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2002 Pedro Paulo A. Funari (org.), Repensando o Mundo Antigo.
Fronteiras do Mito (Jean-Pierre Vernant) e Concepções de Roma: uma
perspectiva inglesa (Richard Hingley), traduzidos por Renata Cardoso
Beleboni e Renata Senna Garraffoni. Campinas, IFCH-UNICAMP, Coleção
Textos Didáticos n.47, março de 2002, 64 pp. ISSN 1676 7055.
Textos Didáticos
IFCH/UNICAMP
Fronteiras do Mito
Jean-Pierre Vernant
Concepções de Roma: uma perspectiva inglesa
Richard Hingley
Apresentação
Pedro Paulo A. Funari
O estudo da Antigüidade, no Brasil, tem sido facilitado, nos últimos
anos, pela publicação, de forma cada mais intensa, de documentos
antigos, assim como de livros e artigos científicos. Traduzem-se
livros de autores estrangeiros e a produção nacional cresce de maneira
notável, com compêndios e obras especializadas publicadas tanto em
editoras comerciais como acadêmicas. Os alunos de graduação, portanto,
nunca tiveram acesso a tanta bibliografia em vernáculo, o que atesta o
amadurecimento dos estudos sobre o mundo antigo em nosso país. Neste
contexto, a História cultural, em geral, e o estudo da História da
própria ciência sobre o mundo antigo constituem campos de particular
interesse e florescimento no âmbito internacional e no Brasil. Não são
tão numerosos, contudo, os estudos específicos nesses campos
publicados em português, até porque essa é uma produção recente.
Publicam-se, a seguir, dois textos seminais, traduzidos ao português e
para o uso na Graduação, o primeiro deles um texto, inédito em
vernáculo, do helenista Jean-Pierre Vernant, sobre um tema importante
da Histórica cultural. Richard Hingley, estudioso britânico, produziu,
especialmente para este volume, um texto sobre a construção
historiográfica inglesa do mundo romano, em uma análise original e
crítica da historiografia sobre a Antigüidade romana. A publicação
deste volume permitirá, pois, aos alunos de graduação, um acesso
excepcional ao que de mais original se tem produzido sobre a
Antigüidade.
Apresentação,
por Renata Cardoso Beleboni
Professor honorário do Collége de France, Jean-Pierre
Vernant procurou, ao longo de mais de cinqüenta anos de pesquisa,
compreender a história interior do homem grego. Uma de suas maiores
contribuições ao estudo da Grécia Antiga foi seu estudo sobre o mito.
Para o autor, o lugar do mito está reservado na história mental e
social do homem grego, portanto, o mito, ou em seu conjunto, a
mitologia, é compreendida como um traço desta civilização. O que foi
considerado absurdo, em Vernant torna-se um desafio. O mito deixa de
ser interpretado como um pensamento irracional e passa a ser entendido
como um modo de expressão ligado a uma forma precisa de civilização, a
um tipo de crença religiosa. O distanciamento entre mythos e logos
não é mais visto como necessidade inerente da língua, mas como
resultado de transformações mentais. As incoerências do mito não são
criticadas por Vernant, mas são compreendidas como uma forma
particular de explicação dos fatos. Seus argumentos acerca do mito e
da cultura grega, em geral, podem ser encontrados nos mais de vinte
livros publicados por ele, alguns em parceria com Pierre Vidal-Naquet,
Marcel Detienne e com Françoise Frontisi-Ducroix. Dentre eles
destacamos As Origens do Pensamento Grego, Mito e
Pensamento Entre os Gregos, Mito e Religião na Grécia Antiga,
Mito e Sociedade e Mito e Política, traduzido
recentemente. O texto que se segue abaixo é um belo estudo onde expõe
as diferentes interpretações a que foi submetido o mito no decorrer da
História.
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Fronteiras do Mito
Jean-Pierre Vernant – Collége de France
Tradução: Renata Cardoso Beleboni
Revisão: Pedro Paulo A. Funari
O que sentimos, exatamente, no espírito, quando nos
falam hoje de mito grego? A resposta não é simples nem fácil.
Certamente a palavra "mito" da qual nos servimos, é de boa cepa
helênica. Mas no curso da Antigüidade, o sentido de muthos
teria variado muito sem que nenhum dentre eles, em nenhum momento,
tenha inteiramente coincidido com o que, no uso moderno, se designa
correntemente por este termo. Um mito, para nós, é um relato
tradicional suficientemente importante para ser conservado e
transmitido de geração em geração no interior de uma cultura, e que
relata as ações de deuses, de heróis ou seres lendários cuja ação
situa-se num outro tempo que não nosso, no "tempo antigo", um passado
diferente daquele que trata a pesquisa histórica. Teríamos, portanto,
relação com um tipo de narração cuja especificidade tenderia para a
dimensão mais humana dos personagens colocados em cena e ao caráter
sempre mais ou menos maravilhoso de aventuras que escapam, por
definição, às dificuldades da verossimilhança comum.
Pode-se, assim, aproximar o mundo das lendas gregas,
de uma parte, aos textos sagrados das grandes civilizações do
Oriente-Próximo antigo e da Índia védica, de outra parte, dos relatos
tradicionais que os etnólogos recolhem entre os povos sem escrita. Daí
a estabelecer a existência de um "pensamento mítico" constituindo, na
história da humanidade, um estado primitivo, igualmente distante do
espírito dos autênticos religiosos monoteístas e dos meios da razão
científica, haveria uma distância: os especialistas do século XIX
superaram, felizmente, seguindo sobre este ponto pela opinião comum.
Este esquema evolucionista relega o mito ao fundo de seu gueto,
realizando uma etapa que é necessário superar, para entregar ao
religioso, sua verdadeira face, purificado do mágico, das
superstições, da idolatria e para isentar o pensamento da mentalidade
pré-lógica na qual ele estaria inicialmente engajado. Esta concepção
foi vigorosamente atacada por toda uma série de abordagens novas que
conduziram a colocar, em outros termos, os problemas do mito.
Comecemos pelos historiadores das religiões. Eles mostraram que todo
sistema religioso comporta diversos aspectos, por vezes, distintos e
interdependentes. Primeiramente, o que se faz: os atos, os gestos
rituais, o conjunto das práticas constitutivas do culto; em seguida, o
que se apresenta à vista: os fatos de figuração que conferem às
divindades um lugar, uma categoria, uma figura visível, quer se trate
de imagens ou de formas anicônicas; enfim, o que é dito: palavras
pronunciadas, invocações, preces, hinos, discursos sagrados
relacionados às potências do além e exprimindo a natureza, as funções,
as transformações, os relacionamentos mútuos, as relações com os
humanos pelos meios de que dispõe a linguagem. O mito delineia-se,
não mais como uma etapa completa que deixaria somente aqui ou ali
alguns vestígios, mas como uma das facetas da experiência religiosa,
sua parte verbal associada à suas dimensões rituais e figuradas. A
questão é, não definir por ausência e defeito: irracional, ilógico,
irreal e infantil. O problema é, ao contrário, de lhe encontrar um
sentido ou antes, de tornar possível reconhecer as significações às
quais ele é autenticamente portador. Neste sentido dois tipos de
interpretação foram propostas. Primeiramente uma leitura "alegórica"
que os Gregos muito cedo praticaram. Trata-se de substituir tal texto
como se apresenta na sua literalidade, por uma tradução que faça
desaparecer as inverosimilhanças, as anomalias, o fantástico.
Decifra-se o relato das aventuras divinas ou heróicas transpondo os
acontecimentos relatados do plano lendário onde se situam para um
registro de fatos diferentes dos quais seriam a expressão simbólica.
Quando coloca em cena Zeus, Hera, Hefaístos, Atena, Afrodite, Apolo,
Héracles, Dioniso, o mito falaria da realidade, envolvendo-os de
segredo, de forças e da natureza, de noções morais, de asserções
filosóficas ou de acontecimentos pertencentes à vida de personagens
humanos de antigamente. Para restituir sua verdade, o mito deveria,
portanto, parar de ser ele mesmo e manifestar-se, sob seu disfarce
fabuloso, conhecimento da natureza, ética, filosofia, saber histórico.
É Schelling que, contrário a esta versão alegórica, o
que ele chama o "caráter tautegórigo" do mito, inaugurou uma abordagem
nova que os especialistas modernos explicaram. O mito não diz "outra
coisa", ele não tem outro sentido que este que ele diz e que não se
poderia exprimir em outra linguagem que não a sua. Seu silêncio só
reside nele mesmo, na sua forma narrativa. É na sua composição
interna, no desenvolvimento do relato, na ordem articulada das
seqüências, nas suas homologias ou oposições, nas funções dos diversos
atuantes, na natureza das ações onde estão os iniciadores ou as
vítimas, que é preciso pesquisá-lo.
Historiadores das religiões, antropólogos, lingüistas
estão hoje de acordo sobre a maneira de compreender os relatos, sobre
os procedimentos de deciframento a lhe aplicar. Mas, ainda deve-se
distinguir duas orientações diferentes segundo a qual segue Georges
Dumézil que os trata como mensagens que transmitem senão um
ensinamento do meio, o que este autor entende por ideologia - um
conjunto articulado de conceitos -, ou com Claude Lévi-Strauss que
quer decifrar um código, do qual deve-se descobrir as chaves, sem que
este código nada nos faça reconhecer de diferente que seu próprio
funcionamento, seu modo operatório, os mitos se significando uns e
outros, jogando à maneira de uma gramática, de uma lógica do concreto,
pois que eles não visam comunicar qualquer saber sobre o mundo e sobre
o homem.
Este consenso, ao menos relativo, sobre os métodos
entre os especialistas que, por profissão, tratam este tipo de relato
como um objeto de estudo todo positivo, deixa abertas questões sobre a
natureza e sobre as fronteiras do mito. Ao ponto que se pode sustentar
que no sentido que lhe foi comumente reconhecido, o mito não existe e
que se trata de uma construção em grande parte arbitrária dos
antropólogos. Utilizando um termo já cheio de ambigüidades por sua
longa história desde a Grécia Antiga, eles fabricaram um domínio de
investigação cujos limites são sombrios e cujo objeto, deixa de ser
específico, escapa a toda definição precisa.
