Algumas questões acerca das representações do banquete na
iconografia espartana do século VI a.C.
JOSÉ
FRANCISCO DE MOURA – ufrj e unicamp
Resumo
Este artigo tem por proposta levantar algumas questões
acerca da iconografia do sympósio
e do kômos
presentes nos vasos lacônios de figuras negras do século
VI a.C. Pretendemos efetuar uma análise do significado das
referidas imagens no intuito de entender o papel que as
referidas práticas tinham no seio da sociedade espartana
do período. Também é nosso objetivo investigar as relações
da aristocracia espartana com a aristocracia das demais
póleis, verificando se
o isolamento cultural da sociedade espartana, mencionado
por fontes do século IV a.C., realmente ocorreu.
Summary
The purpose of this article is to bring some questions
about the iconography of the
sympósio
and of the kômos
in the black figures
laconian
vases of the VI
b.C. We intend to make an
analysis of the meaning of the referred images in order of
understanding the importance those practices had inside
spartan society of the period. It is also
our objective to investigate the relationships of
the
spartan aristocracy with the aristocracy of
the other póleis, being
verified if the cultural isolation of
the
spartan
society,
mentioned by
sources of
the IV
b.C., really
happened.
Palavras-chave
Grécia;
Lacônia; Vasos; Iconografia; Aristocracia.
Keys
words
Greece; Lacônia;
Vases;
Iconography; Aristocracy.
O banquete privado era uma das práticas sociais gregas de
cunho claramente aristocrático. Temos conhecimento de sua
prática em cidades como Atenas e Corinto desde meados do
século VI a.C. Além da iconografia dos vasos dessas
cidades representarem-no, alguns textos produzidos no
período clássico os mencionam abertamente o banquete como
um local de encontro de ricos cidadãos.
As informações literárias advindas do período clássico,
porém, afirmavam a proibição da prática de banquetes e
refeições privadas em Esparta. Segundo
Xenofonte (Constituição dos
Lacedemônios 5.2), a lei espartana proibia as refeições em
casa, obrigando os cidadãos a participarem das refeições
comuns - as famosas sissítias.
Plutarco também menciona a proibição, citando o exemplo do
rei Ágis, que, ao voltar de
uma campanha de guerra, teria sido punido por não ter
comparecido à essas refeições (Plutarco, Vida de Licurgo
12). Ainda segundo Xenofonte
(República dos Lacedemônios, 10.7), a contribuição para as
mesas públicas era cobrada compulsoriamente em forma de
impostos, sendo a sua contribuição uma das condições
necessárias para se tornar um cidadão pleno.
Outras informações sobre a
sissítia estão espalhadas por quase toda
documentação literária do período clássico e posterior,
motivo que tinha feito a historiografia considera-la como
uma prática comum à sociedade espartana desde os
primórdios de sua história.
Pensar que a
sissítia era uma
prática muito antiga, porém, eqüivaleria a considerar que,
em Esparta, as práticas comensais teriam, durante centenas
de anos, uma organização social e um sentido ritualístico
bastante diferente do que era verificado em outras
sociedades gregas, pois a referida prática era um fenômeno
social sem precedentes nas demais
póleis. Havia banquetes públicos em várias
comunidades gregas, mas, pelas poucas informações que as
fontes nos passam sobre esses eventos, eles estariam muito
longe do caráter militarista e igualitário da prática
espartana.
Logo, teria sido o banquete privado uma prática
aristocrática proibida logo na aristocrática Esparta? Será
que a aristocrática elite espartana diferenciava-se tanto
assim das elites das demais póleis
como nos informa a tradição literária ? Será que
Dionisos, um deus reverenciado
nos banquetes aristocratas de outras
póleis, teria sido ignorado na “apolínea” Esparta ?
Para tentar responder a essas perguntas é necessário
compreender o desenvolvimento histórico da sociedade
espartana durante o século VI através da confrontação dos
diversos tipos de fontes, tendo cuidado, contudo, em
analisar e situar cada uma na especificidade de seu gênero
e no contexto temporal de sua produção.
Pretendemos demonstrar, neste artigo, através do estudo da
iconografia em vasos de figuras negras, que a prática do
banquete não era proibida em Esparta pelo menos até o
terceiro quartel do século VI a.C. Na verdade, muito pelo
contrário, a referida prática era muito comum na vida da
aristocracia local. Ela foi representada nos vasos
obedecendo aos mesmos padrões canônicos de sua realização
mencionados pela documentação textual do período e de
períodos posteriores.
Os vasos
de figuras negras e a representação do banquete
A iconografia contida em vasos de cerâmica desvela um novo
quadro da presença da prática do banquete e dos cultos e
festas dionisíacas em Esparta. Ali, verificamos que, no
início do século VI a.C., as imagens de banquetes estavam
presentes com todas as características que a ideologia
aristocrática do período tinha formatado para si própria.
