comprovadas pela experiˆncia de 830 anos" (Pl¡nio, Hist¢ria Natural, XXVIII, 10-12).

 

                        Esta era a religi†o oficial, exercida pelos magistrados - sacerdotes, comandantes e homens p£blicos a uma s¢ vez. O respeito … f¢rmula consistia na repeti‡†o, ao p‚-da-letra, das preces e rituais. A referˆncia de Pl¡nio ao sacrif¡cio de seres humanos revela a antiguidade desta religi†o tradicional e sua preocupa‡†o com o respeito …s rezas associadas ao enterramento das v¡timas ressalta a importƒncia dada … formalidade.

 

                        Esta religiosidade formal, fria e distante, masculina e da elite, convivia, contudo, com as cren‡as populares. Nestas, prevaleciam os sentimentos. As mulheres, os pobres, os escravos, os fracos e doentes, sempre fr geis ante … natureza e … sociedade, buscavam, na religi†o uma prote‡†o contra a violˆncia. Consideravam que o Destino regia suas vidas mas tinham a esperan‡a de evitar males o obter favores do mundo sorbrenatural. Neste contexto, a magia e a bruxaria, condenados pela elite mais culta como supersti‡…o, eram bastante populares e mesmo elementos da aristocracia deixavam-se seduzir por sentimentos ambiguos a respeito. Apulˆio (s‚culo II d.C.) escreveu um romance no qual descreve sua transforma‡†o, por uma lo‡†o m gica, em um asno. curioso que os crist†os, que combateram esta obra, n†o negavam a transforma‡†o, em si, mas a atribuiam a for‡as diab¢licas. J  isto demonstra a cren‡a generalizada na magia. Apulˆio descreve uma maga da seguinte forma:

 

                        "Ela se dedica com grande fervor, … arte da magia, quando apaixona-se por um rapaz bonito; o que ocorre com frequˆncia. No momento, est  apaixonada por um jovem da Be¢cia, muito belo, e est  usando suas mais potentes bruxarias para seduzi-lo. Ontem, ouvi-a amea‡ando o pr¢prio Sol para apressar-se e fazer noite, o que lhe daria mais tempo para suas feiti‡arias. Caso contr rio, amea‡ou impor uma nuvem de escurid†o eterna sobre a terra...

                        Quando anoiteceu, ficou  excitad¡ssima e subiu ao s¢t†o, local que pensa ser apropriado para suas pr ticas secretas. um local aberto aos quatro ventos e com ampla vista do c‚u, a leste. Tinha tudo preparado para seus ritos mortais: todo tipo de incensos arom ticos, placas de metal com inscri‡’es secretas, partes de p ssaros mal-assombrados, v rios peda‡os de cad veres - em certo lugar, tinha juntado narizes e dedos de homens cruxificados, em outro, os pregos que serviram para fix -los na cruz, ainda com peda‡os de carne humana dependurados - tamb‚m sangue das v¡timas e caveiras de criminosos mortos em combate …s feras, no anfiteatro*. Come‡ou a repetir certos encantamentos sobre as v¡ceras, ainda quentes, de diversos animais, mergulhando-os  em jarros com  gua mineral, leite de vaca, mel e grama. Ent†o, pegou o cabelo que eu (a escrava) tinha arrancado da cabe‡a do rapaz, fez certos cachos, molhou tudo com incenso l¡quido e jogou numa fogueira. O poder desta encantamento ‚ irresist¡vel, considerando-se, tamb‚m, a violˆncia cega dos deuses que foram envocados pela bruxa. O cheiro do cabelo queimado e o barulho da fogueira faz com que o dono do cabelo venha de onde quer que esteja" (Apulˆio, O asno de Ouro, IV).

 

                        Percebe-se, por este relato, que a bruxaria era associada, sem muito problema, aos deuses oficiais que entravam quase como coadjuvantes e, de qualquer maneira, seguindo a vontade da maga. Novamente, o ritual, as palavras, gestos e sacrif¡cios corretos s†o que garantem a efic cia desta religi†o. Contudo, … diferen‡a das pr ticas oficiais, reservadas aos homens sacerdotes, a magia  era acess¡vel a todos. por isto que as mulheres s†o, t†o frequentemente, associadas … bruxaria. Excluidas da religiosidade masculina, militar e oficial, suspeitava-se que as mulheres conseguissem agir de maneira sobrenatural em detrimento, em especial, dos homens. No entanto, tamb‚m os escravos e pobres eram considerados suspeitos, por parte da elite, de praticar a magia. Portanto, a formalidade da religi†o manifestava-se de maneira diversa nos dois grupos: a elite controlava a religi†o oficial enquanto as camadas populares atuavam na magia e nos cultos secretos.

 

CAPäTULO 2 VIDA PçBLICA E VIDA POLäTICA:TEORIA E PRâTICA

 

UMA CONSTITUI?ãO PERFEITA

 

                        Segundo o historiador grego Pol¡bio (s‚culo II a.C.), Roma tinha conseguido conquistar o Mediterrƒneo porque tinha uma constitui‡†o quase perfeita. Sua virtude maior estaria no equil¡brio entre os poderes e, por este motivo, sua defesa da constitui‡†o romana continua a encontrar admiradores no mundo contemporƒneo. Luiz Carlos Bresser Pereira, em 1993, defendia para o Brasil justamente este sistema pol¡tico. Acompanhemos o racic¡onio de Pol¡bio:

 

                        Mesmo para um cidad†o romano, seria imposs¡vel dizer, com certeza, se o sistema, em seu cojunto, era aristocr tico, democr tico ou  mon rquico. Com efeito, a quem fixar a aten‡†o no poder dos c“nsules, a constitui‡†o romana parecer  totalmente mon rquica; a quem fix -la no Senado, parecer  aristocr tica, e a quem se fixar no poder do povo, parecer , claramente, democr tica. Os c“nsules, presentes em Roma enquanto n†o se ausentam no comando de suas legi’es, exercem  autoridade sobre todos os assuntos pol¡ticos, pois todos os magistrados, … exce‡†o dos tribunos da plebe, lhes s†o subordinados e est†o obrigados a obedecer-lhes... Quanto aos preparativos de guerra e … condu‡†o geral das opera‡’es militares, seu poder ‚ quase discricion rio...Quanto ao Senado, em primeiro lugar, tem autoridade sobre o er rio p£blico. Al‚m disso, os crimes cometidos na It lia, para os quais ‚ imposta uma investiga‡†o p£blica (ou seja, trai‡†o, conspira‡†o, envenenamento e assass¡nio), est†o, igualmente, sob a jurisdi‡†o do Senado. Cabe-lhe, ainda, fazer exigˆncias, receber rendi‡’es ou declarar guerra. Para algu‚m que resida em Roma durante a ausˆncia dos Consules, portanto, a constitui‡†o romana parecer  totalmente aristocr tica. Por sua parte, somente o povo tem o direito de conferir distin‡’es e infligir puni‡’es. , tamb‚m, o povo que designa os cidad†os dignos de exercer fun‡’es p£blicas. O povo tem, ainda, o poder de aprovar ou rejeitar leis e - o mais importante de tudo -, delibera sobre a paz e a guerra. Al‚m disso, no caso de alian‡as, de condi‡’es de paz e de tratados, cabe ao povo ratificar ou rejeitar todos os pactos. Ora, diante disso,uma vez mais, algu‚m poderia dizer, com raz†o, que a participa‡†o do povo no governo ‚ a mais importante e que essa forma de governo ‚ democr tica" (Pol¡bio, Hist¢ria VI, 11-18).

 

                        Ap¢s essa exposi‡†o dos poderes dos c“nsules, do Senado e das assembl‚ias populares, Pol¡bio procura demonstrar como cada um destes ¢rg†os era, por assim dizer, controlado pelos outros. justamente este controle m£tuo que tem sido usado, por muitos pensadores modernos, como fundamento para a teoria do equil¡bio de poderes (os famosos checks and balances dos ingleses, ou seja os controles rec¡procos dos poderes e o balan‡o ou equil¡brio de suas for‡as). Mas retornemos a Pol¡bio:

 

                        "Descrita a distribui‡†o do poder pol¡tico entre as difeferentes partes do Estado, vou explicar, agora, como cada uma das trˆs partes ‚ capaz, se desejar, de criar obst culos …s outras, ou de colaborar com elas. O c“nsul, ao partir com seu ex‚rcito, parece ter, efetivamente, autoridade absoluta em todos os assuntos; na verdade, contudo, depende do apoio do povo e do senado, e n†o ‚ capaz de levar adiante as opera‡’es de guerra sem a colabora‡†o de ambos, pois, obviamente, as legi’es necessitam de suprimentos constantes <que dependem do Senado>. absolutamente indispens vel aos c“nsules conquistar a simpatia do povo, pois ‚ este que ratifica ou rejeita as condi‡’es de paz e de tratados.

                        O Senado, por seu turno, ‚ obrigado a estar atento ao povo nas quest’es de interesse p£blico. Se um s¢ dos <dez> tribunos da plebe se opuser, o Senado ‚ incapaz de decidir em £ltima instƒncia sobre qualquer assunto, <gra‡as ao seu poder de veto>.

                        Igualmente, o povo, por seu turno, ‚ submisso ao Senado e respeita-lhe os membros seja em p£blico, seja na vida privada.

                        Nenhum dos poderes predomina sobre os outros nem pode desprez -los." (Pol¡bio, Hist¢ria VI, 11-18)

 

                        Para Pol¡bio, como se percebe, n†o havia, propriamente, conflito de poderes, mas controle de uns sobre os outros. Na pr tica, a Hist¢ria romana sempre foi marcada pela luta entre patr¡cios e plebeus ou entre nobres e "homens novos", os ricos de origem popular. Houve, constantemente, choques entre o Senado (patr¡cio, nobre) e a plebe, assim como os c“nsules acabaram por se tornar poderosos e, com M rio (final do s‚culo II e in¡cio do s‚culo I a.C.), Sila e C‚sar, colocaram em cheque o poder do Senado. A partir de Augusto (30 a.C.-14 d.C.), os imperadores, que eram generais do ex‚rcito, exercer†o grande poder. Tudo isto demonstra como a constru‡†o da constitui‡†o perfeita romana correspondia a um ideal num mundo real no qual os grupos n†o se limitavam a controlar o poder dos outros agentes sociais.

 

O PRINCIPADO E OS PODERES DO IMPERADOR

 

                        Com Augusto (30 a.C.-14 d.C.), o arranjo constitucional republicano sofre algumas modifica‡’es. Formalmente, os poderes continuavam divididos mas a introdu‡†o da figura do pr¡ncipe ou imperador alterou essas rela‡’es de maneira significativa. O pr¢prio Augusto queria manter a aparˆncia de ser um restaurador da liberdade republicana, como declara no relato de sua ascen‡†o ao poder:

 

                        "Com a idade de dezenove anos, tomei a iniciativa de formar um ex‚rcito, …s minhas custas, e gra‡as a ele fui capaz de restabelecer a liberdade do estado que estava dominado por uma fac‡†o. Por isto, o Senado decretou certas honras para mim, fazendo-me Senador, no consulado de G io Pansa e Aulo H¡rtio (43 a.C.), dando-me a oportunidade de expor minha opini†o junto aos consulares e dando-me o comando supremo das for‡as armadas. O Senado pediu-me que, como comandante, junto aos c“nsules*, "protegesse o estado". No mesmo ano, ao morrerem os dois c“nsules em batalha, o povo escolheu-me c“nsul e tri£nviro para a reorganiza‡†o do estado.

                        A ditadura foi-me oferecida, tanto pelo Senado como pelo povo, mas n†o aceitei. Foi-me oferecido o consulado anual em forma perp‚tua, mas recusei. Em trˆs ocasi’es (19, 18 e 11 a.C.), o Senado e o Povo Romanos concordaram que eu deveria ser o superintendente das leis e da moral, com autoridade absoluta e sem colega; contudo, n†o aceitei nenhuma magistratura* que conflitasse com a tradi‡†o. Tenho sido o lider do Senado por quarenta anos consecutivos" (Augusto, A‡’es do Divino Augusto, 1;5;7).