Os africanistas assim observaram que, no vasto tesouro
de contos orais que eles recolheram, nenhum tipo de relato apresenta
os traços distintivos que permitiriam diferenciar o mito de outros
gêneros narrativos como o conto e a lenda. Não há, de um lado, os
relatos 'sagrados', histórias dos deuses, palavras dos ancestrais,
gênese do mundo, cuja narração estaria tomada tanto mais ao pé da
letra quanto fosse submetida a imperativos rituais - prescrições e
interditos -, de outros contos aos quais ninguém teria tentado, nem
desejado acreditar e que constituem, por sua característica claramente
fictícia, uma forma de literatura, ou ainda de lendas que remetem a
acontecimentos reais. Pierre Smith distingue assim, num corpo de mais
de mil contos orais de Ruanda, oito gêneros ou sub-gêneros
diferenciados, todos igualmente marcados por seus traços literários,
donde nenhum poderia ser incluído na categoria do mito se o entende
como um gênero específico. Aí onde existe ainda viva uma rica tradição
oral com, em aparência e essência, uma grande variedade de relatos, o
mito, no sentido que nós damos a este termo, não é encontrado. No meio
de culturas orais onde a narrativa não está ainda inserida nos textos
escritos, a fronteira afasta-se entre mito e literatura.
De seu lado, os historiadores da religião romana, após
ter por muito tempo oposto à Grécia dos mitos e lendas uma Roma que os
teria seja ignorado, seja descartado, uma Roma "desmitologizada",
mostrou com Georges Dumézil que os grandes quadros da mitologia
indo-européia, seus mecanismos de fabulação, encontravam-se nos anais
dos primeiros tempos de Roma e nas tradições citadas por aqueles que
consideramos como historiadores. Os especialistas neste domínio deram,
hoje, um passo a mais. "Constatamos, escreve Philippe Borgeaud, que se
esboça a pertinência de uma oposição teórica que não teria razão de
existir entre mito e História. Isto num sentido ligeiramente novo em
relação à lição duméziliana: antes de uma "aterrissagem" do mito
sobre a História (o que supõe a anterioridade do primeiro sobre o
segundo) observamos o jogo de suas interferências". É sem
descontinuidade que em certas circunstâncias a fabulação, que se
poderia crer própria ao mito, insinua-se na História. Desde que se
abandona as categorias, a priori, para interrogar os textos
mais de perto, a fronteira entre mito e História deixa de oscilar ao
ponto de parecer impossível decidir.
Nos é preciso retornar aos Gregos de onde, à ocasião
da palavra mito, teríamos partido. Primeira constatação. Todos os
mitos gregos que conhecemos nos foram transmitidos incorporados aos
textos literários, históricos, filosóficos. As versões mais antigas
apareceram na época - homérica ou de outros ciclos cujos fragmentos
nos chegaram -, e nas diversas formas de poesia sapiental, coral,
lírica, trágica. Sua ocorrência depende sempre do contexto das obras
nas quais estes mitos estão inseridos. E para estes períodos antigos
onde a "Literatura" não é feita para ser lida desacompanhadamente, mas
musicalmente recitada perante tal ou tal auditório, em ocasiões de
festas comuns ou privadas, cívicas ou pan-helênicas, a mensagem
poética fica sob a dependência das condições que requer sua enunciação
em público. Dito de outra forma, a performance destes relatos míticos
comporta sempre, ligadas uma à outra, uma dimensão estética e uma
dimensão social.
Segunda constatação. Na origem muthos não se
opõe a logos. As duas palavras significam igualmente "palavra",
"relato", qual seja seu conteúdo. É somente no curso do século V que,
entre certos autores, seus campos de aplicação vão se dissociar,
muthos passando a designar, por razões diversas segundo se é poeta
como Píndaro, historiador como Heródoto e Tucídides, filósofo como
Platão e Aristóteles, o que se quer se definir e que se opõe, por isto
fazer, aos domínios do demonstrado, do verificado, do verossímil, do
conveniente. Antes, como escreve Marcel Detienne, "muthos e
logos são termos permutáveis sem que um recorte um registro de
palavras cujo o outro seria excluído ou somente tomado à distância".
Mas, mesmo assim, a fronteira estabelece-se e o muthos
aplica-se a assertivas que nos recusamos a admitir como verdadeiras,
considera-se no campo dessa definição todo um museu dito tradicional,
vindo do fundo das idades e transmitido de boca à orelha sem que se
sonhe submetê-los à critica. Nesta miscelânea veiculada por isto que
Platão chama phèmè, o sussurro, encontra-se, ao lado de lendas
divinas e heróicas, tais como certos poetas os teriam contado, outras
formas de ditos e de relatos: genealogias, provérbios, ditados,
adivinhações, enigmas, máximas, fábulas de amas de leite. Este
conjunto heteróclito não define um tipo particular de narração, de
valor sagrado, colocando em cena potências do além, cuja ação se
situaria num tempo primordial. Não há outra unidade que esta do
ostracismo, do qual ele é inteiro atingido. O que aproxima estas
múltiplas "maneiras de dizer" tradicionais é, no espírito destes que
exigem de hoje em diante, no estabelecimento da verdade, a
administração da prova (quer trate de razão demonstrativa ou de
testemunho ocular direto), seu caráter, senão falso, ao menos não
fiável, contrário à verossimilhança.
Terceiro ponto. Se Píndaro, em seus poemas, denuncia
como muthoi, falsos os episódios da façanha divina, que lhe
parece indignos dos Imortais, ele não aceita menos, como os logoi
válidos, todos os outros, por extraordinários que sejam. Se Heródoto
fustiga a credulidade dos Gregos consentindo fé aos muthoi
absurdos, como estes que fazem do Oceano, um rio correndo em círculo
em volta da terra, isto não impede de embelezar seus próprios
logoi, quer se trate das Amazonas, dos Citas, Etíopes, de uma
história maçante.
Com Tucídides, as coisas mudam. É no interior de seu
projeto de escrever a Guerra do Peloponeso, na idéia que se faz de seu
trabalho e de seu papel de historiador, que se situa entre mito e
História, uma fronteira nitidamente trançada. Para as épocas antigas,
para os tempos anteriores à Guerra de Tróia, em falta de documentos e
testemunhos diretos, não se poderia pretender um conhecimento
resoluto; o melhor que se pode propor, a partir de indícios, é
qualquer verossimilhança concernente a certos fatos: "Se crê menos de
bom grado, escreve Tucídides, nos poetas que celebraram estes fatos
lhe emprestando beleza que os engrandecem ou nos logógrafos que os
contam, procurando o consentimento do ouvinte, mais que a verdade,
pois se trata de fatos incontroláveis e aos quais sua antigüidade há
dado um caráter mítico excluindo a crença". Se ao contrário, limita-se
aos acontecimentos contemporâneos, pode-se fazer um relato seguro,
preciso, controlado, onde a sucessão dos fatos, obtidos em uma ordem
de razão, permitem não somente compreender seu encadeamento mas obter
para o futuro uma útil lição. O mito pertence a um passado que seu
afastamento consagra, sem recurso, à obscuridade; a Historia, escrita
no presente, comporta regras estritas que delimitam seu campo e
rejeitam, sem poder se aplicar, tudo o que reconstrói o passado
longínquo, abandonado às fantasias dos poetas e dos logógrafos cujos
relatos, estranhos ao verdadeiro, visam a aprovação e o prazer para os
ouvintes de um momento, não o saber e a utilidade para todas as
gerações por vir.
Desta vez as coisas parecem regradas. Por oposição a
um relato histórico, controlado, verídico, útil, o mito foi devolvido
ao tempo antigo. Escapando ao nosso olhar, os acontecimentos deste
passado projetam-se sobre a tela que nos apresenta os poetas,
magnificados, sublimados, embelezados no reflexo de um canto que visa
a encantar o público, não a lhe ensinar a verdade. Antigüidade,
poesia, embelezamento, prazer, inverossímil, tais são as marcas que
têm o mito à parte da História. Mas Tucídides, para separar o mito do
verdadeiro e do crédulo, não coloca somente em causa a longa cadeia de
fabulação que cada poeta recebe de herança para a trançar de novo à
sua maneira. Utiliza-se do mesmo movimento e por razões análogas aos
logographoi, acusados de não mais preocupar-se com o verdadeiro
que os poetas relatam dos fatos extraordinários, passados
definitivamente ao estado de mito (epi to muthòdes
eknenikékota). Dos logographoi: por conseqüência os homens
confiam na escrita, como Tucídides, no que estão a dizer e não
declamando os cantos poéticos. Em que estes logoi declarados
nos textos escritos (graphein) podem informar dos muthódes,
do mítico? Quem são, portanto, estes logógrafos? Estes são os
primeiros "cronistas" que, desde a alvorada do século V, empreenderam
estabelecer as tradições locais ou regionais das cidades e populações
gregas, remontando o mais longe, até às origens, aos primeiros homens,
heróis fundadores, nascidos do sol ou descendentes de uniões entre
mortais e divindades. Para narrar desde o início até os tempos
contemporâneos a implantação dos humanos sobre o seu território,
Hecateu de Mileto, Acussilao de Argos, Helanicos de Mitilene, Ferécide
de Atenas e os outros atidógrafos não se contentaram em utilizar os
episódios que os poetas teriam já mencionado. Eles coletaram e
confrontaram as versões diversas; apelaram às tradições locais que a
oralidade conservou, àquelas que os exegetas transmitiram em certos
santuários ou que ficaram vivas nas grandes descendências nobres
reclamando ancestrais lendários. Pois organizam seu relato segundo uma
ordem genealógica onde cada geração, com as aventuras e as façanhas
que lhe são próprias, vem tomar a continuação desta que a precedeu,
pois reúnem tudo e esforçam-se em mostrar a continuidade de uma
tradição de relatos cujos poetas não utilizaram, ao agrado de suas
necessidades, este ou aquele trecho, eles conferem aos muthoi
um novo status de existência, independente do uso que faria
antes a Literatura. De hoje em diante, o contexto de um mito não é
mais a obra poética na qual ele está inserido mas os outros relatos
míticos que formam corpo com ele. Englobando a diversidade dos relatos
tradicionais, começa-se a desenhar uma mitologia. Deste ponto de
vista, pode-se dizer que, pelo projeto de ligar o passado, o mais
recuado, ao presente, ao fio de um texto escrito em prosa, os
logógrafos são, por vezes, os primeiros historiadores e os primeiros
mitógrafos.
