Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: 1997 A Cidade e a Civilização Romana: um instrumento didático. Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Coleção “Textos didáticos” 28), 28 pp. + 66 figg.

 

TEXTOS DIDÁTICOS

IFCH - UNICAMP

 

A CIDADE E A CIVILIZAÇÃO ROMANA: UM INSTRUMENTO DIDÁTICO

 

PROF. DR. PEDRO PAULO A. FUNARI[1]

 

INTRODUÇÃO

 

                               O ensino superior, no Brasil, tanto a nível de graduação como de pós-graduação, ressente-se da falta de instrumentos didáticos atualizados e que dêm conta dos avanços da literatura científica internacional. A produção de compêndios para uso em sala de aula, em países como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha, possui uma dinâmica que permite aos alunos um contato muito direto com aquilo que se tem produzido, por parte dos especialistas, nas mais diversas áreas do conhecimento. Os autores desse manuais têm fácil acesso aos inúmeros artigos que aparecem, anualmente, nas revistas acadêmicas nas línguas hegemônicas, em inglês, francês ou alemão. Assim, os alunos podem contar, seja com bons livros atualizados, seja com a referência a artigos específicos publicados nos últimos anos. Em nosso meio, contudo, a dinâmica do mercado editorial não facilita a produção de tão grande número de manuais, menos ainda favorece a  profusão de compêndios sobre os mais variados aspectos de uma determinada disciplina. Nossos alunos não têm acesso aos artigos recentes, nem, muitas vezes, detém conhecimentos básicos para sua leitura e digestão.

 

                               Neste contexto, a UNICAMP tomou a iniciativa, há algum tempo, de produzir uma coleção de livros-texto destinados a disciplinas de graduação, visando, justamente, minorar os problemas acima mencionados. Na área de ciências humanas, tomei a iniciativa, quando era Coordenador do Curso de Graduação em História, de divulgar essa linha de atuação da Editora da UNICAMP e, como professor responsável por uma disciplina particularmente carente de recursos didáticos, “História Antiga”, publiquei um volume introdutório ao estudo dos documentos relativos à Antigüidade Clássica (Funari 1995b). O objetivo ultrapassava, no entanto, servir aos cursos de História Antiga, pois, em verdade, cursos de Letras, Filosofia, Arquitetura, História da Arte, entre outros, deveriam poder ter a possibilidade de contar com um compêndio atualizado e introdutório à cultura antiga.  Como docente de cursos de graduação e pós-graduação tenho, contudo, notado que, além de manuais didáticos genéricos, falta ao professor universitário instrumentos de trabalho mais específicos e que possam exercer duas funções diversas. Por um lado, faltam textos específicos atualizados que dêm conta da literatura internacional recente e, por outro lado, faltam publicações que permitam ao professor usar o material como ponto de partida para discussões mais genéricas e aprofundadas.

 

                               O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP possui uma coleção de “Textos Didáticos” que pode atuar como complemento aos compêndios didáticos, patrocinados pela Editora da Universidade. Neste contexto, pareceu-me útil produzir material didático sobre um tema central do mundo antigo, a cidade, que procurasse dar conta das duas necessidade aludidas há pouco. A apresentação das discussões recentes da literatura internacional sobre a cidade romana serve, em primeiro lugar, para tratar de um aspecto específico da vida social antiga como tema gerador a partir do qual se discutem questões relativas à História, cultura, religião e arte, entre outras, bem como, no que se refere à discussão conceitual, quanto ao tratamento dado pela literatura a noções como “identidade” ou “urbanidade”. Em segundo lugar, se considerarmos que cabe aos alunos a produção de conhecimento, não sua absorção passiva, o material didático deve ser, sempre, o ponto de partida para a pesquisa. Já esta era a filosofia que estava subjacente ao livro Antigüidade Clássica: a História e a cultura a partir dos documentos e, agora, neste pequeno opúsculo, buscou-se apresentar um número relativamente grande de documentos, com destaque para os registros iconográficos, arqueológicos e  materias lato sensu, que deverão servir para que o professor, em sala de aula, possa discorrer sobre os diversos subtemas.

 

                               O material gráfico, apresentado ao final de maneira proposital, permite que o professor o utilize, a partir da confecção de cópias em acetato, em sala de aula. A seleção das ilustrações seguiu, portanto, três critérios: a sua discussão recente pela literatura internacional, sua dificuldade de acesso para o professor universitário e seu potencial como gerador de discursos, por parte do docente, sobre os mais variados temas. Assim, embora o texto que precede as ilustrações seja uma discussão da literatura recente, e como tal deverá ser utilizado por professores e alunos, espera-se que, para seu bom aproveitamento, os subtemas sejam objeto de aulas expositivas e discussões, por parte de docentes e alunos. Menciona-se, de passagem, plantas de casas romanas, incitando-se, portanto, um tratamento genérico do tema, em sala de aula. Desta forma, texto e ilustrações não constituem o conteúdo de uma aula, mas ponto de partida de um curso sobre a civilização romana.   

