Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: Paulo Duarte e o Instituto de Pré-História, Idéias, Campinas, 1,1, 155-179, 1994.

 

 

PAULO DUARTE E O INSTITUTO DE PR-HISTORIA: DOCUMENTOS INDITOS

Pedro Paulo A. Funari (Departamento de Hist¢ria, IFCH, UNICAMP)

 

INTRODU€O

 

                        A Hist¢ria da Arqueologia no Brasil sofreu de forma muito particular o jugo militar por mais de duas d‚cadas. A Arqueologia, … diferen‡a de outras ciˆncias humanas e sociais, depende muito diretamente do acesso a verbas vultuosas para poder levar a cabo seu trabalho de campo, para armazenar seu material e para analis -lo em laborat¢rio. Desta maneira, o controle das autoridades sobre a pesquisa arqueol¢gica deriva desta dependˆncia inevit vel do arque¢logo em rela‡†o aos ¢rg†os de financiamento, em geral estatais e, …s vezes, privados. A Arqueologia, como disciplina acadˆmica, viria a desenvolver-se no pa¡s apenas desde a d‚cada de 1950, gra‡as ao humanista Paulo Duarte. As vicissitudes do projeto de uma Arqueologia acadˆmica e humanista de Paulo Duarte est†o consubstanciadas na trajet¢ria do Instituto de Pr‚-Hist¢ria da Universidade de S†o Paulo. O objetivo primeiro deste trabalho consiste, justamente, na publica‡†o de dois documentos in‚ditos, custodiados no Arquivo Paulo Duarte da UNICAMP, entitulados Pela Dignidade Universit ria, visando dar a p£blico algumas das suas considera‡oes a respeito da Hist¢ria do Instituto de Pr‚-Hist¢ria e da sua cassa‡†o. Um segundo objetivo n†o menos importante consiste em divulgar a existˆncia de muitos outros documentos in‚ditos no Arquivo Paulo Duarte, de grande interesse para os mais diversos temas e, em primeiro lugar, sobre a vida acadˆmica.

 

                        Oct vio Ianni (1978:220) ressaltava, ainda durante o regime militar, que "para os que passaram a controlar o poder estatal a partir do Golpe de Estado de 1964, tratava-se e trata-se de controlar, marginalizar, reprimir ou suprimir as vozes discordantes". Ianni (1967:211) chamava a aten‡†o que o regime colonial-fascista brasileiro submetia-se a uma pol¡tica elaborada segundo a perspectiva de Washington, "na primeira fase da Guerra Fria". A avalia‡†o de Ianni parece descrever, com grande precis†o, a pol¡tica dos militares quanto … Arqueologia em nosso meio. De fato, enquanto as autoridades governamentais e universit rias brasileiras negavam verbas … Arqueologia humanista proposta por Paulo Duarte (1968:VI), implantava-se um Programa Nacional de Pesquisas Arqueol¢gicas (PRONAPA) comandado por norte-americanos ligados ao Departamento de Estado dos EE.UU. e … CIA. Segundo a insuspeita e bem informada arque¢loga norte-americana Anna C. Roosevelt (1991:106), al‚m da importa‡†o de um modelo determinista prim rio (cf. Meggers 1979:12-13 et passim), este projeto procurou opor obst culos aos trabalhos arqueol¢gicos que escapassem do seu controle e que tentassem se contrapor aos seus pressupostos, conservadores politicamente e ultrapassados cientificamente.

 

                        As autoridades brasileiras combatiam, em primeiro lugar, o humanismo, na defini‡†o premonit¢ria de Celso Furtado (1963:529) pouco antes da instala‡†o da ditadura. Os anos negros, de 1968 a 1972, testemunharam a elimina‡†o, dos quadros docentes, de consider vel parcela de professores que se opunham aos militares (Sebe 1984:89). Em termos gerais, apenas no Estado de S†o Paulo, a pol¡cia pol¡tica deflagrou uma campanha contra "suspeitos" e, em dez dias, mais de duas mil pessoas foram presas, em novembro de 1970 (Kinzo 1988:135;246). Segundo S‚rgio Buarque de Hollanda (in Graham 1982:13), "em 1969, alguns dos nossos melhores professores foram sumariamente destituidos de seus postos. Se tivessem sido mantidos, a expans†o dos cursos de p¢s-gradua‡†o nos anos 1970 poderia ter sido muito mais proditiva do que foi". Em 1974, Paulo Duarte dep“s em uma Comiss†o Especial de Inqu‚rito da Assembl‚ia Legistativa de S†o Paulo e tamb‚m constatava que "os verdadeiros pesquisadores, os verdadeiros professores da USP, com poucas exce‡oes, sa¡ram dela ou foram compulsoriamente expulsos". Antes disso, Duarte lembra que se batera "ao lado dos alunos, contra a invas†o da Universidade pela Pol¡cia Militar: uma Universidade n†o se invade!" (Documento in‚dito, Arquivo Paulo Duarte, p ginas 18 e 10 respectivamente).

 

                        Isto tudo foi poss¡vel, contudo, gra‡as … colabora‡†o de intelectuais com a repress†o. Os militares souberam usar o clientelismo a favor da constitui‡†o de redes de apoio ao regime. "O favor ‚ a nossa media‡†o quase universal" (Schwarz 1988:16) e nossas rela‡oes s†o dominadas pelo "mando e obediˆncia, favor e clientela" (Chaui 1992:6). O regime militar n†o eliminou as redes de clientela mas as centralizou e controlou (Roniger 1987:75). A tradicional cosa nostra (Da Matta 1991:5; Da Matta 1991) atua, em uma sociedade hierarquizada, segundo o princ¡pio da autoridade "de quem est  falando" do alto de sua posi‡†o (Da Matta 1980:151). A ditatura, contudo, amplifica em muito o poder discricion rio das autoridades mantidas ou elevadas a postos de comando em consonƒncia com o regime. neste contexto que os documentos de Paulo Duarte sobre "A Dignidade Universit ria", escritos em 1977, adquirem sentido. Os dois textos tratam, exatamente, do projeto arqueol¢gico acadˆmico humanista desenvolvido na Universidade de S†o Paulo, da cassa‡†o de Paulo Duarte e do destino do Instituto de Pr‚-Hist¢ria. A transcri‡†o apresentada, em seguida, tomou a liberdade de atualizar a grafia, na medida em que o autor, tendo passado por sucessivas reformas ortogr ficas, mescla formas ortogr ficas de diferentes per¡odos. Tamb‚m os trechos acrescentados pelo autor a certas frases, acima da linha, foram regularmente inseridos no texto. Os documentos originais est†o datilografados e assinados por Paulo Duarte.

 

REFERENCIAS

Chaui, M. 1992 Messianismo e autoritarismo s†o heran‡as da coloniza‡†o, Folha de S†o Paulo, Mais!, 11/10/92, 6.