O que os separa de Tucídides é que, como não
compreenderam as regras estritas que exige a narrativa seguida e
precisa das grandes linhas dos acontecimentos contemporâneos, como a
guerra do Peloponeso, não estabeleceram um corte entre o passado
"lendário" e o presente; eles não fizeram do mito um objeto sui
generis constituinte como tipo de relato e forma de pensamento,
uma realidade à parte. Logo, ainda é necessário precisar que, nem
Tucídides nem, em geral, os homens da Antigüidade entendiam mais desta
maneira. Os mitos pertencem a acontecimentos e a personagens muito
antigos para que se possa dispor, sobre este assunto, de um
conhecimento resoluto. É seu afastamento que os torna opacos e que nos
impede de os abordar com instrumentos de pesquisa válidos. Mas neles
mesmos, em sua natureza de acontecimentos e de personagens, não
diferem destes do presente. Não são nem irreais, nem imaginários;
escapam somente, na aproximação que fazemos, à tomada de um saber
positivo. Quando Plutarco, na alvorada do I e do II séculos de nossa
era, aborda a Vida de Teseu, observa na introdução: "Depois de ter
escrito as Vidas Paralelas, percorrido as épocas acessíveis à
verossimilhança e o terreno sólido da história que se apoia sobre os
fatos, eu poderia, com razão, falar das idades mais recuadas: o além é
o país do prodígio e do trágico freqüentado pelos poetas e os
mitógrafos, e não se acha uma prova fiável', nem nada de certo".
Depois que empreendeu narrar a vida de Teseu, do nascimento à morte, o
que faria de todo ser humano que teria conhecido em carne e osso.
Teseu não é, a seus olhos, um ser mítico do qual o que narra revelaria
a mais pura fabulação. Entre o tempo mítico dos primeiros reis
lendários de Atenas ao qual Teseu se prende e o tempo medido,
controlado, datado no qual se joga o destino das cidades, não haveria
para os Antigos esta diferença de plano que enuncia, para nós, sua
incompatibilidade. Trata-se sempre, segundo eles, do mesmo tempo. O
tempo das origens não é pensado como um outro tempo, aquele do mito;
ele constitui somente um tempo mais obscuro, cujos contornos estão
misturados no longínquo e que tornou-se impossível de investigar com a
precisão e a exatidão do olhar histórico.
Estes narradores de um passado fabuloso que Tucídides
compararia aos poetas e que chamaria logógrafos, Plutarco, quinhentos
anos mais tarde, os designa pelo nome de mitógrafos. Neste meio tempo,
mesmo se não é posto em causa a idéia de que o mito é a forma tomada
pela história quando é muito ou pouco antiga, resgatando, através de
uma série de obras específicas, o que se pode chamar uma "mitologia
grega", cujo aspecto é, de certo modo, mais próximo daquele que nos é
familiar. O esforço que se demanda nos primeiros séculos de nossa era
tende a recolher, juntar, ordenar, clarificar o corpus de todas
as lendas - sem mais limitar-se, como faziam os logógrafos do século
V a.C., aos particularismos locais - e os narrar desde a criação do
mundo, a partir de Gaia e Urano, com a legião de deuses que são
descendentes, até o fim da guerra de Tróia, com o retorno dos heróis
aqueus. Concentrando em um texto único e seguindo deste até espalhar
em fontes múltiplas, apresentando no conjunto na língua comum, la
koinè, sob uma forma acessível a um grande público, substituindo a
trama dos relatos freqüentemente complexo e ramificado de uma cadeia
linear de cenários reduzidos ao essencial, um repertório quase
exaustivo de nomes de pessoas e de lugares, o desenvolvimento de um
texto seguindo uma ordem genealógica estrita (à falta de cronologia),
onde cada geração inscreve-se em uma escala vertical depois daquela
que a procedeu e se ajusta, sobre um plano horizontal, àquela de
outros heróis pertencentes a uma linhagem diferente, a um outro ciclo
lendário, mas ligados a um mesmo estrato de geração. A Biblioteca de
Apolodoro, que se pode situar por volta do ano 200 de nossa era, é,
certamente, o melhor exemplo de uma tal empresa, cuja ambição é de
consagrar, em uma só obra (como uma verdadeira biblioteca), a soma
erudita de tudo que os Gregos poderiam e deveriam conhecer referente
aos relatos dos antigos tempos. A mitologia encontra-se, então, no que
diz respeito a isso, circunscrita e objetivada: ela emerge para formar
um campo de estudo, um domínio de saber específico e autônomo, ao lado
e dentro de outros setores da produção literária e científica,
poesia, filosofia, história, ciências, medicina, curiosidades da
natureza (mirabilia), vida dos homens célebres... Em que o
mito, assim delimitado e reduzido a ele mesmo, difere, na sua natureza
e suas funções, daquilo que era na época clássica, quando filósofos e
historiadores tomando, a seu respeito, uma certa distância inicial,
utilizando-o como distanciador para melhor marcar a pertinência de sua
marcha, na busca do verdadeiro. O mito, escreve Christian Jacob, "não
está integrado num quadro global de interpretação alegórica (as
Alegoria de Heráclito). Não há mais alibi estético e literário que
acentuaria a dimensão artificial do mito (poesia helenística e
imperial, de Apolonio de Rodes à Nonos de Panopolis). O alvo procurado
não é mais o maravilhoso, nem o sobrenatural (coleção dos
paradoxógrafos ricos em histórias de fantasmas...). O mito perdeu
assim sua eficácia política e social: não está mais ao serviço da
propaganda das cidades gregas ou das grandes famílias aristocráticas
que, no século V, reivindicavam os fundadores ou os ancestrais
míticos". Um mito desengajado portanto: desligado do literário,
separado da história, escapando aos jogos ideológicos e locais da
Grécia das cidades. Qual lugar então lhe dar, qual papel lhe
reconhecer? A resposta mais plausível seria a seguinte: "à organização
geopolítica que faz de Roma a metrópole de um Império onde a Grécia
está reduzida à condição de província, o mitógrafo substitui um espaço
cultural, delimitado e organizado pela língua e a literatura gregas,
onde os heróis e os deuses atacam o mundo mediterrâneo (...). Trata-se
de um verdadeiro golpe de força simbólico pelo qual "a mitologia
grega, na sua forma substancial, é dada como memória cultural à todos
os povos do Império". Se poderá juntar, para precisar, que para o
estatuto que lhe confere a obra dos mitógrafos o mito não constitui
somente "uma prática compensatória e complementar da dominação
romana", mas também a procura num passado muito antigo de um vínculo
cultural e simbólico tanto mais necessário nas regiões orientais do
Império, de helenização recente, estando estabelecidos à parte das
tradições e da base social mais solidamente preservada na Grécia
continental.
Paradoxo: é quando Roma lhe impõe sua dominação,
quando a Grécia das cidades não é mais a mesma dos relatos lendários
de suas origens, enraizadas na gênese do mundo, no nascimento dos
deuses, nas façanhas de antanho, na sorte e desdita dos heróis, que se
fornece o saber comum, a memória partilhada suscetível de unir os
povos diferentes, de confirmar, por uma igual familiaridade, com um
vasto universo de contos tradicionais, a convicção de partilhar uma
mesma identidade cultural.
É necessário aqui, na falta de poder responder
totalmente, ao menos colocar uma última questão. Donde este conjunto
de relatos tira seu impacto, sua empresa, sua eficácia? A quem dirigir
seu poder de sedução, qual forma de prazer ocasiona, quais
necessidades especialmente tem que satisfazer? Se notará,
inicialmente, que o acesso a estes textos, à informação que eles
veiculam sobre o passado humano, que o mais remoto funciona como uma
marca de "distinção" no sentido que Pierre Bourdieu dá a este termo.
Eles autentificam, de qualquer maneira, o afastamento que isola do
comum - popular, rústico, bárbaro - uma elite urbanizada que assimila
a cultura grega que chegou a um estatuto de "civilidade", ao qual
podem apenas pretender aqueles que partilham este privilégio. De
fato, a dominação do campo mitológico é uma condição necessária para
inteirar-se plenamente à civilização greco-romana do início de nossa
era. É preciso conhecer os personagens, os lugares, as aventuras que
são o objeto destes relatos para compreender o cenário da vida
quotidiana, nas casas, as cidades, os templos, para ler claramente as
imagens figuradas sobre os vasos, as taças, os muros, ou erigidas em
alto relevo nos lugares públicos e privados, na cidade e no campo. Mas
ao lado do imaginário cujos lugares com as tradições lendárias são de
evidências estritas e reciprocas, as práticas religiosas, os hábitos
políticos, as condutas de linguagem, o gestual, as técnicas do corpo e
as maneiras de ser, maneiras de comer, de vestir-se, as formas de
sociabilidade, enfim, todos os traços de comportamento que dão a um
grupo humano seu aspecto característico, empregam sempre mais ou menos
o mesmo universo simbólico que serve de base à organização narrativa
dos relatos. No momento onde o mito tomou sua forma própria de
encenação condensando, sob uma aparência despojada, uma seqüência de
acontecimentos relacionados a um passado longínquo, sua pertença a um
espaço intelectual mais vasto, que o transborda, mas do qual é um dos
elementos constitutivos, afirma-se de maneira brilhante. O mito relato
supõe um horizonte mental ao qual ele apoia-se, de onde tira seus
planos múltiplos de significação e que reabilita, em razão de seu
caráter também não narrativo mas de quadro cognitivo, isto que se pode
chamar o "mítico". O mítico não depende como o mito da ordem da
narração; ele não é mais, como a mitologia, um conjunto coordenado de
relatos. Ele concerne certos objetos que, pela maneira que estão na
nossa experiência percebidos e pensados, tem a propriedade de "por em
movimento a imaginação lendária", para retomar os termos que
utilizaria Louis Gernet no seu estudo sobre os Aspectos míticos do
valor na Grécia. Estes "objetos" podem ser de toda sorte: seja
realidades naturais, vivas ou inanimadas, como pedras, metais,
plantas, animais, fenômenos físicos, seja produtos fabricados pela mão
do homem, como os agalmata gregos, seja condutas práticas, que
se tratasse de operações técnicas, de costumes sociais, de atos
rituais, seja mesmo noções "abstratas", como a rivalidade, éris,
a amizade, philia, o pudor, aidôs, a justiça, diké.
