Publicado
em: Pedro Paulo Abreu
Funari, Política e riso em Pompéia: ensaio sobre a crítica
social popular, Hector Benoit & Pedro Paulo A. Funari (orgs),
Ética e Política no Mundo Antigo, Campinas,
IFCH-UNICAMP/FAPESP, 2002, ISBN85-86572-X., 117-132.
POLÍTICA E RISO EM POMPÉIA: ENSAIO SOBRE A CRÍTICA SOCIAL
POPULAR
Pedro Paulo A. Funari
INTRODUÇÃO:
RISO E POLÍTICA
A política é o campo das relações de
poder, originalmente no interior da cidade, entendida como
“vida em comunidade”.
Há dois aspectos deste poder político, sua face de força bruta
e material que se impõe por meios físicos, aquilo que os
gregos denominavam krátos,
assim como havia o poder derivado do prestígio e da
autoridade, a arkhé.
Uma diferenciação semelhante ocorria na terminologia latina,
que opunha imperium a auctoritas e potestas,
pois imperium referia-se a forçar alguém a fazer alguma
coisa,
enquanto o poder derivado da aceitação social era a
auctoritas
e a potestas, o poder estabelecido pelas leis e
normas sociais, não absoluto e físico.
Estas diferenças devem ser levadas em conta, quando buscamos
estudar a política na Antigüidade, pois quando se investiga
uma sociedade impõe-se compreender como se organizavam os
campos semânticos e quais os motivos de se utilizarem termos
específicos, como lembra Christian Meier, citando Bertold
Brecht.
Neste ensaio, não tratarei senão da política em seu sentido
social, relativo ao prestigio, a partir da crítica social ao
poder que advém do riso.
Há tempos, Henri Bergson começava seu
livro clássico sobre o riso, lembrando que “para compreender o
riso, impõe-se situá-lo em seu meio natural, que é a
sociedade; é, principalmente, necessário determinar sua função
útil, que é uma função social”.
Desde o século XIX, já se estudou bastante as expressões
cômicas dos antigos, sobretudo a partir de análises mais ou
menos exaustivas dos autores antigos e, ainda que reste
estudá-la segundo as teorias mais recentes, as fontes
literárias antigas são bem conhecidas. Insiste-se, agora, em
estudar os problemas, antes que reapresentar a evidência da
tradição textual.
Como arqueólogo, historiador e epigrafista, parece-me que há
toda uma categoria de documentação antiga pouco explorada: as
inscrições pompeianas, os grafites cuja importância não pode
ser negligenciada, pois revelam os sentimentos dos romanos
mais humildes.
Os pobres, tão pouco visíveis na literatura antiga,
apresentam-se, de forma direta, nessas manifestações
parietais. Assim, meu objetivo, neste artigo, consiste em
discutir alguns grafites em uma perspectiva que busca
demonstrar como o riso liga-se à exageração e à critica ao
poder.
A mobilização de uma documentação original visa propor uma
nova interpretação sobre a relação entre riso e poder,
entre as classes baixas romanas.
Marcel Mauss já havia definido o
popular como “tudo o que não é oficial”, enquanto Mikhail
Bakhtin propôs que a cultura popular seja caracterizada pelas
brincadeiras – o riso cômico (narodnii smekh) – bem
como por insultos mágicos.
Esta cultura popular não pode ser considerada como simples
redução empobrecida da cultura erudita, como se faz com
freqüência,
e parece mais útil considerar as culturas populares e eruditas
como expressões interdependentes mas diferentes.
Não há, entretanto, um definição ontológica da cultura popular
em geral, ainda que Benedetto Croce tenha pensado que fosse
possível distinguir a elaboração e a reflexão eruditas do
imediatismo e simplicidade do popular.
A noção do popular é, assim, fluida e, talvez, uma
generalização possível seja, justamente, a exageração
expressiva, como se nota pelos pleonasmos, tão populares.
Neste artigo, trato, tanto de mensagens verbais como de
desenhos que induzem ao riso e à crítica social.
RISO E PODER
NAS PAREDE POMPEIANAS: PALAVRAS, DESENHOS E CRÍTICAS
Há, em Pompéia, inscrições mais ou
menos cômicas, compreensíveis porque não dependem diretamente
de nosso conhecimento dos contextos específicos, hoje
perdidos. Muitas vezes, o sorriso é o resultado de uma
situação antes hipotética, ainda que enraizada nas
preocupações tipicamente populares, como são os assuntos de
taberna. Assim, um grafite informa que:
CIL
IV 3948
Talia te
fallant
Utinam
mendacia copo
Tu vedes
acuam et
Bibes ipse
merum
“Chega de mentiras, taberneiro: você
vende água, mas você mesmo bebe vinho!”.
De maneira semelhante, encontra-se uma outra inscrição sobre o
vinho mas, desta vez, trata-se de uma crítica mais genérica
aos famosos produtores vinícolas pompeianos:
CIL IV 8903
Viator
Pompeis pane
gustas
Nuceriae
bibes
Nucer..