 

Da Matta, R. 1980 Carnavais, malandros e her¢is. Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Zahar.

 

Da Matta, R. 1991 Nepotismo, o jeitinho brasileiro de ser cidad†o, Jornal da Tarde, Caderno de S bado, S†o Paulo, 7/9/91, 4-5.

 

Da Matta, R. 1991 Religion and modernity: three studies of Brazilian Religiosity, Journal of Social History, 25,2, 389-406.

 

Duarte, P. 1968 Pr‚-Hist¢ria Brasileira. S†o Paulo, Instituto de Pr‚-Hist¢ria da Universidade de S†o Paulo.

 

Furtado, C. 1963 Brazil; what kind of revolution, Foreign Affairs, 41,3, 526-535.

 

Graham, R. 1982 An interview with S‚rgio Buarque de Hollanda, Hispanic American Historical Review, 62,1, 3-17.

 

Ianni, O. 1967 O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro, Civiliza‡†o Brasileira.

 

Ianni, O. 1978 O Estado e a organiza‡†o da cultura, Encontros da Civiliza‡†o Brasileira, 1, 216-241.

 

Kinzo, M.D'A.G. 1988 Oposi‡†o e autoritarismo. Gˆnese e trajet¢ria do MDB, 1966-1979. S†o Paulo, V‚rtice.

 

Meggers, B.J. 1979 Am‚rica Pr‚-Hist¢rica. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

 

Roniger, L. 1987 Caciquismo and coronelismo: contextual dimensions of patron brokerage in Mexico and Brazil, Latin American Research Review, 22,2, 71-99.

 

Roosevelt, A.C. 1991 Determinismo ecol¢gico na interpreta‡†o do desenvolvimento social ind¡gena da Amaz“nia, in W.A. Neves (org), Origens, adapata‡oes e diversidade biol¢gica do homem nativo da Amaz“nia, Bel‚m, Museu Paraense Em¡lio Goeldi, 103-141.

 

Schwarz, R. 1988 Ao vencedor as batatas. S†o Paulo, Duas Cidades.

 

Sebe, J.C. 1984 Introdu‡†o ao nacionalismo acadˆmico. Os brasilianistas. S†o Paulo, Brasiliense.

 

DOCUMENTOS DO ARQUIVO PAULO DUARTE

PELA DIGNIDADE UNIVERSITARIA

                        De in¡cio, quero deixar bem claro que n†o tenho outro interesse pessoal para redigir estes coment rios, a n†o ser o de defender a dignidade da primeira Universidade cientificamente estruturada, no Brasil, que ‚ a Universidade de S†o Paulo, com cuja estrutura‡†o colaborei, ao lado dos seus idealizadores e estruturadores.

                       

                        Numerosas vezes, tenho vindo a p£blico para esse fim, com mais veemˆncia a partir de fins de 1934, quando se instalou a Assembl‚ia Constituinte e alguns membros do Partido Republicano passaram a desenvolver, contra a rec‚m-criada Universidade, uma campanha de destrui‡†o cega e sem nexo, cujo objetivo n†o era hostilizar, propriamente, a Universidade, mas o governo que a fundou, combate sem tr‚guas que perduraria por anos e anos. Qualquer arma era considerada leg¡tima, mesmo as mais cru‚is e as mais est£pidas, como essa de destruir uma Universidade que tais advers rios sequer conheciam, pois come‡ara a funcionar apenas em 25 de janeiro daquele ano de 1934. A primeira campanha fora, principalmente, contra os numerosos professores estrangeiros contratados. Para esses zoilos de m  sorte, n¢s possu¡mos em S†o Paulo gente igual ou superior a qualquer professor de fora. Pensaram de maneira diferente os fundadores da Universidade, homens de verdadeira cultura dentre os mais ilustres do Brasil, como Henrique da Rocha Lima, o estruturador do Instituto Biol¢gico, Reinaldo Porchat, o grande professor de Direito Romano da Faculdade de Direito, Andr‚ Dreyfus, criador da Escola de Gen‚tica de S†o Paulo, Teodoro Ramos, ilustre professor da Escola Polit‚cnica, Fernando de Azevedo, Cant¡dio de Moura Campos e outros nomes do mesmo alto n¡vel.

 

                        O futuro mostrou que t¡nhamos raz†o, pois a obra dos professores franceses ‚ que permite a ainda hoje resistˆncia que se pode opor contra os seus agressores e difamadores.

 

                        H  tempos, publiquei, em "Folha de S†o Paulo", um longo trabalho comentando os £ltimos golpes que tˆm sido dirigidos … Universidade. Al‚m dos problemas normais num Instituto como esse, havia, tamb‚m, aqueles que os muitos universit rios desfecham contra a Universidade e, com frequˆncia, para defender erros oriundos da pr¢pria relaxa‡†o da dire‡†o universit ria ou omiss†o daqueles que mais dever tˆm de zelar por ela.

 

                        o caso que me leva, neste momento, voltar … malferida Universidade, pela qual sempre me movimentei. Volto, agora, para defender um Instituto da mesma Universidade que sempre honrei e, mercˆ da ajuda que mereci de algumas grandes figuras da cultura universal, consegui vˆ-lo transformado num Instituto digno de uma grande Universidade, as suas atividades com repercuss†o nos mais altos meios europeus, norte-americanos, principalmente. Trata-se do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, ao qual dei toda a minha dedica‡†o, todo o meu carinho, durante anos. Fundei-o sob o patroc¡nio de outro Instituto, no qual trabalhei que ‚ o Mus‚e de l'Homme, de Paris, fundado e dirigido, at‚ a sua morte, pelo grande antrop¢logo e etn¢logo Paul Rivet, o maior americanista do tempo em que viveu. Foi Paul Rivet quem me aconselhou a fundar, no Brasil, um laborat¢rio de pesquisas sobre as origens e a vida do Homem paleoamericano, e dado o entusiasmo com que recebi a sugest†o, ainda conseguiu ele, para mim, uma subven‡†o de um milh†o de francos, quantia enorme, …quele instante, dos idos do decˆnio de 1950. Lucas Nogueira Garcez, j  quase no fim do seu governo, ouviu-me e compreendeu o que lhe expuz e tentou fundar o Instituto de Pr‚-Hist¢ria, na Faculdade de Filosofia da Universidade de S†o Paulo, aceitando, mesmo, o candidato que indiquei para ser o seu primeiro diretor: Roger Bastide, o grande professor que, no Brasil, todos conhecem.