Se estes objetos têm, no sentido de uma cultura, o privilégio de
poder, mais que outros, gerar seqüências de relatos, de séries de
imagens, de seqüências gestuais, é que neles vem reunir-se, para se
concentrar, uma multiplicidade de planos e de domínios que, de um
ponto de vista puramente positivo, formam redes de significação
distintas e separadas. Eles constituem assim como pontos nodais, os
cruzamentos, a partir dos quais desenham-se as grandes articulações
de um espaço mental "mítico", com seu jogo de aproximação e de
contrastes inesperados. John Scheid e Jesper Svenbro, exploram, num
livro recente, os itinerários que os mitos greco-latinos de tecitura
convidam a percorrer e que desdobram nas direções mais diversas, são
assim apresentados tecitura e tecido como exemplo de uma tal
"concatenação de noções" própria para desencadear, no papel de
aparelho de embrear, assim como símbolos figurados e práticas gestuais
como performances narrativas.
Um segundo traço desta mitologia grega é sua
distância, seu afastamento face ao contemporâneo. O mito faz parte da
cultura de uma época porém precisamente como um "anacrônico" cujo
deslocamento em relação à existência presente permite jogar com o
efeito de realidade visado por um relato pseudo-histórico para
introduzir os aspectos de estranheza, de insólito, de maravilhoso. A
não atualidade dos personagens, das ações acabadas, dos acontecimentos
inesperados participa o charme da leitura . O recuo a um passado
lendário onde as criaturas humanas são, por vezes, os parentes que nos
precederam e seres diferentes de nós, de um outro calibre, maiores,
mais fortes, mais próximos dos deuses, opera um deslocamento do
verossímil. As regras que se impõem no curso da vida comum não podem
mais estritamente aplicar-se quando se trata do tempo de antanho.
A adesão do leitor, ao pé da letra, aos relatos oculta
também traços particulares. Ela não é mais obrigatória como aquela
onde o fiel deve decorar as palavras sagradas pronunciadas nos rituais
religiosos, ou as fórmulas de seu credo. Ela não é, entretanto,
idêntica à atitude de afastamento que é a nossa concernente à verdade
de textos literários dos quais sabemos que se trata de puras ficções,
produtos da imaginação de um poeta ou de um romancista. Ela não se
confunde mais com a certeza que provoca a constatação de um fato
confirmado nem com a confiança que nos inspira uma demonstração
rigorosa ou uma relação histórica solidamente documentada.
Contrariamente à fé religiosa, a crença que suscita o mito é livre de
todo constrangimento: contrariamente à fábula, ao conto, à poesia, ela
pousa sobre os seres e os fatos que não foram inventados mas que,
supostamente, teriam efetivamente existido antigamente; contrariamente
aos diversos tipos de saberes, ela não implica verdadeira certeza. Seu
estatuto é equívoco, amplo, mal resolvido. O que narra a mitologia não
aparece como falso sem ser reconhecido plenamente como verdadeiro. Se
crê sem se crer. A facilidade da interpretação pessoal, a escolha de
certas versões de preferência à outras, a liberdade de tomar e de
deixar fazem, portanto, parte da regra do jogo e do prazer que o
leitor encontra. Oscilando entre o rigor de uma erudição sábia e a
fantasia da criação literária, unem na mesma trama narrativa
personagens tomados como reais, acontecimentos fabulosos, presenças
sobrenaturais, encobrindo por um jogo de interferências entre a
história, a poesia, a religião, as fronteiras que desenham os traços
de sua própria figura, misturando as pistas, a mitologia, mesmo quando
forma um domínio distinto, permanece sempre aberta. Ela é, desde o
início, bastante separada da sociedade e da cultura da qual é a
expressão, para emprestar, em outros tempos, especialmente a partir da
Renascença, às retomadas, às transformações e ressemantizações. Ela
traz num contexto social diferente do mundo greco-romano, o mesmo
sentimento de pertencer a uma elite letrada cujo horizonte
intelectual, mais vasto que aquele do vulgar, traz consigo, pelo olhar
lançado em direção aos Antigos, até a origem longínqua, o fundamento
último da vida civilizada, do saber, da filosofia, da arte. A
acentuação da distância, o deslocamento acentuado em relação ao
presente, reforça, ainda, o caráter de gratuidade dos relatos. Ao não
serem 'sérios', não têm peso social, não levam, nesse caso, a nenhuma
conseqüência. Oferecem, assim, a ocasião de exprimir o que formulado
em outras línguas, mais oficiais, seria indecente, incongruente,
escandaloso, sacrílego. Revisitados em textos ou imagens, os mitos
consentem novas metamorfoses; formam um dos terrenos privilegiados
para exercer seu estilo, seu trabalho, seu talento, para dar forma à
experiências propriamente estéticas ou para por em causa, sem parecer,
as idéias mais comumente aceitas.
Apresentação,
por Renata Senna Garraffoni
Richard Hingley é professor do Departamento de Arqueologia da
Universidade de Durham, na Inglaterra. Sua área de atuação é
diversificada, pois possui trabalhos não só de historiografia e
Arqueologia sobre populações romanas das províncias do norte e oeste
da Britânia e da Idade do Ferro, como também de teoria pós-colonial e
metodologia, incluindo aqui pesquisa de campo e fotografia aérea.
Dentre estes temas relacionados, destaca-se uma
problemática específica: como as populações nativas foram incorporadas
ao Império Romano e as mudanças ocorridas. Neste contexto, a História
do desenvolvimento da Arqueologia romana e a maneira que ela se
constituiu na Europa em geral, e Grã-Bretanha em específico, durante
os séculos XIX e XX tem sido objeto central das pesquisas do estudioso
nos últimos anos.
O artigo que segue, “Concepções de Roma: uma perspectiva
inglesa”, é resultado deste trabalho. Nele, o autor propõe uma
revisão crítica da utilização de modelos desenvolvidos nos séculos XIX
e XX por classicistas . Nota-se, claramente, uma postura de
questionamento de tais modelos, em particular a teoria de romanização,
a partir de um estudo aprofundado do contexto histórico em que as
concepções do Império romano foram criadas. Neste sentido, o texto de
Hingley é uma desconstrução de discursos imperialistas do início do
século XX que constituíram parte da visão de mundo dos ingleses do
período e serviram de base para estabelecer interpretações do mundo
romano, tanto na Arqueologia como na História, que são utilizados até
o presente. Sua proposta é, portanto, instigante na medida em que
propõe uma crítica a idéias absolutas e aos discursos eurocêntricos
dos séculos XIX e XX.
Outras publicações do autor sobre o tema:
Hingley, R. 1991. “Past, present and future—the
study of the Roman period in Britain”, Scottish Archaeological
Review, 8: 90–101.
Hingley, R. 1995. “Britannia, Origin Myths and the British
Empire,” in S. Cottam, D. Dungworth, S. Scott and J. Taylor (edd.),
TRAC94. proceedings of the fourth annual Roman Theoretical Archaeology
Conference, Durham 1994 (Oxford): 11-23.
Hingley, R. 1996. “The ‘legacy’ of Rome: the rise, decline and fall of
the theory of Romanization,” in J. Webster and N. Cooper (edd.),
Roman Imperialism: post-colonial perspectives (Leicester): 35-48.
Hingley, R., 1999. “The imperial context of Roman studies and a
proposal toward a new understanding of the process of social change”,
in: P. Funari, M. Hall, S. Jones, Historical Achaeology: Back from
the Edge, Routledge, Londres.
Hingley, R. 2000. Roman Officers and English Gentlemen: imperialism
and the origin of archaeology (Londres).
Concepções de
Roma: uma perspectiva inglesa
Richard
Hingley
– University of Durham, Inglaterra
Tradução: Renata Senna Garraffoni
Revisão: Pedro Paulo A. Funari
1.
Introdução
Este artigo versa sobre como as imagens proporcionadas pela Roma
clássica foram redesenhadas para ajudar a definir as idéias da origem
inglesa e a justificativa do império de 1880 até por volta de 1930.
Era o auge do imperialismo britânico. Nesta época, a “ideologia
imperial” tornou-se parte da linguagem do patriotismo britânico.
Também foi um período em que novas correntes intelectuais se
desenvolveram para definir e sustentar o controle britânico por
extensas partes do mundo.
Trabalhos acadêmicos, escritos políticos e literatura popular refletem
esta necessidade imperial e o passado imperial romano foi diretamente
recrutado para ajudar a tornar conhecida a “missão” imperial
britânica.
A raiz das origens nacionais no final do século XIX e início do XX
passou a centralizar considerações imperiais relevantes na busca de
uma definição útil de anglicidade
que gerou a idéia de permanência na vida nacional britânica. Esta
definição de anglicidade baseou-se em uma variedade de fontes
de informações, incluindo as fontes históricas clássicas que
descreveram a invasão romana na Britânia no século primeiro d.C e as
descrições de vestígios arqueológicos recolhidos por antiquários e
arqueólogos. Como resultado disto, a Arqueologia teve uma grande
participação na definição do propósito imperial da Inglaterra.
Concepções de Roma na Europa
Ao considerar o significado das maneiras como a imagem do
romano foi usada na Inglaterra é importante ter em mente o contexto
europeu desta experiência inglesa. O passado tem sido desdobrado por
europeus, e povos do mundo ocidental em geral, para esculpir
identidades que se opõem, para construir o Ocidente e o não-Ocidente e
criar uma ascendência cultural.
Neste contexto, a construção do passado nunca foi uma atividade
imparcial.
Roma teve um lugar especial na definição da História e do pensamento
europeu.
Sua capacidade de prover imagens múltiplas, mutáveis e conflituosas
foi quase ilimitada; isto a tornou uma fonte rica para dar sentido – e
para desestabilizar – a História, a política, a identidade, a memória
e o desejo.