 

DISCUSSÕES RECENTES SOBRE A CIDADE ROMANA

 

                               Logo que começei a pensar em escrever um texto didático sobre a cidade romana fiquei em dúvida, pois a enormidade da tarefa postularia pelo abandono do desafio, já que ela existiu por muitos séculos, desde a humilde fundação da urbs, no século oitavo a.C., até a antigüidade tardia, cujos limites cronológicos, ainda que disputados, deveriam incluir as cidades romanas do período constantiniano, como mínimo, no início do quarto século de nossa era. Em termos geográficos, ainda, houve cultura urbana romana na patria primigenia, sem dúvida, mas também em regiões variadíssimas, da África do norte à Bretanha, do Danúbio à Grécia, da Ásia Menor à Mesopotâmia (FIG.1). Houve cidades romanas de língua latina, grega e, muitas mais, bilíngües, cidades que alternavam o uso do latim ou do grego com vernáculos como o púnico, o céltico ou o aramaico (cf. Adams 1994). Por fim, caberia lembrar que a própria “cultura urbana” podia encontrar-se bem longe, fisicamente, das ruas da cidade, em pleno campo, pois as uillae rusticae podiam ter sua pars urbana  (FIG. 2a; 2b) e suas paredes exigir pinturas e, seus pisos, mosaicos com temas tipicamente citadinos, como as uenationes ou os munera gladiatoria, parte dos urbana ornamenta da casa de fazenda, demonstrando que havia um verdadeiro continuum entre cidade e campo (Purcell 1996: 152; 171) (FIG. 3).

 

                               Neste contexto, pareceu-me que seria mais interessante do que tentar dissertar sobre supostas características essenciais e persistentes que estariam subjacentes a um ethos citadino romano, tratar de alguns aspectos da cultura urbana que têm sido debatidos por estudiosos do mundo romano. Temas relativos à urbanidade romana têm sido discutidos por historiadores, arqueólogos, filólogos, historiadores da arte, arquitetos, epigrafistas, literatos.  Na profusão de livros e artigos, sobre os mais variados casos específicos, tratarei, neste trabalho, de alguns estudos que versam sobre problemáticas sobre as quais, de uma ou outra forma, tenho me debruçado pessoalmente, tendo contribuído com propostas de interpretação discutidas pelas literatura científica recente. Talvez seja o caso de começar com a cidade romana mais conhecida, graças à Arqueologia, Pompéia (FIG. 4), cujas ingentes evidências materiais, que incluem ruas (FIG. 5), casas (FIG. 6), decorações parietais (FIG. 7), inscrições (FIG. 8), não tem deixado de gerar, há mais de dois séculos, inúmeras considerações sobre a vida urbana na Itália antiga.  

 

                               Whittaker (1995) acaba de publicar um texto, sugestivamente entitulado “As teorias sobre a cidade antiga importam?”, nas atas de um colóquio sobre a “Sociedade Urbana na Itália Romana”, no qual retoma sua defesa do modelo da cidade consumidora, proposto, na origem, por Max Weber e, levado às últimas conseqüências lógicas, por Jongman (1988) em sua monografia sobre Pompéia. Outros estudiosos de Pompéia, como Mouritsen (1996), viriam a reforçar essa intepretação, segundo a qual a cidade romana era não apenas consumidora, transferindo recursos do campo para a cidade, como, essencialmente, dominada, de forma inexorável e irresistível por uma elite citadina. Como resumiu Mouritsen (1996: 144), “a presença de sangue liberto na ordo de Pompéia possuía um efeito estabilizador na sociedade...depois do processo de seleção controlado pela antiga nobiliarquia, os libertos recebiam os lugares inferiores à mesa - em geral, por um período de tempo muito breve e finito”. Muitos outros estudiosos, contudo, têm questionado este modelo de uma cidade consumidora, conservadora e estável e pode-se fazê-lo por diversas vias. Elio Lo Cascio (1996), por exemplo, estudou os programmata antiquissima (FIG. 9) e o  Pro Sulla (60-62), de Cícero, concluindo que a oposição entre os antigos pompeianos e os colonos silanos, relacionada ao confinamento dos primeiros ao centro urbano e à ocupação rural, por parte dos veteranos, foi sendo atenuada pela absorção  não traumática deste últimos devido ao dinamismo da economia pompeiana, em contraste ao modelo da cidade consumidora. Fausto Zevi (1996) propôs, nessa direção, que as pinturas parietais de primeiro estilo (FIG. 7), datadas de antes da chegada dos colonos silanos, no início do primeiro século a.C., foram conservadas, em muitas paredes de mansões intra muros, por mais de cem anos, até a destruição da cidade, em 79 d.C., como sinal de que seus donos eram “velhos pompeianos”, enquanto, nas uillae, o segundo estilo, que se iniciara em época silana, está presente como testemunho destes novos homens. Duo genera ciuium, veteranos e antigos pompeianos, corresponderiam, pois, a dois estilos de pintura parietal. Na mesma linha, Zevi propõe que se interprete o antigo teatro (FIG. 10 a e b) como uma casa de espetáculos em osco e que o novo theatrum, chamado modernamente de odeion ou pequeno teatro, não se destinasse à execução musical, mas, propriamente, a representações cênicas, em latim, destinadas aos colonos. Isto explicaria a construção, em seqüência cronológica, de um grande edifício inovador, o enorme anfiteatro (FIG. 11), capaz de receber vinte mil espectadores, destinado ao novo conjunto cívico, composto de antigos oscos e novos colonos. Assim, casas de aristrocratas locais e de colonos eram facilmente distinguíveis por suas pinturas parietais, havia teatros para oscos e para latinos e um novo lugar de confraternização da cidade como um todo, a Colonia Cornelia Veneria Pompeianorum (CIL X 852). Este quadro torna-se mais complexo com o período imperial, quando aparecem no cenário da elite os libertos, cujas tombas foram estudadas por Los (1996: 148), com um crescimento notável de libertos no último período:

 

                                   Notáveis         Plebeus livres                        libertos           total

30 a.C.-50 d.C.           14 - 70%        3 - 15%                      2-3 - 15%       19-20

50-79 d.C.                  1 - 9%            -                                  9-10 - 90%     10-11

 

Total                           15 -50%         3 - 10%                      12 - 40%        30

 

 

                              

                               Em que medida, neste contexto, pode concluir-se que a evidência de Pompéia contradiz o modelo finleyano, segundo o qual as teorias elitistas das fontes antigas teriam ampla eficácia social? Wallace-Hadrill (1996), em oposição àqueles que se utilizam dos vestígios pompeianos referentes ao comércio miúdo, propõe que a Arqueologia confirme que as ideologias dominantes realmente conformavam a vida na cidade romana, pois a distribuição espacial de cauponae, popinae, tabernae, lupanaria, cellae meretriciae  (FIG. 12a; 12b) demonstraria o interesse das autoridade citadinas em excluir esses estabelecimentos dos lugares públicos e oficiais, tese aceita por Laurence, que chega a apresentar um mapa com as ruas de comportamento “desviante” (Laurence 1994: 85) (FIG. 13). Se aceitarmos que a localização dessas construções destinadas àqueles que luxuria opportunum et opulentum uitiis locum quaerens, nas palavras de Sêneca (Cons. ad Heluiam 6.2) estivesse, em verdade, apartada dos lugares de freqüentação dos boni uiri, isto seria devido, como reconhecem Wallace-Hadrill e Laurence, à autoridade edilícia municipal, não a uma aceitação da ideologia da elite por parte, seja dos donos dos estabelecimentos, seja dos seus usuários (Funari 1995a: 335) (FIG. 14 a; 14 b).

 

 

                               Como poderíamos, se é assim, chegar a essa raia miúda que freqüentava bordéis, para investigarmos em que medida a sanção moral da elite afetava a autorepresentação dos usuários de bares, prostíbulos e espetáculos populares, como os spectacula no anfiteatro? Os grafites parietais, numerosíssimos, ubíquos, publicados aos milhares desde o século passado, representam a expressão, não do legislador urbano que assignava infamia de acordo com um ethos erudito, mas dos infames eles mesmos (FIG. 15). As intervenções parietais em tabernas e lupanares não deixam transparecer qualquer sinal de preocupação com a vergonha que deveria, segundo as prescrições das elites dominantes, caracterizar esses ambientes (FIG. 16). A disputa entre dois homens pelo amor de uma taberneira (CIL IV 8258-59) (FIG. 17), entre muitíssimas outras inscrições desse tipo estudadas por Funari (1992: 23) e Varone (1994: 112), demonstram que o imaginário popular possuía sua própria semiótica. Assim, talvez fosse mais prudente do aceitar que a elite conseguisse êxito em infamar a ralé, sugerir, como diziam os gregos (cf. Cleaver 1996: 11), que ou mónon...allà kaì, não apenas havia a tentativa de imposição da categoria infamia, por parte da elite, como um outro conjunto de preocupações, por parte do povo, que passava, em grande parte, ao largo dos conceitos oficiais, impostos por regulamentação, ou, simplesmente, aceitos pela nata da sociedade.

 

                               Não são somente as inscrições parietais, contudo, a demonstrar as diferenças entre as percepções dos diferentes estratos sociais pompeianos; outra evidência reavaliada, nos últimos tempos, é a representação figurada. Os estilos de pintura parietal pompeiana constituem um exemplo único de erudição já centenária, cujo mais elaborado estudo de conjunto recente encontra-se no livro de Roger Ling (1991;cf. Funari 1992/3). Nesta área, algumas abordagens inovadoras vieram a questionar seja a propriedade de se estudarem os quatro estilos de forma cronológica, seja a possibilidade de se entender a pintura pompeiana sem relacioná-la, diretamente, aos ambientes interiores e exteriores das casas (cf. Laurence 1993: 228; Allison 1995). A publicação de inúmeros grafites figurados por Vivolo (1993), no campo da divulgação de documentos até então inéditos (FIG.18 a-n), bem como o estudo semiótico das representações parietais por Funari (1993) (FIG. 19 a; 19 b), permitem, segundo Laurence (1995: 314), “trilhar novos caminhos e abrir vias para aplicações adicionais, com uma agenda mais teórica, de acordo com desenvolvimentos para além dos confins da Arqueologia Clássica”.

