Publicado em: O
comércio interprovincial e a natureza das trocas
econômicas no Alto Império Romano: as evidências do azeite
bético na Bretanha, Phoenix, Rio de Janeiro, 6,
295-311, 2000.
Pedro Paulo A. FUNARI
A INTERRELAÇÃO ENTRE NOVOS DADOS E OS MODELOS
INTERPRETATIVOS
O Professor Frere (1987) representa, juntamente
com M. Todd (1989) e outros, toda uma geração de
pesquisadores britânicos clássicos em busca de novos dados
e da sua descrição fiel (cf. Scott 1990:995). Esta
abordagem era já usual, no interior da filosofia da
História de língua inglesa, ao menos desde a época de
Collinwood, um arqueólogo que buscou definir a
especificidade da História. F.R. Ankersmit (1986:7) opôs a
"hermenêutica alemã, que tende a ver o passado como um
dado e que nos convida a um retorno, de certa forma, a
este passado para descobrir sua significação, àquela
anglo-saxônica. Esta desenvolve-se no sentido oposto, pois
ela nos impulsiona a buscar novos dados históricos".
Talvez os arqueólogos sejam, naturalmente, propensos à
busca de novos dados, já que, à diferença dos
historiadores clássicos, nos defrontamos, freqüentemente,
com descobertas inéditas. Encaramo-nos, com bastante
naturalidade, como se fossemos detetives à cata de
informações (Carandini:1979; Collinwood 1946:266).
Contudo, os arqueólogos têm
se tornado cada vez mais conscientes do fato que "a
interpretação não começa após a coleta dos fatos; a
interpretação cria, por si mesma, o documento e os fatos"
(Samekawa & Smith 1988:152). Um estudo monográfico, como
neste caso, não é, pura e simplesmente uma compilação de
fatos, é uma argumentação (Calhoun 1987:634). Os
pesquisadores alemães têm, há muito tempo, chamado a
atençãoo para a subjetividade de toda intepretação humana,
desde a famosa frase de Goethe: Jede Tatsache ist schon
Theorie (toda ação é, também, teoria). O passado nunca
nos chega diretamente, objetivamente, mas sempre na forma
de fontes a serem interpretadas (Droysen 1943:420). Franz
Georg Maier (1984:86) designou o historiador positivista,
como espelho da realidade passada, "um realista ingênuo".
De fato, nossas reconstruções das realidades passadas por
meio dos documentos e dos fatos são, na verdade, produtos
altamente elaborados de nossa própria época, não uma
reprodução exata, que seria imposs¡vel, do passado.
Arnaldo Momigliano (1984:484) ressaltou que termos como
capitalismo, superstição, imperialismo, escravidão,
liberdade, exigem um estudo detalhado de sua significação
e possível utilidade para a análise de outros períodos
históricos.
Tudo isto significa que se
impõe buscar novos documentos, como, aqui, os selos das
ânforas béticas de tipo Dressel 20 e, ainda, que é
necessário estudar o consumo de azeite por meio da análise
destes documentos. Entretanto, igualmente imperativo ‚
reconhecer que os documentos e os modelos analíticos
utilisados são o resultado de nossas proposições. Para
entender o consumo de azeite na Bretanha Romana e sua
significação econômica, ‚ necessário, antes, tratar do
problema do caráter da economia romana.
UMA CARACTERIZAÇÃO DA ECONOMIA ROMANA
A leitura dos autores
antigos, assim como o estudo dos vestígios arqueológicos,
produziram reações bastante diversas em diferentes
especialistas. O "modernismo" e o "primitivismo" (Carandini
1983:202) continuam a dominar o debate sobre o caráter da
economia e sociedade antigas (Jongman 1991: 15-41).
Poucos continuam a se denominar "primitivistas" mas a
idéia que o mundo antigo tenha se mantido subdesenvolvido
e pobre ainda ‚ muito difundida (cf. Jongman 1991; para
uma crítica à idéia de "desenvolvimento", veja-se Arrighi
1991:39-41). A maioria dos autores, contudo, não está de
acordo com esta abordagem, alguns chamando a atenção para
a importância do mercado, ao menos no que se refere ao
Império Romano. A economia do Império Romano foi, assim,
caracterizada, em diferentes estudos monográficos, como um
sistema econômico de troca de mercadoria (Padguy 1976:20),
em busca de novos mercados de consumo (Will 1983:269), com
produção voltada para a exportação (Mattingly 1988:52)
baseada em uma política econômica visando o
desenvolvimento (Birley 1988:19; Pekary 1976:115).