Por exemplo, Roma foi construída, em certas épocas e lugares, para
representar autoridade literária, governo republicano, unificação
política, poder imperial e seu declínio, proeza militar, eficiência
administrativa, a idade de ouro do império, a Igreja Católica e o
prazer das ruínas. Há um grande corpo de trabalhos de variadas
associações historigráficas proporcionadas pela Roma clássica,
incluindo diversas pesquisas recentes que consideram os papéis da
Arqueologia.
Uma dicotomia entre a imagem romana e aquelas munidas pelas idéias de
uma identidade nativa pode ser extraída das concepções de Roma.
A efígie do império romano proporcionou um mito de origem para muitos
povos da Europa e, em particular, para História do Ocidente como um
todo. A elite de várias nações ocidentais, durante os séculos XVI ao
XX, usaram a imagem de Roma para ordenar caminhos para o
desenvolvimento da educação, arte, arquitetura, literatura e política.
Em relação à contrastante idéia de identidade nativa, as fontes
escritas romanas serviram para prover a idéia de “alteridade” que foi
usada para ajudar a definir e unir povos dentro de nações individuais
na Europa Ocidental. Ao definir sua própria civilização em oposição
aos “outros” bárbaros,
autores clássicos proporcionaram um poderoso instrumento
interpretativo para aqueles, que ajudou a criar nações e impérios
modernos. Autores romanos, que escreveram durante o período de
expansão no final do primeiro milênio a. C. e início do primeiro
milênio d. C., registraram os nomes e feitos de vários grupos
“étnicos” significativos no império ocidental ou em outros locais
(incluindo gauleses, batavos, germanos, bretões, dácios, entre
outros). Alguns textos romanos importantes se tornaram disponíveis a
uma elite ilustrada na Europa Ocidental do século XVI em diante. Tais
textos continham informações sobre estes primeiros povos, histórias
sobre seus hábitos cotidianos e seus atos de resistência ante o
imperialismo romano. Ocasionalmente, os textos também indicavam uma
localização geográfica aproximada na qual estes povos teriam vivido.
Com a ascensão do antiquarismo e da Arqueologia a partir
do século XVI, evidências físicas derivadas do passado – artefatos e
estruturas – puderam ser utilizadas para localizar estes povos na
paisagem contemporânea européia. Neste contexto, a Arqueologia
desenvolveu-se como uma disciplina útil que traduzia uma imagem
idealizada do passado étnico em realidades táteis usando cânones
modernos de conhecimento.
No final do século XIX e início do XX, arqueólogos usavam técnicas
para localizar, datar, descrever e classificar vestígios materiais,
mas eles também proporcionaram “histórias” sobre a origem dos
monumentos e artefatos que auxiliaram no desenvolvimento de uma
identidade nacional própria.
Nestas histórias, os elementos físicos de uma cultura herdada – os
artefatos, edifícios e paisagens – propiciaram uma conexão tangível e
particular com um passado étnico imaginado. O sentido de pertencimento
é vital para uma definição própria de identidade nacional e a ligação
de identidades étnicas a certos tipos de evidências arqueológicas
tornou-se um instrumento poderoso na Inglaterra como em vários outros
países europeus.
Historiadores romanos produziram relatos nos quais um
suposto poder “civilizador”, representado por Roma, teria entrado em
conflito com os “bárbaros” e contos em que a resistência de vários
povos nativos à expansão imperial romana eram desenvolvidos sob um
forte estilo anti-romano. Nacionalistas acharam isto útil em algumas
circunstâncias, no entanto, conceber grupos nativos sendo incorporados
ao império era, também, profundamente influenciado pela “civilização”
dos romanos. Neste contexto é significativo que a Roma imperial era
freqüentemente vista executando um papel especial – a transferência da
“civilização” mediterrânea a vários povos do ocidente europeu, que
efetivamente permitiu que a distinção romana e as concepções nativas
fossem combinadas. As fontes clássicas confirmam a classificação de
povos pré-históricos na Gália, Alemanha, Ibéria, Britânia e, até
mesmo, Itália – povos que, de alguma maneira, pareciam mais
semelhantes a populações nativas do Novo Mundo do que com as
populações contemporâneas da Europa Ocidental. Argumentava-se que Roma
teria civilizado todos estes povos.
Os romanos teriam introduzido a cultura da civilização –
estradas, cidades, banhos públicos, impostos e a língua latina – uma
civilização que a Europa Ocidental sentia ter herdado. A Europa cristã
também se sentia herdeira desta tradição religiosa da Roma clássica.
Autores romanos falaram em latim às aulas de uma elite ilustrada
européia dos séculos XIX e XX – uma língua que ajudou a definir sua
identidade e de qualquer um que eles pudessem entender. Como
resultado, muitos membros destas classes sentiram uma associação com
os romanos clássicos como uma herança de uma tradição, religião e
civilização clássica em comum – uma associação que foi de todas a mais
influente devido ao domínio da língua latina na educação da elite
contemporânea.
Os romanos e as imagens da origem dos nativos, no entanto,
não foram sempre desenvolvidas em oposição de uma a outra, como foram
argumentadas em certas ocasiões, poderiam ser combinadas para
desenvolver uma concepção nacionalista da grandeza contemporânea. Isto
tinha um significado particular no contexto da Inglaterra do final do
século XIX e início do XX.
Concepções de Roma na Inglaterra durante o final do século XIX e
início do XX.
A conquista e ocupação romana do sudeste da Britânia
iniciou-se em 43 d.C. e durou até o princípio do quinto século. Este
evento lançou os antigos romanos na órbita da história domestica
inglesa.
Devido, em parte, ao impacto direto na história doméstica do sudeste
da Britânia, a efígie de Roma formou um conjunto útil de referências
históricas tanto para os ingleses como para outras nações. Os antigos
relatos históricos que confirmaram o caráter devastador da invasão
Anglo-Saxônica na Britânia pós-romana, no entanto, criaram um forte
mito da origem racial teutônica para os ingleses durante o século XIX.
Esta imagem teutônica, ou germânica, da origem racial, que foi
dominante por grande parte do século, se tornou menos poderosa diante
dos interesses imperiais próximos ao final do século. Uma nova
representação, que se desenvolveu neste período, argumentava que o
espírito imperial inglês era derivado de uma herança genética mista
que incluía antigos bretões, romanos clássicos, anglo-saxões e
dinamarqueses. Neste contexto, a herança da civilização romana era
sempre considerada particularmente fundamental. A missão do Império
Romano, em alguns trabalhos de literatura (incluindo livros para
crianças e trabalhos políticos), passaram a retratar a transmissão da
civilização clássica (e cristandade) para antigos bretões, que, então,
formavam uma parte importante da origem racial mista da população
inglesa moderna. A herança romana também serviu para retratar as
classes inglesas educadas como sucessoras da elite imperial romana.
Examinarei alguns dos caminhos nas quais as duas idéias,
“romana” e “nativa”, começaram a ser incorporadas como uma
representação da anglicidade no final do século XIX e início do
XX e o papel da Arqueologia neste processo. Durante o final do século
XIX e início do XX, um grande número de trabalhos populares
relacionados a origem do inglês foram produzidos e alguns relatos
serão levados em consideração a seguir. Cientistas naturais, geógrafos
e antropólogos procuravam usar as necessidades do império para
justificar a expansão do ensino e pesquisa em seus campos de
investigação neste período.
Assim como objetos que eram dominados por cavaleiros amadores passaram
a ter um caráter acadêmico crescente dado por estudiosos, estruturas
para carreira começaram a existir.
A Arqueologia Romana, sob influência de Francis Haverfield, foi um dos
objetos de estudos que conseguiram credibilidade acadêmica
Argumentarei que a relevância imperial da Arqueologia
Romana foi resultado, em parte, da visão de Haverfield sobre o valor
da “Romanização” para a definição do caráter inglês. A Romanização foi
usada para ajudar a corrigir uma primeira imagem que sugeria que um
pouco da civilização romana fora transmitida para os antigos bretões.
Esta idéia foi alcançada a partir do desenvolvimento de um significado
no qual civilização era tida como algo que poderia ser transferido. A
Romanização estava baseada em uma definição de oposição binária entre
nativos bárbaros e romanos civilizados – era o processo pelo qual o
bretão (ou europeu) não civilizado alcançava a civilização.
A teoria da romanização se encaixa em um contexto no qual
muitos de escritores populares e políticos estavam buscando uma
continuidade nas imagens da vida nacional inglesa.
Alguns trabalhos populares vitorianos ou do início do século XX
sugeriam que os romanos clássicos passaram para os ingleses uma
civilização que se dirigiu quase que diretamente para os estado
moderno inglês. Por meio deste processo de civilização, Roma parecia,
também, ter transmitido seu próprio espírito imperial para os
ingleses. A civilização, religião e habilidade imperial inglesa foram
traçadas de encontro ao passado romano de maneira que os nativos da
Britânia romana sempre foram vistos como tendo adotado a civilização
romana e melhorado, em um grande esforço para criar a moderna
Inglaterra e o Império Britânico. Incorporado a esta distinta mistura
racial inglesa, havia o valente espírito dos antigos bretões que se
opuseram a Roma. Neste contexto, algumas pinturas da Britânia romana
deram uma visão nacionalista de uma província britânica distintamente
civilizada – uma sustentação linear para a moderna Inglaterra.
O interesse por linhas de continuidade na vida nacional da
Inglaterra estruturaram trabalhos acadêmicos e populares e a
Arqueologia Romana veio a ter um valor distinto como parte da
representação da anglicidade. Os tipos de analogias que foram
feitos entre Britânia e Roma, durante os séculos XIX e XX,
influenciaram, profundamente, o caráter dos estudos de Haverfield que,
por sua vez, influenciou aqueles que estavam por vir. Acadêmicos
selecionaram imagens de uma história mítica que projetaria a
estabilidade da vida nacional e contribuíram para a representação da
anglicidade. Será argumentado que um dos resultados deste
processo foi o desenvolvimento da Arqueologia Romana na Britânia sob
um caráter nacional distinto. De fato, a teoria arqueológica durante o
século XX serviu para projetar muitas visões populares que
substituíram os limites do estado nacional inglês pelo passado romano.
Para examinar estes pontos em seguida, estabelecerei cinco
tópicos que serão produzidos para ilustrar a contribuição do romano
clássico a representação da anglicidade.