 

 

                               As ilustrações que se referem a lutas de gladiadores e caçadas conduzem-nos a um aspecto da vida urbana antiga de difícil análise por parte do mundo moderno. Nos últimos anos tornou-se comum, mesmo nos Estudos Clássicos ou Altertumswissenschaft[2], conservador quase por natureza (cf. Bernal 1991), estudar-se qualquer tema a partir da construção moderna, da invenção contemporânea do mundo antigo, para citar o belo título do volume organizado por Mark Golden e Peter Toohey (1997). Essa invenção é inevitável, pois somos nós modernos a criarmos nosso mundo antigo, “cada época constrói, mentalmente, sua própria representação do passado, sua própria Roma e sua própria Atenas”, nas palavras de Georges Duby (1980: 44; cf. Funari 1995b: 30-32). “Invenção”, embora palavra forte, retoma o sentido original latino de inuenire, “encontrar”, “achar”, “inventar”, pois não se pode “descobrir” algo sobre a Antigüidade sem “inventar” (Shanks & Hodder 1995: 11). Esta pequena digressão fazia-se necessária, ao tratar de um tema particularmente abstruso, como são os espetáculos públicos romanos. De fato, Thomas Wiedemann (1995: 1-54) relacionou, recentemente, de maneira muito direta os espetáculos cruentos e a própria noção de identidade romana, identidade essa que dependeria, portanto, de um contexto urbano que dava sentido aos munera. Embora o anfiteatro monumental de Pompéia seja o mais antigo  (Maiuri 1949: 33-34) e o Coliseu o mais conhecido (FIG.20 a-d), esses spectacula precediam as construções em pedra, fixas, que apenas começariam a se difundir no primeiro século a.C., e, na verdade, independiam de edifícios. A noção de que os romanos de fala grega não apreciassem as disputas sangrentas, ainda muito comum entre os observadores do mundo helênico a partir do segundo século a.C., já havia sido posta em questão, há meio século, por Loius Robert (1940), com seu Les gladiateurs dans l’Orient grec, pois utilizavam-se, no Oriente, com mais freqüência, locais públicos, como teatros, para a apresentação de gladiadores ou de caçadores, prescindindo-se de anfiteatros.

 

                               Essa ida ao mundo grego não foi casual, mas muito a propósito: qual o atrativo dos munera para os  falantes do grego? Wiedemann (1995: 46) propõe que os spectacula  representassem o lugar onde a civilização e o barbarismo se encontravam, “e civilização, para os romanos, significava cidade”. Lembremo-nos que os latinos não possuíam uma palavra que correspondesse a “civilização” - que, no mundo ocidental, significa, de maneira sugestiva, “aquilo que é da ciuitas, do conjunto de cives”, cidadania e cidade sendo conceitos interligados, para nós - pois sua humanitas possuía conotações que ultrapassavam a urbanitas. Humanitas implicava em educação liberal, elegância de costumes, hábitos da classe alta (pace Cícero, Off.1,40,145; cf. Funari 1996: 84). A identificação da humanitas, conceito válido para a nata da sociedade, com a romanitas, conceito mais amplo por relacionar-se a grupos sociais menos restritos, portanto não deve passar de um jogo de palavras. Wiedemann identifica civilização e romanitas e conclui que a arena não servia apenas como lugar e momento de integração da sociedade romana, separava o romano do não romano de múltiplas maneiras. Vale a pena, neste caso, citá-lo in extenso:

 

                               “A arena era o lugar onde a civilização confrontava a natureza, na forma de feras que representavam um perigo para a humanidade; e onde a justiça social confrontava a má ação, na forma de criminosos, alí executados; e onde o império romano confrontava seus inimigos, na pessoa dos cativos prisioneiros de guerra, mortos ou forçados a combaterem, entre si, até a morte” (Wiedemann 1995: 46).

 

                               Daí a ubiqüidade de arenas em cidades fronteiriças do mundo romano (FIG. 21a-f), daí a sua localização próxima ao limite físico que separa o recinto urbano amuralhado do ager (FIG.10 a), daí sua presença no mundo de fala grega, como sinal de identidade romana, talvez mais eloqüente do que o domínio do latim, pois se poucos dominavam, no oriente, o sermus romanus, muitos podiam tomar parte do ritual de identificação com a romanidade que representavam os espetáculos. Poderíamos aceitar essa coalescência entre arena, vida urbana e identidade romana? O grande mérito de Wiedemann foi superar a tradicional visão dal alto, que parte dos conceitos emitidos pela elite romana sobre o que sejam humanistas e urbanitas, para procurar abarcar aqueles amplos estratos sociais excluídos do raciocínio dos nobiles. Ora, há tempos Rothe (1978: 58) lembrava que, do ponto de vista erudito, pouquíssimos seriam os dotados de humanitas:

 

 

                               “No caso dos bárbaros, subentende-se a falta de humanitas. Mas nem mesmo todos os romanos compartilhavam-na: tinham-na os nobiles, não os serui e liberti”.