Recentemente, Claude Nicolet (1988:194) considerou a
produção de bens agrícolas para o mercado como uma
característica típica da economia romana. Neste contexto,
o modelo da "cidade consumidora", tal como proposto por
Moses I. Finley (1985; cf. Bruhs 1985:269) deve ser
considerado inadequado para a descrição do Alto Império
Romano (Carandini 1980:18; Foxhall 1990:113). Isto se
relaciona com a crescente importância dada ao mercado, por
oposição à auto-suficiência (Corbier 1981:427). Contudo,
a produção de bens para o consumo local (Clavel-Léveque
1976:243) não nos deveria induzir a subestimar o papel do
mercado na economia (Clavel-Lévêque 1977:19) e a
importância do capital para o funcionamento da economia
romana (CLavel-Lévêque 1980:395).
Mesmo admitindo a
importância do mercado durante o Principado (Carandini
1986:11), não podemos ainda responder à questão sobre como
distinguir, claramente, os dois principais sistemas de
troca existentes, simultaneamente, durante o Alto Império:
as trocas propriamente por meio do mercado e as trocas
ligadas à redistribuição (Peacock & William 1986:55-63). A
complexidade das instituições funcionais do Império Romano
(D'Arms 1981:13) aumenta, ainda mais, o problema, pois
controles muitos complexos da produção e das trocas, como
no caso das ânforas Dressel 20 e a produção e distribuição
de azeite, podem ser o resultado tanto de mecanismos de
redistribuição como da troca comercial. Podemos avaliar a
dificuldade de diferenciar o escambo (permutatio,
cf. Paul. Dig.18,1,1) da troca ao estudarmos a palavra
annona. Embora os pesquisadores modernos, normalmente,
considerem a annona como um mecanismo de
redistribuição, annona significava, também, o preço
de mercado (Plaut.Trin.2,4,83). Assim, annona era
o termo técnico econômico utilizado para referir-se ao
preço. Sêneca (De Benef.6,14) definia o valor ou preço das
mercadorias (aestimatio) como "o resultado não de
sua utilidade, mas da tradição (consuetudine) e do
preço de mercado (annona)". Isto significa que não
devemos, pura e simplesmente, considerar a annona
como um abastecimento fora da ação do mercado. A
descoberta dos documentos militares em Vindolanda (Chesterhol,
Inglaterra), permite constatar que a comprar de
diferentes produtos era feita no mercado. "Compra com
dinheiro", "dinheiro" (pecunia) e "comprar com
dinheiro" (comparare denarios) (Bowman, Thomas &
Adams 1990:35;45) são expressões comuns utilizadas,
correntemente, pelos militares, nesses documentos.
Recentemente, Anthony R. Birley (1991:95) propôs que o uso
da palavra ratio (conta, cálculo) em relação à
compra de couro, assim como os outros termos já
mencionados, sugere uma prática habitual e rotineira com
os negócios e com a compra no mercado. Contudo, como a
economia romana era, simultaneamente, complexa, integrada
verticalmente e caracterizada por racionalidades
não-modernas (Foxhall 1990:113), devemos nos lembrar,
sempre, ao estudar as ânforas, como nesta ocasião, que o
mercado significa, a um só tempo, os consumidores com
privilégios políticos específicos (como os soldados e o
povo romano) e, também, mercado no sentido abstrato,
moderno, do termo, ou seja, consumidores em geral (Nicolet
1988:41-2). Discuto estas questões a seguir.