 

                        Infelizmente, a Universidade passava, no momento, por uma dessas crises de displicˆncia, e mesmo desamor, que marcava, caso n†o houvesse uma rea‡†o, um pr¢ximo e perigoso decl¡nio, agravado depois pelas vicissitudes policiais a que tem sido submetida. O processo ia caminhando, quando o Professor Garcez deixou o governo e o Conselho Universit rio ante, de um lado, a decis†o do novo governador de fazer economias e, de outro, a ƒnsia, muito brasileira, de agradar as situa‡oes que come‡am e monosprezar as que saem, sob esse pretexto de comprimir despesas, negou o presente que lhe era oferecido, sem mesmo verificar o benef¡cio que se queria dar … Universidade. E o processo foi arquivado e desapareceu... Eu n†o desanimei, e Garcez, atendento at‚ um pedido de Rivet, fundou, ent†o, em dezembro de 1952, a Comiss†o de Pr‚-Hist¢ria de S†o Paulo, nomeando-me seu presidente, dando, assim, oportunidade de aproveitar o aux¡lio fornecido pelo governo francˆs. S†o Paulo era riqu¡ssimo em jazidas pr‚-hist¢ricas, mas estas estavam sendo vandalicamente destruidas pela explora‡†o comercial, fato que, ali s, despertara a generosidade do Governo francˆs, em protegˆ-las. A minha a‡†o foi implac vel: em cinco ano, eu havia conseguido, com o apoio da Pol¡cia do Estado, posta … minha disposi‡†o, e da FAB com os seus avioes, uma a‡†o de vigilƒncia dessas jazidas, e repress†o contra os ganhadores de dinheiro, ao ponto de conseguir a condena‡†o de dois dos mais poderosos, e iniciar a pesquisa cient¡fica sistem tica, em algumas delas. A repercuss†o desse trabalho penoso e ininterrupto <era grande>, pois as escava‡oes eram feitas nos pƒntanos do litoral, sob a tortura do calor e dos insetos agressivos e, at‚, de animais venenosos. Rivet me mandou um auxiliar precioso, Joseph Emperaire, do Museu do Homem. O resultado desse trabalho foi enorme. Tanto que a UNESCO resolveu realizar, em S†o Paulo, um congresso sobre as Origens do Homem Americano, com¡cio cultural do qual fui presidente e se realizou com enorme ˆxito, presentes os mais famosos pr‚-historiadores da Europa e da Am‚rica, com se vˆ dos seus anais, publicados pela pr¢pria UNESCO. Isso levou o jornal "Folha de S†o Paulo" a me convidar a dar, em seu audit¢rio, um curso sobre a mat‚ria, curso esse que despertou tal entusiasmo que teve de ser repetido nos quatro anos seguintes.

 

                        A¡ j  era Reitor da Universidade o professor A. Ulhoa Cintra, um dos poucos not veis dirigentes que teve a Universidade. Assistindo … aula de encerramento do £ltimo curos, o Reitor Ulhoa Cintra, no discurso ent†o proferido, declarou que aquela reuni†o provava uma coisa: o interesse da imprensa paulista pelas obras de alta Cultura. A maior delas, a funda‡†o da Universidade havia sido elaborada na reda‡†o de um dos grandes jornais de S†o Paulo, agora a cria‡†o de um Instituto de Pr‚-Hist¢ria impunha-se pelo espet culo oferecido por aquele curso institu¡do por outro grande ¢rg†o da imprensa. Estava Ulhoa Cintra colhendo informa‡oes necess rias para isso quando um grupo de cerca de quarenta professores, tendo … frente o professor Erasmo Garcia Mendes, vinha ao encontro do Reitor Ulhoa Cintra sugerindo a cria‡†o imediata de um laborat¢rio a estudar as Origens do Homem, especialmente do Homem Americano.

 

                        Foi assim que, em fins de 1959, era fundado o Instituto de Pr‚-Hist¢ria e eu nomeado o seu primeiro diretor.

 

                        N†o vou entrar em pormenores sobre o que se tornou o Instituto de Pr‚-Hist¢ria da Universidade de S†o Paulo, com seus cursos e as suas pesquisas, cuja consequˆncia mais importante foi aquela descoberta, num sambaqui da Ilha de Santo Amaro, dos restos do homem mais antigo da Am‚rica do Sul at‚ …quele momento, o Homem de Maratu , com cerca de oito mil anos, medidos pelo C arbono 14.

 

                        E ia o Instituto por esse caminho quando, em 1969, os percal‡os da m  pol¡tica e o ¢dio pessoal de um reitor, me obrigou a deixar a Universidade coercivamente, por um ato governamental.

 

                        O professor Eur¡pedes de Paula foi encarregado de responder pelo expediente at‚ a nomea‡†o do meu sucessor, mas permaneceu pouco tempo nessas fun‡oes, solicitando a sua dispensa e indicando para sucedˆ-lo um seu assistente, formado em arqueologia cl ssica. H  sete anos permanece esse assistente na mesma posi‡†o, ali s irregular, pois as fun‡oes de um encarregado de expediente apenas n†o podem prorrogar-se indefinidamente pelo prazo de mais de seis anos, como ‚ o caso do Instituto de Pr‚-Hist¢ria.

 

                        Aqui come‡a a hist¢ria da £ltima fase deste Instituto, que passo a resumir.

 

                        Em 1964, o professor Eur¡pedes Simoes de Paula, catedr tico de Hist¢ria Antiga e Medieval da Faculdade de Filosofia da USP, fundava, junto … sua cadeira, o Museu de Arte e Arqueologia, cujo objetivo era servir de apoio concreto aos cursos de Hist¢ria Antiga da mesma cadeira. Da¡ o nome do Museu, ligado … Arte e … Arqueologia cl ssicas. Em face disso, o professor Eur¡pedes Simoes de Paula, posteriormente, em 1968, entregava a dire‡†o desse novo museu ao seu assistente, Ulpiano Bezerra de Meneses, chegado da Europa e rec‚m-formado, exatamente em Arqueologia Cl ssica.

 

                        No in¡cio de 1969, era aposentado compulsoriamente e por motivos pol¡ticos, no cargo de Diretor do Instituto de Pr‚-Hist¢ria. Encarregado de responder pelo expediente, em car ter provis¢rio, do mesmo Instituto, o professor Simoes de Paula permaneceu pouco nas fun‡oes, solicitando a sua dispensa e designando para substitu¡-lo o seu assistente Bezerra de Meneses.

 

                        Veiu a reforma universit ria de 1970 quando, inopinadamente e a pedido do mesmo sr. Ulpiano de Meneses, o Museu de Arte e Arqueologia teve o seu nome mudado para Museu de Arqueologia e Etnologia, alterando pois profundamente os seus objetivos, dados pelo professor Simoes de Paula.

 

                        Essa muta‡†o, entretanto, se fez … revelia deste, que n†o foi sequer consultado. Da mesma sorte, n†o foram, tamb‚m, ouvidos dois outros institutos, que constavam em seus curr¡culos estudos de Etnologia: a Faculdade de Filosofia e o Museu Paulista.