Em nossa visão, o conceito de Ideologia, em que pesem
todos os percalços e obstáculos heurísticos de sua
historicidade, é passível de ser um instrumento
cognoscível com vistas a se dar conta de como se constrói
um discurso iconográfico ou textual e de como opera o
mundo social. A abolição do conceito, como diz
Giddens, não colabora para que
expliquemos como os grupos sociais defendem representações
seccionais como se fossem representações de toda
sociedade, mistificando as contradições dos sistemas
sociais. A dispensa do conceito de Ideologia, diz ainda
Giddens, tem levado os
cientistas sociais e historiadores muitas vezes a
“naturalizar o presente” (Giddens,
1994, 197).
Em consonância com Giddens, o
sociólogo John B. Thompson tem se manifestado no sentido
de reelaborar o conceito. Para
ele, Ideologia deve ser pensada como uma sistema de
crenças, valores e idéias manifestadas de múltiplas formas
(imagens, textos, propagandas) e que tem os seus
significados orientados com vistas à manutenção de
relações assimétricas (1995, 16). Para o sociólogo inglês,
a Ideologia, por isso mesmo, refere-se à maneira pela qual
as formas simbólicas - no nosso caso, as imagens - são
mobilizadas para produzir sentidos que afirmem e
corroborem as relações sociais e de dominação existentes
nas sociedades.
As formas simbólicas não são propriamente falsas ou
errôneas no que concerne à retratar a “realidade social”,
proposta essa defendida por algumas correntes do marxismo.
As formas simbólicas, pelo contrário, “são constitutivos
das relações sociais” (Thompson, 1995, 76), na medida em
que estão envolvidas na função de criar as próprias
relações entre as pessoas e os grupos. Elas, em geral,
porém, produzem e reproduzem relações assimétricas entre
essas mesmas pessoas e grupos.
Os itens que aparecem nas imagens em vasos de cerâmica são
formas simbólicas às quais são conferidas sentidos e
significados. As formas simbólicas não são fenômenos
naturais da cultura ou isentas de significados
ideológicos, porquanto estão sempre inseridas em um
contexto histórico-social e politicamente estruturado.
No caso das
imagens de banquetes dos vasos lacônios de figuras-negras
do período, podemos afirmar que as mesmas apresentam
vários itens da ideologia aristocrática, podendo ser
enumerados alguns fatores bastante pontuais que a
caracterizam. São exemplos, por exemplo, a presença das
sofisticadas concubinas, a representação de vestimentas
estilizadas usadas pelos convivas, a pintura da
Kliné enquanto símbolo
de descanso dos bens nascidos, e, por fim, a afirmação do
caráter sagrado e sobrenatural do encontro, manifestado
nas figuras aladas que aparecem nas cenas ao lado dos
principais participantes. Poderíamos adicionar ainda o
tamanho e a estética dos corpos dos principais
protagonistas e sua posição em relação aos demais
participantes.
As cenas de
simpósio e kômos, aqui
chamadas genericamente de Banquete, perfazem um
significativo tema presente em vários itens iconografia
espartana. Além de estarem presentes nos vasos de figuras
negras, komastas e
simposiastas também aparecem
em estatuetas de bronze e de chumbo dedicados nos
diferentes santuários da Lacônia.
São conhecidos
até agora cerca de 32 vasos lacônios representando cenas
relativas à prática do simpósio e do
kômos. Poucos destes vasos estão preservados em sua
totalidade. Uma grande parte deles constitui-se apenas de
fragmentos, onde as poucas figuras que aparecem nestes
últimos, porém, são suficientes para atestar que as cenas
que ali foram pintadas tratavam da representação da
referida prática.
Grande parte
dos vasos lacônios de figuras negras representando
práticas de simpósio ou kômos
foi encontrada pelos arqueólogos em sítios fora da sua
região de produção. A maioria desses vasos vem de locais
como Etrúria,
Samos,
Tarento e Cyrene, onde,
no período em que foram comercializados, as aristocracias
governavam e eram aliadas de Esparta. Os vasos foram
encontrados em diferentes contextos, mas, em geral,
pode-se dizer que a maioria deles provém de suntuosas
tumbas e imponentes santuários. Os locais de achados
desses vasos já nos fazem inferir sobre o estatuto social
de seus consumidores, na medida em que os mesmos devem ter
sido obtidos por pessoas ricas para serem ofertados aos
deuses, para serem utilizados como objetos de uso
cotidiano.
Saber o preço dos vasos gregos de qualquer período é um
antigo problema com que os historiadores e arqueólogos
ainda se deparam. Na verdade, sabemos o preço de um número
muito pequeno deles, quase todos do período clássico (Boardman,
1988, 27-33). Isso tem levado a algumas hipóteses
diferenciadas.
Para Gill e
Vickers, por exemplo, os vasos
figurados seriam pouco custosos, o que implicaria que eles
seriam consumidos por pessoas pobres. Os ricos, afirmam,
consumiriam os vasos de ouro, prata e bronze (Gill,
1988, 35-43; Gill &
Vickers, 1994, 1-31).
Gill afirma, ainda, em sua
tese nada ortodoxa, que o número de sepulturas nas quais
os vasos foram encontrados é muito pequeno e que esses
enterramentos poderiam ser de pessoas pobres. Os ricos
poderiam ter escolhido a cremação durante o século V a.C..