REDISTRIBUIÇÃO E VENDA DE PRODUTOS TRANSPORTADOS EM
ÂNFORAS
As ânforas são vasos
destinados ao transporte de mercadorias para a troca, no
sentido amplo do termo, incluindo-se aí práticas ligadas à
reciprocidade, à redistribuição ou ao comércio (Peacock &
Williams 1986:54-66). Há autores que pensam que as trocas
de mercadorias em ânforas sejam provas claras do fato que
a economia romana era monetária e ligada ao mercado (Hedeager
1987:126). Paterson (1988:243-4) ressalta que comerciantes
privados (negotiatores e nauicularii)
controlavam o comércio de azeite e de vinho e considera
que "a oganização do estado utilizava largamente os
mercadores privados e pressupunha, mesmo, a existência de
uma estrutura complexa de comerciantes privados". As
ânforas, utilizadas para o comércio a longa distância,
sãoo o testemunho mais eloqüente da existência de uma
economia desenvolvida de mercado no mundo romano". Há
dados que demonstram que a exportação desses produtos em
ânforas prosperava já muito antes da intervenção oficial
do estado e, assim, fora da esfera da autoridade
geográfica e legal de Roma, e isto desde o período
republicano. Os romanos intervieram, por diversas vezes,
militarmente, para proteger os interesses dos mercadores
romanos ou itálicos fora do território legalmente romano
(como, por exemplo, no caso da Guerra de Jugurta). A
descoberta de ânforas romanas fora do território romano, e
até em território inimigo, demonstra a importância dos
mercadores privados e das forças de mercado fora do
controle do estado. Entretanto, isto não nos permite
resolver a questão relativa à importância da política do
Estado no que se refere ao abastecimento controlado ou
influenciado diretamente pelo estado. O dilema que se nos
depara torna-se mais claro quando estudamos as fontes
antigas a respeito. Tácito (Ann.1.9.7) descreveu as açõees
de Augusto com as seguintes palavras:
"O Império estava protegido
pelo Mar Oceano e por rios longínquos; as legiões,
províncias, frotas, tudo se interligava; havia a lei para
os cidadãos, respeito para com os aliados; a cidade <de
Roma> foi embelezada magnificamente. Poucas vezes
recorreu-se ... força e, ainda nestes casos, apenas para
manter a tranqüilidade geral" (cf. Plínio NH 14,1,2, sobre
o commercium rerum e sobre a societas pacis).
As belas frases de Tácito
tentam resumir toda a política imperial e fazem-no com
grande precisão: o conceito principal‚ a tranqüilidade (quies),
uma calma serena e protegida (saeptum imperium). A
troca‚ o objetivo central, cuncta inter se conexa,
ainda que os lucros sejam repartidos desigualmente entre
cidadãos e aliados, pois Roma recebia muito mais (magnifico
ornato). Tudo isto era mantido pelo uso moderado da
força , seja nas fronteiras (saeptum imperium),
seja no interior do Império (pauca ui tractata).
Neste contexto, torna-se impossível distinguir a troca da
redistribuição: a política econômica de Augusto visava
assegurar o livre comércio dos produtos, a defesa dos
mercadores e dos produtores de mercadorias mas, ao mesmo
tempo, os agentes econômicos, produtores e consumidores,
não são iguais, como seria o caso em uma economia
capitalista. Consumidores diferentes recebiam, por meios
políticos, benefícios diferentes: ius, modestia e
magnificentia caracterizam posições
político-econômicas muito claramente diferentes. Este
sistema dependia, de maneira direta, do exército que
sustentava o regime imperial, sendo o exército o garante
da paz e , sem dúvida, um de seus principais
beneficiários.
A ideologia imperial, desde
o início, ressaltava o cuidado (cura) do Príncipe e
o caráter pessoal deste encargo (sua impensa)
(Schneider 1986:38). Remesal (1990:59; 1986; 1997
passim) estudou, em detalhe, o que denominou
Versorgungssystem, ou sistema de abastecimento de
consumidores privilegiados, como o exército e a população
da cidade de Roma. A praefectura annoanae recebia
bens, entre os quais o azeite, por meio de três
procedimentos: compra, impostos e imposições (indictiones).