 

 

                               Poderíamos acrescentar aos excluídos de Rothe os ingenui. Neste contexto, a identidade romana, tal como proposta por Wiedemann, inclui a todos os espectadores dos munera, nobiles, ingenui, liberti, serui e, não esqueçamos, as mulheres! Os sentimentos dos espectadores de baixa extração podem ser avaliados por um exame, ainda que breve, dos grafites e desenhos relativos a esses espetáculos (Ward-Perkins & Claridge 1976:65).  Esses desenhos possuem uma lógica expressiva que se distancia daquela erudita, predominando o uso de traços e a ênfase, por um lado, na representação das armas e, por outro lado, no movimento ligado à luta (Funari 1993: 144) (FIG. 19 a; 19b). Já nas incisões parietais paleolíticas encontramos representações de serem humanos perpassados por armas (Bachechi, Fabbri, Mallegni 1997:136) (FIG. 22) e estudos recentes sobre a guerra indicam que a violência tem acompanhado o gênero humano em todos os tempos e lugares (Simons 1997); a especificidade das pugnas em arenas seria o bastante para definir a romanidade e seu papel como mecanismo de coesão social seria, realmente, tão eficaz quanto supõe Wiedemann? 

 

                               Uma das características mais marcantes dos munera era a onipresença da morte (FIG. 3) e a cidade romana, como sabemos, era morada de vivos, por oposição a morada de mortos, nas vias de acesso ao recinto urbano stricto sensu (FIG. 23a-c). Laurence (1996b: 120), em estudo sobre como a destruição da cidade manifestava-se no imaginário romano, conclui que povos sem cidades eram bárbaros, associados ao deserto e à incultura, de onde provinha a importância de destruir uma cidade com Cartago. Uma série de vasos de vidro apresentam interessantes representações de Puteoli e Baiae, com destaque para anfiteatros, teatros, termas e, com maior ênfase, templos e sacrifícios (FIG. 24).  Na verdade, há um elemento comum às cidades romanas, o fórum, cuja presença assegurava um estatuto propriamente urbano a um assentamento, assim como, em grande medida a imposição de um quadriculado ao traçado urbano, em torno de um cardo maximus (norte-sul) e um decumanus maximus (leste-oeste), com um espaço central reservado para o fórum (Thorpe 1995: 21; Lagopoulos 1995/6) (FIG.  25 a-c). A adoção deste modelo de cidade, no entanto, efetivou-se, em particular nas províncias ocidentais, a partir de iniciativas de famílias artistocráticas locais cuja identificação com o “modo romano” de vida citadina servia como meio de diferenciação em relação a possíveis setores nativos refratários aos domínio romano. Esta linha de raciocínio tem sido proposta para as diferentes regiões do império, da Bretanha (Millett 1992) (FIG. 26) às Espanhas (Keay 1994; 1997).  Ainda que se deva proceder, com relação a essas generalizações, com precaução, não cabe dúvida que, por alguns séculos, o mundo romano viu surgirem e multiplicarem-se as cidades.

 

                               Mesmo nos rincões mais distantes do mundo romano, e em contextos muito diferentes daquela sofisticação urbana que caracterizava a cidade de Roma, com seus fóruns e edifícios magníficos (FIG. 27), como o Pantheon (FIG. 28 a-f), encontramos vida urbana florescente. Uma cidadezinha como Aquae Sulis (Bath, Avon, Inglaterra), cujas águas termais (46,5 graus centígrados) levaram à construção de um templo à divindade local Sulis, identificada com Minerva (Johnston 1983: 17), tem produzido uma pletora de documentos epigráficos populares (FIG. 29 a-c). Estes commonitoria (“lembretes”), como se denominariam na Antigüidade, segundo uma placa proveniente de Uley, ou defixiones, como modernamente são chamadas estas cartas de imprecação, revelam-nos as preocupações de gente humilde, provinciais de nomes celtas, em busca de pequenos objetos furtados. A mais recente folha de chumbo, proveniente de Uley e publicada por Tomlin, trata de luvas (FIG. 30):

 

                               “Folha dada a Mercúrio, que se vingue pelas luvas que foram perdidas, que retire sangue e saúde de quem as tiver furtado, que faça o que pedimos ao deus Mercúrio... o quanto antes para a pessoa que tiver furtado as luvas” (Tomlin 1996: 439).