A hipótese geral de Gill e
Vickers tem sido bastante
combatida (Boardman, 1988,
28-29; Hoffmann In: Goldhill &
Osborne, 1994, 28-51). Na
verdade, ambos autores privilegiam apenas alguns poucos
dados da Atenas do século V a.C. para formularem suas
hipóteses. Isso implica dizer que, mesmo para Atenas
daquele período, o que afirmam parece muito pouco
provável. Tumbas de atenienses ricos são mencionadas o
tempo todo pelas fontes dos séculos V e IV, e a cremação
parece ter sido apenas uma exceção dos tempos da peste
(429-27) (Morris, 1994).
O número de sepulturas descobertas pelos arqueólogos, de
fato, é pequeno em relação ao total de habitantes de
Atenas. Porém, isso também se dava em virtude do caráter
esparso de parte da população ática do século V a.C. (Chevitarese,
2001). Somente uma pequena parte do corpo cívico era
enterrada próxima da ásty,
mais precisamente no Cerâmico. Muitos corpos eram
enterrados no próprio dêmos
onde os cidadãos e seus escravos habitavam. Outras regiões
em que os corpos eram enterrados de forma mais
concentrada, como a própria Esparta e comunidades menores
do Peloponeso, não foram mencionadas pelos referidos
autores.
No que concerne ao preço dos vasos, a idéia de
considerá-los baratos não tem sentido, na medida em que
não se estipula uma referência para se estabelecer uma
relação. Os vasos figurados seriam baratos, mas em relação
a que?
O Quadro 1, por exemplo, nos fornece os preços de alguns
vasos que nos chegaram através de uns poucos documentos
áticos do século V. Nele, observa-se que os preços
variavam principalmente em função do tamanho e dos tipos
dos vasos. Os vasos de segunda mão e os não figurados,
chamados de lisos pelos arqueólogos, parece que eram os
que tinham os menores preços, enquanto que os vasos
maiores e figurados podiam chegar a 18
óbulos.
Quadro 1
Relação de
preços dos vasos áticos no V século
Tipos de Vasos
|
Tamanho
|
Período
|
Preço (em óbulos) |
|
Hidría ática de figuras
vermelha |
47 cm |
Meados do V século |
18
óbulos |
|
Hidría ática de figuras
vermelhas |
41 cm |
Meados do V século |
12
óbulos |
|
Cratera ática de figuras vermelhas |
42 cm |
Meados do V século |
11,5
óbulos |
|
Lékitos ático de figuras
negras |
40 cm
|
Início do século V |
6
óbulos |
|
Cratera de sino ática de figuras vermelhas |
-
|
Final
do século V |
4
óbulos |
|
Ânfora Panatenaica ática
de figuras negras (de Segunda mão) |
- |
Início do século V |
3
óbulos |
|
Ânfora pescoço ática de figuras vermelhas (de Segunda
mão) |
- |
Meados do século V |
3
óbulos |
|
Cratera de Sino ática lisa |
- |
Meados do século V |
Cerca
de 8 óbulos (1,5 dracmas) |
|
Taça
ática lisa |
- |
Meados do século V |
0,5
óbulo |
|
Taça
ática figurada
(cálculo aprox.) |
- |
Meados do século V |
5
óbulos
|
Obviamente, é muito difícil utilizar tais
dados exibidos acima para generalizar os preços dos vasos
para um período anterior, produzidos em uma outra região,
principalmente se levarmos em conta as particularidades da
economia grega. A economia monetária só foi plenamente
estabelecida em meados do século IV a .C. (Reden,
1996). A introdução da moeda, embora tendo se dado dois
séculos antes, não foi disseminada de forma igualitária e
consistente em todo o mundo grego.
Muitas regiões, ainda nos séculos V e IV, não a utilizavam
de forma sistemática. Era o caso da região do Peloponeso,
por exemplo, onde Esparta havia estabelecido sua hegemonia
política e militar.
Devido a isso, os vasos figurados do século VI não podem
ter sido transacionados em espécie de forma sistemática e
regular. Os vasos figurados áticos e
coríntios foram os primeiros vasos a serem
comercializados com freqüência, ainda durante o século
VII. Porém, pode-se considerar que muito dificilmente a
compra de grande número dos mesmos fosse feita com moedas.
A hipótese mais viável é que grande parte deles tenha sido
trocada por outros produtos ou mesmo por ouro e prata em
espécie. No caso de Esparta, essa possibilidade é ainda
maior devido ao caráter rudimentar de sua economia. Temos
informações sobre uma transação do final do século VII,
por exemplo, na qual a compra de uma casa teria sido feita
através de produtos, ouro e prata não cunhada.
Aliada a isso, as escavações e prospecções arqueológicas
realizadas pela equipe inglesa na região confirmam a
ausência de moedas para período anterior a 360 (Catling
et alli, 1996, 196).
Isso não quer dizer que o seu preço teria
sido acessível a todos. O quadro 1 serve para
compreendermos que havia uma relação de preços diretamente
proporcional aos tamanho e à decoração do vaso. Os vasos
figurados maiores (Hidría, por
exemplo) seriam mais caros que os figurados menores
(taças) e muito mais caros que os vasos menores lisos
(taças).