(FIGURA)
“Passante, em Pompéia você saboreia o pão, beba o vinho em
Nuceriae”. Esta “carta engraçada”, nas palavras de Matteo
della Corte,
joga com o orgulho dos pompeianos, tratando de um tema
tipicamente de interesse popular. Da mesma maneira, lemos:
CIL IV 4957
Miximus in
lecto, fateor, peccauimus, hospes.
Si dices
quare: nulla matella fuit.
(FIGURA)
“Urinamos na cama, confesso, cometemos
uma falta, hospedeiro. Se você pergunta a razão, é porque não
havia pinico!”. As três mensagens criticam, pois, um
comerciante, os produtores de vinho e o dono de uma
hospedaria. Havia crítica sociais mais contundentes e diretas,
como esta inscrição sobre um cavaleiro romano:
CIL IV 4533
G. Hadius
Ventrio
Eques
natus romanus inter
Beta et
brassica
(FIGURA)
“G. Hadius Ventrio, cavaleiro romano
de nascimento, entre a acelga e o repolho”, alusão às
conseqüências digestivas desses alimentos e que lembram a
preocupação de um personagem de origem servil, Trimalcião.
A crítica social ao natus (“de nascimento”) não pode
ser subestimada, considerando o valor atribuído ao status
da herança da situação social, que implicava que não se havia
comprado sua posição social.
As crítica aos poderosos podia atingir o ápice do poder, como
no caso de uma irônica referência ao próprio imperador:
CIL IV 8075
Cucuta ab
rationibus
Neronis
Augusti
(FIGURA)
“O ministro de finanças de Nero
Augusto é o veneno”, alusão à prática de induzir que homens de
posses se suicidassem e deixassem suas fortunas para o próprio
imperador. Na mesma linha, também os potentados locais
mereciam críticas, como é o caso de Rufo,
um personagem de importante família da elite pompeiana,
retratado de forma caricatural, com traços risíveis
ressaltados, como a calvície, a orelhinha, os lábios de
desdentado:
CIL IV 9226
Rufus est
(FIGURA)
“Este é Rufo”. Ou, ainda, atingia-se
um personagem histórico, Sulla, responsável pela criação de
uma colônia de cidadãos romanos, em Pompéia, e cujos veteranos
instalaram-se na cidade, na década de 70 a.C., e passaram a
ocupar lugares de destaque na vida social:
CIL IV 9099
Sulla
felix? Infelix!
(FIGURA)
“Sulla era sortudo e felix? Era
azarado e infeliz!”, um jogo de palavras com o epíteto do
general romano, que se dizia felix para que angariasse
o apoio de seus soldados, atraídos pela sorte e a felicidade,
sentido da palavra felix.
Outra categoria de críticas baseadas
na exageração refere-se àquelas de cunho sexual,
intimamente relacionado ao poder, em uma sociedade patriarcal
como a romana.
Assim:
CIL IV 10150
Cum dedusisti
octies, tibi superat, ut habeas sedecies. Coponium fecisti.
Cretaria fecisti. Salsamentaria fecisti. Pistorium fecisti.
Agricola fuisti. Aere minutaria fecisti. Propola fuisti.
Laguncularia nunc facis. Si cunnum linxseris, consummaris
omnia.
(FIGURA)
“...completou já oito vezes, você
superará dezesseis. Trabalhou como taberneiro; trabalhou como
oleiro, salameiro, padeiro, agricultor, bronzista de
quinquilharias, vendedor ambulante; agora é oleiro de
vasinhos. Para completar, só falta praticar o cunilíngua”.
Ou ainda:
CIL IV 8767
Floronius
Binet ac
miles
Leg.uii
hic
Fuit,
neque
Mulieres
Scierunt,
nisi
Paucae, et
Ses, erunt
(FIGURA)
Esta inscrição foi interpretada de
diversas formas pelos autores que a estudaram. Herescu
leu suas linhas finais como hic fuit neque mulieres
scierunt nisi paucae sederunt, “passou por aqui, mas as
mulheres não perceberam, à exceção de algumas, e elas
sentaram”, em sentido erótico.
Contudo, parece-me paleograficamente difícil aceitar a
susgestão de Herescu e, além disso, pode-se questionar se
sedere, em sentido erótico, apareceria nas paredes de
Pompéia, quando, normalmente, expressava-se o ato sexual de
maneira muito mais crua e direta, com o verbo futuere.
Considero, pois, mais razoável uma interpretação diversa, como
uma zombaria machista: “Florônio, garanhão e soldado da sétima
legião, esteve aqui (sc. nesta taberna), mas as mulheres não
notaram sua presença...contudo, eram apenas seis, poucas para
um garanhão como este”. Poder-se-ia dizer que o sorriso que
resultaria da leitura desta inscrição tinha, ainda, um caráter
apotropaico, a julgar por outras referências parecidas,
estudadas em outro lugar.