 

                        Apesar de transformado … sorrelfa, o Museu de Arte e Arqueologia em Museu de Etnologia, o professor Ulpiano continuou na sua dire‡†o, embora sem qualquer t¡tulo que o acreditasse como etn¢logo ou pr‚-historiador, pois nem mesmo havia publicado um s¢ estudo espec¡fico ou realizado a menor pesquisa atinente ao assunto. De fato, a Arqueologia Cl ssica acha-se intimamente ligada … Arte e … Hist¢ria, ao passo que a Etnologia ou a Pre-Hist¢ria tˆm liga‡oes estreitas com numerosas disciplinas da Hist¢ria Natural, como a Paleontologia, a Geologia, de que depende a estratigrafia (sem a qual n†o pode haver escava‡oes pr‚-hist¢ricas), a Qu¡mica, a F¡sica, a Zoologia, a Botƒnica, a Anatomia, a Fisiologia, e outros ramos cient¡ficos, que o referido professor desconhece, o que fere, por certo, a essˆncia mesma duma unidade universit ria que s¢ pode ser guiada e dirigida por pessoas com pleno conhecimento dessas mat‚rias.

 

                        Ademais, a mesma reforma de 1970 estabelecia o registro oficial e obrigat¢rio de todos os institutos universit rios, que o deveriam promover por seus dirigente, sob pena de perder o instituto que n†o o fizesse o seu status universit rio.

 

                        Nesse instante, dada a aposentadoria compuls¢ria do diretor do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, que funcionara, ativamente, desde 1952, o professor Meneses era encarregado de, interinamente, responder pelo expediente daquele instituto at‚ a nomea‡†o do novo diretor, o que n†o se fez at‚ hoje.

 

                        Assim, o professor Ulpiano registrou, imediatamente, o museu de que era diretor, mas deixou de registrar, como devia, o Instituto de Pr‚-Hist¢ria, sob a sua assistˆncia. Por isso, perdeu este centro de investiga‡†o a sua situa‡†o jur¡dica, embora continuasse a existir de fato.

 

                        Foi mesmo publicado um quadro de "Codifica‡†o das unidades que compoem a Universidade de S†o Paulo" e nele s¢ n†o figura um dos Institutos universit rios at‚ ent†o existentes: o Instituto de Pr‚-Hist¢ria, com vida ativ¡ssima de mais de dez anos! E ningu‚m deu por isso!...

 

                        Em 1972, o professor Ulpiano, respondendo, sempre em car ter provis¢rio, pelo expediente do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, apresentou ao Conselho Universit rio, um projeto pelo qual seria transferido para o seu Museu de Etnologia e Arqueologia, "as atribui‡oes conferidas ao Instituto de Pr‚-Hist¢ria, que ficar  extinto"! Mais ainda, o artigo segundo dessa estranha proposta dizia, textualmente, : "Passam a integrar o patrim“nio do Museu de Arqueologia e Etnologia, o acervo cient¡fico, instala‡oes, equipamentos e materiais pertencentes ao Instituto de Pr‚-Hist¢ria"! E a minuta da portaria do ato, a ser aprovado pelo Conselho Universit rio, foi redigida pelo pr¢prio professor Ulpiano que o anexara ao projeto que iria extinguir, a seu favor, o mesmo Instituto de Pre-Hist¢ria!

 

                        A¡ ficava claro que todos os passos anteriores do professor Bezerra visavam um £nico fim: enriquecer e ampliar o seu museu com o patrim“nio inteiro de um laborat¢rio de pesquisas, muito mais antigo do que o seu museu, patrim“nio riqu¡ssimo, com as suas instala‡oes, as suas verbas, os  seus aparelhos, at‚ um pequeno mas rico museu voltado para os cursos ali dados, desde muitos anos, a sua biblioteca especializada, com muitas obras raras, as suas cole‡oes, vultuoso material cient¡fico, sem contar numerosas publica‡oes de pesquisas, que haviam acreditado o Instituto de Pr‚-Hist¢ria internacionalmente. Basta lembrar a organiza‡†o de simp¢sios, em todas as reunioes da SBPC at‚ ent†o realizadas, onde se discutiram numerosas teses cient¡ficas, dentre esses trabalhos, protocolos de pesquisas de campo important¡ssimas, como a descoberta, numa jazida da Ilha de Santo Amaro, dos restos do Homem Paleoamericano mais antigo da Am‚rica do Sul - o Homem de Maratu  - at‚ ent†o, cerca de oito mil anos medidos pelo C.14. Mais ainda, tendo conhecimento dessa importante descoberta que repercutiu em todos os centros mais importantes do mundo, a UNESCO promoveu a realiza‡†o, em S†o Paulo, sob a minha presidˆncia, de um dos seus famosos "Encontros Intelectuais" sobre as "Origens do Homem Americano". Compareceram os maiores antrop¢logos e pr‚-historiadores de todo o mundo, o que consta, em minuta, nos anais desse memor vel com¡cio cient¡fico, publicado pela UNESCO, logo depois.

 

                        S¢ depois que o Conselho Universitrio aprovava, em primeira discuss†o, esse esdruxulo projeto que desmoralizaria a pr¢pria Universidade, foi esta alertada, tendo dois dos membros do Conselho, j  em caminho da discuss†o final, requerido vista do processo: o professor Jos‚ Goldemberg, diretor do Instituto de F¡sica e o professor Paulo Artigas, da Faculdade de Odontologia, hoje j  aposentado, os quais apresentaram pareceres contra o grave equ¡voco a que estava conduzido o Conselho Universit rio, que n†o fora esclarecido sobre os verdadeiros intentos daquela mudan‡a de nome de um museu, daquela omiss†o que expoliou o Instituto de Pr‚-Hist¢ria do seu status universit rio e a tentativa, agora, e apossar-se do seu patrim“nio, a favor de um vago museu de Etnologia, nome dado para justificar a proposta agora apresentada ao Conselho e impugnada por dois professores titulares, al‚m de duas notas sever¡ssimas de "O Estado de S†o Paulo", denunciando "um atentado contra um centro de pesquisas de renome firmado no estrangeiro, e cujo prest¡gio cient¡fico j  fora reconhecido pelos maiores centros antropol¢gicos da Europa e dos Estados Unidos".

 

                        Isso determinou a atitude final do Conselho Universit rio, que arquivou, definitivamente, o processo. Agora, alguns anos depois, surge um anteprojeto de Estatutos da Universidade de S†o Paulo de 1976-1977, elaborado por uma comiss†o de professores titulares presidida por um dos mais ¡ntegros atuais professores da Universidade. Vˆ-se, por‚m, que esse anteprojeto, talvez pela pressa com que foi elaborado, deixou de ser estudado com a min£cia necess ria que exige tal trabalho, principalmente pelos mais especializados em assuntos educacionais e universit rios.