2.
Cinco Tópicos:
Estes tópicos são: os antigos celtas como indianos; o inglês como
romano clássico; a resistência nativa aos romanos; a herança imperial
da tocha da “civilização” e anglicidade.
Os antigos celtas como
indianos, os ingleses como os romanos clássicos
A presença dos romanos na Britânia é registrada pelo menos
de duas maneiras – fontes históricas e monumentos arqueológicos. Os
relatos de historiadores clássicos que escreveram sobre a invasão e
ocupação da Britânia foram utilizados, com freqüência, por vitorianos
e eduardianos para ajudá-los a entender os primórdios da história da
Britânia.
Estas fontes proporcionaram um retrato de um povo bárbaro e não
civilizado – os antigos bretões. Muitos perceberam que os antigos
bretões eram mais semelhantes aos povos nativos das colônias do
império Britânico moderno do que a população da Inglaterra. A presença
dos romanos também foi atestada por meio da evidência física dos
edifícios e estruturas construídas durante o período de ocupação. As
ruínas dos monumentais e impressionantes edifícios da época romana
sobreviveram ao período moderno (por exemplo, a muralha de Adriano,
Wroxeter e Pevensey).
Uma imagem claramente definida na Inglaterra do final do
século XIX foi colocada sobre o caráter da Britânia romana como um
paralelo para a Índia britânica, um paralelo que produziu uma série de
lições históricas.
Romanos e bretões, sob esta perspectiva, eram vistos como distintos,
assim como os ingleses eram da população nativa da Índia britânica.
A população romana da Britânia era sempre percebida como sendo
constituída por funcionários e oficiais imperiais que viviam em
cidades fortificadas, fortalezas e suntuosas villae; os antigos
nativos bretões eram pensados como amontoados ao redor deles, mas
afastado. Estes celtas eram, de fato, vistos como uma população
inferior, sujeita à hegemonia da classe dirigente de oficiais romanos.
O paralelo entre Índia Britânica e Britânia Romana não era
sempre exata, mas isto não parece ter afetado seu valor. Bertram
Windle em seu Vida no início da Britânia (1897), considerou o
caráter essencialmente militar da ocupação romana na Britânia e
mencionou fortes, estradas militares, grandes cidades fortificadas, as
muralhas romanas e as “magníficas villae” que foram construídas
por oficiais romanos.
A villa em Vectis, no romance de A. J. Church de 1887 era
propriedade do Conde da Costa Saxônica, um oficial que retornou para
Roma com o exército durante sua retirada. Fletcher e Kipling,
escrevendo em 1911, viram as villae da Britânia como as casa
dos oficiais imperiais romanos que foram enviados a Britânia ou se
estabeleceram lá; outros autores e artistas também tiveram
interpretações similares.
Considerando os oficiais romanos no contexto dos oficiais
britânicos na Índia, uma conexão foi feita entre a Inglaterra
contemporânea e os romanos clássicos. Mesmo que, às vezes, os ingleses
eram percebidos como descendente de origem teutônica, eles teriam
aprendido as lições de civilização e organização imperial
proporcionadas pelos romanos clássicos. Em contraste com esta herança
racial, a população “céltica” do norte e oeste
da Britânia teriam derivado sua herança das populações pré-romanas das
ilhas britânicas. Para alguns ingleses deste período, os antigos
bretões eram percebidos como parentes dos irlandeses, galeses e
escoceses, muitos estudiosos vitorianos afirmaram que “a partida dos
romanos” no século V deixaram os bretões quase como os “celtas” quando
foram encontrados por eles.
Considerou-se que os celtas não civilizados da Inglaterra foram
derrotados e massacrados, ou então foram expulsos para o norte e oeste
pelos ancestrais dos ingleses, os amantes da liberdade teutônicos. Por
exemplo, o reverendo professor A. J. Church em seu romance, acima
citado, escreveu sobre a partida das legiões romanas em 410 d.C. e os
problemas subseqüentes quando os bretões voltaram aos seus hábitos
“celtas” pré-romanos. Quase no final do romance, depois da partida dos
romanos (inclusive o Conde), os bretões jogaram fora toda a cultura
adquirida dos romanos e “... todos os sinais daquela sujeição ...”
Eles retornam aos hábitos e vestuários bretões. Este era o sonho de
Ambiorix, um de seus líderes, “... deixar a Britânia como se os
romanos nunca a tivessem conquistado”.
Os ingleses modernos teriam aprendido a lição dos romanos mais por
meio do acúmulo de experiência que por uma forma direta de herança.
No contexto da imagem das origens teutônicas, muitas das
atividades dos antiquaristas deste período estavam diretamente
relacionadas aos monumentos e vestígios deixados pelos primeiros
ingleses medievais – esta época ocupava o espírito como resultado de
sua “religiosidade” e o desejo de permanecer próximo a uma identidade
inglesa.
A Arqueologia dos antigos bretões e dos bretões-romanos permaneceu
relativamente sem desenvolvimento até o início do século XX. A
relevância de ambos, romanos e antigos bretões, para as origens
raciais e o destino da nação parece limitado a muitos vitorianos. Os
monumentos de populações pré-históricas sempre parecem ter tido
relevância limitada, enquanto que os fortes romanos, as villae
e cidades, freqüentemente, foram interpretados como as casas e postos
de oficiais e outros colonos da própria Roma.
Eles eram percebidos, talvez, para apresentar um paralelo histórico
para o estilo de vida dos oficiais britânicos na Índia, mas não tinham
uma ligação direta a história nacional inglesa.
A resistência nativa
Muitos autores eduardianos produziram versões dramáticas da tragédia
de Boadicea.
Esta imagem de Boadicea faz parte de uma relação direta da idéia dos
celtas como indianos; aquela que simbolizou o espírito dos nativos
britânicos em resistência a Roma. Boadicea era a personagem principal
desta história, mais outros eram também considerados sob a mesma luz,
por exemplo Caratacus e o fictício Beric do romance Beric, o bretão
de G. A. Henty (publicado em 1893). A representação das ações destas
figuras heróicas vão do século XVI até o princípio do XIX,
quando Boadicea, em particular, foi adotada como símbolo de inspiração
para os ingleses em suas ações imperiais.
Um evento de importância particular no desenvolvimento da imagem de
Boadicea foi a confecção e levantamento de uma estátua sua por
Thornyscroft na ponte de Westminster em 1902.
O desenvolvimento deste culto de resistência nacional a Roma espelha
acontecimentos similares em outros países europeus durante a segunda
metade do século XIX, como a criação de um “teatro memória” a
Vercingetorix por Napoleão III na Alesia.
Não considerarei mais estes argumentos no desenvolvimento
do artigo. É relevante para minha argumentação o tema que Norman Vance
discutiu em seu livro recente Os vitorianos e os antigos romanos
(1997) que, para os últimos vitorianos, a humilhação dos bretões pelos
romanos pode ser contada em pelo menos duas maneiras; primeiramente
pelas histórias de forte oposição dos nativos aos romanos
imperialistas e, em segundo lugar, com a imagem de que a própria
Grã-Bretanha agora se tornou colonizadora de uma parte do mundo maior
do que a dominada por Roma.
A herança da tocha imperial de
“civilização”
A idéia da Grã-Bretanha como herdeira de Roma aparece em
uma grande variedade de fontes, incluindo a história romana das ilhas
britânicas, a natureza da educação clássica e a interpretação do
progresso derivada de uma teoria evolucionária darwiniana. Sob esta
teoria evolucionária do progresso, a Grã-Bretanha poderia ser
considerada não só representante da herança de Roma, mas também sua
valorizadora. J. A. Cramb (professor de História Moderna no Queen’s
College, Londres), em uma aula apresentada em 1900 como reflexão sobre
o significado da guerra de Boer para os britânicos, por exemplo,
argumentou que a Grã-Bretanha teria herdado diretamente o espírito
imperial de Roma, mas teria também particularmente o valorizado.
No início do século XX escritores sempre expressaram
visões semelhantes ao projetar a Europa moderna e, em particular, a
Britânia como herdeira de Roma. O livro popular de J.C. Stobart A
grandeza que era Roma foi publicado em 1912, quando ele era
professor no Trinity College, Cambridge, e o trabalho tem sido
reimpresso até os dias de hoje. Neste livro, o autor argumenta que
Roma preencheu um “destino” ou “função” na história mundial que foi “a
criação da Europa”.
Além disso, a história romana teve uma função. Roma era “a maior força
civilizadora em toda a história da Europa”. Patriotas britânicos
sempre argumentaram que estariam exportando a mais iluminada forma
desta herança da civilização ocidental para diversas partes do globo.
Neste contexto, uma ligação histórica direta entre Roma e
Bretanha fora criada. Em muitos trabalhos eduardianos, o papel
fundamental de Roma na civilização dos bretões é recolocado. No livro
popular infantil de H. E. Marshall, A História de nossa Ilha
(1905), o papel de Roma como aquela que trouxe paz e civilização
depois da conquista de 43 d. C. é considerado: os romanos introduziram
boas casas, estradas, a escrita e o cristianismo.
Desta maneira, a conquista romana de quase toda Britânia tem sido
sempre representada como a chave para a origem da História inglesa ou
britânica. A civilização foi introduzida; estradas, cidades e casas de
campo foram construídas. Na cabeça de alguns autores, uma perspectiva
teleológica foi desenvolvida na qual parece que os romanos teriam
transferido sua própria civilização para a Britânia e a Inglaterra,
por sua vez, civilizava os povos de seu próprio império.
A dominação política e industrial que a Europa exerceu
sobre o mundo no final do século XIX e a teoria do progresso foram
tomados como sustentação para a reivindicação dos europeus como
portadores de um direto moral para liderar outros ramos da humanidade.
Muitos vitorianos tardios influentes reivindicaram que sua sociedade
estava no auge do desenvolvimento social, com todos os estágios
“anteriores” da humanidade colocados em uma progressão linear em
direção a este estado ideal. Também era freqüentemente argumentado que
estes povos iriam progredir para um estado moderno através da
influência do Império Britânico.
Esta tradição redesenhou o passado romano e se tornou parte daquilo se
tornou conhecido como uma perspectiva “eurocêntrica” na qual Roma
teria sustentado uma particularidade singular uma vez que permitiu que
a cultura grega clássica fosse transmitida pelo Ocidente.