           

                        As institui‡’es tradicionais, como o Senado e o Povo, com seus com¡cios, continuaram a existir mas passaram a conviver com um poder pessoal do "pr¡ncipe do senado", o imperador. Augusto tentou apresentar-se como restaurador da velha oderm republicana e tomava o cuidado, como se observa no documento, de deixar …s institui‡’es tradicionais a iniciativa de ceder-lhe poderes e cargos. Contudo, um autor grego do s‚culo terceiro d.C., C ssio Dio, nos revela como, com o tempo, o imperador passou a ser considerado:

 

                        "Todo o poder do povo e do senado passaram para Augusto e, desde ent†o, tem havido, estritamente falando, uma monarquia; na verdade, devia chamar-se uma monarquia, ainda que …s vezes dois ou trˆs homens tenham governado ao mesmo tempo. A verdade ‚ que o nome "monarquia" era t†o odiado pelos romanos que eles nunca deram aos seus imperadores t¡tulos como ditadores ou reis; contudo, na medida em que tˆm a autoridade final, deviam ser chamados de reis. Os cargos estabelecidos pelas leis ainda s†o mantidos, exceto os censores, mas o controle de tudo est  nas m†os de quem est  no poder naquele momento. Para que pare‡am ter esse poder n†o devido † for‡a mas † tradi‡†o, os imperadores ocupam os diversos cargos que, durante a rep£blica e com o consentimento do povo, eram poderosos, tomando seus t¡tulos, exceto a ditadura. Assim, s†o, frequentemente, eleitos c“nsules, pr¢-c“nsules*, quando fora de Roma. Todos det‚m o t¡tulo perp‚tuo de imperador" (C ssio Dio, 53, 17).

 

                        C ssio Dio, que foi c“nsul em 229 d.C., conhecia bem a realidade do poder imperial, ainda que devamos lembrar que fala n†o tanto da ‚poca de Augusto como da sua pr¢pria. De qualquer forma, a estrat‚gia de exerc¡cio de poder dos imperadores baseava-se, desde Augusto, na id‚ia de ocupar cargos tradicionais e, a partir desta base legal, governar. Assim, a sucess†o n†o era heredit ria, pois n†o havia, propriamente, uma realeza de sangue. Era, antes, uma esp‚cie de regime militar, pois os imperadores deviam ser generais e o poder n†o era de uma fam¡lia mas dos generais. Isto explica que a sucess†o fosse baseada na ado‡†o do futuro imperador. Este n…o era, necessariamente, parente do imperador, e devia ser, como regra geral, um comandante militar. No entanto, o Imperio Romano, al‚m de n…o ter sido uma monarquia, no sentido moderno da palavra, era formado por uma grande quantidade de cidades mais ou menos aut“nomas. Cada uma delas tinha sua pr¢pria constitui‡†o e escolhia seus pr¢prios magistrados*. Por isso, quando falamos em "imp‚rio" n†o podemos confund¡-lo com outros imp‚rios. J  se chegou a propor que o Imp‚rio Romano nada mais era que um imenso conglomerado de cidades independentes. Isto nos conduz … politica local, ao poder e …s elei‡’es nas cidades romanas.

 

TUDO VALE EM BUSCA DO VOTO

 

                        Quando se pensa em democracia e elei‡’es na Antiguidade, logo se lembra de Atenas. A vis†o tradicional que se tem ‚ que, em Roma, o povo pouco participava da vida pol¡tica. N†o era bem assim, contudo. As elei‡’es podiam ser bastante disputadas e os romanos desenvolveram t‚cnicas de propaganda eleitoral sofisticadas que, em muitos aspectos, prenunciam o mundo moderno. C¡cero (106-43 a.C.), um l¡der que conhecia bem os bastidores da pol¡tica romana, escreveu bastante a respeito. Acompanhemos o que nos diz sobre a "ca‡a" ao voto:

 

                        "Para ganhar o favor popular, o candidato deve conhecer os eleitores por seu nome, elogi -los e bajul -los, ser generoso, fazer propaganda e levantar-lhes a esperan‡a de um emprego no governo...

                        A generosidade ‚ um tema amplo. Talvez sua renda privada n†o possa atingir todo o eleitorado, mas seus amigos podem ajud -lo a agradar a plebe. Ofere‡a banquetes e providencie que seus amigos fa‡am o mesmo, procurando atingir os eleitos ao acaso e o eleitorado espec¡fico de cada tribo...

                        Quanto … sua imagem, espalhe que vocˆ fala bem, que os coletores de impostos e a cl sse m‚dia gostam de vocˆ, que os nobres o estimam, que os jovens se amontoam … sua volta, assim como os clientes que vocˆ j  defendeu, e que veio gente do campo e de cidades do interior, at‚ Roma, explicitamente para apoiar a sua campanha. Fa‡a com que os eleitores falem e pensem  que vocˆ os conhecem bem, que se dirija a eles pelo seu nome, que sem parar e conscienciosamente procura seu voto, que vocˆ ‚ generoso e aberto, que, mesmo antes do amanhecer, sua casa est  cheia de amigos, que todas as classes s†o suas aliadas, que vocˆ fez promessas para todo mundo e que as cumpriu, realmente, para a maior parte das pessoas.

                        Sua campanha, na medida do poss¡vel, deve levantar, contra seus advers rios, suspeita negativas, apropriadas …s suas personalidades, envolvendo crimes, v¡cios e corrup‡†o...

                        Lembre-se que esta ‚ Roma, uma cidade composta de uma multid†o de povos, cheia de falsidades, engana‡’es e v¡cios de todo tipo, na qual vocˆ deve suspeitar, a todo momento, a arrogƒncia, o insulto, o olho gordo, o desd‚m, o ¢dio e o import£nio. necess rio,penso, muito bom senso e destreza para um s¢ indiv¡duo conseguir evitar antagonismos, boatos e armadilhas, e adaptar-se a uma tal variedade de personalidades, pontos-de-vista e interesses" (41,50,52,54).

 

                        Algumas das sugest’es de C¡cero s†o usadas pelos nossos pol¡ticos! No entanto, observe-se como d -se importƒncia … riqueza do postulante e de seu c¡rculo de amigos, que devem custear banquetes e a pr¢pria campanha. Isto ocorria porque o cargo p£blico era considerado uma honra e, em certo sentido, uma carga, um fardo at‚ mesmo econ“mico. A referˆncia aos clientes, que n¢s chamar¡amos hoje "agregados, dependentes, protegidos", demonstra que o clientelismo* era um trunfo importante. De qualquer forma, o povo, a plebe ou a massa, constitu¡a um elemento a ser cativado e n†o coagido.

 

                        Conhecemos, tamb‚m, as elei‡’es romanas pelos cartazes pintados pelos candidatos em campanha. Vejamos um exemplo da cidade de Pomp‚ia:

 

                        "Reeleja, pela terceira vez, L£cio Verƒnio Ipseo para du£nviro (prefeito) e quinquenal em chapa com Cas‚lio Marcelo, candidato a edil: ser†o ¢timos colegas" (CIL IV 187).

 

                        Estes cartazes eram pintados nas paredes, em grande n£mero, espalhadas por toda a cidade, como se vˆ na figura nesta p gina (FIGURA 1). Este cartaz refere-se a uma comemora‡†o da elei‡†o do candidato:

 

                        "Todos os pompeianos, sem exce‡†o, elegeram P quio Pr¢culo du£nviro: ele ‚, verdadeiramente, digno da administra‡†o da cidade" (CIL IV 1122).

 

                        O fato do cartaz mencionar que  todos votaram no candidato tem sido interpretado, pelos historiadores, de duas maneiras diversas. Para alguns, isto demonstraria que, na pr tica, as elei‡’es eram pouco disputadas, pois se todos votaram, n†o havia, na verdade, op‡†o de n†o se votar no canditato. Outros, contudo, lembrando-se at‚ das recomenda‡’es de C¡cero que acabamos de ver acima, consideram que este cartaz comemorativo n†o passa de um exagero a ser entendido como "a cidade de Pomp‚ia o elegeu em massa". Seria como hoje, quando um candidato, ao vencer uma elei‡†o … prefeitura, agrade‡e a  toda a cidade, sem que isso, a rigor, represente a realidade. Cabe a n¢s pensarmos e tentarmos fazer nossa pr¢pria id‚ia, pois estudar a Hist¢ria ‚ interpretar os documentos.

 

CAPäTULO 3 AS CLASSES E O TRABALHO

 

HAVIA CLASSES SOCIAIS?

 

                        O pr¢prio uso do termo classe social, no que se refere … Antiguidade, j  acarreta certos problemas. Isto porque h  muitos autores que consideram que o uso da palavra classe seria justific vel apenas quano nos referimos … sociedade moderna, nos £ltimos s‚culos, portanto. A¡ sim, ter¡amos a classe trabalhadora, por exemplo, aqueles que n†o tˆm os meios-de-produ‡†o e que possuem somente sua for‡a de trabalho como bem a ser vendido. Na Antiguidade, segundo esta posi‡†o, haveria estamentos* e n†o classes. Para exemplificar, um escravo podia ser pobre, no trabalho na ro‡a, ou rico, na administra‡†o p£blica imperial. Um camponˆs livre podia ser pobre ou rico. Assim, suas diferen‡as seriam de estamento ou de estatuto jur¡dico: o escravo e o livre pobres eram diferentes, de estamentos diferentes; um livre, o outro, escravo. Mesmo se fossem igualmente pobres, seriam inevitavelmente diferentes por seu estatuto diverso.

 

                        Vejamos como os documentos tratam desta quest†o. O jurista G io dividia as pessoas da seguinte maneira:

 

                        "A principal diferen‡a entre as pessoas, quanto ao direito, ‚ esta: todos os homens s†o ou livres ou escravos. Os homens livres subdividem-se, por sua vez, em nascidos livres e libertos ou forros. S†o nascidos livres os que assim nasceram; s†o libertos os que foram alforriados. Os libertos s†o de trˆs tipos: cidad†os romanos, cidad†os latinos ou n†o cidad†os... Est  determinado pela Lei lia Sˆntia que os escravos que, … t¡tulo de pena, tiverem sido encarcerados pelos seus senhores, ou marcados por ferro em brasa, ou tenham sido punidos por um delito cometido, ou entregues ao combate contra animais selvagens ou como gladiadores ou na pris†o e que, depois, tenham sido alforriados pelos seus pr¢prios donos ou por algu‚m mais, ter†o eles, tornando-se livres, a mesma condi‡†o dos estrangeiros, que n†o s†o cidad†os romanos. S†o chamados estrangeiros n†o cidad†os aqueles que, tendo combatido, no passado, o povo romano e tendo sido vencidos, renderam-se a n¢s... Aquele que possua trˆs caracteristicas, a saber, tenha mais de trinta anos, seja escravo de um senhor pelo direito romano e tenha sido alforriado de maneira justa e leg¡tima ... torna-se o forro cidad†o romano; mas se falta uma dessas condi‡’es, tornar-se-  cidad†o latino apenas" (Institutas I, 9-17).

 

                        Este documento, por certo de car ter legal, apresenta uma divis†o bastante clara dos homens mas, ao mesmo tempo, deixa evidente que havia mobilidade, possibilidade de mudan‡a de um grupo a outro. O escravo podia ser alforriado e, at‚, tornar-se cidad†o romano de pleno direito. Mesmo neste caso, no entanto, devemos lembrar que o liberto n†o ‚ igual …quele nascido livre, seja por sua origem escrava, seja por algumas priva‡’es, que este documento n†o cita, de direito. o caso da possibilidade de candidatura a certos cargos reservados aos nascidos livres. Havia, portanto, estamentos* em Roma. N†o haveria, ent†o, classes sociais? Talvez possamos chegar mais perto de uma resposta ao lermos um outro documento. Petr“nio (s‚culo I d.C.) descreve, em seu romance Satyricon, um liberto que se enriqueceu e que conta sua pr¢pria hist¢ria:

 

                        "Antigamente, era como vocˆs; foi a habilidade que me p“s onde estou hoje, cheio de prosperidade. Foi minha economia que me fez milion rio. Quando vim da âsia, n†o era maior do que um candelabro. Por quatorze anos, fui o escravo favorito de meu senhor e, para dizer a verdade, tamb‚m da patroa. Com a ajuda dos C‚us, fiquei … testa dos neg¢cios e consegui que o meu senhor lembrasse-se de mim em seu testamento, pelo que acabei por herdar uma fortuna senatorial, fabulosa. Mas ningu‚m se d  por satisfeito, e quiz meter-me nos neg¢cios. Construi cinco navios mercantes, carreguei-os de vinho - valiam uma fortuna, na ocasi†o - e os enviei a Roma. Poderia pensar-se que o planejei assim: todos os barcos naufragaram. Foram trinta milh’es de sest‚rcios engolidos por Netuno*, em um s¢ dia. Deixei-me abater? Nada disso: construi mais navios, melhores e mais sortudos. E minha mulher fez o que devia fazer: vendeu suas j¢ias e roupas de luxo e deu-me o arrecadado: cem pe‡as de ouro. Isto permitiu-me voltar a por o prato na fervura. Gra‡as aos C‚us, numa viagem r pida, pude lucrar dez milhoes. De imediato, paguei o que devia, construi uma mans†o na cidade, abasteci-me de escravos e de gado. Quando fiquei mais rico do que toda minha cidade, resolvi aposentar-me e come‡ei a financiar, amigavelmente, libertos. Construi este palacete: vinte quartos, dois p¢rticos de m rmore, uma adega de vinho, uma suite senhorial, uma sala de estar para o dia-a-dia, muitos quartos para h¢spedes" (Satyricon 75-77).