Somente o primeiro m‚todo era, efetivamente, governado
pelas forças do mercado (Remesal, inédito:3). Whittaker
(1985:57) considera o consumo militar "um sistema de
abastecimento altamente especializado que não era uma
simples resposta à procura do mercado ...<mas, ao
contrário, havia> um nível pouco desenvolvido de
transações no mercado, com dinheiro, para a copra e para a
distribuição dos abastecimentos militares". Contudo, há
alguns indícios de que, mesmo o abastecimento militar, não
estava completamente fora das relações mercantis. Bowman,
Thomas e Adams (1990:41), estudando uma carta de inícios
do segundo século de nossa era, proveniente de Vindolanda,
uma guarnição militar fronteiriça, descrevem este
documento como "tratando de negócios comerciais e
financeiros", "toda a carta caracterizada pela iniciativa
típica de homens de negócios". Mencionam-se,
explicitamente, compras. A burocracia, altamente eficaz,
do exército (Birley 1990:20) não dependia, necessária e
somente, dos métodos administrativos para a obtenção dos
produtos necessários. O abastecimento militar era
politicamente orientado ab origine, pois o próprio
deslocamento do exército e a colonização eram atos
eminentemente políticos, não econômicos. Neste sentido,
todo consumo militar era originalmente político. Os
métodos utilizados para obter os diferentes produtos,
entretanto, não eram sempre políticos. Tudo isto significa
que impõe-se nuançar nossa concepção do abastecimento,
pois nem sempre‚ possível distinguir o transporte
obrigatório e o livre transporte dos produtos, ou ainda,
determinar onde termina o escambo e onde começa a troca
comercial. A taxonomia deve ser um instrumento analítico
(Finley 1983:72) e, como conseqüência, não devemos nos
enganar considerando o abastecimento militar como
simplesmente mercantil ou, ao contrário, não mercantil.
Parece que a complexidade e a diversidade de situações
dificulta o estabelecimento de generalizações válidas para
todas as práticas que eram usuais. De todo modo, este ‚ o
contexto do estudo da Bretanha como província fronteiriça.
Devemos, agora, dar conta do papel geo-político desta
província romana.
A BRETANHA COMO PROVÍNCIA CONSUMIDORA
Hedeager (1987:126) propôs
um modelo de análise para o estudo das regiões
fronteiriças do império: "havia dois sistemas,
estruturalmente diferentes, na periferia norte do
Império...um com suas raízes no mundo celta e outro com
suas raízes no mundo germânico. Se a expansão romana
sofreu uma derrota definitiva em relação aos germânicos,
foi bem sucedida na tarefa de anexar um grande território
celta ao império". As regiões celtas sofreram um processo
de assimilação cultural (Bartel 1980:19) que resultou em
uma homogeneização cultural (Clavel-Lévêque 1973-4:21): a
cultura e os costumes romanos difundiram-se, rapidamente,
em regiões celtas, atingindo tanto a elite como o povo.
Tradicionalmente, esta descrição era considerada válida
para o centro da região celta, especialmente para as
Gálias. A Bretanha, ao contrário, era considerada uma
"zona militar fronteiriça" que teria passado por uma
transformação profunda entre a Idade do Ferro tardia e o
início do período romano. Segundo este modelo de análise,
as cidades teriam crescido a partir de aldeias (uici)
agregadas às guarnições militares abandonadas pelo
exército que avançava conquistando o Norte e o Oeste da
Ilha Britânica (Wacher 1975:27; Rivet 1977:121; Webster
1966). Entretanto, Martin Millet (1990) estudou, há
pouco, a romanização da Bretanha por meio de uma análise
detalhada e concluiu que há que se rever o esquema
explicativo tradicional. Millet (1990:66;74) propôs que
"as primeiras ciuitates estabelecidas na Bretanha,
no Sul e no Leste, fundaram-se sobre aglomerações sociais
da Idade do Ferro Tardia <e que> as elites tribais
incorporadas transformaram-se em decuriões das cidades; a
constituição das cidades era o resultado natural do desejo
das elites indígenas de participar do estilo de vida
romano".
Já em 1981, também Peter
Salway (1984:236) considerava que os costumes romanos não
podiam "deixar nem mesmo a família britânica mais humilde
sem transformações" (cf. Saddington 1991:415). O uso da
língua latina pelos britânicos como língua viva confirma
que mesmo a cultura popular da Bretanha foi profundamente
afetada pela romanização (Mann 1971:219; Hamp 1975:151).