Woolf
discutiu a idéia de que o conceito romano de humanitas
tornou-se uma justificativa ideológica para a elite romana que
sustentou a conquista e dominação e, tais fontes clássicas, foram
redesenhadas no final do século XIX e início do XX. Para alguns
autores romanos humanitas era originária na Grécia clássica e
foi espalhada em um mundo maior através da expansão imperial romana.
Representando a cultura grega como o primeiro estágio no processo
universal, autores romanos puderam afirmar a superioridade romana de
maneira que serviu para contradizer a ansiedade cultural.
Estas idéias romanas foram valiosas para a elite européia nos séculos
XIX e XX e produziram o imperialismo europeu. Esta concepção da
superioridade ocidental teve um grande papel no imperialismo. Roma era
interpretada como aquela que trouxe a civilização clássica aos povos
bárbaros ao longo do império e, o ocidente moderno, por sua vez,
redesenhou estes conceitos clássicos imperiais ao definir seus
próprios mitos de origem e propósito imperial.
Neste contexto, os imperialistas ocidentais durante o final do século
XIX e início do XX poderiam argumentar que a transmissão de uma
civilização, importada de seu próprio país pelos romanos clássicos,
ajudou a justificar seus próprios atos imperiais como missões
civilizadoras.
Dúvidas, freqüentemente, eram expressadas sobre a habilidade de
não-europeus absorverem este presente e uma permanente ajudar era tida
como necessária,
mas na cabeça dos colonizadores, isto não invalidava o valor de tal
dádiva.
No entanto, havia um problema, na Inglaterra, com esta concepção
linear de civilização e progresso que relacionou a poderosas imagens
da origem nacional existentes na sociedade vitoriana britânica e que
sobreviveu no século XX aos celtas como indianos e às raízes
teutônicas. A imagem céltica/indiana sugeria que muito pouco da
civilização romana fora transferida para os antigos bretões durante a
ocupação daqueles, enquanto que a imagem teutônica das origens raciais
sugerem que o inglês era, de qualquer forma, descendente dos
teutônicos ou anglosaxões, que teriam eliminado os antigos bretões.
Qualquer tipo de herança da civilização romana fora, portanto,
resultado da educação clássica mais do que qualquer forma de herança
genética. Em última instância, qual era a relevância dos antigos
bretões e romanos clássicos para a história doméstica inglesa?
Anglicidade
A representação da anglicidade tem uma longa
história de desenvolvimento, surgindo a partir das linhagens políticas
emergentes dos anos de 1880 e como resultado, em parte, de uma crise
geral da sociedade urbana.
Uma resposta cultural iniciando nos anos de 1890 e 1900 espalhou
rapidamente pela arte, literatura, música e arquitetura inglesa por
volta de 1914. Iniciando antes da I Guerra Mundial, mas atingindo seu
auge no período entre guerras, desenvolveu um novo movimento de
caçadas ao ar livre quando a vida no campo se tornou uma forma de
lazer acessível.
Esta representação da anglicidade era,
freqüentemente, organizada a partir da concepção de uma população
unida vivendo em uma idílica área rural inglesa no sudeste.
Sugeriu-se que esta era uma história coesiva, oficial e inerentemente
conservadora para ser contada diante da insegurança doméstica e
imperial.
Nos anos de 1920 desenvolveu-se mais como uma resposta da grande
perda de vidas durante a I Guerra Mundial. Uma grande quantidade de
livros de histórias populares, romances e livros para viagem foram
publicados no período entre-guerras com “Inglaterra” em seus títulos e
muitos produziram imagens retrógradas ou passadistas.
A representação de anglicidade em trabalhos de
autores influentes focalizaram o ideal de permanência de uma história
nacional inglesa.
Um grande número de autores no final do século XIX e início do XX
começaram a desenvolver uma imagem de anglicidade que trazia
novas respostas as perguntas sobre a origem inglesa. Esta
representação de anglicidade definiu o inglês como uma raça
misturada da ilha que teve sua herança racial organizada a partir de
diversos povos que viveram na Britânia no passado. A herança racial
derivava, agora, não só dos povos germânicos, mas também dos antigos
bretões, romanos, dinamarqueses e normandos.
Esta herança incluía a inspiração dos valentes e antigos heróis
bretões e também a transmissão da civilização dos romanos clássicos.
Na cabeça de alguns autores do final das épocas vitorianas
e eduardianas, a imagem dos celtas como indianos começou a se
fragmentar como também se concebeu que a civilização clássica romana
teria sido transmitida a população britânica, ao menos em alguns
segmentos. Entre todos estes fatos, dois elementos ajudaram a
desenvolver esta interpretação da origem nacional. Primeiramente,
havia um conceito que Roma transferiu a civilização de antigos povos
aos ingleses do presente e, em segundo lugar, ao menos alguns
descendentes destes antigos bretões civilizados sobreviveram à invasão
anglo-saxã para trazer a civilização a mistura racial que formou a
moderna nação inglesa.
O professor J. Rhys, em seu livro Primórdios da
Britânia – Britânia Céltica, publicado em 1882, escreve sobre a
influência romana nos bretões nativos. Notou a disseminação do
cristianismo, alguns conhecimentos da “instituição municipal” e também
o desenvolvimento da língua latina. Percebeu, no entanto, que boa
parte desta cultura estava restrita as “Fortalezas” das “partes
latinizadas” em York, Lincoln, Colchester e Londres.
H. M. Scarth publicou um livro no ano seguinte entitulado
Primóridos da Britânia – Britânia Romana.
Scarth sugere que os “colonizadores” romanos casaram-se com os
“nativos” e, como resultado, “o sangue romano misturou-se com o da
população e, desde então, flui nas veias inglesas...”
Neste sentido, ao implantar “colônias” romanas resultou em uma grande
mudança “nos hábitos e maneiras da população”.
Isto incluiu a introdução do cristianismo, que nos últimos tempos foi
“revisto e reacendido e, então, se tornou permanente”.
Outros autores exploraram o tópico da contribuição romana para a
civilização inglesa.
Haverfield oferece uma solução clara e intelectualmente
aceitável para este problema de como a civilização romana se espalhou
sobre os antigos bretões. Este autor desenvolveu uma interpretação
persuasiva da Romanização em seu livro A romanização da Britânia
romana, primeiramente publicado em 1905 e reeditado muitas vezes
durante os anos de 1910 e 1920.
De fato, na visão de Haverfield, a antiga Britânia realmente se tornou
romana por meio de um processo conhecido como “Romanização”. Alguns
autores anteriores sugeriram que os habitantes das villae da
Britânia romana eram oficiais de Roma. No relato de Haverfield, no
entanto, muito dos habitantes da elite das fazendas eram tidos como
aqueles que romanizaram os nativos bretões. Haverfield também
argumentou enfaticamente que a idéia de um grande grupo de colonos
romanos vivendo em cidades, fortes e villae entre uma imensa
população de nativos bretões era imprecisa; esta postura ajudou a
erradicar a idéia do celta como indiano.
Como a civilização romana pode ser transmitida para aos
ingleses modernos se os anglo-saxões massacraram todos os bretões
depois da retirada dos romanos? No final das eras vitorianas e
eduardianas, um grande número de autores argumentaram que elementos da
civilização dos romanos passaram para os britânicos modernos devido à
sobrevivência de algumas populações durante a invasão anglo-saxã.
A existência do cristianismo na antiga Britânia e moderna Bretanha e a
suposta sobrevivência de uma para outra, proporcionou parte do
contexto para este desejo de encontrar a continuidade.
As idéias de sobrevivência genética e herança romana
vieram a ter papéis distintos no discurso imperialista do século XX.
Em seu livro O Império Britânico, Sir Charles P. Lucas afirmou
que, embora no século V todos os vestígios das regras romanas
desapareceram, as longínquas terras do norte nas terras altas da
Escócia Britânica se mantiveram mais ou menos unidas sob a
administração romana. Neste contexto, “sangue romano” foi “misturado
com o dos nativos bretões”.
Lucas percebeu que era difícil supor que a futura Inglaterra não se
originaria da “força” deste “povo maravilhoso” que forneceu “lei,
estradas e governo para grande parte do mundo de então”.
Lucas também sugeriu que “o espírito combativo... entrou no sangue
inglês”. O autor afirmou que esta mistura produziu “um povo forte e de
sucesso” e argumentou que “as muitas e grandes diversidades ... no
Império Britânico irá ... ser, em última instância, uma fonte de força
e não de fraqueza”.
Na visão de Lucas, esta herança romana tem um papel imperial distinto
para o inglês no mundo moderno.
Idéias da sobrevivência racial e civilização tiveram um
papel importante nas imagens de anglicidade durante o princípio
do século XX. Lucas adotou uma aproximação quase religiosa na maneira
como as sucessivas virtudes raciais dos bretões, romanos,
dinamarqueses, saxões e normandos se combinaram em uma mistura para
inventar os criadores do Império Britânico.
Mistura racial como fonte para a forte raça inglesa evidentemente teve
um papel distinto na ideologia do propósito imperial. A idéia de que a
população da Inglaterra e Britânia era geneticamente misturada serviu
para proporcionar um mito de origem mais aberto que a imagem
teutônica, uma idéia que poderia servir para criar um maior sentido de
unidade para o povo britânico. Fundamentalmente, a herança do espírito
imperial dos romanos clássicos também deu, é de se supor, ao inglês um
papel distinto na direção da política imperial em contraste com os
galeses e escoceses. O trabalho de Haverfield sobre romanização sugere
que os romanos não civilizaram os galeses e escoceses até o mesmo
nível dos ingleses.
A Britânia romana, por isso, foi significativa na definição do
imperialismo e civilização moderna inglesa.
Depois da I Guerra Mundial, esta idéia da força racial
derivada de uma mistura étnica continuou a ser desenvolvida. Alguns
relatos deste período consideram, com grandes detalhes, as maneiras
nas quais a Bretanha moderna estava relacionada a Roma clássica. Neste
sentido, eles redefiniram o caminho no qual a tocha da civilização foi
transferida entre os dois impérios tão distanciados pelo tempo. Como
resultado, uma forte idéia teleológica das origens nacionais lineares
inglesas continuaram a se desenvolver mesmo depois do final da
Primeira Guerra.