 

                               O uso do termo vulgar manecilius, no lugar do erudito manica demonstra tratar-se de um citadino pobre, seja pelo latim popularesco, seja pelo reclamo de peça de valor relativamente baixo. Ainda mais próximo à fronteira do mundo romano, em um acampamento militar, Vindolanda (FIG. 31 a-c), no norte da Inglaterra,  local ambíguo, por definição, pois castrum não é cidade, mas tampouco é campo, encontramos uma carta da mulher do acampamento militar, convidando para seu aniversário (Funari 1995c: 186-7), bem como um documento que opõe romanos a bretões (FIG. 32):

 

                               “...os bretões não andam encouraçados, mas há muitos cavaleiros. Os cavaleiros não usam espadas nem os britúnculos montam para lançar dardos” (Bowman 1994:106).

                                

                               Em grande parte, o que separava esses brittunculi dos soldados era a romanitas centrada na cidade, cidade essa que representava uma vida baseada no domínio da escrita e de uma linguagem urbana (Humphrey 1991; Desbordes 1995) . A ênfase que Wiedemann depositou no caráter militar, punitivo e cruento da arena, como definidor de uma identidade romana conformista e respeitosa da dura lex, masculina, talvez deixe pouco espaço para a diversidade de identidades romanas, pois nem mesmo a supremacia e exclusividade de mando patriarcal podem ser aceitas como absolutas ou incontestes. Liisa Savunen (1995) estudou as inscrições eleitorais femininas de Pompéia, contabilizando 54 mulheres que apoiaram 28 candidatos diferentes; neste contexto, seria possível supor que havia uma única identidade romana, capaz de englobar homens e mulheres, ricos e pobre, livres e escravos, citadinos e agrestes? Parece preferível supor que diferentes concepções, às vezes contraditórias mas sempre em contato, conviviam, produzindo uma profusão de imagens da própria condição, individual e grupal. Era neste contexto que se podia ser judeu, de fala grega e cidadão romano ao mesmo tempo. Os citadinos podiam produzir uma literatura bucólica, cujos ideais estavam em imagens de um campo imaginário, assim como uma pintura parietal urbana igualmente repleta de referências ao campo (FIG. 33).  Os numerosos campônios, de tão difícil acesso para o estudioso moderno, dificilmente podiam ignorar que seu mundo era organizado pelos citadinos, tanto o abstrato Estado romano, como o dominus, proprietário rural cuja mente, paredes e pisos, refletiam uma vida urbana. A freqüentação das nundinae, por sua parte, por parte dos camponeses, periodicamente relocalizava o imaginário do campo na cidade. As reflexões recentes da literatura acadêmica em torno da cidade romana, em sua variedade de objetos e abordagens, sugerem que as cidades romanas serão tão melhor entendidas, quanto procurarmos evitar modelos holísticos que tudo explicariam, de maneira definitiva. Voltando ao início deste texto, parece conveniente aceitar uma visão pluralista, que admita que ou mónon a cidade era elemento central para os romanos, allà kaì era diferente, em diferentes lugares e épocas e para diversos grupos sociais. Talvez esta seja a mensagem que os estudos recentes têm a nos oferecer.

 

                              

 

AGRADECIMENTOS

 

                               Agradeço aos seguintes colegas, que me ajudaram de diversas formas: J.N. Adams, D. Austin, A.K. Bowman, M. Díaz-Andreu, N. L. Guarinello, A. P. Lagopoulos, R. Laurence, M. Shanks. A responsabilidade pelas idéas restringe-se, contudo, ao autor.

 

ALGUMAS EXPRESSÕES LATINAS E GREGAS UTILIZADAS

               

Ager: o terreno arado, os terrenos agrícolas de uma cidade.

Agrestes: os moradores do campo.

Bonus uir (plural: boni uiri) = kalòs kagathós (grego): homem de bem.

Cardo e decumanus: linhas norte-sul e leste-oeste, no plano de um assentamento.

Castrum: fortificação, acampamento militar.

Caupona: pequeno estabelecimento comercial, bar.

Cellae meretriciae: aposentos usados para o meretrício.

Ciuis: cidadão.

Ciuitas: “aquilo que é do cidadão”, cidadania, cidade-estado.

Colonia: colônia, cidade composta de cidadãos romanos ou aliados.

Defixio (plural: defixiones): “declaração de que está fixo”, maldição.

Dominus: senhor, dono.

Duo genera ciuium: duas categorias de cidadãos, com estatutos jurídicos próprios.

Dura lex: “a dura lei”, parte da expressão dura lex, sed lex, “a lei pode ser severa, mas deve continuar sendo obrigatória”.

Ethos: índole, disposição.

Humanitas: “aquilo que é próprio do ser humano”.

Infamia: infâmia, má reputação.

Ingenuus (plural: ingenuii): homem que, desde o nascimento, é livre (opõe-se a libertus, alforriado).

Intra muros: no interior dos muros da cidade.

Lato sensu: em sentido amplo.

Libertus (plural: liberti): liberto, forro.

Lupanarium: “local das lobas”, prostíbulo.

Manica: luva.

Munus (plural: munera): espetáculos oferecidos na arena.

Nobilis (plural: nobiles): nobres, de família que possui antepassados que ocuparam cargos públicos e que tinham o ius imaginum, o direito de ter estátuas de cera dos ancestrais.