 

                        Este personagem, um liberto, chamado Trimalci†o, demonstra bem a possibilidade de ascen‡†o social que um escravo podia ter. Esta mobilidade fazia com que um liberto milion rio fosse quase do mesmo grupo social de um livre rico. Sempre seria um ex-escravo, n†o podia ser eleito, n†o tinha a refina‡†o de um aristocrata, mas era milion rio. Percebe-se, portanto, que a sociedade romana n†o era, rigidamente, estamental pois havia possibilidade de mudan‡a, havia mobilidade social. Por outro lado, n†o era apenas a riqueza que definia o indiv¡duo, mas seu estatuto jur¡dico. De maneira que havia, a um s¢ tempo, estamentos* e classes sociais. N†o havia a rigidez dos estamentos nem o dom¡nio absoluto da riqueza, t¡pico da diferencia‡†o moderna em classes sociais. Havia classes, mas, tamb‚m, estamentos.

 

AS CLASSES E AS ORDENS EM A?O

 

                        C¡cero, escrevendo no final da rep£blica (s‚culo I a.C.) talvez tenha sido o autor romano que mais haja se preocupado com a quest†o das classes sociais e das ordens jur¡dicas. Isto n†o era casual, pois Marco T£lio C¡cero representou bem a situa‡†o ambigua dos romanos que, n†o sendo nobres de sangue, chegaram ao topo da sociedade. Em um de seus muitos discursos, C¡cero se debrou‡ou sobre a quest†o nos seguintes termos:

 

                        "Dois tipos de pessoas sempre existiram em Roma, desejosas de participar da vida pol¡tica e de alcan‡ar distin‡†o: uma classe desejava ser, e ser considerada, representantes do povo comum, os "populares"; a outra, chamava-se de "os melhores", os "¢timos". Aqueles que queriam, em a‡’es e em palavras, agradar a grande massa, eram considerados populares; aqueles que queriam a aprova‡†o dos bons cidad†os, eram considerados os ¢timos. Bem, quem s†o estes "¢timos"?  Muitos homens, indispens veis: s†o os primeiros na defesa do bem comum e s†o, ainda, seu sustent culo. S†o os membros das classes altas, eleg¡veis para o Senado; cidad†os de cidadezinhas e de regi’es interioranas; homens de neg¢cio; at‚ mesmo libertos s†o ¢timos" (C¡cero, Em defesa de S‚stio, 96).

 

                        C¡cero divide os romanos n†o segundo seu estatuto jur¡dico entre nobres e plebeus, como dois grupos claramente distintos. Ao contr rio, junta sob a denomina‡†o de "¢timos" pessoas t†o d¡spares como patr¡cios e libertos. Isto reflete a pr¢pria posi‡†o de C¡cero, um homem culto, que chegou ao Consulado e ao Senado mas cuja origem eram provinciana. Neste contexto, propunha uma alian‡a de diferentes grupos unific veis, ao menos do seu ponto-de-vista, em torno da elite. C¡cero continua explicando porque estes diferentes grupos devem ser considerados como um todo:

 

                        "Embora ampla e heterogˆnea, esta classe, como um conjunto, pode ser brevemente definida. Todos os homens que defendem a lei e a ordem, n†o s’o depravados, radicais ou com dificuldades dom‚sticas devem ser considerados ¢timos. Aqueles que a oposi‡†o popular chama de "uma quadrilha" s†o, na verdade, honestos, ¡ntegros, homens de fam¡lia. Aqueles que, no governo, consultam os desejos, interesses e opini’es deste grupo devem ser contados entre os ¢timos, ¡ntegros, cidad†os superiores e defensores do interesse p£blico" (C¡cero, Em defesa de S‚stio, 97).

 

                        Como se percebe, a jun‡†o de empres rios, fazendeiros e libertos (subentende-se que enriquecidos) constitui um elemento de apoio pol¡tico aos "¢timos", no sentido estrito. Todos os que defendem os interesses dessa elite devem ser, segundo C¡cero, admitidos no restrito grupo dos ¢timos. Mas quais seriam estes interesses?

 

                        "No que deveriam se fixar os olhos destes comandantes do estado e em que dire‡†o seguir? O mais importante e desej vel, para estes cidad†os corretos, leais e bem de vida: paz com dignidade. Todos que querem isso s†o os ¢timos; aqueles que levam isso a cabo na pr tica s†o estadistas, mantenedores da comunidade. Mas os homens n†o deveriam deixar que sua busca da honra e do reconhecimento se sobrepuzesse ao desejo da paz, assim como o contr rio: a busca da paz n†o deveria prejudicar o anseio ao reconhecimento. Os fundamentos da paz com reconhecimento, que os defensores do bem p£blico devem protejer e defender, mesmo … custa da sua pr¢pria vida, s†o os seguintes: o cuidado com os preceitos religiosos,  aug£rios,  poderes dos magistrados,  prest¡gio senatorial,  leis,  tradi‡’es,  finan‡as,  prov¡ncias, aliados, com a gl¢ria do imp‚rio, for‡as armadas e o tesouro" (C¡cero, Em defesa de S‚stio,98).

 

                        Paz com dignidade, calma com honrarias, tranquilidade p£blica e cargos, estes os elementos que deviam unificar toda uma gama de "gente de bem" em torno da elite romana. O programa pol¡tico de C¡cero, conservador, n†o pode ser encarado como uma realidade efetiva. dif¡cil que todos os grupos sociais citados, de libertos a empres rios, aceitassem essas id‚ias. Sabemos que muitos deles estavam do outro lado, do lado dos populares. Mais do que isso, n†o ‚ prov vel que libertos fossem bem aceitos, sem qualquer discrimina‡†o, no c¡rculo de defensores da elite, como ¢timos iguais aos outros. No entanto, as id‚ias expostas por C¡cero demonstram que se podia defender uma concep‡†o de classe explicitamente n†o convencional e, at‚, contr rio … tradi‡†o. Isto ‚ muito importante porque, confirmando o que vimos antes, percebe-se que a sociedade romana n†o era apenas e t†o somente dividida em ordens ou estamentos* mas, ao contr rio, contava com classes. Estas dependiam da sua posi‡†o econ“mica e ideol¢gica pois somente esses fatores poderiam congregar elementos socias t†o diferentes como  ex-escravos, empres rios, fazendeiros, senadores e patr¡cios.

 

 

O TRABALHO DURO

 

                        A grande maioria da popula‡†o, seja ela escrava ou livre, trabalhava e vivia em condi‡’es nada semelhantes … riqueza descrita por Trimalci†o. O trabalho pesado era feito por animais de carga mas, tamb‚m, por escravos e por pobres, na ro‡a e na cidade. Os ricos, em geral, consideravam todo trabalho manual degradante e louvavam o ¢cio. Contudo, pode-se supor que os pr¢prios trabalhadores n†o se envergonhavam tanto de si mesmos. Ao contr rio, h , por exemplo, entre os cartazes eleitorais, muitas referˆncias a categorias de trabalhadores manuais que ap¢iam os candidatos. Temos, por exemplo:

 

                        "O Professor Saturnino ap¢ia C io C£spio Pansa para edil*, com o apoio dos seus alunos (CIL IV 275).

                        Os artes†os fabricantes de carro‡as pedem o voto para Marcelo, candidato a Edil* (CIL IV 485).

                        Os camponeses pedem o voto para M. Cas‚lio" (CIL IV 490)

 

                        ãs vezes, as pessoas se associavam de maneira informal e, deve se supor, expressavam-se de forma engra‡ada:

 

                        "Todos os dorminhocos pedem o voto para V tia, para Edil*" (CIL IV 575).

                       

                        Ou ent†o:

 

                        "Todos os beberr’es pedem o voto para M. Cerr¡nio V tia, para Edil*" ().

 

                        Outro tipo de documento que deixa claro o orgulho dos trabalhadores, refere-se aos sarc¢fagos* nos quais diversas profiss’es s†o representadas. Os relevos* funer rios, na medida em que servem para preservar a mem¢ria do morto, devem referir-se …quilo que d  orgulho ao falecido e … sua fam¡lia. Os relevos* de diversos of¡cios devem ser entendidos neste contexto. Assim, o sarc¢fago* de P. N“nio Zeto mostra a moenda em uma padaria (FIGURA 2 ). Neste caso, a m¢ era movida a burro, mas sabemos que, muitas vezes, ela era empurrada por escravos ou pobres.

 

                        Outras profiss’es, como a‡ougueiro e vendedor de alimentos, representadas tamb‚m em sarc¢fagos* romanos,  mostram a variedade destes documentos (FIGURA 3 ). Outras vezes, contamos com restos arque¢logicos de constru‡’es que nos permitem ter uma id‚ia das atividades quotidianas. Na cidade de Roma, por exemplo, grande quantidade de produtos eram recebidos, diariamente, no porto da cidade, no Rio Tibre, desembarcados e armazenados em dep¢sitos, como se vˆ nas reconstru?’es nesta p gina (FIGURA 4 ). Depois disso, os produtos eram encaminhados a diversos mercados, sendo o mais central um imponente edif¡cio, ainda muito bem conservado, com diversos andares. O Mercado de Trajano, como ficou conhecido gra‡as ao Imperador Trajano (in¡cio do s‚culo II d.C.), possuia, em seu interior, um sem n£mero de lojas que vendiam de tudo a uma verdadeira multid†o de compradores.

 

                        Roma n†o era s¢ trabalho. No cap¡tulo seguinte veremos como se vivia na cidade e como eram as divers’es.

 

CAPäTULO 4  A CIDADE E AS DIVERS‘ES

 

A CIDADE A ORDEM

 

                        A cidade representava, para o romano, o ambiente natural da vida em sociedade. Mesmo os camponeses, que visitavam as cidades apenas ocasionalmente, encaravam-na como padr†o a ser seguido. A cidade romana era o exemplo acabado do que chamar¡amos hoje "cidade planejada", perfeitamente regular, com largas avenidas e ruas paralelas e transversais, como que formando uma rede. Isto se deve ao fato de que a cidade romana surge como uma recria‡†o de um acampamento militar, cuja configura‡†o era perfeitamente sim‚trica e racional, como explicitou Pol¡bio (IV,31,10) .

 

                        Como se vˆ, havia quatro portas, uma via principal, onde se localizavam os edif¡cios administrativos, como o f¢rum* e a morada do capit†o. Os outros oficiais alojavam-se ao lado. Os soldados alojavam-se em vias second rias. De maneira similar, a cidade compunha-se de um f¢rum*, um quadrado descoberto, geralmente cercado por colunas cobertas. Aqui os patr¡cios* encontravam-se para discutir a pol¡tica e a economia, j  que os bancos situavam-se, tamb‚m, nesta  rea. Nas cidades pequenas, os comerciantes ficavam no f¢rum* ou em suas vizinhan‡as. Em muitos casos, as lojas davam para as colunas internas ou, como no caso da cidade de Venta, na atual Gr†-Bretanha. Nesta cidadezinha, cujo f¢rum* e bas¡lica* est†o reconstruidos na figura nesta p gina, as lojas eram abertas na frente, com balc’es (FIGURA 5).No fundo da loja havia escadas que conduziam ao segundo andar, usado como dep¢sito e como moradia para o propriet rio. Para fech -las, usavam-se toras de madeira que encaixavam-se em carrilhos e impediam o acesso ao interior.

 

                        Em Roma, uma cidade imensa, com talvez um milh†o de pessoas, no seu auge (s‚culo I d.C.), o f¢rum* era usado, principalmente, para festas religiosas e grandes manifesta‡’es c¡vicas. Ao f¢rum*, espa‡o p£blico aberto, juntava-se a bas¡lica*, uma grande constru‡†o para neg¢cios p£blicos. Mesmo o f¢rum* e a bas¡lica* de Sept¡mio Severo (193-211 d.C.) da cidade provincial africana Leptis Magna demonstram a grandiosidade desses edif¡cios..

 

                        A planta de Pomp‚ia, cidade destruida pela erup‡†o  do vulc†o Ves£vio em 79 d.C., embora  uma cidade n†o planejada, possu¡a uma estrutura bastante regular, com as ruas se entrecruzando .  Pomp‚ia era murada, sendo acess¡vel por diversos prot’es, como a Porta de Herculano, do Ves£vio ou de Nola. Estes nomes derivam das estradas, com destino a esses lugares, que saiam destas portas. Os principais edif¡cios p£blicos eram o f¢rum*, os teatros aberto e fechado, o anfiteatro*, a palestra* (um campo de exerc¡cios), diversas termas ou banhos p£blicos, a bas¡lica* e templos a Apolo*, Zeus* e ao Imperador Vespasiano (69-79 d,C.).

 

A MAIOR DIVERSO: OS GLADIADORES

 

                        Havia muitas divers’es populares: o teatro, as corridas de bigas, os jogos de dados, entre outras atividades. A maior parte delas possuia uma origem antiga e fundava-se em pr ticas religiosas. Os jogos de azar, por exemplo, ligavam-se a uma concep‡†o m gica na qual o Destino (chamado Fortuna) era o principal motor da vida humana. O jogo, portanto, era uma esp‚cie de prepara‡†o do indiv¡duo para enfrentar as dificuldades imprevis¡veis da vida. De maneira que n†o podemos deixar de lado este aspecto m gico, religioso e sagrado que sempre estava presente nas divers’es romanas.

