Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: Resenha de D. Small (ed.), Methods in the Mediterranean, Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, 9, 1999, 280-281 (publicado em 2001).

 

RESENHA - Revista do MAE-USP

 

SMALL, D.(ed.) Methods in the Mediterranean, Historical and Archaeological views on Texts and Archaeology. Leiden, E.J. Brill, 1995, 292 pp.

 

Pedro Paulo A. Funari[1]

 

                               O arqueólogo clássico norte-americano David Small reuniu, neste volume, historiadores e arqueólogos estudiosos do Mediterrâneo, a fim de discorrerem sobre as relações entre textos e evidencias materiais. O livro divide-se em três grandes partes: estabelecendo o dialogo entre um historiador e um arqueólogo (pp. 25-90), características específicas do Mediterrâneo (pp. 91-176) e visões transculturais (pp. 177-273. Em cada seção, Small reuniu arqueólogos e historiadores e a introdução, escrita pelo organizador, procura dar conta das principais questões abordadas.

 

                               O objetivo do volume consistiu, segundo Small, em sua “Introdução” (pp. 1-24), em discutir o papel da Arqueologia e dos textos nos estudos mediterrâneos, com um foco metodológico, congregando tanto arqueólogos como historiadores levados a refletir sobre casos específicos. Stephen Dyson, em seu "Há um texto neste sítio" (pp.25-44), começa constatando que a agenda e o universo interpretativo do arqueólogo clássico foi excessivamente conformado pelos textos escritos, tal como proposto por filólogos e historiadores (p.27). Segundo Dyson, a maioria dos arqueólogos clássicos operam com a visão, consciente ou inconsciente, de uma Grécia de almas nobres e edifícios de mármore, resultando, até recentemente, na criação de um texto arqueológico que negligencia os pobres. Alem disso, os relatórios de escavação, entregues a especialistas por categoria de artefatos, fragmenta uma realidade complexa. Dyson conclui que cabe ao arqueólogo produzir textos que, ainda que de forma ousada, tratem de questões relevantes para os estudiosos em geral, não apenas para os especialistas em categorias artefatuais.

 

                               Charles W. Hedrick (pp. 45-88, "Tucídides e o inicio da Arqueologia") propõe que Tucídides seja considerado o primeiro arqueólogo, na medida em que é capaz de imaginar que coisas podem ter um significado que independe do que se diga a respeito delas. Hedrick considera que Tucídides tinha uma concepção "escrevível" (writerly) das coisas, que podem transmitir significados autônomos, precondição essencial para a Arqueologia moderna. Josiah Ober (pp. 91-123,"Os horoi gregos: textos artefatuais e a contingência do significado") inicia os estudos de caso com os horoi gregos, marcadores inscritos de fronteira, concluindo pela necessidade de se incorporar tanto a evidência histórica como arqueológica, pois o uso de apenas uma delas pode ser enganoso.

 

                               R. Bruce Hitchner, em seu "Texto histórico e contexto arqueológico no Norte da África Romana: as tabletas Albertini e a prospecção arqueológica de Cillium" (pp. 124-142),constata, de inicio, que "em partem alguma, a falta de integração entre os registros textual e arqueológicos é mais sentido do que na História rural da África do Norte" (p.125). Encontraram-se evidencias substanciais de terraças e de outras formas de irrigação, a indicar uma produção de azeite em larga escala. O autor contrasta os dados do levantamento arqueológico com as tabletas Albertini, nome dado a um conjunto de documentos de arquivo em madeira, datados do século V d.C., constatando amplos paralelos entre os registros arqueológicos no setor 1 e os fundi mencionados na documentação de arquivo. Hitchner conclui que haveria que ampliar a analise da evidencia epigráfica à luz dos achados arqueológicos dos últimos anos.

 

                               Small, em seu "Monumentos, leis e análise: combinando Arqueologia e texto na Atenas antiga" (pp.143-174), dedica-se ao estudo das lápides funerárias e apresenta uma proposta metodológica inovadora, ao utilizar-se de estratégias analíticas desenvolvidas pela Arqueologia Histórica dos Estados Unidos. Graças a isto, procura demonstrar que o cemitério ateniense, conhecido como Kerameikos, oferecia oportunidades para uma constante negociação de status. A legislação contra as construções suntuárias não foram, assim, propugnadas pelas não-elites, mas, ao contrario, pelas elites que tentaram manter-se como detentoras dos mnemata, monumentos que lembravam o poder daquelas famílias de bem. Critica a abordagem de Ian Morris, tão em voga, cujo paradigma submete a evidência material ao discurso dos documentos escritos e Small conclui pela autonomia do discurso a partir da cultura material.