 

                        Assim se vˆ pelo artigo 138 desse ante-projeto que diz: "O Instituto de Pr‚-Hist¢ria passa a integrar o Museu de Arquelogia e Etnologia".

           

                        V rios textos, principalmente este, surpreenderam todos aqueles que conhecem os pormenores dessa temer ria aventura que permitiu que ficasse mumificado, at‚ oito anos depois, o Instituto de Pr‚-Hist¢ria de S†o Paulo, sempre irregularmente nas m†os de um simples respons vel pelo seu expediente apenas. Pois esse artigo 138 nada mais ‚ do que a repeti‡†o do projeto sumariamente arquivado pelo Conselho Universit rio, depois de dois incisivos pareceres de dois professores titulares e dois n†o menos incisivos coment rios de um grande jornal de S†o Paulo.

 

                        Do exposto atr s, verifica-se a existˆncia de uma fraude continuada que teve in¡cio h  mais de seis anos e, apesar de certa rea‡†o da parte de alguns ¢rg†os universit rios, chegando-se mesmo a n†o tomar conhecimento daquele pedido estranho do professor Bezerra de Meneses de grilar para o seu confuso museu todo o patrim“nio do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, do qual estava ele encarregado somente do expediente, assim mesmo em car ter provis¢rio, ele renovava a tentativa, periodicamente, at‚ o £ltimo golpe do artigo 138 do anteprojeto de reforma dos estatutos. Sim, porque ressalta da reda‡†o do referido artigo a sua m†o, de unhas dobradas, como dizia o Padre Vieira, penetrando naquele anteprojeto, evidentemente ilaqueando, agora, a boa f‚ da Comiss†o encarregada de estudar a nova reforma de 1977-1978.

 

                        Assim, vˆ-se que, at‚ hoje, tentara por todos os meios:

 

1 - Conseguir mudar o nome do seu museu de Arte e Arqueologia, tal qual o denominara o seu fundador, professor Eur¡pedes Simoes de Paula, para Museu de Etnologia, isto ‚, … revelia dos Institutos universit rios ligados ao assunto: Faculdade de Filosofia, Museu Paulista, Museu Pl¡nio Airosa, Instituto de Pr‚-Hist¢ria, de cujo expediente apenas estava encarregado.

 

2 - De jamais  haver convocado o Conselho Consultivo do Museu de Pr‚-Hist¢ria, que deveria ser ouvido tamb‚m mas, propositadamente, deixou de convocar as suas reunioes regulares durante mais de seis anos.

 

3 - Desferir o primeiro bote de apropria‡†o ind‚bita ao apresentar ao Conselho Universit rio um malicioso projeto, por ele elaborado, pelo qual o patrim“nio do Instituto de Pr‚-Hist¢ria passaria ao patrim“nio do seu museu, o que foi repelido pelo mesmo Conselho Uiversit rio, esclarecido por dois de seus membros.

 

4 - De haver confirmado o seu intento de apossar-se de todos os setores de outros ¢rg†os da Universidade onde houvesse atividades atinentes … Etnologia, … Pr‚-Hist¢ria e outras modalidades da Arqueologia, como se vˆ do processo 31.316/71 e do seu relat¢rio de 1970, distribuido no ano seguinte, 1971, e mais documentos arquivados na Universidade.

 

5 - Finalmente, haver reiterado a tentativa de apossar-se do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, conseguindo introduzir, no projeto de Reforma dos Estatutos, o artigo 138 do anteprojeto j  elaborado por uma comiss†o especial.

 

                        Torna-se, pois, urgente, j  que tanto esse projeto quanto a Universidade n†o podem acumpliciar-se com essa fraude, que o professor Ulpiano Bezerra de Meneses n†o pode continuar na situa‡†o prec ria na qual permanece h  seis anos, de responder pelo expediente do Instituto de Pr‚-Hist¢ria que, dolosamente, procura destruir e apossar-se do seu acervo e patrim“nio. De igual forma, tendo o mesmo professor emba¡do a boa f‚ do Conselho Universit rio para que aprovasse a mudan‡a do nome do Museu de Arte e Arqueologia, assim denominado pelo seu fundador, o professor Eur¡pedes Simoes de Paula, com o fim de servir aos cursos de Hist¢ria Antiga da Faculdade de Filosofia, de que este mesmo professor ‚ titular, para Museu de Etnologia e Arqueologia, necess rio se faz que a leg¡tima designa‡†o "Museu de Arte e Arqueologia" seja restabelecida. Da mesma forma, o Instituto de Pr‚-Hist¢ria deve voltar …s suas atividades interrompidas em 1969, devendo ser nomeado o seu novo diretor, pessoa capaz e habilitada, portadora de t¡tulo universit rio que o acredite nessas fun‡oes.

 

                        N†o ‚, por‚m, s¢ este ponto que se atenta contra a pr¢pria dignidade universit ria. Modifica‡oes h  no anteprojeto que inferiorizam e negam a outros institutos, altamente acreditados, todo o seu passado, tradi‡†o e capacidade funcional. O exemplo caracter¡stico est , tamb‚m, no artigo 137 do anteprojeto dos estatutos, que diz o seguinte:

           

                        "O Instituto de Estudos Brasileiros e o Instituto de Biologia Marinha ficam transformados em centros interdepartamentais, mantidas as respectivas denomina‡oes".

 

                        Isto ‚ exatamente o que a sabedoria popular denomina "promo‡†o de cavalo a burro"...

 

                        O Instituto de Estudos Brasileiro ‚ um ¢rg†o altamente acreditado, at‚ internacionalmente, pelo seu j  longo passado, pelas suas realiza‡oes e estudos, pela s‚rie enorme de produ‡oes notabil¡ssimas, pela importƒncia cultural adquirida atrav‚s dos seus objtivos fartamente cumpridos, pelo seu riqu¡ssimo acervo, pelas pesquisas not veis ligadas ao pr¢prio desenvolvimento mental do pa¡s. Ora, diante de tudo isso, como diminuir-lhe a importƒncia? quase imut vel tradi‡†o brasileira reconhecer a grandeza de uma realiza‡†o, principalmente no campo da cultura, com o prˆmio de sua inferioriza‡†o, do abandono e at‚ de destrui‡†o. Seria admiss¡vel fazer o mesmo com o Instituto de Estudos Brasileiros?