 

                        Tamb‚m a mais popular paix†o popular, as lutas de gladiadores, teve sua origem em um costume religioso. Os etruscos, um povo que vivia ao norte de Roma e que ocupou quase toda a It lia nos s‚culos VII-V a.C., introduziram o costume de sacrificar-se prisioneiros de guerra nos funerais dos seus pr¢prios guerreiros. A luta de guerreiros, prisioneiros inimigos, at‚ a morte servia como uma esp‚cie de sacrif¡cio aos deuses em honra dos soldados vencedores que pereceram. Tertuliano, um autor crist†o, descrevia estes sentimentos da seguinte maneira:

 

                        "Os antigos pensavam que, com este tipo de espet culo, prestavam homenagem aos mortos. Acreditava-se que as almas dos mortos eram benficiadas com o sangue humano e, assim, costumavam sacrificar, nos funerais, soldados inimigos capturados ou escravos" (Tertuliano).

 

                        Com o passar do tempo, a luta passou … arena e adquiriu outras conota‡’es religiosas. A morte dos gladiadores passou a representar a supremacia dos vivos, espectadores, que, mesmo sendo muito pobres ou escravos, podiam beneficiar-se do sacrif¡cio do sangue humano. Este car ter religioso explica porque os gladiadores mortos eram retirados por um homem vestido como o Deus etrusco Carum, uma esp‚cie de deus dos infernos.

 

                        Este car ter m gico da luta de gladiadores n†o significa que n†o tivesse seu lado de divers†o e que fosse utilizado pelos governantes para dominar a grande massa. Mas, como era uma luta de gladiadores? Em um anfiteatro, como na figura nesta p gina (FIGURA 6), grupos de dois lutadores armados de capacetes, lan‡as, escudos, espadas, redes e garfos, pelejavam at‚ que um deles ca¡sse ao solo e ficasse em posi‡†o de ser morto pelo advers rio. Neste momento, o p£blico devia manifestar-se, levantando ou abaixando os polegares, para decidir se o perdedor devia ser morto ou poupado para lutas futuras. Caso houvesse lutado bravamente, seria preservado. Caso contr rio, era morto e retirado por Carum. A peleja era acompanhada por uma banda de m£sica e havia torcidas, seja para gladiadores espec¡ficos, seja para lutadores de diferentes cidades. N†o se pagava para assistir, os jogos eram financiados por figur’es e eram dedicados a divindades espec¡ficas. Os patrocinadores costumavam anunciar, com cartazes, as lutas. Vejamos um exemplo de uma inscri‡†o que comemora os diversos patroc¡nios de um destes pol¡ticos:

 

                        "Aulo Cl¢dio Flaco, filho de Aulo, da tribo Menƒnia, du£nviro* pela terceira vez e quinquenal, tribuno militar, organizou os seguintes espet culos para a popula‡†o de Pomp‚ia:

                        No  primeiro duunvirato*: nas festividades de Apolo, uma parada no F¢rum*, touradas, trˆs duplas de pugilistas, boxeadores, representa‡’es de com‚dias de todo tipo e distribui‡†o, ainda, de 10.000 sest‚rcios;

                        No segundo duunvirato*, como quinquenal*: nas festividades de Apolo*, parada no F¢rum*, touradas, boxeadores. No dia seguinte, patrocinou, pessoalmente, no edif¡cio de espet culos (o anfiteatro), trinta duplas de lutadores, cinco duplas de gladiadores, mais 35 e um combate contra animais selvagens: touros, javalis e ursos; al‚m disso, ca‡a a outros animais, patrocinada juntamente com seu colega du£nviro" (CIL X 1074).

 

                        As lutas faziam parte, portanto, de um conjunto de festas religiosas financiadas pelos pol¡ticos. Por que eram t†o populares? Havia torcidas organizadas e temos, at‚ mesmo, um desenho feito por um popular, em Pomp‚ia, que mostra uma luta entre os torcedores de Pomp‚ia e de Nuc‚ria, uma outra cidade da regi†o, no anfiteatro*, em 59 d.C. (FIGURA 7). Note-se, nesta representa‡†o, a presen‡a de banquinhas de comidas e bebidas na frente da escada de acesso …s arquibancadas.

 

                        Os torcedores rabiscavam, com frequˆncia, as paredes do anfiteatro* para representar seus ¡dolos e assinalar quantas vit¢rias j  acumulavam . A explica‡†o para a popularidade das lutas encontra-se na associa‡†o entre religiosidade e ordem social que estes espet culos encerravam. O sacrif¡cio humano a deuses espec¡ficos, em festas c¡vicas, patrocinadas pelas autoridades, representava uma maneira de superar as mazelas e os sofrimentos do dia-a-dia de escravos e pobres. A palavra sacrif¡cio j  diz tudo. Os crist†os, que se opor†o, frontalmente, a estes jogos apenas conseguir†o combatˆ-los substituindo o sacrif¡cio e o sangue real dos gladiadores pelo sacrif¡cio e sangue celebrados, ritualmente, na Eucaristia. Jesus, morto em sacrif¡cio pelos homens, passa a consolar os pobres. Isto demonstra bem como os jogos de gladiadores cumpriam um papel fundamental de manuten‡†o da ordem social e seu abandono s¢ ocorreria com a sua substitui‡†o por algo que mantivesse, ao menos a n¡vel das id‚ias, a no‡†o de sacrif¡cio pela comunidade.

 

CAPäTULO 5 CASA E CASAMENTO

 

CASAMENTO E FAMäLIA

 

                        A sociedade romana estruturava-se em torno da fam¡lia, termo que compreendia n†o apenas pai, m†e e filhos mas incluia os escravos, a casa, os animais e todos os bens sob o controle do chefe da fam¡lia: o pai. Todo o parentesco estruturava-se na oposi‡†o entre pai e m†e e seus parentes. Os parentes do pai, que definia a identidade dos filhos e estabelecia os v¡nculos de heran‡a, nome, culto, residˆncia, eram severos. Os tios e av¢s paternos eram distantes e exigentes. Os parentes do lado materno, sem vincula‡’es institucionais j  que as crian‡as n†o herdavam bens, nome, culto e residˆncia da m†e, estabeleciam rela‡’es muito mais ternas com seus afilhados, netos e sobrinhos.

 

                        Esta caracteriza‡†o serve para fam¡lias ricas e pobres, pleb‚ias e patr¡cias. O casamento formal, contudo, variava conforme a situa‡†o social dos noivos. C¡cero descreve as limita‡’es aos casamentos entre patr¡cios e plebeus:

 

                        "Enquanto mesmo as alian‡as entre duas na‡’es s†o permitidas, os decˆnviros* proibiram, de maneira vergonhosa, o matrim“nio entre as duas ordens do povo romano, patr¡cios* e plebeus*. Essa proibi‡†o levou, mais tarde ao plebiscito de Canulˆio" (C¡cero, Rep£blica II, 37).

 

                        Segundo a tradi‡†o, a Lei Canul‚ia de 445 a.C. permitiu o casamento de patr¡cios* e plebeus*, antes disso proibidos. De qualquer forma, o casamento continou a ser diferente para ricos e pobres. G io descreve o matrim“nio tradicional da seguinte maneira:

 

                        "Antigamente, as mulheres podiam ser propriedade de um homem de trˆs maneiras: por uso ou posse; por casamento tradicional; ou por compra. Pela posse, uma mulher tornava-se propriedade do marido ap¢s um ano de vida em comum; neste caso, era como se, ap¢s um ano, passasse a ser propriedade por usocapi†o* e, na fam¡lia do marido, era considerada como uma filha. por isto que a Lei das Doze T buas < de 450 a.C. > previa que, se uma mulher n†o quizesse, dessa forma, passar ao poder do marido, deveria ficar fora de casa trˆs noites a cada ano, de modo a interromper a posse de seu marido. Mas tudo isto foi, em parte, abolido por algumas leis e, em parte, abandonado pelo desuso.

                        As mulheres podem, ainda, casar-se tradicionalmente, pela "farinha", como se diz. Este nome deriva da cerim“nia de casamento: faz-se uma oferenda de um p†o de farinha a J£piter, o Protetor da Farinha. Este matrim“nio legal exige, ainda, o cumprimento de uma s‚rie de formalidades e ritos, acompanhadas de determinadas palavras solenes, na presen‡a de dez testemunhas ou padrinhos. Este costume ainda est  em vigor, pois os grandes sacerdotes Flƒmines* - ou seja, os de J£piter*, Marte* e dos Quirinos - bem como os sumos sacerdotes, s¢ podem ser escolhidos dentre os filhos de matrim“nios oficiais. Eles tamb‚m s¢ podem obter o sacerd¢cio se se casarem oficialmente, "pela farinha".

                        Por fim, as mulheres podem casar-se por compra, atrav‚s de uma venda simb¢lica, imagin ria. Na presen‡a de, ao menos, cinco testemunhas ou padrinhos, cidad†os romanos, maiores de idade, assim como de uma pessoa que segure, em suas m†os, uma balan‡a. O noivo compra, simbolicamene, sua esposa com um moedinha de bronze" (G io, Institutas I, 108-114).

 

                        A grande maioria da popula‡†o casava-se de maneira mais simples e informal: decidiam viver juntos e, ap¢s um ano, eram considerados casados. A grande diferen‡a, como se viu no documento, estava na posi‡†o da esposa que passaria … fam¡lia do marido. A sociedade romana era patriarcal, todo o poder estava com o pai de fam¡lia e a esposa era considerada, formalmente, como sua propriedade. Na pr tica, a mulher  romana tinha diversas prerrogativas, algumas citadas por G io: podia viver com um homem, constituir fam¡lia e n†o passar … sua fam¡lia, n†o casar-se oficialmente.

 

                        O casamento "pela farinha" era o matrim“nio da reduzida aristocracia romana, de car ter religioso e pol¡tico: apenas este tipo de uni†o garantia a nobreza da linhagem de sangue. A cerim“nia de compra simb¢lica representa um terceiro tipo de casamento, menos informal e popular do que o reconhecimento do v¡nculo conjugal por uso ou posse, mas que n†o possuia a complexidade da uni†o "pela farinha". Tratava-se do casamento dos plebeus enriquecidos e, desta forma, podemos encarar os trˆs tipos de casamento como representativos de trˆs grandes grupos sociais: pobres, ricos e nobres.

 

                        A pintura de um casal, na parede interna de uma casa de Pomp‚ia, permite-nos observar que havia o costume, ao menos em se tratando da "classe m‚dia", de registrar o casal em sua intimidade (FIGURA 8). A esposa segura uma pena e tabuetas de escrever, o marido est  com um manuscrito na m†o direita. O homem, com barba e bigodes crespos, l bios e nariz salientes, representa um tipo f¡sico ainda comum no Sul da It lia. Segundo alguns, o manuscrito em posse do marido seria a certid†o de casamento. Mas, n†o seriam a pena e as tabuetas, com a esposa, e o manuscrito, com o marido, uma alus†o a um casal de intelectuais?

 

                        Em geral, no entanto, aquilo que os homens elogiavam nas esposas n†o eram seus dotes intelectuais mas suas qualidades como donas-de-casa. Um elogio f£nebre a uma senhora, datada do ano 2 a.C., demonstra quais os pontos destacados em uma boa rainha do lar:

 

                        "Suas qualidades dom‚sticas, virtude, docilidade, gentileza, bom car ter, dedica‡†o ao tric“, piedade sem supersti‡†o, discri‡†o nas roupas e na maquiagem, por que relembr -las? Por que falar do seu carinho e devo‡†o aos familiares, j  que vocˆ tratava t†o bem meus pais quanto os seus..".(Elogio f£nebre a T£ria, 5-25).

 

"QUEM CASA QUER CASA

 

                        A grande maioria dos romanos constituia fam¡lias informais e vivia na pobreza. As habita‡’es familiares dessa massa n†o eram confort veis. Al‚m disso, havia muitas diferen‡as entre os habitantes de diferentes cidades e regi’es. Roma, uma cidade imensa e bem dotada de servi‡os p£blicos como banhos, padarias, lojas de todo tipo, servi‡os m‚dicos,  gua encanada, esgoto e ilumina‡†o noturna era, certamente, uma exce‡†o. Mesmo al¡, os pobres viviam em apartamentos pequenos, em grandes edif¡cios com at‚ seis andares de altura, correndo riscos que iam do desabamento ao incˆndio. Em cidades menores, havia menos riscos mas, tamb‚m, menos riqueza e, portanto, menor rede de servi‡os p£blicos. A vida dos pobres no campo era bem mais ingrata. Os escravos que trabalhavam no campo tinham a pior sorte de todos e todo tipo de dificuldade se opunha … constitui‡†o de fam¡lias entre os escravos. O romancista Apulˆio (120-180 d.C.) descreve as condi‡’es miser veis dos trabalhadores de um moinho nos seguintes termos:

 

                        "Que grupo de criaturas miser veis tomavam conta dos animais, no moinho. A pele de cada um deles estava marcada com cicatrizes antigas, como se podia observar atrav‚s dos grandes furos em suas vestes que mal cobriam suas costas; alguns vestiam apenas um cal‡†o. Tinham letras marcadas nas testas, cabe‡as meio raspadas e estavam presos, por grandes correntes, que pesavam sobre seus p‚s. Eram todos assustadoramente p lidos, seus olhos, com grandes olheiras, pareciam cozidos pela fuma‡a quente que, vindo dos fornos, acabava por transformar o ambiente numa caldeira. Al‚m disso, estavam todos sujos com uma espessa camada de farinha" (Apulˆio, O asno de ouro, XIII).