Estas inscrições engraçadas, com conotação sexual, eram as
mais populares em Pompéia e relacionam-se, de uma forma ou de
outra, às relações de poder, pois em uma sociedade clivada
pelas assimetrias entre os gêneros, o riso era um mecanismo de
exercício de contrapoder.
Em diversos casos, o riso era o
resultado do caráter visual da mensagem, ainda que se possa
supor que as imagens pudessem ser faladas ou completadas por
gestos. É o caso da inscrição seguinte:
CIL IV 4498
Thyas.
Noli.
Amare
Fortunatu
(phallus)
Vale.
(FIGURA)
Pode supor-se que o pênis, símbolo do
poder masculino, podia ser lido como uma palavra, mais ou
menos chula (uerpa, mentula, phallus), ou como um gesto
obsceno. A tradução poderia ser algo como: “Thyas não quis
amar Fortunato; saudação do seu pênis!”. Naturalmente, não se
sabe se a palavra empregada, uerpa, mentula ou
phallus, estaria no nominativo ou no acusativo e, assim,
deve admitir-se, também, outra leitura: “Thyas, tome o pênis”.
De toda forma, a relação entre riso e poder está clara.
Utilizava-se, ainda, de desenhos
cômicos, alguns com mensagens escritas adicionadas, recolhidas
no Corpus Inscriptionum Latinarum, como a caricatura
que segue:
CIL IV 10008
Amarantho
sal(utem)
Sal(utem)
(FIGURA)
Trata-se de uma comparação entre um
belo jovem, à esquerda, e um feio homúnculo. Na maioria dos
casos, são caricaturas também sexuais, mas sempre cômicas e
relacionadas ao poder masculino:
CIL IV 10222
Promus
felator
(FIGURA)
Ou ainda,
Peregrinus
(FIGURA)
Nasso
Fadius
(FIGURA)
Desenho
anônimo
(FIGURA)
Estas caricaturas dependiam da
exageração de alguns traços físicos risíveis, como a calvície,
os cabelos mal penteados,
lábios muito finos,
nariz muito grande,
enquanto outros traços eram engraçados por sua associação com
a efeminação, como as orelhinhas.
Em todos os casos, estes atributos ligam-se ao poder, pois
calvície denota a autoridade derivada da idade, assim como o
narigão, o queixo pronunciado, de forma que o exagero destes
atributos deve-se à busca de criticar os poderosos. Os
grafites aqui estudados podem ser divididos em dois grandes
grupos: aqueles que criticam indivíduos e os grupos sociais em
que se situam e aqueles, de caráter sexual, que se referem às
relações de poder, em um contexto de oposição entre homens e
homens, e entre homens e mulheres. Isto fica mais claro no
quadro a seguir:
RISO E PODER
CRÍTICA A
INDÍVIDUOS COM PODER:
CIL IV 8075
(Imperador)
CIL IV 9226
(Rufo, um homem da elite local)
CIL IV 4533
(G. Hadius Ventrio, um equestre)
CRÍTICA A
INDIVÍDUOS QUE REPRESENTAM CATEGORIAS SOCIAIS E CATEGORIAS
SOCIAIS
CIL IV 3948
(Taberneiro)
CIL IV 8903
(Taberneiros pompeianos)
CIL IV 4957
(Donos de hospedarias pompeianas)
CIL IV 8903
(Vinicultores pompeianos)
CRÍTICA DE
CARÁTER SEXUAL
CRÍTICA A
CATEGORIAS SOCIAIS
CIL IV 10150
(Diversas categorias sociais de tipo liberal)
CRÍTICA DE
HOMENS A MULHERES
CIL IV 8767
(Seis mulheres que freqüentavam uma taberna)
CIL IV 4498
(Thyas)
CRÍTICA DE
HOMENS A OUTROS HOMENS
CIL IV 10008
(Amaranto)
CIL IV 10222
(Promo)
Peregrino
Nasso Fádio
Anônimo
As relações humorísticas podem ser
encaradas como produtos de relações de poder e de sua
contestação,
atuando como uma verdadeira “chave para abrir os significados
guardados pelos grupos sociais”.
Em uma pequena cidade romana como Pompéia, o uso das paredes
para questionar as relações políticas, no sentido adotado
neste artigo, permite observar que, mesmo os humildes, podiam
se manifestar sobre as relações de poder e o faziam com
regularidade. Suas investidas irônicas, por vezes toscas e
utilizando-se de um latim muito próximo da língua falada, não
deixa dúvidas quanto a sua vivência popular. As críticas
alcançavam os mais importantes dignitários, como o próprio
imperador, mas eram os micro-poderes locais a merecerem maior
interesse e a sofrerem maiores críticas. Longe de serem
passivos, reprodutores da ideologia dominante, imitadores dos
padrões da elite, as críticas ao poder afloram, nas paredes de
Pompéia, em expressões humildes, mas nem por isso menos
representativas de uma grande maioria.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos colegas Marie-Laurence
Desclos, Marc Mayer e Jean Paul Molinari, ainda que a
responsabilidade restrinja-se ao autor. Devo mencionar, ainda,
o apoio do CNPq (processo 306002/88-4).