Comparando as inscrições britânicas com os grafites
pompeianos, pode constatar-se as suas semelhanças, como o
uso de domna (RIB 323; CIL IV 4187;6865) ou a
omissão da letra -m do acusativo singular (cura,
no acusativo, RIB 360;365;534; cf. CIL IV 1597). Estas são
tendências linguísticas típicas do latim falado, em termos
gerais. Assim sendo, a Bretanha era muito mais que uma
colônia puramente militar e Londres era, provavelmente, a
prova material mais evidente:
"O desenvolvimento de
Londres, mesmo antes de 60/1 a.C., parece ser resultado
do comércio. A natureza cosmopolita da cidade e seu
centro, projetado muito cedo, significa que os mercadores
estrangeiros fundaram a cidade como uma comunidade
organizada e localizada para convir ao comércio marítimo e
para constituir o centro das comunicações por meio de uma
ponte sobre o Tâmisa... sua localização deve ser
considerada como politicamente neutra <em relação às
capitais tribais> e isto explica o bem sucedido
desenvolvimento da comunidade mercantil, já nos primeiros
anos após a conquista. Estando fora dos centros das
ciuitates, Londres estava fora do controle que as
diferentes elites tribais podiam tentar exercer sobre as
trocas econômicas. Mercadores estrangeiros podiam, dessa
maneira, estabelecer sua própria comunidade comercial em
um território neutro, constituindo uma espécie de zona
franca (port of trade). A romanidade muito precoce
de Londres ‚ uma prova e, ao mesmo tempo, reflete um
desenvolvimento, não limitado e diverso, daquele das
ciuitates" (Millet 1990:89).
Esta interpretação de
Millet, contudo, foi questionada por Brigham (1990:93),
pois ele considera que a prosperidade de Londres era, na
realidade, frágil e mesmo demasiadamente ambiciosa, no que
se refere ao seu programa de construções. Mas Brigham
(1990:158-160) considera as transformações tardias da
cidade como um sinal de sua fragilidade desde seu início,
sem considerar que os acontecimentos tardios nada nos
dizem sobre os períodos antigos, na medida em que as
transformações econômicas tardias foram estruturais e a
nível imperial e não uma característica da Bretanha per
se. Londres e as outras antigas cidades da província
desenvolveram-se graças à integração das populações
britânicas indígenas (Williams 1990:604) e elas
prosperaram durante os dois primeiros séculos de
administração romana (Marsden 1976).
Além das cidades, o campo
também desenvolveu-se por meio do florescimento das
fazendas "baseadas no acúmulo de lucros obtidos com a
venda de mercadorias agrícolas no mercado" (Hingley
1982:32). Geograficamente, podemos concluir que nas
planícies britânicas, tanto as cidades como as fazendas,
eram bem integradas à economia mercantil do tipo celta
continental. Isto nos conduz a uma questão complicada: a
que ponto as regiões fronteiriças, em particular o Pais de
Gales e o Norte da Inglaterra, eram civis? J.H. van der
Werff (1987:155) resume o ponto de vista mais corrente
quando ele considera que "os bens transportados em
ânforas, como o azeite, o vinho e as salações eram
produtos de luxo destinados aos oficiais e aos soldados de
origem estrangeira (ou seja, Mediterrânea)". A
colonização fronteiriça seria, portanto, de caráter
eminentemente militar e "importado" em relação à região.
Contudo, parece-me que as cidades e aldeias nas fronteiras
britânicas dependiam, parcialmente, das guarnições
militares e, parcialmente, de sua posição em relação às
rotas comerciais ligando as populações dos dois lados da
fronteira (cf. Charlesworth 1978:122). Lawrence Okamura
(1990) aventou a idéia que "as guarnições continentais no
limes coincidem, muitas vezes, com os mercados
locais (romano-indígena ou indígena) e que a expansão
romana do limes visava a anexação destes mercados
locais". De qualquer maneira, parece incontestável que
havia diferenças muito claras entre as planícies do
sudeste e os sítios fronteiriços de caráter mais ou menos
ligado aos militares.
Uma outra questão
refere-se às duas regiões fronteiriças britânicas, o País
de Gales e o Muro de Hadriano. Não possuímos nenhum dado
que permita supor que os britânicos considerassem o País
de Gales como uma entidade distinta. Na verdade, o País de
Gales deve ser considerado uma unidade cultural criada no
período medieval. Entretanto, enquanto conceito
estratégico e geográfico, podemos estar seguros que os
romanos distinguiam uma região especificamente galesa.