Afora isso, segundo Boardman,
o preço pago por um dia de trabalho na Atenas no fim do V
século girava em torno de 6 óbulos
(1 dracma), o que era um valor extremamente baixo para a
sobrevivência de um homem solteiro, quiçá casado e com
filhos. Logo, o preço de uma Hidría
figurada de grande tamanho (47 cm) poderia custar até três
dias de trabalho de um pobre “assalariado” ateniense.
Considerá-la, mesmo na Atenas do V século, como um item de
consumo comum aos pobres é, em nossa visão, um grande
erro.
Para o caso específico do período arcaico, essa hipótese é
ainda mais absurda. Várias ocorrências representadas nos
vasos são as mesmas mencionadas pelos poetas como sendo
comuns ao universo das práticas sociais dos aristocratas
do final do século VII e do século VI. Muitos poetas eram
testemunhas oculares dos banquetes em que os aristocratas
estavam envolvidos. Os poetas muitas vezes narraram suas
práticas sociais, sua estética e seus valores.
Aliadas a tudo isso, as escavações arqueológicas parecem
confirmar que a população mais pobre não tinha acesso a
tais vasos, já que a concentração dos mesmos sugere que
somente uma parte significativamente pequena da população
os consumia. Na Hélade
propriamente dita, como em outras regiões colonizadas
pelos Helenos, os vasos figurados, em geral, têm sido
encontrados em tumbas, santuários e em casas. Nas pequenas
fazendas, eles praticamente inexistiam.
Nos santuários, eles aparecem ao lado de vasos simples e,
por vezes, grosseiros, sem nenhuma representação pictórica
em suas superfícies. Nas tumbas, ocorre a mesma
discrepância. Essa desigualdade nos padrões das dedicações
religiosas e funerais já indica, a nosso ver, a
diferenciação social dos dedicantes.
Sendo assim, os
vasos figurados constituem-se, no século VI, em um item da
cultura material grega de uso restrito, destinado aos
diversos tipos de consumo prático e simbólico
implementados pela elite aristocrática das
póleis e do
mundo para além delas. As imagens neles retratadas eram
produzidas para atender às demandas e gostos desses
consumidores e não da totalidade da população grega.
Um fator de
caráter político também é fundamental na confirmação do
caráter aristocrático de seu uso. Nota-se que os vasos
chegavam aos principais mercados quando essas comunidades
eram governadas por grupos aristocráticos ligados por
aliança diplomática, e possivelmente militar, com os
espartanos. Quando os governos desses locais foram
alterados, os vasos tiveram a sua exportação imediatamente
interrompida. São exemplos bem documentados de os casos de
Samos e de
Sardis. Quando as
aristocracias locais foram derrubadas por
Polícrates e pelos persas,
respectivamente, verificou-se, imediatamente, um corte no
envio de vasos para aquelas regiões. O mesmo fenômeno
parece ter ocorrido em relação a
Cyrene e Etrúria.
Isso demonstra que os esparciatas,
mesmo não estando envolvidos na produção mecânica dos
vasos, determinavam sua circulação e consumo, imprimindo
ao comércio de vasos figurados a condição de dependência
em relação à sua política externa com regimes ou famílias
aristocráticas.
A disseminação
do tema do banquete entre os pintores é prova da extensão
e importância da referida prática. Nos vasos lacônios de
figuras negras, as cenas contendo a referida temática
foram pintadas por todos os grandes pintores lacônios,
sendo comercializadas para dentro e, principalmente, para
fora de Esparta, durante grande parte do século VI a.C. A
forte incidência de vasos com essa temática nos leva a
considerar que a referida prática era bastante comum na
primeira metade do sexto século antes da nossa Era,
e no começo da primeira década que se seguiu, fazendo
parte do cotidiano da elite local.
Algumas
características dos temas pintados permitem aos estudiosos
observarem algumas características bem marcantes. Para
Boardman (1988, 97), por
exemplo, o fato de nenhum detalhe da vida cotidiana de
mulheres, crianças e escravos aparecerem nos vasos com
essas pinturas é sinal suficiente de que se tratava de uma
prática eminentemente masculina e que a preocupação dos
pintores era representar o mundo fechado dos aristocratas.
Para Smith
(1998, 75), por sua vez, uma forma de compreender o teor
das cenas de banquete nos vasos lacônios seria
comparando-os numericamente com os de Corinto. Se o número
total de vasos lacônios figurados é muitas vezes inferior
ao total dos vasos figurados
coríntios conhecidos, proporcionalmente, porém, o
número de cenas de banquete nos primeiros é surpreendente
mais alto. Smith contabilizou 32 vasos lacônios, com
aquelas cenas, contra 40 dos similares
coríntios, o que indicaria,
para o autor, que a referida prática era considerada de
maior importância na sociedade espartana.
Já na visão de
Faustoferri (1986, 120), todos
os vasos lacônios se dividiriam em duas tipologias
básicas: os vasos de tipo erótico e aqueles de teor
heróico. Cenas referentes a todos tipos de práticas
sociais seriam norteadas por aqueles dois aspectos. Para
ela, a temática do simpósio e do
Kômos nas cenas dos vasos lacônios apontaria para o
fato de que na “sociedade lacônia, o sentido erótico do
banquete era vagamente oriental”.