 

                        Lembrei isso ao Sr. Reitor da Universidade, num longo e minuciosos coment rio sobre pontos essenciais do anteprojeto. Meu £nico objetivo era n†o criticar, mas colaborar nessa necessidade de uma reforma universit ria profunda, ouvindo-se os que deviam ser ouvidos e n†o pela maneira porque est  sendo feita, quase uma a‡†o entre amigos, pois at‚ professores ilutres, interessados diretos na reforma, n†o foram sequer conversados sobre pontos que s¢ eles poderiam esclarecer. Nessa minha colabora‡†o, eu lembrava, tamb‚m, o Instituto Oceanogr fico, do qual eu fui um dos fundadores, ao qual a reforma deveria anexar o Instituto de Biologia Marinha, mudado o t¡tulo atual do Instituto de Oceanografia para Instituto Oceanol¢gico, passando, tamb‚m, por uma reforma profunda que lhe desse a importƒncia que lhe conferiram os seus fundadores e a pr¢pria Universidade atrav‚s do seu grande primeiro diretor, e famoso bi¢logo marinho, que foi Wladimir Besnard. Outra sugest†o que levei ao ilustre Reitor, dentro do mesmo esp¡rito de colabora‡†o, era sobre o cap¡tulo III do anteprojeto de reforma dos estatutos (artigos 15 a 18), para mim uma coisa in£til, cara demais na sua organiza‡†o administrativa, na sua estrutura e il¢gica numa universidade que pretende renovar-se e atualizar-se. S†o os museus universit rios - respeitado o direito de serem visitados pelo p£blico em dias determinados - principalmente estabelecimentos de ensino em todos os graus, instrumentos destinados a apoiar suas pesquisas e cursos. Museus did ticos. Assim, o Museu Paulista ficaria sob a jurisdi‡†o do Departamento de Hist¢ria; o Museu de Arte Contemporƒnea passaria a realizar a id‚ia dos fundadores da Universidade, transformado em Instituto de Artes Pl sticas, absorvendo, portanto, o pequeno Museu de Arte e Arqueologia. Da mesma forma, o Museu de Zoologia ficaria anexado ao Departamento de Zoologia, que ‚ o seu lugar, embora disso discordem aqueles conhecidos falsos professores, que vivem desses institutos e n†o para esses institutos, como deveria ser. Da mesma forma, um futuro Museu de Etnologia absorveria os setores onde existem duplicatas do mesmo assunto, como o Museu Pl¡nio Airosa da Faculdade de Filosofia, o Museu do Ipiranga e o pr¢prio Instituto de Pr‚-Hist¢ria. A¡, sim, estaria tudo certo e n†o ser este £ltimo ¢rg†o destruido para aumentar o patrim“nio de pequeno museu que muda de nome a cada passo, com o fim exclusivo de satisfazer a incomensur vel ambi‡†o de um professor sem ‚tica que desconhece, inteiramente, as pr¢prias disciplinas universit rias que pretende apossar-se, subrepticiamente, dos atuais detentores, das unidades universit rias, seus ¢rg†os semelhantes e com os mesmos objetivos. A¡ ficaria satisfeita a lei vigente pela qual a Universidade n†o pode ter centros diversos sob o mesmo assunto. Isso seria universit rio e muito mais barato na sua organiza‡†o e conserva‡†o do que a situa‡†o prevista pelo anteprojeto atual. Ali s, este anteprojeto d  a entender isso claramente (par grafo £nido do artigo 14).

 

                        Numerosas e importantes min£ncias ilustrativas deixo de acrescentar para n†o encompridar, ainda mais, estas considera‡oes. N†o s†o estas uma den£ncia, mas um esclarecimento para que n†o saia a atual reforma universit ria com lacunas irrevers¡veis que criariam dificuldades, protestos e, at‚, o cancelamento de uma reforma necess ria, mas cujo anteprojeto precisa ser revisto cuidadosamente. Tenho not¡cia de que numerosas emendas foram apresentadas, inclusive sobre o Instituto de Pre-Hist¢ria, algumas cujos assuntos se acham aqui neste coment rio, ou melhor, nesta colabora‡†o, j  que n†o me cabe, evidentemente, apresentar emendas. O absurdo de destruir ou colocar em posi‡†o inferior alguns Institutos universit rios, cujo passado produtivo os tornaram conhecidos e respeitados universalmente, brada n†o somemente aos seus universit rios sen†o, tamb‚m, pela desmoraliza‡†o que isso constituiria para a Universidade que os admitisse. Eu amo a Universidade porque, ao lado dos seus fundadores, dos quais fui o companheiro mais ¡ntimo para a grande cruzada cultural, com eles labutei para que uma Universidade padr†o existisse. E ainda mais como seu defensor intransigente no combate aos ernerg£menos para os quais a Universidade n†o passa de uma burocracia cara e in£til. Um interventor paulista n†o chegou a chamar a Faculdade de Filosofia de "o abacaxi do Sr. Armando de Salles Oliveira"  e a alegar, depois, j  como governador, que a Universidade era mais cara para o Estado que a For‡a P£blica? Esses pobres de esp¡rito ignoravam que a Universidade ‚ a estruturadora das sociedades modernas.

 

                        E, ainda, como professor dela, durante anos, e como forjador desse mesmo instituto de Pr‚-Hist¢ria que o estabanamento sem escr£pulos pretende destruir para saquear-lhe os bens, por ela continuo a lutar. Fui expulso dela, ‚ verdade, n†o por indigno, os indignos ainda nela continuaram, mas porque defendi a sua pureza universit ria, tragicamente marcada, durante anos de confus†o e arb¡trio, pela voracidade de alguns chacais e de uma horda do que <lacuna> universit rios honestos, que s†o, felizmente, numerosas ainda, chamam de rinocerontes. Assim, minha expuls†o, em vez de cobrir-se de opr¢brio, como eles desejaram, se transformou no maior galard†o moral e mental, que podia aspirar a minha existˆncia voltada para a dignidade do Homem, no seu leg¡timo sentido, inspirado n†o apenas no progresso e no desenvolvimento material mas, principalmente, na Civiliza‡†o a que almeja elevar-se, sem cuja assistˆncia uma na‡†o jamais poderia libertar-se de um inferior subdesenvolvimento.

 

                        Aos verdadeiros universit rios, pois, ofere‡o este doloroso brado a favor do generoso dom que um punhado de homens l£cidos ofereceram a S†o Paulo e ao Brasil, en 1934.

 

PELA DIGNIDADE UNIVERSITARIA II

 

                        Estreitamente unido … Universidade de S†o Paulo, desde sua funda‡†o ao tempo do grande estadista que foi Armando de Salles Oliveira, quando, deputado que ent†o eu era, vim a p£blico defender a id‚ia e o modo por que foi conduzida - n†o posso calar-me, nos dias de hoje, quando a vejo amea‡ada pela negligˆncia de alguns e desmesurada ambi‡†o de outros.