 

                               A mesma conclusão reaparece no capitulo seguinte, de Peter Kosso ("Independência epistemológica entre as evidencias textual e material", pp.177-196), pois cada uma das duas categorias de evidência deve ser considerada como independente, até mesmo para que possam ser utilizadas de forma complementar (p.194). Brian Hesse, em "Criação de animais, tabus alimentares e ossos do antigo Oriente Próximo: a Zooarqueologia em um mundo pós-processual" (pp.197-232), parte de uma abordagem pós-processual que considera a domesticação de animais como parte da negociação social. Estuda o caso clássico da proibição bíblica do consumo e carne de porco e conclui que a abordagem dominante, processual, não dá conta dos fatores subjetivos envolvidos nos tabus alimentares.

 

                               Paula Wapnish ("Estabelecendo uma base conceitual para as categorias animais na Arqueologia", 233-273) ousa dirigir-se para a ciência popular, constatando que esta se aproxima mais da moderna consciência popular do que da ciência. Estuda um animal marinho, em particular na terminologia das línguas semitas, analisa as evidencias arqueológicas e artísticas, para integrar esses dados a partir da taxonomia popular, identificando uma categoria de baleia. Em termos metodológicos, ressalta que apenas a junção da Filologia, Taxonomia popular, Zoorarqueologia e a moderna Zoologia pode dar conta da questão.

 

                               O volume representa um esforço do organizador de tratar da relação entre duas disciplinas, a História e a Arqueologia, de forma a não submeter o discurso desta ao daquela, como tem sido, tantas vezes, o caso. Neste sentido, insere-se numa perspectiva que ressalta tanto a importância do diálogo da Arqueologia com outras disciplinas das Ciências Humanas, como no interior da própria Arqueologia. Assim, os diversos estudos demonstram a interprenetação necessária entre documentos escritos, modelos sociológicos e evidência material, entre a análise filológica, a reflexão filosófica e a construção da interpretação arqueológica. Não se trata, pois, de submeter alguma dessas disciplinas às outras, como se uma delas fosse aquela que fornece os parâmetros hermenêuticos universais, mas de explorar as relações necessárias entre essas abordagens e perscrutar sua relevância para o discurso arqueológico. Desta forma, a Arqueologia não é uma extensão da História (p.6), nem de qualquer outra disciplina, mas uma ciência cuja autonomia é imprescindível para que se possa relacionar, como variáveis independentes, textos e artefatos. De outra forma, os artefatos aparecem como confirmação daquilo que já saberíamos pelos textos, perigo tanto maior quanto, no estudo do Mediterrâneo antigo, não raro historiadores incorporam a cultura material para confirmar esquemas interpretativos axiomáticos derivados de uma leitura acrítica dos autores antigos. 

 

 

                Em seguida, mas não menos importante, o volume ressalta a importância do conhecimento das diversas Arqueologias, pois a segmentação da Arqueologia em campos estanques, como a Arqueologia Clássica (do mundo greco-romano), a Arqueologia Histórica (sensu americano, como Arqueologia do mundo a partir do século XV) ou a Arqueologia Pré-Histórica, tende a limitar os aportes teóricos e metodológicos do estudo da cultura material em qualquer contexto. David Small (p. 17) põe em relevo que “uma séria deficiência, na Arqueologia Mediterrânea, consiste em que, raramente, ela se relaciona com a Arqueologia de outras regiões do mundo”, ainda que se deva admitir que, mutatis mutandis, o mesmo se passa com outras Arqueologias especializadas. Pode concluir-se, pois, que a publicação deste volume contribui, de forma original e criativa, para repensar noções correntes e fornece elementos para o amadurecimento de um estudo do Mediterrâneo que transcenda quadros interpretativos habituais e, por isso mesmo, pouco afeitos à reflexão teórica mais ampla.      

 

 

 

 

 


 

[1] Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C. Postal 6110, Campinas, 13081-970, SP, fax 55 19 289 33 27; pedrofunari@sti.com.br.