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Publicado em: Resenha de “O livro de Catulo”, de João Angelo Oliva Neto, História Revista (UFGO), 2,1, 157-160, 1997.

 

João Angelo Oliva Neto, O livro de Catulo, Tradução, Introdução e Notas de J.A. Oliva Neto. São Paulo, Edusp, 1996, 280 pp., 33 figg.

Resenhado por Pedro Paulo A. Funari (Departamento de História, IFCH, UNICAMP)

                               O professor João Angelo Oliva Neto, do Departamento de Letras Clássicas da F.F.L.C.H. da USP, recolheu, neste volume, toda a obra que nos restou do poeta latino Caio Valério Catulo (ca. 84-54 a.C.), publicada no original e em tradução poética; uma antologia, ao final do livro (pp. 161-180), republica o conjunto das traduções anteriores, ao português, de outros quinze estudiosos.  A primorosa edição conta com ilustrações, em cores e preto e branco, que permitem, ao leitor, visualizar diversas cenas quotidianas antigas. As inúmeras notas explicativas elucidam os mais variados aspectos dos poemas (pp. 181-256). O livro completa-se com uma bibliografia atualizada (pp. 257-261) e com um útil índice onomástico. Embora recém lançada, a obra já foi resenhada por dois especialistas em letras clássicas, Paulo Martins (1996) e Henrique Muraccho (1996), ambos, com justiça, muito elogiosos. Não caberia, portanto, retomar os argumentos já apresentados pelos colegas, mas tratar de algumas questões essenciais para aqueles que pretendem utilizar a edição de Catulo como documento histórico, pois este é o destino inevitável de uma obra como a que temos em mãos.

 

                               Oliva apresenta uma introdução que enfatiza a inserção de Catulo na cultura helenística, iniciada em época de Alexandre, cuja época testemunhou o principiar de uma verdadeira cultura livresca, no melhor sentido do termo: são desse tempo o escólio, o aparato crítico, a discussão filológica, a exegese, a Biblioteca. Neste contexto, o tradutor explicita que sua versão para o vernáculo procura recriar, em nosso idioma, a forma da expressão e a forma do conteúdo, de maneira a sempre se manter o mesmo número de versos do original, respeitando, o mais possível, a seqüência cinematográfica das imagens (p.57). Assim, os carmina docta foram vertidos em registro erudito e elevado, enquanto nos polímetros recorreu-se às expressões da fala comum, como “jogo de cintura” ou “sair fora”.  Do ponto de vista literário o êxito de Oliva não pode ser questionado, como um único, e famoso, exemplo é o bastante:

 

5 (7-13):

 

Da mi basia mille, deinde centum,

dein mille altera, dein secunda centum,

deinde usque altera mille, deinde centum.

Dein, cum milia multa fecerimus,

conturbabimus illa, ne sciamus,

aut ne quis malus inuidere possit,

cum tantum sciat esse basiorum.

 

Dá mil beijos, depois outros cem, dá

muitos mil, depois outros sem fim, dá

mais mil ainda e enfim mais cem - então

quando beijos beijarmos (aos milhares!)

vamos perder a conta, confudir,

p’ra que infeliz nenhum possa invejar,

se de tantos souber, tão longos beijos.

(Oliva)

 

                               As traduções de Almeida Garrett, Haroldo de Campos e Aires de Gouveia apresentam menor precisão, maior distância do original e soam mais artificiais (pp. 54-55). Por outro lado, a opção do tradutor, quanto à versão de expressões e elementos gerais da cultura latina por possíveis correspondentes na realidade brasileira apresenta alguns problemas. Assim:

 

23

Furei, cui neque seruos est neque arca

nec cimex neque araneus neque ignis,

uerum est et pater et nouerca, quorum

dentes uel silicem comesse possunt,

 

Ó Fúrio, que não tens dinheiro ou bolso,

nem percevejos nem aranha ou fogo,

mas tens um pai e tens madastra cujos

dentes podem comer até pedras.

 

24 (10):

nec seruum tamen ille habet nec arcam.

 

Sim, mas ele não tem dinheiro ou bolso.

 

                               Em ambos os casos, a falta de escravos foi “modernizada” para falta de dinheiro.  No poema 93, a irreverência apresenta-se transmutada:

 

Nil nimium studeo, Caesar, tibi uelle placere,

nec scire utrum sis albus an ater homo.

 

Pouco me importa, César, querer te agradar,

nem quero saber se és Grego ou Troiano.

 

                               “Branco ou preto” (p. 60), no original, revela tratar-se de uma sociedade na qual o homem podia ser desta ou daquela cor, sem a conotação usual derivada da escravidão moderna e sua associação do escravo ao negro. Também neste caso, portanto, o leitor que ficar apenas com a tradução poderá ser induzido a erro. Do ponto de vista do estudioso da sociedade antiga, essas “modernizações” acabam por afastar o leitor do contexto original, inassimilável à nossa sociedade contemporânea mas, seria possível, a um só tempo, verter e manter o referencial da cultura antiga? Em certo sentido, o recurso à etimologia das palavras, partindo do sentido concreto para o abstrato, em busca da tradução linear, permitiria tentar recompor, em vernáculo, o original latino. Mesmo aí, entretanto, há limites muito claros, pois os conceitos antigos não cabem nos seus aparentes equivalentes modernos:

 

10

Varus me meus ad suos amores

uisum duxerat e foro otiosum

 

Varo, para que eu visse seus amores.

de meu ócio no Fórum me levou.

                               Nossos “ócio” e “Fórum” em nada se aproximam daqueles romanos! (p.187, nota ).  Por sua vez, uma tradução que assuma que o leitor conhece o original não tem sentido, pois nesse caso o estudioso não precisaria da versão. A utilidade da tradução advém, precisamente, desta função de vulgarização da cultura para aqueles que, ainda que de forma indireta, poderão ter acesso ao texto original. Neste sentido, as notas de Oliva permitem, em boa medida, contextualizar o leitor, ainda que a ênfase, muito naturalmente, recaia na explicação de caráter literário. De toda forma, deve saudar-se a publicação por diferentes motivos: pela apresentação do texto latino integral, pela bela tradução literária e pelas notas. Oxalá outros autores antigos encontrem estudiosos tão conscienciosos quanto João Angelo Oliva Neto e edições tão primorosas quanto esta da Editora da Universidade de São Paulo. Todos os interessados no mundo antigo agradecem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Martins, P. Um mestre clássico da métrica, Folha de São Paulo, 25/8/96, 5, p.10.

Muraccho, H. O primeiro elo da cadeia, Folha de São Paulo, Jornal de Resenhas, 11/10/96, p.44.

                                               Prof. Dr. Pedro Paulo A. Funari