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Publicado em: Resenha de “Cultural identity in the Roman Empire”, eds R. Laurence & J. Berry, Boletim do CPA 8/9, 1999/2000, 221-225.
RESENHA
Ray Laurence & Joanne Berry (eds), Cultural Identity in the Roman Empire. Londres, Routledge, 1998, 205 pp., ISBN 0 415 13594 X.
Resenhado por Pedro Paulo A. Funari[1]
Ray Laurence tem se notabilizado, há algum tempo, por tratar, de forma inovadora, do mundo romano e este volume representa uma contribuição importante para a discussão de temas pouco usuais. Os organizadores aproveitaram a realização de duas sessões sobre identidade cultural e aculturação, ocorridas no Theoretical Roman Archaeology Conference (Reading, 1995), para reunir um conjunto de reflexões originais e críticas das abordagens tradicionais. De maneira deliberada, foram incluídos capítulos escritos por arqueólogos e por historiadores, a fim de propiciar o diálogo entre estudiosos de um mesmo tema. Adotando uma postura questionadora das certezas, Laurence propõe que “não há uma leitura única, apenas múltiplas leituras e releituras” do passado (p.8), em saudável desafio aos modelos axiomáticos tão atrativos, mas tão pouco frutíferos e inspiradores de novas investigações.
David Braund, em “Cohors, o governador e seu círculo na auto-imagem da República romana” (pp. 10-24), perscruta os autores de fins da República, especialmente Cícero, para estudar como a identidade romana ligava-se ao domínio e posterior incorporação do ‘outro’. Pondera que, ao contrário do que pregaria um modelo homogêneo de cultura, “o Império Romano não exigia que indivíduos ou mesmo comunidades adotassem uma identidade distintamente romana em exclusão de qualquer outra identidade. As identidades locais sobreviveram e floresceram sob o Império, em termos individuais, comunais, regionais e supra-regionais” (p.22). Peter van Dommelen volta-se para a “Resistência púnica, colonialismo e identidades culturais na Sardenha romana” (pp. 25-48), estudada a partir dos vestígios materiais do assentamento do início da época romana. Contrapondo-se às interpretações correntes sobre a existência de meras sobrevivências púnicas, o autor mostra que o registro arqueológico dos primeiros séculos de domínio romano estão a indicar a vitalidade da cultura púnica. Rejeita o modelo holístico (e.g. Bénabou, Thébert), preferindo considerar que havia uma gama de grupos sociais em interação.
Eireann Marshall, em “Construindo a identidade e o outro na Cirenaica” (pp. 49-63), parte dos autores antigos para mostrar como os cirenaicos construíam os líbios como selvagens, perigosos e sem lei, ainda que pudessem, em certas circunstâncias, incorporá-los à sua própria identidade, como qualquer outra também ela fluida. Kathryn Lomas, em “O imperialismo romano e a cidade na Itália” (pp. 64-78), insere-se na tradição que adota um modelo de cultura homogênea, com os romanos aculturando e homogeneizando os povos conquistados. A cidade aparece como apanágio do colonizador, ausente entre os montanheses itálicos. Recorre à noção de aculturação promovida pelas elites citadinas locais, que competiam entre si para serem reconhecidas como mais romanas. Lomas chega a mencionar a existência de um “instinto competitivo” e um “sentido coerente de romanidade”.
David Petts distancia-se dessa abordagem normativa em seu “Paisagem e identidade cultural na Bretanha Romana” (pp. 79-94), a partir de uma reflexão arqueológica. Constata que os arqueólogos da Bretanha romana, centrados na monumentalidade das cidades e no modelo de aculturação urbana que acabamos de observar em Lomas, ignoram as contribuições da Arqueologia da Idade do Ferro e seu estudo da paisagem. De forma inovadora, propõe que se veja a paisagem a partir do ponto de vista dos seus habitantes, em busca das percepções populares. Opõe a percepção de um oficial romano que via os sítios nativos como subjugados aos assentamentos romanos às múltiplas percepções de mulheres, citadinos, indígenas, entre outros. Considera que um modelo bipolar seja mais apropriado, estando de um lado as elites locais, romanas ou indígenas e, de outro, os grupos populares, a construírem duas percepções muito diversas da paisagem.