 

                        Uma minoria, contudo, vivia em casas amplas e confort veis. Estas s†o as que melhor conhecemos, j  que as habita‡’es dos pobres, muito menos ricas, deixaram menos vest¡gios arqueol¢gicos e, tamb‚m, sempre despertaram menos aten‡†o dos estudiosos modernos. A mans†o romana voltava-se para dentro, contando com duas aberturas, no teto, para o exterior. O exemplo, na figura nesta p gina, de uma casa de Pomp‚ia demonstra que se tinha acesso ao interior por uma pequena entrada (FIGURA 9). Chegava-se, ent†o, ao  trio*, que contava com uma pequena piscina onde se captava a  gua de chuva que entrava pela abertura no teto. Isto permitia iluminar os diversos aposentos que davam para o  trio*: quartos de dormir, escrit¢rios, dep¢sitos, salas de jantar, um par de salas onde ficavam os bustos ou m scaras dos antepassados da fam¡lia e que serviam como um altar dom‚stico, as alas*. Atr s do  trio*, separado por uma cortina ou por um biombo, estava a principal sala de visitas, o tablino*. Mais ao fundo, estava o peristilo*, um grande jardim cercado por colunas. Em geral, havia a¡ outros tantos aposentos que davam para esta fonte de luz natural, como salas de estar e sal’es para banquetes.

 

                        Nestes ambientes, ocorriam banquetes semelhantes a este, descrito por Petr“nio:

 

                        "Nem bem sentamos … mesa e alguns escravos de Alexandria versaram, sobre nossas m†os,  gua gelada, enquanto outros, ajoelhados a nossos p‚s, limpavam nossas unhas com grande habilidade. Todos eles faziam isso e cantavam, ao mesmo tempo. Pedi algo para beber e logo um escravo, cantando um pouco diferente, serviu-me. Sempre estavam cantando e parecia um coro de uma pe‡a teatral, n†o algo dom‚stico.

                        Logo come‡ou a servir-se a entrada aos v rios convidados, j  sentados, … exce‡†o do dono da casa, Trimalci†o, ao qual se reservava o lugar de honra. No meio, havia um asninho de bronze cor¡ntio com azeitonas verdes e negras. Estava coberto por dois pratos, com o nome de Trimalci†o e um peso de prata. Pequenas pontes ligadas entre si sustentavam molhos de mel.."(Petr“nio, Satyricon, 21).

 

                        Estas linhas do romance j  permitem observar a sofistica‡†o destes banquetes, nos quais at‚  gua gelada era servida! As mans’es contavam com  gua encanada, esgoto, ilumina‡†o por candelabros e lustres, banhos, mob¡lia luxuosa, estatu ria, pintura nas paredes e tetos, mosaicos no ch†o. Esta decora‡†o interior apresentava uma grande variedade de temas: como j  vimos, havia representa‡’es da fam¡lia que morava na casa, assim como cenas mitol¢gicas, teatrais, hist¢ricas e religiosas. As representa‡’es de jardins nas pinturas romanas, revelam o car ter interior da vida dom‚stica dessa elite, assim como seu gosto pela reclus†o. A imita‡†o do jardim na pintura servia como substituto das plantas reais, que, nem sempre, o dono da casa podeia cultivar num jardim interno. Servia, tamb‚m, como lembran‡a, a todos, que os donos da casa podiam ter o jardim que quizessem (ao menos na forma de pintura). Este costume difundiu-se, especialmente, a partir de Augusto (30 a.c.-14 d.C.), em grande parte devido ao crescente isolamento dos ricos que buscavam, em suas casas, escapar do conv¡vio com a massa.

 

                        Segundo Vitr£vio, as paredes deviam ser pintadas com temas agrad veis:

 

                        "Para outros aposentos, usados na primavera, outono e ver†o, e tamb‚m nos  trios* e peristilos* princ¡pios claramente definidos para a pintura de objetos foram derivados, pelos antigos, de modelos realmente existentes na natureza. Pois uma pintura ‚ uma imagem de algo que existe na realidade ou, ao menos, que pode existir - por exemplo, homens, edif¡cios, barcos e outras coisas com forma bem definida e existente no mundo real, a partir dos quais as representa‡’es tomam inspira‡†o. Seguindo este princ¡pio, os antigos come‡aram a imitar diferentes variedades de revestimento de m rmore.

                        Com o passar do tempo, tornaram-se t†o capazes que imitaram inteiros edif¡cios...Passaram a pintar paisagens, tal como portos, promont¢rios, praias, rios, bicas d' gua, estreitos, santu rios, montanhas, rebanhos e pastores. H , tamb‚m, representa‡’es de imagens de deuses ou narrando epis¢dios mitol¢gicos, cenas da Guerra de Tr¢ia ou das viajens de Ulisses, em diferentes paisagens" (Vitr£vio VII, 5,1-7).

 

                        Este era o ambiente refinado das casas luxuosas. Deixando estas mans’es, nos deparamos com vest¡gios de um tipo de aposento que, raro em casas populares, era indispens vel e, portanto, acess¡vel a todos gra‡as …s constru‡’es p£blicas: os banheiros. As latrinas p£blicas eram coletivas, como vemos  nos restos arqueol¢gicos,nesta p gina (FIGURA 10). Os usu rios limpavam-se com esponjas individuais que eram molhadas seja em grandes vasos coletivos, ao centro do aposento, seja em jarros individuais.

 

CAPäTULO 6 DA ESCOLA AO EXRCITO

 

ESTUDO E ESCOLA

 

                        Os romanos tinham um aprendizado vari vel conforme a classe social e segundo o sexo. Os meninos ricos, normalmente, contavam com preceptores, uma esp‚cie de professores particulares, que ensinavam uma s‚rie de disciplinas. Aprendiam n†o apenas a ler e escrever como estudavam o grego, muitas vezes antes do pr¢prio latim. H  quem diga que os romanos cultos sentiam-se at‚ mesmo mais … vontade e falavam mais espontaneamente o grego. Usam como argumento o fato que, na hora do aperto, recorriam ao grego, chingavam e se alegravam em grego. dif¡cil saber at‚ que ponto isto era verdade. C‚sar (s‚culo I a.C.), segundo  Plutarco, em sua biografia do general romano, ao ser assassinado pelos senadores teria resistido at‚ enxergar, entre os conspiradores, seu amigo Bruto. Neste momento, C‚sar disse, em grego, a famosa frase, normalmente interpretada como "at‚ tu, Bruto, meu filho?".

 

                        Segundo a interpreta‡†o tradicional, Bruto teria sido chamado de filho como sinal da grande amizade nutrida por J£lio C‚sar e, ainda segundo esta vers†o, teria deixado de resistir, t†o chocado teria ficado com a trai‡†o. Mais recentemente, os historiadores tˆm proposto uma outra interpreta‡†o da fala de C‚sar, que seria: "que te aconte‡a o mesmo, pirralho!". Isto porque a frase que C‚sar disse, em grego, era um xingamento de uso corrente. Este caso demonstra como os documentos devem ser, necessariamente, interpretados e, por isto, podem ter seu sentido completamente transformado por uma nova interpreta‡†o. Ao mesmo tempo, e no que se refere … educa‡†o da elite romana, pode perceber-se a que ponto chegava a erudi‡†o desses senhores. Ali s, nada mais distante daquela vis†o, que vimos na introdu‡†o, segundo a qual os romanos erm pouco afeitos ao estudo e … reflex†o.

 

                        Um autor do segundo s‚culo d.C., Pl¡nio, o Jovem, descreve, em uma de suas cartas, seu tio, Pl¡nio o Velho e sua dedica‡†o ao estudo. Acompanhemos suas palavras:

 

                        "Meu tio come‡a a estudar … luz de velas, j  antes do sol raiar, no ver†o; no inverno, entre meia noite e duas da manh†. Ele se acostumara a intercalar suas horas de estudo com sonecas. Ap¢s um leve caf‚-da-manh…, tomava um banho de sol no ver†o, se havia tempo, e ouvia a leitura, em voz alta, de um livro, enquanto fazia anota‡’es. Sempre copiava passagens, dizendo que nenhum livro era t†o ruim que n†o tivesse algo que prestasse, em alguma parte. Depois tomava um banho frio, almo‡ava algo leve, fazia uma pequena sesta e, logo ap¢s, como se fosse outro dia, recome‡ava a trabalhar at‚ a hora de jantar. Durante o jantar, ouvia leituras e ditava notas r pidas. Lembro-me de uma vez em que o leitor pronunciou algo errado e um convidado ao jantar pediu que o escravo voltasse e repetisse, agora corretamente. "Vocˆ o entendeu, n†o?", disse meu tio. O amigo concordou com a cabe‡a. "Ent†o, por que pediu que repetisse? Sua interrup‡†o nos custou dez linhas!". Tal era sua economia de tempo! Tinha o costume imut vel de, no ver†o, acabar o jantar antes do por-do-sol e, no inverno, no m ximo uma hora ap¢s o anoitecer. Tudo isso apesar de seus deveres oficiais e do barulho do tr fego na cidade.

                        No campo, n†o estava estudando apenas durante o banho; mesmo enquanto se despia ou quando j  estava sendo secado, ouvia uma leitura ou, ent†o, ditava algo. Nas viagens, sem outras preocupa‡’es, concentrava-se nos estudos tendo, sempre, ao seu lado, um secret rio com um livro e um caderno de anota‡’es. No inverno, usava luvas, para que nem mesmo o frio intenso lhe roubasse o tempo. Em Roma, usava uma liteira. Lembro-me que me criticava por caminhar a p‚: "N†o desperdi‡e essas horas". Pensava que todo tempo n†o gasto no estudo era desperd¡cio. Com tal ritmo, produziu 102 volumes e deixou, ainda, 160 cadernos de anota‡’es, escritos dos dois lados, em letra mi£da".

 

                        Ainda que se deva descontar certo exagero do sobrinho, parece claro que o romano das classes altas devia ter conhecimentos bastante variados, da agricultura … astronomia, da religi†o … geografia, da matem tica … arquitetura.

 

                        A grande maioria da popula‡†o, por outro lado, n†o podia dedicar-se, como Pl¡nio, o velho, em tempo integral ao estudo. Ao contr rio, o trabalho, para pobres e escravos, tomava a maior parte do tempo e alguns of¡cios, como o trabalho agr¡cola, pouco conhecimento formal e escolar exigia. No entanto, os trabalhadores do artesanato deviam possuir, ao menos, certos conhecimentos t‚cnicos. N†o sabemos, exatamente, como aprendiam as crian‡as pobres: h  quem sugira a existˆncia de escolas e professores populares que, de uma forma ou de outra, ensinavam os pequenos. Na Grande Palestra*, em Pomp‚ia, parece que havia uma dessas escolas populares, a julgar pelos grafites nas suas paredes. Um deles diz o seguinte:

 

                        "Quem me pagar pelo ensino, receba dos Deuses o que pedir" (CIL IV 8562).

 

                        Poderia ter sido escrito pelo professor que, dessa forma, estaria reclamando do atraso no pagamento. Ou ent†o, poderia ter sido escrito por um dos alunos que estaria cobrando a ajuda aos colegas, talvez uma interpreta‡†o mais plaus¡vel, tendo em vista que seria mais prov vel que um estudante rabiscasse a parede do que um professor. Ou, ainda, podia ser a cola de um ditado do pr¢prio professor!

 

                        Em outra escola, em Roma, h  duas picha‡’es interessantes:

 

                        "Fui bem!

                        Me dei mal!"

 

                        Devem referir-se … sorte destes alunos nas provas, ora positiva, ora nem tanto.