 

                        Estou me referindo, neste momento, ao caso do Instituto de Pr‚-Hist¢ria de nossa Universidade. Trazendo de meus ex¡lios na Fran‡a grande desejo de estudar a Pr‚-Hist¢ria de nosso pa¡s, essa grande desconhecida, consegui, finalmente, fundar um n£cleo de pesquisas, que o decreto n£mero 21.935, de 19 de dezembro de 1952, do governador Lucas Nogueira Garcez, grande professor da Universidade, eregiu em "Comiss†o de Pr‚-Hist¢ria do Estado de S†o Paulo". Tal Comiss†o iniciou suas atividades com a colabora‡†o da Faculdade de Filosofia, Ciˆncias e Letras, cujo diretor, ent†o tamb‚m o Prof. Eur¡pedes Simoes de Paula, solicitado por mim, convidou a Paul Rivet, eminente diretor do Mus‚e de l'Homme, de Paris, a vir dar cursos aos pesquisadores. Concomitantemente, ajudado por pessoas de minhas rela‡oes, fundei, em 1959, um organismo particular, o "Instituto de Etnologia e Pr‚-Hist¢ria". Esses dois ¢rg†os, unidos no seu corpo diretor e com atividades oficiais e privadas confluindo com seu pessoal, meios financeiros e outros, empreenderam diversas atividades, salientando-se pesquisas no litoral paulista, cursos de conferˆncias dados em audit¢rios como o da Biblioteca Municipal e do jornal "Folha de S†o Paulo" e congresso, at‚ internacionais. Em 1962, por amparo de um dos maiores reitores que a Universidade j  teve, prof.Ulhoa Cintra, foi criado o "Instituto de Pr‚-Hist¢ria" (decreto estadual de 17 de dezembro de 1962, portaria do reitor, 7 de janeiro de 1963). O Instituto produziu in£meros trabalhos, projetando sua presen‡a no cen rio nacional e internacional.

 

                        Tendo de deixar sua dire‡†o em maio de 1969, passei a ver o Instituto vegetar em uma modorra, algumas vezes sacudida, justi‡a seja feita, pelos dois pesquisadores que formei e deixei l , os quais, mesmo em situa‡†o subordinada e dependente, prosseguiram, dentro do que lhes era poss¡vel, a luta (que o ‚) pelo conhecimento da Pr‚-Hist¢ria.

 

                        que surgiu em cena personagem enigm tico e supremamente ambicioso. Trata-se de Ulpiano Bezerra de Meneses. Fui amigo de seu pai, homem eminente e de valor, a cujo pedido -hoje n†o ‚ deselegante, mas necess rio relatar- esfor‡ei-me por proteger, encaminhar, encarreirar ao filho, rapaz com ares de poeta, meigo na fala e com um jeitinho de caracol enrolado sob si mesmo. Aos poucos, iria ele evidenciar sua pobreza de esp¡rito, sua imaturidade ps¡quica e uma ambi‡†o desmedida. Ainda como diretor do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, fui procurado por ele, que desejava ser o vice-diretor; ‚ que minha aposentadoria compuls¢ria, pelos 70 anos, estava bem pr¢xima e Ulpiano Bezerra desejava, com ƒnsias, anexar o Instituto ao seu pequenino e insignificante Museu. Sim, porque se fizera diretor, gra‡as … renovada prote‡†o, desta vez do Prof. Simoes de Paula, de um Museu, fundado por este como meio ilustrativo de sua cadeira de Hist¢ria Antiga. Assistente de Simoes de Paulo, o sr. Bezerra acabou sendo designado diretor do ¢rg†o, cujo nome era "Museu de Arte e Arqueologia", subentendondo-se arqueologia do per¡odo hist¢rico, mat‚ria da cadeira. Neguei-me a acumpliciar-me no golpe de Bezerra de Meneses, pois o julgava de destituido de qualquer competˆncia em Pr‚-Hist¢ria. Quando, pois, deixei a dire‡†o, e ap¢s uma breve passagem do prof. Simoes de Paula como encarregado, de novo por amparo, desta vez inexplic vel, do mesmo professor, Ulpiano Bezerra assume a responsabilidade pelo Instituto de Pr‚-Hist¢ria. Assim mesmo. Com esse t¡tulo bem provis¢rio: apenas, e s¢, "respons vel pelo expediente". Quer dizer, um funcion rio que responde pelo despacho das coisas...e assim est  at‚ hoje, seis ou sete anos depois. Get£lio nomeava ministros, como Marcondes Filho na pasta do Trabalho, at‚ por dez anos como "interinos"; mas, ministro. Nem ele chegou a eternizar algu‚m em cargo vago, com o t¡tulo inconsistente de "respons vel pelo expediente". Tal irregularidade funcional, clamorosa e pass¡vel de retumbante den£ncia, ‚ devida a sucessivas reitorias da Universidade de S†o Paulo.

 

                        Pois bem. Um dos primeiros atos do Sr. Bezerra, no seu cargo de despachador de expedientes, foi alinhavar um processo cujo t¡tulo ‚: "Processo n£mero 31.316/71, Assunto: Incorpora‡†o do Instituto de Pr‚-Hist¢ria ao Museu de Arqueologia e Etnologia", encaminhando-o ao reitor, j  com uma minuta de portaria, a ser assinada, decretando aquela anexa‡†o pura e simples. Esclare‡a-se que Bezerra de Meneses, com a m†o de gato, subrepticiamente, na reforma dos estatutos da Universidade, mudara o nome de seu apagado museu pelo de Arqueologia (em geral) e Etnologia. Um t¡tulo abrangente e destinado, segundo ele diz no relat¢rio de 1970, publicado em 1971, e consoante repete por duas vezes no processo citado (folhas 38 e 53), destinado a englobar, sob dire‡†o de seu Museu todos os ¢rg†os da Universidade que tratam, sob ƒngulos diferentes, de Pr‚-Hist¢ria, Arqueologia e Etnologia. Nada mau, como evidˆncia de ambi‡†o delirante.

 

                        Quais as razoes que o Prof. Bezerrra alegou para sua sofreguid†o em incorporar o Instituto de Pr‚-Hist¢ria, mat‚ria da qual n†o entende? Ei-las: afirma o erudito mancebo que "o conceito de Pr‚-Hist¢ria ‚ inaplic vel aos caso americano" (fl.53) -o que ‚ de enorme burrice, pois, at‚ hoje, em todo o mundo, ningu‚m se lembrara de tamanha tolice. Todos os que tratam do assunto falam, escrevem livros, publicam artigos sobre "Pr‚-Hist¢ria Americana"; as revistas especializadas a¡ est†o, repletas de estudos, mormente em outros pa¡ses do continente, sobre a Pr‚-Hist¢ria da Am‚rica. Era preciso que o Sr. Bezerra, do alto de sua ignorƒncia do assunto, deixasse gravado para a posteridade o testemunho de sua besteira. Sustenta, ainda, o prendado mestre que o Instituto, por cujo expediente responde, ‚ um acervo de defeitos (no pessoal, fl.17; na biblioteca, fl.18; nos relat¢rios, falsos, segundo ele, fl.17). Para ele, tamb‚m ‚ defeito o equipamento, por ser "excessivo". Outras razoes para a anexa‡†o do Instituto ao seu Museu, sempre consoante esse luminar da estupidez, s†o: como consequˆncia da incorpora‡†o, seu museu receberia dota‡oes fortes de funda‡oes internacionais (fl.20, n.4 do Processo). E tamb‚m ‚ motivo para a anexa‡†o a compara‡†o, que faz, entre os recursos e verbas de seu museu e do Instituto de Pr‚-Hist¢ria; demonstrando maior vulto para o Instituto, lamenta-se de que receba pouco e assevera que recebendo tamb‚m as verbas do Instituto de Pr‚-Hist¢ria seu museu poderia crescer...Est  tudo l , bem escrito e assinado.