Nundinae: o dia do mercado, originalmente o “nono dia”.

Odeion ou Odeum: edifício público para audições.

Ordo: ordem, neste caso, “câmara municipal”.

Ou mónon...allà kaì...: “não apenas...como também”, expressão grega usual para referir-se a dois aspectos de uma questão.

Patria primigenia: pátria de origem, neste caso, a cidade de Roma.

Popina: restaurante.

Programma (plural: programmata): proclamação, neste caso, propaganda eleitoral em forma de cartazes pintados.

Sermus romanus: a língua dos romanos, o latim.

Seruus (plural: seruui): escravos.

Spectaculum (plural: spectacula): apresentação, local do espetáculo, anfiteatro (quando usado no plural).

Stricto sensu: no sentido próprio e preciso.

Taberna: loja.

Urbanitas: “aquilo que é próprio da urbs”.

Urbs: cidade.

Venatio (plural: uenationes): caçada, luta com feras.

Villa rustica: fazenda.

Villa: casa de fazenda ou de campo.

 

 

REFERÊNCIAS

 

Autores antigos:

Cícero, Off. 1, 40, 145.

Cícero, Pro sulla, 60-62.

Sêneca, Cons. ad Heluiam, 6.2

 

Inscrições:

CIL IV, 1293, 8017; 8258-59; 8767; 10237

CIL X, 852

Varone (1994: 20;51)

 

 

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FIGURAS

 

1. Cidades do império romano (Thorpe 1995: 107).

 

2a Plano do térreo da Villa de Sette Termini, no ager pompeianus (Guarinello 1985:229, fig. 1); note-se o convívio das partes produtivas ou rústicas com as pars urbana (cf. Purcell 1996).

 

2b Filósofo, Villa de Públio Fânio Sinistor, Boscoreale, Museu de Nápoles (Grant 1979: 161); presença urbana nas pinturas parietais rurais.

 

3. Cenas da Villa di Dar Buc Amméra (Zliten, Líbia), com representação de uenatio, execuções, gladiadores, acompanhamento orquestral (Wiedemann 1995: fig. 5).

 

4. Mapa da Campânia romana (Ward-Perkins & Claridge 1976: 14).

 

5. Uma rua de Pompéia (Ward-Perkins & Claridge 1976: 45).

 

6. Casa de Salústio, segundo século a.C. e em 79 d.C. (Ward-Perkins & Claridge 1976: 47).

 

7. Pinturas parietais pompeianas dos quatro estilos (Ward-Perkins & Claridge 1976: 68-71).

 

8. Inscrição  em mármore com anúncio das Termas de M. Crassus Frugi; 1.15x57 cm; Museu de Nápoles, encontrada em 1749, reutilizada em um santuário, logo após a Porta de Herculano. Thermae Marci Crassi Frugi aqua marina et balneum aqua dulci Ianurius libertus, “Termas de Marco Crasso Frugi, água do mar e água doce para banho, Januário, liberto”. A inscrição parece ser uma anúncio, no acesso à cidade, das Termas, colocada pelo liberto encarregado da sua manutenção (Ward-Perkins & Claridge 1976: n.228).

 

9. Propaganda eleitoral e anúncios de munera, em paredes de uma rua que leva ao anfiteatro de Pompéia (Grant 1979: 207).

 

10a. Mapa de Pompéia (Ward-Perkins & Claridge 1976: 43).

 

10b. Complexo teatral de Pompéia (Ward-Perkins & Claridge 1976: 63).

 

11. Desenho que representa o anfiteatro de Pompéia quando de uma briga entre nucerinos e pompeianos, em 59 d.C. (Museu de Nápoles); grafite de um gladiador triunfante, após a rixa de 59 d.C.: campani uictoria una cum nucerinis peristis, “Campânios, vocês também foram destruídos com a vitória sobre os nucerinos”, CIL IV, 1293 (Ward-Perkins & Claridge 1976: 35).

 

12a. Distribuição de bordéis,  cauponae e popinae, em Pompéia, segundo Laurence (1994: 77, 82, 83).

 

12b. Distribuição de bares, hospedarias etc, segundo La Torre, a partir de uma definicão mais ampla do que aquela proposta por Laurence e Wallace Hadrill (1995:44).

 

13. Ruas de comportamento “desviante”, segundo Laurence (1994: 85).

 

14a. Pompéia, lupanar de dois andares, VII, 12, 18 (Varone 1994: fig. 25).

 

14b. Pompéia, grafite CIL IV, 8329 (Funari 1995b: 125-127, fig. 14 e 18).

 

15. Exemplo de grafite pompeiano, feito por popular, sem o controle de autoridades ou proprietários: felicem somnum qui tecum nocte quiescet, hoc ego si facere, multo felicior esse. Vasia quae rapui, quaeris formosa puella; accipe quae rapui non ego solus; ama. Quisquis amat ualeat, “Quem passará a noite contigo, em um sono feliz? Ah, se fosse eu! Seria muito mais feliz”, “Bela garota, pedes satisfação pelos beijos que te roubei: não fui o único que o fiz! Aceita e ama. Viva, quem ama!” (Varone 1994: 20, 51, fig.4).