 

                        Embora n†o tenhamos detalhes sobre o funcionamento destas escolas, nem mesmo possamos saber se "escola" seria um nome apropriado, sabemos que havia um grau de alfabetiza‡†o relativamente elevado, especialmente nas cidades. A existˆncia de milhares de rabiscos ou picha‡’es em paredes, escritos em um latim popular, bem diferente do erudito, demonstra a extens†o do dom¡nio da escrita. At‚ mesmo o grego aparece, …s vezes, nesses grafites*, como no caso de algu‚m que prop“s uma charada:

 

                        "Como se chega … raz†o, … mem¢ria e … gra‡a? ABCDEFGHIJK"

 

                        Ou seja, atrav‚s do estudo, da alfabetiza‡†o, chega-se … raz†o, … mem¢ria e ao prazer. Mesmo numa parede, vemos uma pessoa qualquer teorizar e, por que n†o, mostrar que se filosofava, em grego, tamb‚m nas camadas populares.

 

"CIDADO ROMANO, SOLDADO ROMANO"

 

                        Originalmente, e por mais de setecentos anos, cidadania e ex‚rcito foram sin“nimos e o cidad†o definia-se como soldado. Apenas a partir de 111 a.C. o ex‚rcito passou a ser professional, deixando de congregar todos os romanos, homens adultos, no ex‚rcito. Mesmo depois disso, o servi‡o militar continuou sendo fundamental para os romanos. Durante s‚culos, do IX s‚culo a.C. ao I s‚culo d.C., as legi’es romanas conquistaram povos, escravizaram cidades e regi’es inteiras. Ao mesmo tempo, o ex‚rcito romano sempre serviu como meio de incorpora‡†o de estrangeiros … cidadania, seja acolhendo-os como for‡as auxiliares, seja com sua incorpora‡†o … estrutura formal das for‡as armadas romanas.

 

                        A partir da ‚poca de Augusto (30 a.C.-14 d.C.), com a chamada Paz Romana, o ex‚rcito passou a atuar, principalmente, como for‡a de manuten‡†o da paz. Estacionadas nas fronteiras, as tropas serviam, antes de tudo, como uma organiza‡†o burocr tica de controle da popula‡†o local fronteiri‡a. Os legion rios* viviam em fortes e, como oficialmente n†o podiam casar-se, mantinham uni’es com mulheres locais e constituiam fam¡lias informais. A esposa e os filhos viviam em casas nas vizinhan‡as do acampamento militar. Ao se aposentarem, passavam a viver com a fam¡lia e tinham o casamento reconhecido. Uma l pide funer ria encontrada em Wroxeter, datada do s‚culo I d.C., na Inglaterra, permite-nos observar a vida de um desses legion rios:

 

                        "G io Mƒnio Segundo, filho de G io, da tribo P¢lia, de Polˆntia, na It lia, soldado da XX legi†o*, jaz aqui, falecido aos 52 anos de idade, com 31 anos de servi‡o no ex‚rcito, auxiliar do comandante" (RIB 293).

 

                        Este soldado serviu dos 21 aos 52 anos, tendo falecido como auxiliar do comandante em uma regi†o distante da sua terra natal. Homens como este deviam pagar as diversas despesas. Nestes acampamentos, havia uma grande quantidade de documentos armazenados. Havia tabuinhas e papiros, dependendo do local onde se localizava a guarni‡†o e da disponibilidade de mat‚ria-prima. Possu¡mos diversas tabuinhas preservadas gra‡as a caracter¡sticas excepcionais do solo em alguns lugares. Uma tabuinha, encontrada em uma escava‡†o em Carlisle, no norte da Inglaterra, refere-se a um recurso utilizado pelos legion rios para fazer frente aos seus gastos: o emprestimo:

 

                        "Sendo consul pela oitava vez o imperador Domiciano, no s‚timo dia antes dos idos de novembro (= 7 de novembro 83 d.C.), Quinto C ssio Segundo, soldado da XX legi†o, da cent£ria* de C lvio Prisco, escreve que devo a G io Gem¡nio Mansueto, soldado da mesma legi†o, da cent£ria de V‚tio Pr¢culo, cem den rios, que eu pagarei <em tal data e tal juro>.

 

                        Um outro tipo de preocupa‡†o dos soldados referia-se …s promo‡’es. No acampamento romano de Vindolanda, na Inglaterra, foram encontradas diversas tabuinhas, bem conservadas, gra‡as … humidade do solo. Uma delas demonstra como eram estas cartas de recomenda‡†o:

 

                        "Caro, para Cereal, sauda‡’es.

                        Brig“nio pediu-me, meu senhor, para recomend -lo ao senhor. Pe‡o-lhe, meu senhor, que, se lhe pedir algo, o senhor o aprove e autorize. Pe‡o-lhe que o senhor considere apropriado recomend -lo a ánio Equestre, centuri†o … frente do comando regional, em Luguv lio. Ao fazˆ-lo, estarei em d‚bito para com o senhor tanto em seu nome como no meu pr¢prio. Espero que esteja gozando da melhor sorte e que esteja em boa sa£de.

                        At‚ logo, irm†o.

                        Para Cereal, o comandante."

 

                        O comandante da guarni‡†o recebe um pedido de recomenda‡†o, de um certo Caro, em favor de um soldado chamado Brig“nio. Pede que o comandante de Vindolanda, Cereal, o recomende para o comandante regional, em outra guarni‡†o, em Luguv lio. Este tipo de pedido devia ser muito comum e demonstra a mobilidade dos soldados nos diferentes setores do ex‚rcito.

 

                        Outra preocupa‡†o dos militares era com seus objetos de uso pessoal. Uma outra tabuinha dizia o seguinte (FIGURA 15 b):

 

                        "Enviei-lhe dois pares de meias de Satua, dois pares de sand lias e dois pares de cuecas, mais dois pares de sand lias. Envie meus cumprimentos para Elpis, T‚trico e todos seus companheiros de acampamento com os quais espero vocˆ viva muito feliz ".

 

                        Sand lias e cuecas, contudo, n†o eram os £nicos objetos comprados pelos soldados. Em outra tabuinha, encontramos o seguinte:

 

                        "Um amigo me enviou 50 ostras de Cordonovi".

 

                        Neste caso, 50 ostras serviriam para o preparo de pratos mais ou menos sofisticados, o que atesta a riqueza, relativa, destes soldados.

 

                        Estes documentos demonstram, tamb‚m, como o ex‚rcito romano era um corpo burocr tico bem organizado e como, no seu dia-a-dia, os soldados mantinham rela‡’es comerciais e trocavam cartas. Nada mais distante, portanto, daquela id‚ia tradicional, segundo a qual o soldado romano era abrutalhato e ignorante.

 

CAPäTULO 7 OS CUIDADOS DO CORPO E DA ALMA

 

ESCRITOS PESSOAIS

 

                        Os romanos gostavam de escrever. Os pobres, que n†o tinham acesso aos livros, cadernos, papiros ou outros meios caros de express†o, usavam estiletes e escreviam nas paredes. A¡ escrevia-se de tudo, de caricaturas a cartas de amor, de poemas a xingamentos. Um bom exemplo do uso da parede para expressar pensamentos populares ‚ a seguinte picha‡†o:

 

                        "A alma ‚ propensa a tomar as coisas que  lhe s†o de direito e do -las. Se vocˆ, tamb‚m, seguir este costume, a alma de Vˆnus lhe satisfar  os seus desejos e lhe far  prosperar com a sua prote‡†o" (CIL IV 8711).

 

                        Vˆnus*, a deusa do amor, ‚ evocada como uma for‡a sobrenatural que garante a recompensa da abnega‡†o e do amor ao pr¢ximo. Isto demonstra, ainda, que tanto a alma humana como o amor, personificado na Deusa Vˆnus*, eram atendidos como for‡as n†o s¢ ego¡stas, na satisfa‡†o dos prazeres, como, tamb‚m, altru¡stas.

 

                        Um outro tipo de express†o pessoal popular eram os documentos religiosos descobertos nos templos romanos. Acreditava-se que, escrevendo-se uma esp‚cie de carta, diretamente aos Deus, seria poss¡vel obter as gra‡as da divindade na obten‡†o de favores. Um bom exemplo ‚ uma carta, escrita por um certo Honorato, para o Deus Merc£rio*. Esta carta, em uma folha de chumbo, foi encontrada no templo do Deus Merc£rio, em Uley, na Inglaterra, e deve datar do s‚culo segundo ou terceiro d.C. Como se vˆ pela figura nesta p gina, era uma carta escrita pelo pr¢prio fiel que, ali s, introduziu at‚ algumas core‡’es no seu pr¢prio texto, acrescentando peda‡os de palavras acima do alinhamento (FIGURA 11). O texto de Honorato ‚ o seguinte:

 

                        "Honorato, para o Deus Merc£rio*.

                        Queixo-me … sua divindade de um roubo de duas roda e quatro vacas, assim como diversos pequenos bens pessoais, retirados do meu casebre.

                        Pe‡o ao esp¡rito da sua divindade que n†o permita que a pessoa que me fez mal tenha sa£de, nem permita que deite, sente, coma ou beba, seja homem ou mulher, garoto ou garota, escravo ou livre, enquanto n†o me devolver o que a mim perten‡e e que se reconcilie, assim, comigo. Com reiteradas preces, pe‡o … sua divindade, que meu pedido fa‡a, imediatamente, justi‡a, gra‡as ao seu poder".

 

                        Merc£rio* foi evocado por Honorato para que n†o deixasse o ladr†o ileso. Os romanos acreditavam que, atrav‚s de cartas como esta, podiam fazer uma esp‚cie de contrato com os Deuses, quase obrigando-os a cumprirem o que foi pedido. Al‚m disso, contavam com pragas rogadas, como neste caso, para prejudicar aqueles que romperam as regras sociais. Toda a linguagem destas cartas era de car ter tradicional e, at‚, jur¡dico, o que explica as repeti‡’es "homem ou mulher, garoto ou garota, escravo ou,livre". Com isto, o suplicante procurava evitar a burla da a‡†o reparadora de Merc£rio*.

 

                        Sabemos que esta carta foi escrita por algu‚m do povo pelas palavras usadas e pela descri‡†o da sua casa como um "casabre". Documentos como este comprovam, mais uma vez, que o n£mero de pessoas alfabetizadas devia ser mais elevado do que, em geral, se pensa.

 

                        A elite tamb‚m escrevia e, como vimos pelo exemplo de Pl¡nio, o velho, no cap¡tulo 6, estava acostumada a ditar cartas e anota‡’es para seus escravos. Em geral, estes secret rios eram especialistas em caligrafia e os autores intelectuais dos textos, aqueles que ditavam, apenas assinavam a correspondˆncia, ao final. Escrevia-se em papiros e em tabuinhas, dependendo da disponibilidade da mat‚ria prima. No Egito Romano, por exemplo, usava-se o papiro, ali abundante. J  na Europa, o uso de tabuinhas de madeira era generalizado. Escrevia-se com penas e tinta, em geral preta. Como vemos na figura ao lado, havia diversos modelos de penas de madeira (FIGURA 12).

 

                        As tabuinhas eram produzidas em larga escala e sabemos que o ex‚rcito, por exemplo, costumava confeccionar modelos de 18 por 9 cent¡metros, com menos de um mil¡metro de grossura, a partir de madeira de b‚tula e amieiro. Eram cortadas, com uma faca ou alguma ferramenta especial, do tronco dessas  rvores quando pequenas. Eram ressecadas e tratadas para que pudessem receber tinta sem causar manchas e borr’es.

 

                        Nestas tabuinhas escrevia-se de tudo. Como vimos no cap¡tulo anterior, falava-se de meias ou de cartas de recomenda‡†o. Contudo, o n£mero de tabuinhas que foram preservadas ainda com tinta ‚ muito pequeno, j  que a madeira ‚ altamente perec¡vel. Um desses raros documentos ‚ ainda mais precioso por tratar-se de uma carta de uma mulher. Da antiguidade n†o nos sobrou um s¢ texto feminino, como j  vimos na Introdu‡†o, e esta carta constitui, portanto, um exemplo £nico. Trata-se de uma carta, achada em Vindolanda, Inglaterra, da esposa do comandante do forte romano por volta do ano 100 d.C.:

 

                        "<Escrito pela m†o de um secret rio:>

                        Cl udia Severa, para sua amiga Lepidina, sauda‡’es.

                        Convido-lhe, com grande prazer, para vir aqui no dia 11 de setembro, para celebrar meu anivers rio. Sua presen‡a far  este dia muito mais agrad vel.

                        Cumprimente o seu marido Cereal. O meu marido lio manda sauda‡’es para vocˆ e os seus filhos.

                        <Escrito por Severa, de pr¢prio punho:>

                        Espero sua vinda, amiga.

                        Tchau, amigona, grande companheira, que tudo corra bem com vocˆ, minha querida amiga, sauda‡’es.

                        <Endere‡o, no exterior:>

                        Para Sulp¡cia Lepidina

                                   Esposa de Fl vio Cereal

                                   De Severa"

 

                        Mesmo que fosse uma troca de correspondˆncia entre duas senhoras que vivessem em Roma, seria j  algo excepcional, pois ‚ a mais antiga carta, escrita em latim, por uma mulher que nos tenha chegado. Os anivers rios eram, sempre, ocasi†o para comemora‡’es e procurava-se convidar amigos chegados para a festa. No caso desta carta, um secret rio professional escreveu o corpo da carta e Severa acrescentou as sauda‡’es finais de pr¢prio punho. interessante observar como, mesmo no acampamento militar, havia uma vida familiar do capit†o que incluia festas e comemora‡’es.