O simpósio, na
concepção de Hoffmann (1994, 32), representava uma prática
social na qual os ideais de luxúria e de diferenciação dos
participantes eram realizados e alcançados. Os
aristocratas gregos teriam feito dele seu ponto de
encontro habitual, local onde assuntos e valores de grupo
se reforçavam e atualizavam.
Em consonância
com ele, Buxton (1994, 28)
considera que, nesses encontros, a solidariedade e o
sentimento de identidade dos aristocratas, ou aquilo que
Alex Callinicos (1987) chama
de Coletividade, se fortaleceria. O encontro serviria,
nessa hipótese, para norteamento da ideologia
aristocrática
Dois outros
fatores indicam que as referidas cenas eram pintadas a
partir da vida social: a ocorrência, como já mencionamos,
do tema em outros itens da iconografia (estatuetas de
bronze e chumbo), e o refinamento dos detalhes presentes
nas cenas pintadas com aquela prática. Esta última
característica demonstra, a nosso ver, que o pintor
lacônio estava em constante e estreito contato com o
ambiente em que se realizava o banquete, podendo ser
testemunha ocular de tais encontros.
A incidência de
vasos com essa temática nos diz mais. O alto número de
cenas de banquetes nos vasos, bastante superior ao número
de cenas de guerra, implica que a imagem de uma Esparta
militarista e austera, criada no período clássico, não
tinha relação com a Esparta desse período. Como afirma
Powell (1998, 36),“os vasos
lacônios parecem apresentar um quadro de uma sociedade
auto-indulgente que o período clássico não permitiu”.
A presença da
prática do banquete nos vasos indica que o mesmo, até
cerca de 530, ainda não havia sido proibido ou substituído
pela sissítia, que foi,
posteriormente, a principal, e talvez única, prática
comensal coletiva permitida em Esparta. O simpósio e o
Kômos eram práticas sociais
comuns a grupos restritos de pessoas também em outras
póleis, o que
aproximava a aristocracia das mesmas com a elite
aristocrática espartana no tocante à essas reuniões de
caráter privado. Normalmente, também nas outras
póleis, essas eram ocasiões
onde ricos amigos se reuniam para falar de política,
beberem, comerem e divertirem-se com jovens rapazes,
prostitutas e músicos.
Em relação às
fontes literárias, as informações que temos sobre a
organização e a função do simpósio e do
kômos são oriundas de vários
autores de diferentes períodos. No período arcaico, as
fontes principais são os poetas, dentre os quais se
destacam Alcman, Alceu,
Arquílocos, Anacreonte,
Teógnis e
Baquílides.
Posteriormente,
no período clássico, informações isoladas e
contingenciais aparecem em
outros vários tipos de fontes, desde historiadores e
filósofos, até comediógrafos.
No período
romano, Ateneu elaborou uma imensa obra na qual um
sem-número de autores anteriores, cujos trabalhos não nos
chegaram, são citados mencionando detalhes do banquete.
Graças a essa
riqueza documental, o banquete revela-se como uma das
práticas sociais gregas mais bem conhecidas. A compreensão
de seu funcionamento nos vários períodos colabora para que
tenhamos algum controle sobre os detalhes das cenas que os
retratam, permitindo a identificação de vários itens do
encontro.
Nas cenas de
simpósio e kômos da Lacônia, a
presença da kliné,
móvel no qual os comensais se reclinavam, era uma
constante. Ela aparece pintada na grande maioria das
imagens. Muitas vezes, o pintor também retratava detalhes
menores que envolviam o comensal na
kliné, como a almofada na qual se apoiava ou
os tecidos que o envolviam.
Uma outra
característica contida nas cenas revelam o conhecimento
que os pintores tinham acerca da prática. Os vasos
utilizados no encontro, em geral
lakainas, taças, crateras,
olpes e cântaros, aparecem representados fielmente
no tocante às suas formas e estilos de fabricação.
Nota-se, por isso mesmo, que o pintor tinha total
consciência sobre o que os comensais faziam com os vasos
durante aquele encontro, sobre os tipos de vasos que eram
usados em cada ocasião, e até sobre os detalhes das formas
dos mesmos em cada período de seus usos. Os pintores
representavam os comensais segurando as taças ou
lakainas para ingerir as
bebidas, usando crateras em locais mais afastados como
recipientes de mistura do vinho com água, e utilizando as
olpes para retirá-los das
crateras.
Essas
características mostram a preocupação dos pintores em
retratar fielmente alguns itens materiais utilizados nos
encontros e que se constituíam em elementos básicos da
realização do mesmo. A representação exata dos vasos e
móveis presentes nos encontros nos levam a inferir que os
pintores se esforçavam para dar às pinturas um caráter
real da reprodução desses encontros dos membros da elite
esparciata. Essa reprodução de
cunho “fotográfico” era, obviamente, idealizada, com as
formas simbólicas sendo mobilizadas para atender aos
anseios e demandas dos esparciatas.