Ainda que, durante todo o período romano, mesmo no Baixo
Império, não tenha existido uma unidade administrativa
galesa, houve, desde o início, uma ocupação estratégica
desta região por parte das forças militares romanas. Toda
a região devia receber abastecimento do Mediterrâneo, ao
menos de vinho e azeite, mas não temos notícias sobre as
rotas possivelmente utilizadas, ou seja, se os bens vinham
através de Londres, por meio terrestre, ou se havia um
comércio marítimo direto para a costa oeste da Bretanha.
Alguns documentos tardios relativos à defesa da costa
ocidental (Salway 1984:384) parecem indicar que durante os
dois primeiros séculos esta rota marítima era utilizada
sem problemas. Isto concordaria com a análise de Keith
Hopkins (1982:84) dos custos de transporte e explicaria,
como veremos adiante, as diferenças no abastecimento
militar constatado entre as duas regiões fronteiriças, o
País de Gales e o Muro de Hadriano. É claro que os navios
viajavam pela costa ocidental e que os nauicularii
comerciando com os sítios galeses deviam ser diferentes
daqueles atuando junto aos sítios do nordeste da
província.
O CONSUMO DE AZEITE NA BRETANHA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O
DEBATE SOBRE A ECONOMIA ANTIGA
Peter Salway (1984:652)
podia confundir, ainda no começo dos anos 1980, as ânforas
de azeite bético de tipo Dressel 20 com ânforas vinárias e
afirmar, erroneamente, que "as ânforas espanholas do
primeiro e segundo séculos d.C., encontradas na Grã
Bretanha, representam um comércio volumoso de vinho". Isto
se explica por diferentes razões, inclusive pelo fato que
o consumo de azeite parecia (e, de certa forma, continua a
parecer) estranho para os britânicos de hoje em dia.
Contudo, já há um reconhecimento crescente do fato que
os britânicos, durante o período romano, foram muito mais
romanizados do que se supunha há até‚ bem pouco tempo.
Tácito (Agr.) lamentava que "os britânicos desmoralizam-se
por causa dos prazeres dos pórticos, das termas e dos
banquetes". Todas estas atividades dependiam do uso do
azeite, seja para a alimentação, seja para a unção ou
mesmo para a iluminação (Burn 1953:101-2; cf. Richmnond
1986:173). O discurso de Tácito a este respeito é,
certemente, mais estilístico do que realmente descritivo (Roberts
1988) mas transmite, mesmo assim, uma mensagem verdadeira:
os hábitos romanos estavam sendo, efetivamente, adotados,
de maneira generalizada, na província. Cássio Dio (62,5)
sabia que as palavras que atribuía a Boudicca, a rainha
britânica revoltosa em 61 d.C., descrevia as verdadeiras
necessidades dos soldados romanos: "precisam de sombra e
de abrigo, de pão, vinho e azeite. Sua falta significa,
para eles, a morte".
As ânforas de azeite bético
de tipo Dressel 20 estão presentes em sítios britânicos da
Idade do Ferro mesmo antes da conquista romana,
representando entre um terço e a metade do total de
ânforas encontradas nesses sítios (Peacock & Williams
1983:266). O consumo militar de azeite confirma-se pelas
ânforas encontradas em diferentes guarnições e fortes. Em
Inchtuthil, 13% de todos os fragmentos cerâmicos são
Dressel 20, ou 40% do peso cerâmico (Pitts & Joseph
1985:335). Em Vindolanda, 95% de todos os fragmentos
cerâmicos são Dressel 20 (Bidwell 1985:182). Além dos
sítios militares, como os dois citados, as ânforas Dressel
20 estavam presentes em grande quantidade em diferentes
mercados civis. Segundo Sealey (1985:115), em Sheepen
(escavações de 1930-9; material arqueológico anterior a
60/61 d.C.), as Dressel 20 representam 38,2% de todas as
ânforas e 72,5% do total de litros importados em ânforas.
É difícil avaliar, com precisão, a importação de azeite na
Bretanha Romana, mas deve ressaltar-se que as Dressel 20
são as ânforas mais freqüentemente encontradas em sítios
britânicos (Peacock & Williams 1986:136).