 

                        Um papiro encontrado no Egito, datado do primeiro ou segundo s‚culos d.C., cont‚m um apelo de uma propriet ria de escravos, pedindo uma indeniza‡†o de um condutor de jumentos estabanado . Ele havia atropelado e ferido gravemente uma garotinha que ¡a tomar aulas de canto. No processo, a senhora queixosa escreveu:

 

                        "Amava e cuidava desta pequena ajudante, uma escrava nascida em minha casa, na esperan‡a que, quando ela crescesse, tomaria conta de mim na minha velhice, j  que sou uma mulher s¢ e desamparada".

 

                        Este documento apresenta uma s‚rie de caracter¡sticas da vida pessoal romana: em primeiro lugar, percebe-se que as mulheres, ainda que dona de escravos, continuavam fr geis e "desamparadas", para citar o pr¢prio papiro. Em segundo lugar, a fragilidade das pessoas, em geral, em termos de sua sa£de, fica claro no estrago causado por um simples atropelamento. Em terceiro lugar, a velhice n†o era atingida facilmente, j  que se morria cedo, e quando se chegava a uma idade avan‡ada, havia, sempre, a preocupa‡†o com os cuidados que o idoso requereria. Por fim, talvez o que seja mais surpreendente neste texto seja a rela‡†o afetiva entre a senhora e a escrava. A patroa amava a menina, cuidava da sua educa‡†o e contava com a afei‡†o da garota em sua velhice. Embora n†o devamos generalizar e supor que sempre houvesse boas rela‡’es entre escravos e senhores, este documento demonstra que a escravid†o dom‚stica romana podia criar la‡os sentimentais mesmo entre escravos e senhores.

 

                        Tamb‚m Sˆneca, escrevendo no s‚culo primeiro d.C., tecia considera‡’es sobre estas rela‡’es. Ainda que devamos lembrar que, neste caso como no da senhora citada acima, seja o ponto de vista do propriet rio aquele que, em geral, nos chegou, estes textos atestam as ambiguidades e tens’es destes relacionamentos:

 

                        "Lembre-se, por favor, que o  chamado "escravo" ‚ um homem como vocˆ, vivendo sob o mesmo sol, respirando, movendo-se e sendo mortal como vocˆ! Durante a revolu‡†o de M rio (entre 104 e 86 a.C.), a sorte abandounou muitos nobres; alguns esperavam que o servi‡o militar os conduziria a altos cargos, mas uns foram reduzidos a pastores, outros tornaram-se posseiros no campo. Vocˆ pode desprezar a sorte de um escravo quando vocˆ pode ter o mesmo destino? N†o desejo envolver-me na discuss†o do nosso tratamento dos escravos, que me parece demasiadamente severo, s dico e insultante. Meu conselho ‚ simples: trate seus inferiores como desejaria ser tratado por seus superiores. Quando pensar que pode fazer o que quizer com seus escravos, lembre-se que o mesmo pode ser feito por seu patr†o. "Mas", vocˆ me diz, "n†o tenho patr†o". H , ainda, uma longa vida a seguir: pode ter um, quando menos esperar" (Sˆneca, Cartas, XLVII, 10-11).

 

                        Assim como no texto da senhora, Sˆneca deixa claro que a rela‡†o entre senhor e escravo era inst vel. Neste contexto, uma "amizade", um relacionamento afetivo entre patr†o e escravo diminuiria bastante essas tens’es.

 

O CUIDADO DO CORPO

 

                        A grande maioria da popula‡†o romana tinha apenas acesso a banhos p£blicos e vestia-se modestamente. Petr“nio descreve a ida de um camponˆs ao mercado:

 

                        "Um camponˆs se aproximou, no mercado da cidade, e come‡ou a examinar um manto. O camponˆs estava disposto a vender sua t£nica surrada como se fosse uma roupa de mendigo" (Petr“nio, Satyricon, 12-13).

 

                        A roupa do povo, portanto, era bastante simples, …s vezes rasgada, sempre usada por muito tempo. Nestas condi‡’es, n†o ‚ de se estranhar que fossem os ricos a poderem seguir a moda. Assim, no quarto de uma senhora romana, havia sempre espelhos de m†o, decorados, v rios perfumes e lo‡’es para maquiagem, al‚m de broches, an‚is, colares e pulseiras. Os cabelos recebiam aten‡†o especial e os penteados eram sempre elaborados. Como se pode ver no relevo*, nesta p gina,  a matrona* era atendida, no seu preparo, por diversas servas (FIGURA 13). Tingia-se, com frequˆncia, o cabelo, sendo as "loiras de sal†o" particularmente populares. Os homens costumavam preferir barbearias. Assim, enquanto as mulheres tinham seu embelezamento feito em casa, no recato do lar, os homens levavam sua vida fora de casa.

 

                        Um relevo* representando a visita de alguns homens a uma loja de tecidos, nesta p gina, permite-nos observar as vestimentas masculinas (FIGURA 14). A roupa usual era um cal‡†o ou saiote em baixo e uma t£nica* em cima, como se vˆ no comprador imediatamente diante dos dois vendedores de tecidos. No inverno, usavam-se cal‡as de l† ou linho. Sobre a t£nica* , em geral, usava-se algum tipo de agasalho. Os cidad†os romanos podiam usar a toga*, uma manta circular de quase seis metros que, a partir dos ombros, envolvia o corpo. Na rua, a toga* cobria a cabe‡a, como se fosse um len‡o. Na figura nesta p gina, o homem mais … esquerda deixa … mostra sua toga*.

 

                        As senhoras usavam t£nicas*, sendo que as casadas gostavam de vestidos longos, como se vˆ na figura na p gina anterior. Enquanto os pobres andavam, via de regra, descal‡os, percebe-se pelos dois relevos* que, quando podiam, os romanos usavam sand lias de diversos modelos. A sofistica‡†o do trato pessoal pode ser bem sentida em uma pintura da Casa da Farnesina, em Roma (FIGURA 15).  A garota, que verte azeite perfumado em um vasinho, mostra-nos seu tranquilo cuidado de si.

 

CAPäTULO 8 O TEMPO PASSOU E O MUNDO ACABOU...

 

                        O mundo romano, tal como aqui apresentado, deixou de existir em algum momento indeterminado. Ou melhor, com lentas mudan‡as, os s‚culos III a V d.C. testemunharam transforma‡’es que, ao cabo, resultaram no final do estado romano. Duas transforma‡’es simultƒneas s†o sintomas e causas, a uma s¢ vez, de uma certa continuidade cultural, por um lado, e de uma ruptura pol¡tica, por outro. O estado romano deixou de existir, mas o latim popular continuou a ser falado em diversas regi’es. por isto que, hoje, falamos uma l¡ngua dereivada do latim, o portuguˆs. A oficializa‡†o do cristianismo como religi†o, a supress†o do paganismo e as invas’es dos germanos e outros povos explicam sejam as permanˆncias como as rupturas.

 

                        S†o Jer“nimo descrevia, em 396 d.C., como seu mundo romano, j  crist†o, entrava em desagrega‡†o:

 

                        "N†o descreverei cat strofes pessoais de alguns infelizes, mas a destrui‡†o de toda a humanidade, pois ‚ com horror que meu esp¡rito segue o quadro das ru¡nas da nossa ‚poca. H  vinte e poucos anos que, entre Constantinopla e os Alpes Julianos, o sangue romano vem sendo diariamente versado. A C¡tia, Tr cia, Maced“nia, Tess lia, Dardƒnia, D cia, piro, Dalm cia, Pan“nia s†o devastadas pelos godos, s rmatas, quedos, alanos, hunos, vƒndalos, marcomanos; deportam e pilham a tudo. Quantas senhoras, quantas virgens consagradas a Deus, quantos livres e nobres ficaram na m†o destas bestas! Os bispos s†o capturados, os padres assassinados, todo tipo de religioso perseguido; as igrejas s†o demolidas, os cavalos pastam junto aos antigos altares de Cristo, as rel¡quias dos m rtires s†o desenterradas: "em toda parte, h  o luto, gemidos pela imagem de mortes incont veis!" O mundo romano cai; contudo,  nossa cabe‡a teima em permanecer erguida. Qual o ƒnimo, agora, dos cor¡ntios, atenienses, lacedem“nios, arc dios, a Gr‚cia toda, governada por b rbaros? Citei apenas algumas cidades nas quais houve, no passado, cidades-estados importantes...

                        Percebemos que Deus est , h  tempos, magoado e nada fizemos para aplac -lo. por causa de nossos pecados que os b rbaros s†o t†o fortes, pelos nossos v¡cios que foi vencido o ex‚rcito romano e, como se n†o fosse desgra‡a suficiente, as guerras civis matam quase mais do que a a‡†o dos inimigos" (S†o Jer“nimo, Carta 60, 16-17).

 

                        O mundo romano de S†o Jer“nimo era j  um mixto da cultura romana com o cristianismo. O £ltimo imperador romano do ocidente foi R“mulo Aug£stulo, em 475-6 d.C. No Oriente, contudo, continuaram os imperadores bizantinos a tradi‡†o de chamar-se romanos. Justiniano, tendo governado de 527 a 565 d.C., considerava-se um grande continuador e renovador dessa tradi‡†o:

 

                        "Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Imperador C‚sar Fl vio Justiniano, conquistador dos Alamanos, Godos, Francos, Germanos, ántios, Alanos, Vƒndalos, Africanos, pio, feliz, glorioso, triunfador, Augusto para sempre, dirije-se aos jovens que desejam conhecer o Direito: Nossa Majestade Imperial deve estar guarnecida de leis e n†o apenas de armas, pois tanto na paz como na guerra o barco do estado dever ser corretamente conduzido. O Imperador Romano n†o apenas vence batalhas como tamb‚m elimina, por processo legal, as injusti‡as dos mal feitores e ‚ t†o escrupuloso na administra‡†o da justi‡a como ao triunfar sobre os inimigos. Com vigilƒnica constante e determina‡†o e com a ajuda de Deus, conseguimos as duas coisas. As na‡’es b rbaras derrotadas conhecem nosso poder militar...todos os povos est†o, agora, regidos pelas leis promulgadas ou compiladas por n¢s. Tendo esclarecido, arrumado e uniformizado decretos imperiais  <dos £ltimos sete s‚culos> antes em desordem, voltamos nossa aten‡†o a inumer veis volumes de jurisprudˆncia antiga" (Justiniano, Institutas, pref cio, 1-2).

 

                        Justiniano compilou todo o direito romano, produzidos em s‚culos de legisla‡†o imperial, sendo este texto parte do pref cio … sua obra. Os pr¢prios nomes de Justiniano demonstram que queria ser considerado um Imperador do in¡cio do Principado: chama-se C‚sar e Augusto, ambos do primeiro s‚culo a.C. Considera-se conquistador de povos b rbaros, como os francos e os germanos, que, na pr tica, tinham total independˆncia e que n†o se consideravam seus s£ditos. No entanto, mesmo no Ocidente, a civiliza‡†o medieval que surgia em oposi‡†o direta ao mundo romano caminhava para uma nova "romaniza‡†o". Como vimos, S†o Jer“nimo atribu¡a aos b rbaros o fim desse mundo romano mas qual seria sua surpresa se soubesse que, 400 anos depois, um rei b rbaro seria entronado pelo Papa como Imperador Romano!

 

                        "O dia da natividade de Nosso Senhor <25 de dezembro de 801 d.C.>, o rei, durante a missa, em Roma, ajoelhou-se diante da confiss†o do bem aventurado ap¢stolo Pedro. Ao levantar-se, o Papa Le†o lhe colocou uma coroa na cabe‡a e foi aclamado, por todo o povo romano: "Vida e vit¢ria para Carlos, Augusto, grande e pac¡fico Imperador Romano". Ap¢s estas aclama‡’es, foi chamado Imperador Augusto" (Anais dos Reis Francos, ano 801 d.C.).

 

                        Carlos Magno, um germano, imperador romano, em 801 d.C.! As transforma‡’es que S†o Jer“nimo testemunhara no final do s‚culo IV d.C. levaram a um novo mundo, …s vezes ainda chamado romano. N†o era mais, por‚m, o antigo mundo romano que percorremos juntos nesta p ginas.

 

VOCABULâRIO

 

ALA - Sala aberta na lateral do  trio.

ANFITEATRO - Um teatro com plat‚ia dos dois lados, de forma ovalada, usado para espet culos p£blicos.

APOLO - Deus grego, s¡mbolo da luz, beleza e raz†o.

âTRIO- o principal aposento ou sala central de uma casa romana, com uma abertura no teto.

BASäLICA - Uma constru‡†o retangular usapada para a administra‡†o da justi‡a e para ouros neg¢cios p£blicos.