Em algumas
pinturas, aparece claramente, também, a preocupação do
pintor em mostrar detalhes das comidas ingeridas. Uma
dessas comidas, por exemplo, aparece com certeza em duas
cenas, e provavelmente em uma terceira. Trata-se de
espécies de bolinhos redondos, provavelmente feitos de
cevada. Eles eram chamados Kámmata,
e muitas vezes eram servidos com azeite (Nicocles
In: Ateneu, IV 141a).
A presença de
músicos nos encontros é atestada em 9 vasos. Eles podiam
ser representados tocando o aulós
e a cítara. Muitos músicos estavam vestidos com trajes
orientais, indicando que não eram espartanos. Não
consideramos válida a interpretação de
Pipili (1987, 50) de que
alguns desses músicos poderiam ser o deus Apolo. Na
verdade, a presença de músicos nos banquetes é atestada em
quase todas as fontes sobre os mesmos, sendo sua função
dividir os convivas.
Há pelo menos
uma cena em que uma mulher luxuosamente vestida aparece
tocando um aulós, o que
poderia caracterizá-la, certamente, como
hetáira. Ocorre que
Alcman mencionou que
espartanas também usavam aqueles vestidos (PMG 1). Ainda
assim, fica a pergunta: o que uma matrona “bem nascida”,
que era preparada para o casamento e a vida doméstica,
estaria fazendo em uma prática eminentemente masculina?
As mulheres,
por sinal, podem estar representadas em muitas cenas, mas,
com certeza, a sua presença só pode ser atestada em um
outro vaso. A incidência de vestidos e cabelos longos em
muitos personagens pintados dificulta uma correta
identificação, tendo em vista que nem sempre os pintores
pintavam as mulheres com a cor branca, como era comum em
alguns vasos de outras localidades.
O sexo
explícito feito entre homens aparece pintado, com certeza,
em duas cenas e, talvez, em uma terceira. O coito anal é
fortemente indicado pela posição do corpo, confirmando a
prática de relações homossexuais em tais encontros (Figura
1). A incidência de galos em outros três vasos confirma a
atmosfera amorosa e sedutora do encontroe.
Figura 1
(Retiradas as figuras para a remessa)
Algumas cenas
representando o kômos indicam
que essa procissão festiva que se seguia ao banquete saía
pelas ruas, como em outras póleis.
Os pintores Typhon e
Rider quiseram caracterizar as
procissões festivas fora do ambiente privado pintando
construções (templos ?) que supostamente ficariam em
espaço público.
O
kômos aparece em um grande
número de vasos, somando 20 das 28 cenas que conhecemos
com a prática do banquete. Muitas cenas, porém, misturam
os dois tempos festivos, incluindo também o simpósio.
Dançarinos nus e vestidos aparecem em quase todas as
cenas, indicando o ambiente festivo do encontro. Eles
podiam representar os comensais após o efeito do vinho
ingerido, já que muitas vezes aparecem próximos a crateras
ou segurando taças.
Os vasos
figurados com esta temática podiam ser usados de várias
formas. Eles poderiam pertencer ao aristocrata como seu
objeto de uso cotidiano, poderiam ser posteriormente
ofertados nos santuários como objeto de dedicação sua aos
deuses, ou ainda ser enterrado com ele após a sua morte.
Em virtude desse aspecto fortemente pessoal de sua relação
com o vaso, não se deve descartar a hipótese de muitas
cenas representarem encontros específicos de pessoas
específicas, e que os vasos serviriam, dentro de Esparta,
para atender a encomendas privadas. Os vasos exportados de
Esparta podem, por isso mesmo, representar encontros reais
ocorridos nas casas dos esparciatas.
A
padronização iconográfica de um encontro comensal privado
As
similaridades existentes entre vasos pintados por
diferentes pintores no tocante às cenas de banquete podem
advir da regularidade da organização daqueles, ocorrida em
diferentes encontros freqüentados pelos pintores.
Algumas cenas
de banquetes mostram que, em geral, os principais convivas
eram pintados a partir de um tipo físico esteticamente
padronizado. Alguns homens que geralmente aparecem na
posição central da cena em tamanho maior ou em destaque
com relação a outras pessoas, quase sempre possuem cabelos
longos arranjados em cachos artificiais, com barba longa,
sem bigodes e com porte físico robusto. Isso indica que os
homens ali presentes seriam adultos, de boa condição
econômica e que exercitariam seus corpos com freqüência,
condições que a maioria dos
esparciatas possuía.
A representação
histórica esses homens coincide com as características
físicas que as fontes escritas mencionavam acerca da
estética dos espartanos. Esses, quando adultos, se
caracterizavam por usarem cabelos muito longos e cacheados
(Heródoto, I 82; VII 208; Xenofonte,
A Constituição dos Lacedemônios 11.3; Plutarco,
Lisandro I.1; Licurgo XXII.1), barba longa (Plutarco,
Fócion X; Lisandro, I.1) e
ausência completa de bigodes (Aristóteles In: Plutarco,
Vida de Cleomenes, IX.2;
Antífanes In: Ateneu, IV
143c). Parece que o uso dessa aparência era vedada aos
segmentos sociais inferiores. Uma
estela funerária de um perieco
representava-o com os cabelos curtos e ondulados, sem
barba e muito magro. Nos vasos, pessoas que aparecem
servindo aos comensais nos banquetes são representados em
tamanho menor, de cabelos diferentes e geralmente ou muito
magros ou muito gordos.