Contudo, ainda que
reconhecido como importante documento arqueológico, os
arqueólogos britânicos têm se ocupado deste material,
principalmente, enquanto documento anepigráfico. Isto
permitiu aos especialistas britânicos constatar a
ubiqüidade das Dressel 20 no país mas, ao mesmo tempo, a
falta de análises epigráficas acabou por dificultar a
proposição de padrões de consumo. O método estabelecido
por Remesal (1986) para o estudo da Germânia pode ser
utilizado em relação à Bretanha e nos permite distinguir
três regiões importadoras: l. cidades da planície
meridional da Ilha, Colchester e Londres, respectivamente
a primeira capital da província e a mais dinâmica cidade
romana; 2. sítios fronteiriços junto ao Muro de Hadriano;
3. sítios fronteiriços a oeste (País de Gales). Há pouco,
ressaltei que "somente a publicação e o estudo da
documentação das ânforas Dressel 20 encontradas em sítios
fronteiriços romanos nos permitir compreender melhor o
consumo de azeite nas fronteiras. Este não é um objetivo
em si, mas por meio desta abordagem será possível
discutir questões relativas ao comércio interprovincial, à
economia de mercado e às instituições de redistribuição,
às relações entre cidade e campo, aos ritmos de consumo,
entre outros temas" (Funari 1991:71). Apenas a
multiplicação de estudos monográficos permitirá a
proposição de novas interpretações destes temas e o estudo
de mais de centenas de selos de ânforas Dressel 20
encontrados na Grã-Bretanha permiti propor algumas
sugestões de caráter geral sobre o consumo de azeite
espanhol na Bretanha Romana. Não apresentarei, neste
artigo, todos os dados estatísticos relativos aos sítios
britânicos e apresentados, em detalhe, alhures (Funari
1996; Carreras & Funari 1998). Neste artigo, de caráter
eminentemente interpretativo, tecerei apenas algumas
considerações genéricas..
O primeiro aspecto a
ressaltar refere-se à presença de três regiões
consumidoras diferentes: Londres e Colchester, o País de
Gales e os sítios junto ao Muro de Hadriano. As diferenças
muito claras entre os sítios do País de Gales e do Muro de
Hadriano sugerem que a tese de Remesal da existência de
uma rota Atlântica parece revelar-se verdadeira: as
exportações das olarias do Conventus Hispalensis
parecem demonstrar a existência de relações preferenciais
entre estes produtores e o País de Gales. Uma outra
conclusão é que, se duas regiões militares, como o País de
Gales e o Muro de Hadriano, recebiam ânforas de origem
diferente, isto não deve relacionar-se com as autoridades
militares centrais mas, ao contrário, deve ser o resultado
da provável existência de acordos locais de abastecimento.
Isto está de acordo com os documentos militares de
Vindolanda que sugerem que a burocracia do Exército romano
não era uma corpo administrado pelo centro mas, ao
contrário, era uma força de manutenção da ordem altamente
efetiva, "normalmente com muito trabalho administrativo e
burocrático" (Birley 1988:155). Entre seus afazeres
quotidianos, devemos supor que os oficiais deviam incluir
o trato com abastecedores específicos da região.
Mercatores e societates mercatorum, como a
Aemiliorum et Cassiorum societas conhecida nos anos 90
d.C., em Vindolanda (Funari 1991:70), sociedades que
estavam em relação com diferentes consumidores, não
necessariamente de maneira direta por meio de acordos
individuais. Mais provavelmente, como os dados da
Bretanha sugerem, estes acordos deviam ser firmados nos
principais centros comerciais locais. No País de Gales, o
canal de Bristol e o rio Severn deviam ser as rotas para
os sítios do interior galês; Londres e Colchester deviam
utilizar acordos específicos de abastecimento, mas parece
que a maior parte dos mercadores atuavam nas duas cidades,
algo natural, tendo-se em conta a importância de ambas e
sua proximidade. O abastecimento dos sítios do Muro de
Hadriano era, talvez, coordenado a nível regional.
Provavelmente, cada cidade ou forte firmava acordos de
fornecimento de maneira independente mas isto ocorria nos
centros regionais, onde alguns comerciantes definiam os
fornecedores b‚ticos disponíveis aos consumidores dos
diferentes sítios. Isto explicaria tanto a diferença entre
os sítios como a presença de mercadores específicos em
cada região, caracterizando, desta forma, três regiões
com relações específicas de importação.