CENTURIA - Companhia de 100 soldados.

CERES - Deusa que preside ao nascimento e ao casamento, protetora da agricultura.

CæNSUL - Magistrado supremo; a cada ano, dois c“nsules exerciam as fun‡’es ao mesmo tempo.

CLIENTELISMO - Tipo de rela‡’es sociais baseada na amizade e no compadrio.

DECàNVIRO - Membro de uma comiss†o de dez pessoas.

DUUNVIRATO - Per¡odo de um ano em que se exercia o cargo de du£nviro.

DUçNVIRO - Cada um dos dois magistrados romanos que exerciam o poder conjuntamente.

EDIL - Magistrado romano encarregado da inspe‡†o e conserva‡†o dos edif¡cios p£blicos, entre outras atribui‡’es.

ESTAMENTO - Grupo de pessoas definidas pela lei e n†o pela riqueza.Escravos e livres, nobres e plebeus s†o exemplos de estamentos, grupos juridicamente separados.

FLáMINES - sacerdotes encarregados de acender a chama do altar de cada divindade e de fazer o sacrif¡cio.

FåRUM - Espa‡o aberto, na cidade, usado como mercado ou como um centro c¡vico.

GLADIADORES - Lutadores; originalmente, combatentes em cerim“nias funer rias. Com o passar do tempo, passaram a lutar nas arenas dos anfiteatros.

GRAFITE - Inscri‡†o feita nas paredes com estilete ou com tinta; "picha‡†o".

LATIM - L¡ngua falada pelos romanos e da qual derivam o portuguˆs, espanhol, italiano e francˆs.

LEGIO: Corpo do ex‚rcito, composto de infantaria e cavalaria.

MAGISTRADO - Indiv¡duo investido de cargo p£blico.

MATRONA - Senhora, dona-de-casa romana.

MERCçRIO -Deus patrono dos mercadores e comerciantes.

NETUNO - Deus dos Mares.

PATRäCIOS - Nobres romanos de sangue.

PERISTILO - Um quintal ou jardim a ceu aberto, cercado por colunas cobertas.

PLEBE - O povo, o conjunto dos cidad†os comuns por oposi‡†o … nobreza de sangue.

PLEBEUS - Homens da plebe, "pov†o".

PLEBISCITO - Decreto do povo reunido em com¡cio.

PåRTICO - Aposento amplo, com o teto sustentado por colunas.

QUINQUENAL - Magistrado municipal romano, cujo cargo durava cinco anos.

RELEVO - Escultura ou gravura trabalhada em relevo.

SARCåFAGO - Monumento f£nebre na foram de um caix†o.

SENADO - Assembl‚ia de anci†os que tinham exercido magistraturas.

TABLINO - Grande aposento atr s do  trio, originalmente o principal quarto de dormir. Depois, usado como escrit¢rio.

TERMAS - Banhos p£blico.

USUCAPIO - modo de adquirir propriedade pela posse ininterrupta de algo durante certo tempo.

VETO - Direito da plebe de vetar qualquer decis†o do Senado ou dos magistrados.

 

CRONOLOGIA

a.C.

852                  Funda‡†o de Roma, segundo a tradi‡†o.

625-600          Chegada dos etruscos a Roma.

578-534          Reino de S‚rvio T£lio.

509                  Os Tarqu¡nios s†o expulsos de Roma, in¡cio da Rep£bica.

494                  Primeira secess†o dos plebeus. Estabelecimento dos tribunos da plebe com direito de veto.

471                  Cria‡†o do Conc¡lio da Plebe, por tribos.

451-50            Decˆmviros e Lei das XII T buas.

387                  Gauleses derrotam os Romanos e tomam a cidade de Roma.

367                  Primeiro C“nsul plebeu.

343-341          Primeira Guerra Samn¡tica.

328-302          Segunda Guerra Samn¡tica.

312                  Constru‡†o da Via âpia e da Aqua âpia.

298-290          Terceira Guerra Samn¡tica.

264-241          Primeira Guerra P£nica.

241                  Anexa‡†o da Sic¡lia.

230                  Anexa‡†o da Sardenha e da C¢rsega.

218-201          Segunda Guerra P£nica.

200-196          Segunda Guerra Maced“nica.

171-168          Terceira Guerra Maced“nica.

149-146          Terceira Guerra P£nica.

146                  Destrui‡†o de Cartago e Corinto.

139-132          Primeira revolta dos escravos na Sic¡lia.

133-122          Tribunados de Tib‚rio e C io Graco.

112-105          Guerra de Jugurta.

104-100          Segunda Revolta dos escravos na Sic¡lia.

91-87  Guerra Social ou dos Aliados It licos.

90                    Lei Juliana confere direitos aos it licos.

88                    Sila marcha sobre Roma.

81                    Ditadura de Sila.

73-71  Revolta dos escravos liderada por Esp rtaco.

60                    Primeiro Triunvirato de Pompeu, Crasso e C‚sar.

59                    Primeiro Consulado de J£lio C‚sar.

58-51  Conquista da G lia por C‚sar.

49-45  Guerra Civil com vit¢ria de C‚sar em Farsala.

44                    Ditadura Perp‚tua e assassinato de C‚sar.

43                    Tiunvirato de Ant“nio, Ot vio e L‚pido.

31-30  Ot vio derrota Ant“nio e Cle¢patra em âcio.

27                    Augusto Imperador.

4                      Nascimento de Jesus.

d.C.

14                    Morte de Augusto.

14-37 Tib‚rio Imperador.

37-41  Cal¡gula Imperador.

41-54  Cl udio Imperador.

41-46  Anexa‡†o da Mauritƒnia, na âfrica e da Bretanha.

54-68  Nero Imperador.

68-69 Guerras Civis.

69-79  Vespasiano Imperador.

79-81  Tito Imperador.

79                    Destrui‡†o de Pomp‚ia, Herculano e Est bia pela erup‡†o do Vulc†o Ves£vio.

80                    Inaugura‡†o do Coliseu, em Roma.

81-96  Domiciano Imperador.

96-98  Nerva Imperador.

98-117            Trajano Imperador.

106                  Anexa‡†o da D cia, atual Romˆnia.

117-138          Hadriano Imperador.

122                  Muralha de Hadriano.

138-161          Antonino Pio Imperador.

161-168          Marco Aur‚lio.

180-192          C“modo Imperador.

193                  Pertinax Imperador.

193-211          Sept¡mio Severo Imperador.

211-217          Caracala Imperador.

212                  conferida cidadania romana a todos os habitantes do Imp‚rio.

217-18            Macrino Imperador.

218-222          Heliog balo Imperador.

222-235          Severo Alexandre Imperador.

235-270          Diversos Imperadores, Guerras Civis.

270-275          Aureliano Imperador.

284-305          Diocleciano Imperador.

303-311          Grande persegi‡†o aos crist†os.

312-337          Constantino I, o Grande; convers†o do Imperador ao Cristianismo.

360-363          Juliano, o Ap¢stata, restaura‡†o do Paganismo.

378-95            Teod¢sio I Imperador.

404                  Ravena torna-se capital do Imp‚rio Romano do Ocidente.

410                  Tomada de Roma por Alarico, o visigodo; perda de diversas prov¡ncias, como a Bretanha e a Espanha.

455                  Saque de Roma por Genserico.

475-6  R“mulo Aug£stulo, £ltimo imperador romano do ocidente, em Ravena.

476-493          Odroaco, rei da It lia.

801                  Coroa‡†o de Carlos Magno, em 25 de dezembro, como Imperador Romano.

 

PARA SABER MAIS

 

                        Se vocˆ gostou deste livro e quer conhecer um pouco mais sobre alguns assuntos tratados, sugiro alguns livros:

 

A vida cotidiana em Roma no Apogeu do Imp‚rio, de Jerome Carcopino, publicado pela Companhia das Letras, fornece, numa leitura agrad vel, uma grande quantidade de dados interessantes sobre o dia-a-dia em Roma Antiga.

 

O amor em Roma, de Pierre Grimal, publicado pela Editora Martins Fontes, apresenta um interessante apanhado sobre temas como o casamento, a religi†o  e a pol¡tica e suas implica‡’es amorosas e sentimentais.

 

Cultura Popular na Antiguidade Cl ssica, de Pedro Paulo Abreu Funari, publicado pela Editora Contexto, ‚ baseado em documentos hist¢ricos, os grafites encontrados em Pomp‚ia, e trata de temas como o amor, as divers’es e a poesia dos romanos.

 

Imperialismo Greco-Romano, de Norberto Luiz Guarinello, publicado pela Editora âtica, discute quest’es muito interessantes e atualizadas sobre a expans†o das cidades antigas, com destaque para o Imperialismo Romano e suas interpreta‡’es.

 

Roma e os Romanos, de Henri Bornecque e Daniel Mornet, publicado pela Editora da Universidade de S†o Paulo, ‚ um guia, extremamente pr tico, para entender termos, institui‡’es e costumes romanos.

                       

                        Alguns filmes interessantes sobre Roma antiga s†o:

 

Cle¢patra; Esp rtaco; O Satyricon de Fellini.

 

BIBLIOGRAFIA

 

AA.VV. Corpus Inscriptionum Latinarum. Berlim, Academia de Ciˆncias, desde 1863, volumes IV e X.

ALFOELDY, Geza, Historia Social de Roma. Madri, Alianza, 1984.

ANDREWS, Ian, Pompeii. Cambridge, Cambridge University Press, 1990.

ANNEQUIN, J., CLAVEL-LVàQUE, M. & FAVORY, F., eds,  Formas de explora‡†o do trabalho e rela‡’es sociais na Antiguidade Cl ssica. Lisboa, Estampa, 1978.

AURIGEMMA, S. The Baths of Diocletian and the Museo Nazionale Romano. Roma, Istituto Poligrafico dello Stato, 1968.

BARTON, J.M., ed, Roman Public Building. Exeter, University of Exeter Press, 1989.

BETTINI, M., Anthropology and Roman Culture. Kinship, time, images of soul. Baltimore, John Hopkins University, 1991.

BIRLEY, Robin, The Roman documents from Vindolanda. Carvoran, Roman Army Museum Publications, 1990.

BOARDMAN, J., GRIFFIN, J., & MURRAY, O., eds, The Roman World. Oxford, Oxford University Press, 1988.

BOWMAN, A.K. & THOMAS, J.D., Vindolanda: the Latin writing tablets. Londres, Britannia Monograph, 1983.

CANDILIO, D. et alii, Misurare la terra: centuriazione e coloni nel mondo romano. M¢dena, Panini, 1984.

COLLINWOOD, R.G. & WRIGHT, R.P., The Roman Inscriptions of Britain (RIB). Oxford, Oxford University Press, 1965.

CORBISHLEY, M. Town life in Roman Britain. Londres, Harrap, 1984.

DELLA CORTE, Matteo, Case ed abitanti di Pompei. Roma, L'Erma, 1954.

ETIENNE, Robert, La vida cotidiana en Pompeya. Madri, Aquilar, 1970.

FINLEY, Moses I., A economia Antiga. Porto, Afrontamento, 1980.

FINLEY, Moses I., A pol¡tica no mundo antigo. Rio de Janeiro, Zahar, 1985.

GARDINER, J., ed.,What is history today? Londres, MacMillan, 1988.

GARNSEY, P. & SALLER, R., The Roman Empire, Economy, Society and Culture. Londres,  Duckworth, l988.

GRANT, Michael, Gladiators. Nova Iorque, Delacoste, 1967.

GRANT, Michael, Hist¢ria de Roma. Rio de Janeiro, Civiliza‡†o Brasileira, 1987.

HODGE, P., The Roman Army. Londres, Longman, 1977.

IMBERT, J., SAUTEL, G. & BOULET-SAUTEL, M, eds, Histoire des institutions et des faits sociaux (des orgines au Xe. siecle). Paris, PUF, 1963.

JONGMAN, W., The economy and society of Pompeii. Amsterdam, Gielsen, 1991.

LING, Roger, Roman Painting. Cambridge, Cambridge University Press, 1991.

LäVIO, Tito, Hist¢ria de Roma. Tradu‡†o de Paulo Matos Peixoto. S†o Paulo, Paumap‚, 1989.

MACKENDRICK, P., The Roman mind at work. Nova Iorque, Anvil.

NICOLET, Claude, Rendre … C‚sar. Paris, Gallimard, 1988.

PETRæNIO, Satyricon. Tradu‡†o de Paulo Leminski. S†o Paulo, Brasiliense, 1985.

POLäBIO, Hist¢ria. Tradu‡†o de M rio Gama Kury. Bras¡lia, ed. UnB, 1985.

ROSTOVTZEFF, Mikhail, Hist¢ria de Roma. Rio de Janeiro, Zahar, 1985.

STACCIOLI, R.A., Pompei, vita pubblica di un'antica citt…. Roma, Newton, 1979.

WHEELER, M. Roman Art and Architecture. Londres, Thames and Hudson, 1989.