Em nossa visão,
esses homens representados podiam ser os mesmos cidadãos
que eventualmente compravam as taças com a pintura de seus
próprios encontros comensais. Estrangeiros visitando
amigos esparciatas podia
leva-la como recordação, como bens de prestígio que os
distinguiam.
Uma cena
específica do corpus lacônio pode servir de padrão para
entendermos a representação da realização do banquete em
Esparta. O vaso, restaurado pelos especialistas, pinta a
cena em uma grande riqueza de detalhes. Por isso, ele pode
ser considerado o eqüivalente do vaso François para o
banquete espartano na medida em que reúne quase todos os
ícones daquela prática presentes em outras cenas de forma
mais isoladas.
O exemplar é um
taça do Naukratis
Painter, de c. 565, contumaz
produtor para o mercado interno e pintor que gostava de
representar o banquete em toda a sua ocorrência. O vaso
foi exportado para a Etrúria,
e lá serviu de oferenda votiva em um santuário próximo ao
porto de Lavínium (Figura 2).
No vaso,
observa-se dois comensais barbados no centro da cena, em
tamanhos descomunais, se comparados com as outras pessoas
pintadas. Eles possuem barbas e cabelos longos, vestem
himátion, e olham-se
com tom de cumplicidade mútua. Eles seguram as taças em
suas mãos direitas. A simetria de suas posturas confirma a
tentativa do pintor de homogeneizá-los, diferenciando-os
dos demais.
No alto, por
trás de suas cabeças, três seres humanos alados, de porte
menor, dirigem-se a eles com as mãos espalmadas, como a
garantir-lhes a aquiescência do sobrenatural. No chão, em
pé, quatro pessoas de porte menor aparecem à esquerda e à
direita da kliné. Uma
delas, à direita, toca um aulós.
Outra, no lado oposto, está quase desaparecida. Dois
homens menores aparecem um de cada lado, portando chapéus
em forma de florais estilizados.
Uma mesa com
fruteiras cheias de bolinhos aparece na frente da
kliné. Cães, cobras e
aves estão dela, aos pares, em posições opostas, mas
eqüidistantes.
No nível
inferior, a cena mostra um outro instante do banquete, no
qual pessoas nuas embriagadas encontram-se próximas a uma
cratera e a pequenas olpes.
Dois homens à direita parecem estar dançando. Um outro à
frente parece embriagar-se e um quarto, mais adiante,
vomita. No canto direito, dois homens aparecem muito
próximos, um sem barba e outro barbado, de falo ereto.
O pintor desta
cena, em nossa concepção, quis retratar o banquete
ocorrido na casa de eminentes
esparciatas, que são representados em tamanho
maior. Eles se diferenciam dos demais participantes de
diversas formas: roupas, tamanho, posição na
kliné e
proximidade com os seres alados. Estes últimos podem se
tratar de Erotes, ou mesmo,
como afirma Pipili (1987,
64-70), de seres alados da natureza.
As pessoas em
tamanho menor não são esparciatas,
mas escravos, estrangeiros ou
periecos, que ali estão para trazer prazer aos dois
esparciatas, tocando a flauta
ou servindo-os em outros favores. Pessoas de tamanho menor
que os comensais aparecem em mais dois vasos, assinalando
hierarquia social.
Os cães, ambos
com coleiras, assinalam a presença do ambiente caseiro. Os
animais pertenceriam a um ou aos dois
esparciatas, já que Stesichoro
mencionou que cães ficavam próximos às mesas dos banquetes
(PMG 338). O cão era um animal bastante comum ao universo
espartano da caça. Cães de raça lacônios eram famosos
desde o período arcaico, quando
Polícrates importou uma série deles. No IV século,
Xenofonte escreveu um tratado
de caça com cães, provavelmente baseado em suas
experiências com os animais lacônios, já
que seu amigo,
o rei Agesilau, era criador
daqueles animais (Xenofonte,
Agesilau 9.6).
No
kômos, em um outro momento da
festividade, o pintor tenta retratar como o encontro
afetava alguns participantes. Eles aparecem envolvidos em
danças e bebedeiras excessivas. A cópula homossexual se
encaminha entre dois dos participantes.
Em nossa visão,
o significado geral da cena valoriza a posição social dos
esparciatas, reforçando sua
superioridade frente a outros atores sociais. Esse
processo se daria de várias formas: na representação dos
esparciatas em tamanho maior e
na aproximação dos mesmos com o mundo mítico. A cena
também valoriza a prática aristocrática do banquete,
enfatizando alguns detalhes mínimos do encontro.
Ao migrar para
outras regiões, os vasos poderiam ser compreendidos de
diversas maneiras. Em ex-colônias de Esparta, como
Cyrene,
Tarento e Thera, a cena
seria facilmente identificada como pertencendo aos
encontros comensais dos ‘parentes’ espartanos. Ela poderia
ser ofertada aos deuses como um presente, ou acompanhar o
morto como seu objeto pessoal.