O livro Britânia Romana do arqueólogo e filósofo
Robin G. Collingwood foi publicado em 1923. Considerando a história
pós-romana da Britânia, Collingwood seguiu os autores anteriores ao
argumentar que “uma grande massa de bretões” deve ter sobrevivido à
invasão anglo-saxã, quando cidades e fazendas foram destruídas.
A raça britânica, neste contexto, de acordo com Collingwood, não era
composta somente do sangue saxão, normando e dinamarquês, mas também o
dos antigos bretões. Collingwood continuou especulando que o caráter
expresso no trabalho de grandes artistas ingleses era derivado
diretamente da arte de natureza romano-britânica.
Por meio deste esquema, criou uma concepção linear da história inglesa
tendo como meio o estilo da arte romano-britânica e inglesa moderna.
Stanley Baldwin
apresentou duas comunicações em meados dos anos de 1920 que ajudaram a
identificar o significado do Império Romano para a elite dirigente
inglesa do período. “Sobre a Inglaterra e o Oeste”, apresentado a
Royal Society de St. George em 1924, é a definição e celebração da
anglicidade na qual Baldwin trabalha sobre uma variedade de
concepções, incluindo a da Roma clássica. Referindo-se a Roma,
argumenta que os ingleses herdaram um espírito imperial e a carga do
império dos romanos clássicos. Em sua comunicação presidencial para a
Classical Association em 1926, Baldwin desenvolveu uma idéia da
herança racial romana dos ingleses com muitos detalhes. Iniciou com o
valor dos clássicos para o presente enfatizando a conexão geográfica
entre a Britânia e Roma.
O apelo de Baldwin para a ancestralidade romana dos ingleses parece
ter sido desenvolvido a partir das idéias ressaltadas por Sir Charles
Lucas, no entanto, ressalta a continuidade genética, mesmo mais tarde
ao definir o caráter dos ingleses.
A idéia da ancestralidade romana dos ingleses parece ter
se tornado um tópico importante nos anos de 1920. Arthur Weigall, seu
livro Errantes pela Britânia Romana (1926) expressa um desejo
de demonstrar uma conexão próxima dos britânicos “do presente” e os
romanos.
Os romanos trouxeram civilização para os britânicos, mas “... o sangue
dos romanos” somente passou por 45 pessoas para “atingir nossas
veias...”.
Aceitou que depois da queda de Roma, a chegada dos anglo-saxões e
normandos aumentaram a mistura; no entanto, considerou que o sangue de
diversos romanos está nas veias dos ingleses.
Observando a invasão romana, considerou que ela “introduziu em nosso
sangue algo da ‘grandeza que foi Roma’ que ajudou a enviar-nos a
aventura e conquista de toda a face da terra”.
A popularidade do conceito de origem racial mista, nesta
época, pode ser vista em um contexto de desejo de encontrar uma
ideologia que pudesse unir supostas raças brancas da Inglaterra,
Grã-Bretanha e o Império. Ao mesmo tempo, como pudemos perceber, isto
deu ao inglês um papel imperial diferenciado dentro do Reino Unido,
como herdeiros da civilização imperial romana. Isto pode também, no
entanto, refletir um consenso sobre a crescente ameaça política da
Alemanha neste período e o desejo de criar uma clara distinção racial
entre ingleses e alemães.
Os comentários de Windle, Baldwin e outros
desenvolveram uma série de visões que foram expressadas,
anteriormente, pelos autores eduardianos. A ênfase na inclusão dos
romanos em uma visão geral do caráter inglês, contudo, proporcionou um
novo discurso de anglicidade, como o apelo a uma herança racial
romana parece ter se tornado muito grande nos anos de 1920. Estes
conceitos de anglicidade continuaram a se desenvolver muito bem
ainda no século XX.
Por exemplo, Humfrey Grose-Hodge publicou seu livro Panorama
romano: a base para hoje em 1944, um pouco antes do final da II
Guerra Mundial. Grose-Hodge sugeriu que embora o povo romano tivesse
morrido há muito tempo, a Itália fascista não percebeu o fato. O
caráter do povo romano, no entanto, continuou como “ancestral direto”
dos ingleses.
Afirmou que “... em ações, somos romanos”.
O apelo de Grose-Hodge por uma ancestralidade romana
repete visões anteriores, mas também pode ser vista no contexto do
desenvolvimento do imaginário romano imperial de Benito Mussolini.
Mussolini mencionou diretamente a Roma clássica ao desenvolver suas
próprias ambições imperiais, algumas vezes inclinado em oposição ao
Império Britânico.
Grose-Hodge estava, talvez, procurando conter os esforços de Mussolini
trazendo a civilização clássica romana para perto da Inglaterra. A
civilização romana nos anos de 1940 pode ter sido atrativa para
alguns, mas o imperialismo romano era menos admirado. A luz destes
acontecimentos na Itália, muitos lembraram dos aspectos despóticos da
natureza das regras romanas. Em meados dos anos de 1930 e 1940, Roma
passou a ser vista como modo de despotismo estrangeiro – uma ameaça a
segurança nacional – ao invés de uma grande civilização que
proporcionou morais imperiais.
3.
Resumo:
Embora o mito das origens teutônicas inglesas não tenha desaparecido
de repente no final do século XIX, a imagem de uma herança racial dos
romanos parece tornar-se mais popular durante os anos de 1890 e
aumentando nos anos de 1920. Sugeri que se tornou politicamente útil
para a elite produzir, naquele momento, ambas idéias, a herança da
bravura dos antigos bretões e civilização dos bretões nativos pela
Roma imperial. Carregar a herança dos antigos bretões e dos romanos da
Britânia para o mundo moderno exigiu, ao menos, a sobrevivência de
parte da população romano/britânica durante a conquista anglo-saxã e,
por isso, o declínio do mito teutônico. A idéia da mistura racial
também se tornou aceitável na interpretação arqueológica da História
da Bretanha durante o século XX.
A idéia de herança da civilização romana pelos ingleses teve um
impacto na arqueologia britânica. A. L. F. Rivet, em 1959, comentou
sobre um mito que se desenvolveu no contexto britânico como resultado
do trabalho de Haverfield. Haverfield, por meio de seu trabalho sobre
a romanização, corrigiu uma idéia predominante na qual a Britânia era
uma província habitada por “romanos ricos” (freqüentemente generais)
por um lado e “massas selvagens de bretões servis”.
Conseguiu isto ao apontar que bretões e romanos não eram conceitos
mutuamente excludentes. Rivet sugeriu que o relato de Haverfield
resultou, não por sua falta, em um novo mito da Britânia como “... uma
província tão verdadeiramente britânica que nenhum agricultor
estrangeiro ousaria mostrar sua face nela”.
Rivet não menciona em partes específicas do trabalho que estava
pensando neste contexto, mas alguns escritos de outros autores, que
foram revistos neste artigo, deveriam estar em sua cabeça.
Muitos textos de princípios do século XX possuem uma visão linear e
teleológica da história doméstica inglesa. Alguns relatos parecem
sugerir que os romanos transmitiram para os ingleses uma civilização
romano/britânica singular que conduziu diretamente a Inglaterra
moderna. Como resultado, o espírito inglês é traçado em direção ao
passado romano de uma maneira na qual os nativos puderam adotar a
civilização romana e aperfeiçoá-la em um esforço ativo de criar a
Inglaterra moderna. O bravo espírito dos antigos bretões que se
opuseram a Roma fora incorporado a esta distinta mistura racial
inglesa. Como Rivet enfatizou, algumas gravuras populares da Britânia
romana deu uma visão nacionalista de uma província britânica
civilizada – um conceito inerentemente excludente. O interesse sobre
linhas de continuidade na vida nacional da Inglaterra estruturou
trabalhos acadêmicos e populares e a Arqueologia romana teve um papel
distinto. Teorias arqueológicas e objetos recolhidos por meio da
prática arqueológica ajudaram a justificar as imagens de
anglicidade.
David Braund argumentou que os estudos romano-britânicos não foram
menos insulares do que se objeto. Por todos os lados, a ilha formou
uma proteção para um grupo de estudiosos claramente definidos que
conduziram trabalhos de um tipo específico. Estes comentários ecoam os
de Rivet. Imagens populares produziram uma pintura da província tão
britânica que nenhum romano ousaria pisar nela e a teoria arqueológica
se desenvolveu, talvez, sobre uma ampla base comparável. O auto
controle e exclusivo caráter dos estudos romano/britânicos foi
construído, ao menos até determinado nível, sobre o valor distinto da
Arqueologia romana para os britânicos no cotidiano do Império.
Acredito que ambos, a imagem popular e as interpretações
arqueológicas, refletem um caráter comum, um interesse com relação a
origem nacional inglesa.
O trabalho de Haverfield teve a maior influência no desenvolvimento
desta ênfase nacionalista na Arqueologia romana sobre a Britânia. A
teoria de Haverfield sobre a Romanização serviu para sustentar uma
tradição que se desenvolvia em seu tempo. Proporcionou credibilidade
acadêmica para a idéia que uma ligação racial direta levava a
civilização romana até a moderna Inglaterra. O trabalho de Haverfield
foi utilizado por outros estudiosos de uma maneira não pretendida por
ele;
de fato, os comentários de Rivet sugerem que este é o ponto. É
provável, no entanto, que o trabalho de Haverfield fora inspirado em
um desejo inconsciente de estabelecer linha de continuidade na
história nacional por meio da herança da Inglaterra da civilização
européia. Isto pode ter gerado um caminho lógico para desenvolver uma
idéia de romanização no período eduardiano, mas argumentaria que tais
interesses sobre a herança da civilização ocidental criaram uma ênfase
nacional particular na aproximação da Britânia romana e a identidade
ocidental.
Estudiosos modernos que estudaram a Britânia romana herdaram esta
ênfase nacional e gostariam, agora, de reconsiderar tais aproximações
ao passado romano. A reintegração dos estudos romano/britânicos nos
estudos clássicos mais amplos serve para questionar este problema,
mas para procurar acabar com esta situação, é fundamental que aspectos
eurocêntricos da Arqueologia Clássica também sejam objeto de uma
crítica adequada.
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