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Publicado em:
Nota de Leitura de L.
Audrerie, “La notion et la protection du patrimoine” e R.
Souchier e L. Vilar, “Le patrimoine mondial”, Revista de
História Regional, 4, 1, 147-149, 1999.
ENSAIO BIBLIOGRÁFICO – REVISTA DE HISTÓRIA REGIONAL – PONTA
GROSSA
Dominique Audrerie, La Notion et la Protection du Patrimoine.
Paris, Presses Universitaires de France, 1997, 128 pp. ISBN 2 13
048702 5.
Dominique Audrerie, Raphael Souchier, Luc Vilar, Le
Patrimoine Mondial. Paris, Presses Universitaires de France,
127 pp. ISBN 2 13049646 6.
Resenhado por Pedro Paulo A. Funari
O patrimônio é um tema de crescente
discussão por parte de um amplo espectro de estudiosos. Não há,
a rigor, uma única especialidade a refletir e tratar do
patrimônio, pois são museólogos, pedagogos, arqueólogos,
antropólogos, juristas, economistas, entre outros, aqueles que
se tem dedicado à questão. Estes dois pequenos volumes
representam bem essa multidisciplinaridade, pois seus autores
são dois estudiosos do direito e um antropólogo e economista (Souchier).
Em ambos os livros, encontramos um discussão ampla do tema,
concentrando-se Audrerie na definição do patrimônio e nas
questões referentes ao contexto francês, enquanto o Audrerie,
Souchier e Vilar tratam mais dos seus aspectos internacionais e
universais.
Audrerie discute a própria definição de
patrimônio, ressaltando que se trata de noção derivada do
Iluminismo e da Revolução Francesa, em especial ao ressaltar a
laicização do conceito, pois que o patrimônio refere-se ao
interesse publico, implicando, até mesmo, uma limitação ao
direito de propriedade em nome do coletivo. Em seguida, discorre
sobre a invenção do conceito mesmo e sobre a legislação
patrimonial francesa, a começar com o neologismo criado pelo
Padre Gregoire (1792), "vandalismo", referencia aos bárbaros que
destruíam obras e monumentos. Menciona a criação do inventário
de monumentos (1816), a primeira lei de proteção patrimonial
(1887), assim como as medidas posteriores.
A defesa do pastiche, tão nossa
conhecida pelo exemplo de Ouro Preto, por Jacques Houlet, entra
na difícil seara da subjetividade inevitável da definição do
preservável. A lei Malraux, de quatro de agosto de 1962,
permitiu que, na Franca, a deteriorização dos centros históricos
fosse limitada pela proteção ativa ao conjunto antigo das
cidades, algo que só poderia ser feito "com e pelos seus
habitantes e não apenas tendo em vista fins culturais ou
turísticos" (p.80). O patrimônio arqueológico, definido
paradoxalmente como "invisível" (pp. 97-102), compreende três
aspectos: a proteção física do patrimônio arqueológico, a
organização estrita de seu estudo e a regulamentação de seu
comércio.
Audrerie, Souchier e Vilar começam por
tratar do surgimento da noção de patrimônio mundial, posterior à
Segunda Guerra Mundial. A primeira Convenção Internacional sobre
Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, adotado por
iniciativa da UNESCO, foi firmada em 16 de novembro de 1972.
Desde o Pós-guerra, diversas campanhas internacionais de
salvaguarda do patrimônio foram organizadas, uma delas nas
Missões Jesuíticas, no Brasil, Argentina e Paraguai, em 1988. Um
aspecto essencial destacado pelo volume refere-se ao tombamento,
como patrimônio da Humanidade, de bens culturais, com destaque
para o conjunto de normas e instrumentos jurídicos mobilizados
(pp.35-77). Mencionam-se, ainda, as ações de parceria entre
instituições internacionais, países, associações publicas e
privadas, como é o caso da restauração do Forte de São José de
Macapá, no Brasil (p.87).
O volume conclui-se com uma discussão
sobre os novos desafios, em especial, a necessidade de
ampliar-se a lista de bens da humanidade para além das nações
ricas da Europa e da América do Norte, que detém quase a metade
dos 552 sítios considerados patrimônio da humanidade, enquanto a
África conta com 9%, os Estados Árabes 10%, a Ásia e o Pacífico
20% e a América Latina 13%. Outro tema candente refere-se à
aplicação da Convenção de Aia, de 1954, sobre a proteção de bens
culturais em caso de conflito armado, na medida em que as
guerras tem causado ingentes danos ao patrimônio cultural. Os
autores concluem que só se pode conservar um patrimônio em seu
contexto natural e humano, "forcas protetoras e reparadoras que
lhe dão vida" (p.118).
Ambos livros, ainda que concisos,
apresentam um manancial de questões relevantes sobre o
patrimônio. Como se ressaltou em resenha sobre a reunião,
promovida pelo World Archaelogical Congress, em Brac,
Croacia, sobre a destruição e a preservação do patrimônio
(Funari e Podgorny 1998), não se pode desvencilhar o patrimônio
de seu contexto político. Como ambos os volumes ressaltam e
muitos observadores têm destacado, para que se possa atuar de
maneira humanista na definição e proteção do patrimônio é
imprescindível a atuação o conjunta de cientistas e da
comunidade envolvida. Essa atuação não pode servir a interesses
estreitos, como no caso do chauvinismo racial ou nacional mas,
ao contrario, só pode beneficiar a todos se os critérios forem
antes universais que locais. A experiência francesa e das
organizações internacionais está a demonstrar a necessária
reflexão ética sem a qual a própria defesa do patrimônio de uns
pode servir de pretexto para a destruição dos bens culturais de
outros. Esta, talvez, a maior mensagem destes estudos.
REFERÊNCIAS
Funari, P.P.A. & Podgorny, I. 1998.
Conference Review. European Journal of Archaeology, 1,
416-423.
Pedro Paulo A. Funari
Departamento de História, Instituto e Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C.Postal 6110,
Campinas, 13081-970, SP, fax 55 19 289 33 27, pedrofunari@sti.com.br. |