 

                        N†o sei bem porque, tal processo, vergonhoso e tolo, nunca chegou ao fim, nem foi arquivado, H  anos, est  por a¡. Nem o professorzinho que redigiu tamanhas barbaridades foi punido. Continua tamb‚m por a¡.

 

                        E faz-se vivo. Sempre com a mesma id‚ia. N†o lhe bastou manter-se estranho ao Instituto, cujo expediente lhe competia: nunca participou de nenhuma pesquisa que Caio del R¡o Garc¡a e Dora Uchoa fizeram, nem sequer para simplesmente visit -la. Apoderou-se de plano dos dois, para levantamento do Vale do Ribeira e apresentou-o, dois anos depois, como pr¢prio. Modificou as vitrinas do Museu do Instituto, fazendo-as iguais aos mostru rios de seu pr¢prio Museu de Arqueologia e Etnologia (ex-Museu de Arte), a fim de facilitar at‚ a tranferˆncia f¡sica do acervo de um para outro. N†o foi isso suficiente, Seu novo golpe de mestre de coisas ocultas foi realmente espetacular. O novo "Anteprojeto dos Estatudos da Universidade de S†o Paulo", distribuido pela reitoria e redigido por comiss†o muito restrita de nove membros, eminentes e conhecidos, cont‚m um artigo, o de n£mero 138 (p gina 35) que diz assim: "o Instituto de Pr‚-Hist¢ria passa a integrar o Museu de Arqueolgia e Etnologia". Tal e qual. Nada mais. Tudo isso. A mesma constante obsess†o do sr. Bezerra de absorver o Instituto, pelo qual nada fez sen†o desejar destru¡-lo. Mas, tamb‚m a manifesta‡†o do completo ˆxito de manobra excusa. Como o arteiro mo‡o conseguiu introduzir num projeto da Universidade, dentro de comiss†o t†o diminuta e de valor, a express†o de seu sonho de muitos anos, o aniquilamento do Instituto de Pr‚-Hist¢ria? Como da ocasi†o em que mudou o nome de seu museuzinho, escamoteando a id‚ia e a finalidade do fundador, agora tamb‚m, 1977, agiu por baixo do pano. Silenciosamente, sem consultar sequer os interessados, que s†o os pesquisadores do Instituto, que l  deixei e l  ainda est†o, sustentando sua dif¡cil existˆncia. N†o. Apenas ele pr¢prio, o Bezerra. Calculada, friamente. Manobrista irrecus vel. Quer deixar seu nome na hist¢ria … semelhan‡a daquele que destruiu o templo de Diana, em feso - como mesmo se chamava? Sim, porque o £nico m‚rito do sr. Bezerra quanto ao Instituto de Pr‚-Hist¢ria em seis-sete anos tem sido um s¢: o de coveiro. Como numa das vitrinas de seu Museu de Arte, que expoe objetos de macumba e candombl‚, fez um "despacho" para expedir, como encarregado do expediente, o Instituto de Pr‚-Hist¢ria para o p¢ do esquecimento.

 

                        Resumida, assim, a situa‡†o, tornada real pela ambi‡†o tresloucada desse sr. Ulpiano Bezerra de Meneses e pela negligˆncia de alguns -entre os quais coloco o ex-reitor, prof. Orlando Marques de Paiva, que concordou,inteiramente, comigo, mas que desejava que outros simples professores, sem sua autoridade, assumissem a responsibilidade de uma...regulariza‡†o do Instituto, e que soube envolver a tudo com sua conhecida "diplomacia da barreira de algod†o (ningu‚m passava por ela, mas tamb‚m n†o se feria, amortecido por gentilezas, sorrisos, telefonemas, cordialidades)- levanto, aqui, algumas perguntas, que exigem resposta cabal e franca, dada a gravidade de questoes que suscitam:

 

1 - Quem ‚ o culpado de n†o ter sido o Instituto de Pr‚-Hist¢ria adapatado … reforma anterior da Universidade? (Poderia, se necess rio, passar a chamar-se de "Museu", mas, enfim, enquadrar-se nos estatutos de 1970);

 

2 - Como reitores da Universidade puderam acumpliciar-se com clamorosa falha administrativa, legalizando um simples "respons vel pelo expediente" durante anos a fio -talvez fato £nico na opulenta e farta hist¢ria da burocracia brasileira? Quais os respons veis?

 

3 - Como um professor pode ser mantido, embora com t¡tulo al‚m de prec rio, … frente de um ¢rg†o que, j  em 1971, pretendia, por escrito, destruir, sendo, pois parte em causa?

 

4 - Como esse professor, que nunca se interessou pela Pr‚-Hist¢ria e nem por qualquer pesquisa do Instituto, cujo expediente despachava, foi conservado por reitorias da Universidade?

 

5 - Como tal professor obteve que seu maior desideratum, a destrui‡†o do Instituto nas fauces de seu Museu de Arte, entrasse a fazer parte dos artigos projetados como estatutos da Universidade e distribuidos a todos, oficialmente, pela reitoria?

 

6 - E que resposta deu a Universidade a esse professor a artigo publicado no jornal "O Estado de S†o Paulo", onde uma e outro s†o acusados de ludibriar a boa f‚ de colecionadores de Santar‚m, Par , na compra de objetos, hoje expostos no Museu do sr. Ulpiano Bezerra?

 

                        S†o seis perguntas que atingem, em cheio, a dignidade da Universidade de S†o Paulo. N†o ‚ s¢ o insignificante Bezerra de Meneses e alguns reitores pusilƒnimes que est†o em jogo. a Universidade em si e seus mais de quatro mil professores e quarenta mil estudantes que foram atingidos por essas manobras mesquinhas, por aquelas covardias e desinteressamentos. A Universidade de Armando Salles, a nossa Universidade de S†o Paulo, entronizando um incompetente, mantendo-o, anos seguidos, perseverando na irregularidade de despachante oficial, mas destruidor real. Fa‡o votos que o atual reitor, Josu‚ Camargo Mendes, que ‚ ainda membro do conselho do Instituto de Pr‚-Hist¢ria, este, um homem honesto, restabele‡a a dignidade da Universidade e dos universit rios todos. hora de ter vergonha.