 

16. Grafite CIL IV, 8767: Floronius binet ac miles leg. uii hic fuit, neque mulieres scierunt, nisi paucae, et ses, erunt, “Florônio, garanhão e soldado da sétima legião, esteve aqui, mas as mulheres não notaram: eram poucas, apenas seis!” (Funari 1993: 134; Funari 1995d: 13, fig. 13).

 

17. Grafites CIL IV, 8258-59 (Funari 1992: 23).

 

18. Grafites inéditos e anepigráficos referentes a gladiadores ou caçadores, publicados por Vivolo (1994: 17, 33,35,40,41,42,43,44,45,48,49,50,51,52,53).

 

19a. CIL IV, 8017 e 10237 (Funari 1993: 143, 145).

 

19.b. Traços na composição dos grafites CIL IV, 8017 e 10327 (Funari 1993: 144).

 

20a. Roma, Coliseu, corte (Thorpe 1995: 54).

 

20b. Roma, Coliseu, visão seccional (Thorpe 1995: 55).

 

20c. Roma, Coliseu, exterior sem colunas aparentes (Thorpe 1995: 56).

 

20d. Roma, Coliseu, sistema de escadas e corredores (Thorpe 1995: 57).

 

21a. Localização da cidade de Isca, fundada em c. 75 d.C., no País de Gales (Boon 1972: 19).

 

21b. Anfiteatro de Isca (Boon 1972: 90).

 

21c. Anfiteatro de Isca, período I (Boon 1972: 90).

 

21d. Anfiteatro de Isca, período II (Boon 1972: 91).

 

21e. Anfiteatro de Isca, período III (Boon 1972: 91).

 

21f. Vestígios visíveis do anfiteatro de Isca (Boon 1972: 92).

 

22. Representações de seres humanos atingidos por armas, em paredes de cavernas paleolíticas (Bachechi, Fabbri, Mallegni 1997: 136).

 

23a. Roma, via Statilia, tumbas de libertos romanos, ca. 100-80 a.C. (Zanker 1990: 15).

 

23b. Roma, ante à Porta Maggiore, tumba do liberto M. Vergilius Eurysaces, dono de grande padaria, ca. 40-30 a.C. (Zanker 1990: 16).

 

23c. Roma, via Appia, tumba de Caecilia Metella, ca. 30 c.C. (Zanker 1990:17).

 

24. Imagens de Puteoli e Baiae em frascos de vidro: a-c Puteoli; d-e Puteoli e Baiae; a. Praga; b. Pilkington; c. Odemira; d. Populonia ou Corning; e. Ampurias (Laurence 1996: 118).

 

25a. Plano de Aosta (Thorpe 1995: 18).

 

25b. Plano de Poseidonia (Paestum) (Thorpe 1995: 19).

 

25c. Plano de Timgad (Thorpe 1995: 25).

 

26. Modelos de desenvolvimento urbano (Millett 1992: 75).

 

27. Foros imperiais, em Roma (Thorpe 1995: 36).

 

28a. Roma, Pantheon (Thorpe 1995: 1).

 

28b. Plano do Pantheon (Thorpe 1995: 2).

 

28c. Interior do Pantheon, 1735 (Thorpe 1995: 3).

 

28d. Estrutura do Pantheon (Thorpe 1995: 5).

 

28e. Materiais de construção do Pantheon (Thorpe 1995: 6).

 

28f. Secção do Pantheon (Thorpe 1995: 8).

 

29a. Carta proveniente de Bath (Funari 1995b: 52).

 

29b. Carta proveniente de Bath (Funari 1995b: 53).

 

29c. Carta proveniente de Bath (Funari 1995c: 53-54).

 

30. Placa metálica proveniente de Uley (Tomlin 1996: 440).

 

31a. Fronteira setentrional romana na Bretanha em c. 90 d.C. (Bowman 1994: 146).

 

31b. Fronteira setentrional romana na Bretanha em c. 105 d.C. (Bowman 1994: 146).

 

31c. Sítios principais do norte da Bretanha romana (Bowman 1994: 147).

 

32. Memorando sobre os britúnculos (Bowman 1994: 152).

 

33. Pintura parietal, proveniente de Pompéia, local exato desconhecido, agora no Museu de Nápoles (50x49 cm); paisagem em quarto estilo, com um santuário rústico idealizado; avista-se um pastor (Ward-Perkins & Claridge 1976: n. 136).

 


 

[1] Livre-Docente em História Antiga, Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C.Postal 6110, Campinas, 13081-970, SP, fax: 019-2393327, E-mail: funari@turing.unicamp.br.

[2] O uso do termo alemão indica que se trata de um conceito que não se resume ao estudo da Antigüidade clássica, daí sua citação no original; note-se que, por erro de imprensa, Altertumswissenschaft aparece grafado erradamente em Funari (1985b: 31).