Em
Samos, a cena também seria
facilmente compreendida, na medida em que a aristocracia
local tinha fortes laços de aliança com a aristocracia
espartana. Os sâmios ajudaram
os espartanos na segunda Guerra da
Messênia. Sabemos, também, que um arquiteto
sâmio estava trabalhando em
Esparta em c. 570, o que o faria ter um contato mais
estreito com as práticas sociais dos espartanos.
Muitos vasos de diferentes temáticas eram oferecidos no
templo de Hera, independente se o teor das cenas se
relacionasse com os atributos da esposa de Zeus.
Na
Etrúria, onde a prática do
banquete funeral também existia, imagina se que, a
priori, que a cena poderia ser
mais difícil de ser compreendida. Os
etruscos, ao que sabemos, jantavam em casa com as
suas esposas e não praticavam o homossexualismo.(Spivey,
1997, 133). O imenso número de vasos gregos encontrados em
seu território, contudo, é prova de que os contatos
culturais entre etruscos e gregos, sobretudo espartanos,
eram muito mais estreitos que o quase total silêncio das
fontes nos leva a supor. É muito provável que alguns
etruscos mais ricos
freqüentassem Esparta (e
vice-versa). Lá, eles tomariam contato com tais encontros
comensais, apreendendo ou compartilhando o significado dos
mesmos quando se apossavam deles.
Nessa hipótese,
os vasos teriam a função de bens de prestígio, na medida
em que poderiam ser considerados como símbolos de
status e prova material
da influência política dos seus possuidores junto a um
aliado de peso no mundo grego. O fato deste vaso e de
inúmeros outros terem sido dedicados em locais sem que as
imagens pintadas nos mesmos tivessem alguma relação
imediata com o deus do santuário confirma essa outra
função que o vaso podia adquirir.
A
historiografia tem desprezado a hipótese de contatos
inter-culturais mais intensos entre etruscos e gregos.
Plutarco (Questões Gregas, 296.21B) mencionou uma
interessante história na qual alguns
etruscos, chegando em Esparta
após terem fugido de Atenas, casaram-se com mulheres
espartanas, tendo tido filhos dessas uniões. Eles teriam
se desentendido com os espartanos por
algum motivo não mencionado e partido posteriormente para
Creta, onde fundaram Lyktos (Plutarco,
Questões Gregas, 296.21B; Estrabão,
IV 7 9; VI 5 3). Não se sabe a data de tal fato, mas a
hipótese deste contato íntimo ter ocorrido no período
arcaico é bem provável, já que nesse período era comum ver
espartanos recebendo estrangeiros para morar em seu
território.
Há uma outra
hipótese, também provável, de que os etruscos dessem
outros significados às cenas, adaptando-as à sua cultura e
às suas práticas sociais. Eles poderiam ignorar que as
mulheres presentes nas cenas se tratassem de prostitutas e
confundi-las com esposas. Da mesma forma, a dificuldade em
se reconhecer imediatamente o sexo de algumas figuras
praticando o coito, ou na eminência de pratica-lo, poderia
faze-los pensar que se tratassem de cenas envolvendo
casais, o que, então, poderia ser associado a algumas
festas etruscas.
A produção de
cenas desse teor iconográfico
demonstram, a nosso ver, que a prática do banquete em
Esparta tinha características
bastante similares com as mesmas práticas realizadas em
outros locais e que Esparta
não era, no período, a comunidade austera igualitária e
isolada culturalmente do restante do mundo grego e fora
dele.
Conclusão
Os vasos lacônios figurados são evidências fortíssimas de
que, em meados do século VI a.C., a elite aristocrática de
Esparta pouco se diferenciava das elites aristocráticas de
outras póleis gregas. A
proibição da prática do banquete e de refeições privadas
em Esparta, se chegou
realmente a existir como afirma a documentação literária
do século IV a.C., é uma medida tomada posteriormente ao
período de produção dos referidos vasos.
As cenas representadas nos vasos afirmam o
status e a
direfenciação social dos
esparciatas com relação aos
demais estratos sociais, e euforizam
as práticas sociais e a estética das elites. Uma das
formas de mobilizar o significado das imagens para fins
ideológicos era atribuindo-lhes caráter sagrado, que se
revelava na proximidade de seres sobrenaturais. Logo, o
significado religioso atribuído às formas simbólicas
representadas na imagética
desses vasos serve de pressuposto básico para manipulação
do sentido dessas mesmas formas simbólicas no intuito de
afirmar as práticas sociais das elites enquanto condutoras
da vida política e social espartana.
Dessa forma,
podemos afirmar que, pelo menos até metade do sexto
século, as imagens de vasos lacônios
são suficientemente claras para demonstrar que a
aristocracia espartana imputava às suas reuniões comensais
privadas o mesmo sentido que eram produzidos pelas
aristocracias de outras póleis
do período. Esparta não se
configuraria, até então, como uma sociedade isolada
culturalmente.
Bibliografia
GIDDENS,
Anthony. Central Problems
in Social Theory.
Berkeley: University of
California
Press, 1994.