Laurence dá continuidade às interpretações críticas de Petts, ao estudar “Território, etnônimos e geografia, a construção da identidade na Itália romana” (pp. 95-110). O conceito de ‘romano’ era altamente negociável e Laurence debruça-se sobre a passagem, na Itália, de divisões étnicas, tal como apresentadas por Estrabão, para divisões administrativas territoriais, introduzidas pelas onze regiões de Augusto, que compunham, na ideologia do novo romano, uma unidade, tota Italia. Alex Woolf volta-se para o estudo da língua e utiliza-se do paralelo etnográfico com os celtas, em “Tornando romanos os celtas, uma abordagem segmentária da aculturação” (pp. 111- 124). Considera que se deve ultrapassar o modelo de ‘emulação das elites’ para explicar a adoção da língua latina em muitas áreas, como no mundo celta. Desvincula a adoção de uma identidade romana (‘romanização’) do uso do latim, que pôde expandir-se por interesses práticos de indivíduos e comunidades que estavam em contato com realidades imperiais que favoreciam o seu uso. O bilingüísmo, segundo esta hipótese, tenderia a beneficiar, a longo prazo, o predomínio do latim e Woolf relaciona o predomínio do latim na Gália à mobilidade social das classes baixas que predominou no último século da República e no início do Império. Foram os estratos baixos, não as elites, que fizeram do latim a origem das línguas neo-latinas pois, enquanto as elites aprendiam um latim que se manteria cristalizado por séculos, os vernáculos desenvolviam-se paralelamente até dar origem aos idiomas modernos (p.123).
Raphael M.J. Isserlin, em “Um espírito de melhora? O mármore e a cultura da Bretanha Romana” (pp. 125-155), começa com uma bela citação de Gibbon: “um espírito de melhora ultrapassou os Alpes e foi sentido nos bosques da Bretanha, que foram gradualmente retiradas para abrir espaço para casas convenientes e elegantes”. Isserlin constata que pouca atenção foi dada ao estudo do mármore, um bem caríssimo e de prestígio, importado de locais muito distantes e que, por isso mesmo, muito está a nos dizer sobre a identidade romana associada ao seu uso. Mark Grahame segue com o estudo arqueológico da arquitetura, em “A cultura material e a identidade romana, a disposição espacial das casas pompeianas e o problema da identidade” (pp. 156-178). Grahame demonstra como os esquemas tipológicos propostos por August Mau, no século passado, não dão conta da variedade de formas de casas em Pompéia. Graham opõe as habitações das classes baixas àquelas da elite, compostas por múltiplos átrios e peristilos, sugerindo que a preocupação central das elites era diferenciar-se dos estratos baixos, mais do que expressar uma identidade étnica específica, como poderia ser a identidade romana. Pondera que a próprio conceito de romanização parece revelar-se, pois, pouco útil para a análise do mundo romano, por oposição à fertilidade da oposição bipolar entre elite e povo. Valerie Hope conclui o volume com um estudo sobre “Os gladiadores de Nîmes romana, negociando a identidade e o status” (pp. 179-195). As humildes estelas funerárias de gladiadores são constrastadas àquelas dos seuiri augustales. Gladiadores e augustales vivam em polos opostos da sociedade, mas tinham pontos em comum, como homens de sucesso, mas estigmatizados, o que explica que a carreira na arena e o papel no culto imperial sejam definidores de suas identidades, explicitadas nas lápides funerárias.
O volume representa uma contribuição original para o conhecimento do mundo romano por dois motivos. Em primeiro lugar, busca, de forma programática, superar a dicotomia entre os estudiosos classicistas, como filólogos e historiadores, e os arqueólogos, cujos esquemas interpretativos têm muito a ganhar com o conhecimento mútuo. Em segundo lugar, insere-se em uma tendência de aggiornamento do estudo do mundo clássico, na medida em que questiona os modelos normativos e homogêneos de cultura, ainda tão difundidos. Diversos capítulos ressaltam que modelos bipolares, que oponham as elites às classes baixas, admitindo-se a diversidade em cada um desses dois grandes grupos, têm se revelado menos parciais e redutores que os modelos normativos. Estudos empíricos e teóricos têm demonstrado como a sociedade não comporta uma única Weltanschauung e sua aplicação às sociedades clássicas tem se revelado muito fértil. A leitura desta obra, portanto, revela um mundo romano menos homogêneo e, por isso mesmo, menos artificial do que os grande modelos predominantes. Só isto já recomendaria a leitura desta obra.
[1] Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C. Postal 6110, Campinas, SP, 13081-970, fax 55 21 19 289 33 27, pedrofunari@sti.com.br.