Outro aspecto importante
diz respeito às mudanças no consumo do azeite com o passar
do tempo. Peacock e Williams (1983:267-8), embora
reconheçam que as ânforas Dressel 20 eram muito populares
na segunda metade do primeiro século d.C., tanto em sítios
civis como militares, consideram, contudo, que a idéia
tradicional de um ápice de importação de azeite espanhol
no segundo século era verdadeira. Nossos dados parecem, à
primeira vista, confirmar esta análise. Entretanto, si
consideramos o número de selos em relação ao número de
anos de cada período, considerando que o segundo século
representa cem anos e que, ao contrário, o primeiro e o
terceiro séculos contam, cada um, somente um pouco mais de
meio século de importação de ânforas Dressel 20 com selos,
a situação se modifica. As importações pré-flávias
ultrapassam as dos outros períodos e mesmo considerando
todo o período pré-flávio até a época dos antoninos, os
dois períodos não são muito diferentes no ritmo de
consumo:
Selos pré-flávios: 26,0%; 26 anos; 1% ao ano;
Selos flávio-hadriânicos: 21,69%; 68 anos; 0,3% ao ano;
Selos antoninos: 33,2%; 54 anos; 0,6% ao ano;
Selos do terceiro século: 18,8%; 59 anos; 0,3% ano ano;
(Selos pré-flávios, flávios e hadriânicos: 47,69%; 94
anos;0,50% ao ano)
Média geral: 0,48% ao ano.
Mesmo se é possível que os
selos pré-flávios sejam, talvez, mais fáceis de datar,
aumentando por isso a importância do período, este não
parece ser motivo suficiente para explicar o desequilíbrio
observado. Este desequilíbrio tornar-se ainda mais notável
se nos lembramos que o número de sítios pré-flávios e o
número de seus habitantes eram bem menores do que nos
períodos posteriores. Além disso, alguns sítios são de
origem posterior. Londres ‚ o exemplo mais convincente do
declínio contínuo das importações desde o peróodo
pré-flávio até a época tardia dos antoninos. Como se pode
explicar estes números aparentemente de difícil
compreensão? A importação de origem africana atingiria a
Bretanha provavelmente apenas no terceiro século (Peacock
& Williams 1983:269). Não temos respostas a respeito, no
momento, mas , talvez, possa supor-se que a resposta deva
ser buscada junto às anforas ainda por identificar e que
poderiam chegar facilmente à Bretanha desde a época flávia
e após esse período (pode aventar-se a hipótese das
ânforas gaulesas). Esta suposição ‚ reforçada pelo fato
que os altos percentuais de ânforas Dressel 20 em época
pré-flávia podem significar uma espécie de monopólio que
não poderia se manter por muito tempo após a colonização
pacífica da província. Nos primeiros tempos, o
abastecimento militar poderia explicar o fato que o azeite
bético era o principal (ou mesmo o único) azeite importado
na Bretanha. Mais tarde, com o desenvolvimento de
diferentes centros pacíficos, outros exportadores de
azeite poderiam tentar alcançar este mercado, explicação
plausível para a diminuição, ao menos per capita,
das importações de Dressel 20.
As importações de azeite
bético eram somente uma parte do comércio econômico global
da Bretanha Romana e o consumo de azeite, ainda que
importante, não era o único ou mesmo o mais importante.
Além disso, os dados são ainda insuficientes e as
conclusões não passam de suposições mais ou menos
razoáveis. Contudo, somente estudos monográficos, como
estes relativos aos selos Dressel 20, podem melhorar
nossos conhecimentos da economia antiga. As monografias
são, por definição, limitadas tanto por seu objeto
específico e como por sua abrangência (cf. Nicolet
1988:40). Entretanto, mesmo se cada estudo monográfico não
passa de um pequeno tijolo, a construção interpretativa
não pode ser construída sem estas humildes partes.
AGRADECIMENTOS
Devo agradecer colegas que
me enviaram artigos ou cartas com informações e idéias
usadas aqui e que me ajudaram de diferentes maneiras:
Anthony R. Birley, Robin Birley, Monique Clavel-Lévêque,
Lyn Foxhall, Lawrence Okamura, David P.S. Peacock, José
Remesal e David Williams. A responsabilidade pelas idéias
apresentadas recai somente no autor. Esta pesquisa foi
possível apenas graças ao apoio institucional da UNESP,
FUNDUNESP, UNICAMP, CNPq, FAPESP, Universidad de Barcelona
e Conselho Britânico.
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