Arqueologia, História e Estratégia
home | História Militar | História Antiga | Arqueologia, história e estratégia | Currículos | Contato
 

 

 

Publicado em: Hector Benoit e Pedro Paulo A Funari, Apresentação, Hector Benoit & Pedro Paulo A. Funari (orgs), Ética e Política no Mundo Antigo, Campinas, IFCH-UNICAMP/FAPESP, 2002, ISBN85-86572-X., 5-8.

 

Ética e Política no Mundo Antigo

INTRODUÇÃO: O MUNDO ANTIGO E SUA ATUALIDADE

Héctor Benoit e Pedro Paulo A. Funari

 

                        Este livro resulta de alguns anos de atividades do Centro de Pensamento Antigo. Desde 1995, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas conta com centros de pesquisas e um dos primeiros a serem oficializados foi o Centro de Estudos e Documentação sobre o Pensamento Antigo Clássico, Helenístico e sua Posteridade História (CPA). O Centro surgiu com uma proposta inter e transdisciplinar, congregando pesquisadores de áreas como  Filosofia,  História,  Arqueologia, Letras, visando uma atuação conjunta, no âmbito acadêmico, tendo em vista fomentar a discussão crítica do estudo e conhecimento do mundo antigo. Em nosso meio e alhures, a aridez o distanciamento das realidades contemporâneas levaram a uma perda de relevância dos estudos clássicos, no seio das Ciências Humanas e na sociedade, em geral. Nas últimas duas décadas, no entanto, tem surgido uma crescente preocupação com abordagens críticas do mundo antigo, buscando mostrar os liames, muitas vezes desconhecidos ou subestimados, entre as realidades contemporâneas e o mundo antigo. Preocupações como essas já estavam presentes em Moses Finley e em Arnaldo Momigliano, dois grandes estudiosos da Antigüidade que, não por acaso, tornaram-se clássicos também no estudo dos percursos epistemológicos nossos contemporâneos, em temas como a escravidão, a democracia e a historiografia.

 

                        Neste contexto, o CPA tem promovido atividades de pesquisa de diferentes tipos e em diversos âmbitos.  Seminários de pesquisa, com a participação de docentes e alunos, têm permitido uma discussão substantiva dos mais variados temas. Colóquios, com a participação de alunos, docentes e pesquisadores de outras universidades, nacionais e estrangeiras, têm também ocorrido regularmente, o que tem favorecido uma maior troca de experiências em termos locais e internacionais. Desde 1996, o CPA publica uma revista semestral, Boletim do CPA, órgão de divulgação de pesquisas na área. A publicação, agora, deste livro visa, antes de mais nada, preencher uma lacuna na bibliografia especializada. Essa lacuna refere-se, em especial, à junção, em um volume, de abordagens inter e transdisciplinares e de autores nacionais e estrangeiros. Têm sido publicados excelentes livros de Filosofia, História, Letras e Arqueologia, tanto de estudiosos brasileiros como traduções. Sentimos, no entanto, falta de uma obra que congregasse estudos historiográficos, como o trabalho de José Antônio Dabdab Trabulsi, sobre os positivistas, de Norberto Luiz Guarinello e Fábio Joly sobre o tratamento que os especialistas têm dado ao principado de Nero, com análises sobre o poder a partir de uma junção de fontes materiais e literárias, como é o caso dos capítulos de Maria Luíza Corassin, Victor Revilla, Elaine Hirata, Maria Isabel Fleming e Pedro Paulo A. Funari. O minucioso estudo de Olivier  sobre Arqueologia francesa sob o regime de Vichy encontra-se na confluência das análises historiográficas e empíricas, se assim se pode dizer, sobre a construção de um discurso sobre o mundo antigo.

 

                        Na mesma linha, os trabalhos filosóficos deste volume, sem pretender qualquer totalização de temática tão complexa, estudam aspectos da reflexão ético-política antiga em diversos momentos de sua manifestação. Cinco capítulos são voltados para o período clássico, concentrando-se nas obras fundadores de Platão e Artistóteles, com contribuições de Thomas Robinson, Francisco Bertelloni, Lígia Watanabe, João Lima e Héctor Benoit. Outros três capítulos captam a meditação antiga em momentos menos estudados: Michel Fattal volta-se para Heráclito, aquele que chora diante do devir, recusando-se a legislar a cidade; João Quartim de Moraes dedica-se à Filosofia epicurista, momento de declínio da cidade antiga; Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, situando-se nos últimos séculos do paganismo, medita sobre Porfírio, que introduz o riso, como exemplo do que é próprio ao ser humano.

 

                        Os fios condutores deste volume, portanto, encontram-se, precisamente, na heterogeneidade inevitável de temáticas, metodologias e objetivos e que refletem o caráter plural das abordagens ao tema da ética e do poder. A dialética entre presente e passado, os debates historiográficos e as múltiplas vias de acesso ao mundo antigo fornecem ao leitor uma painel amplo das questões em curso nos diversos campos de estudo sobre o mundo antigo. Este volume terá satisfeito seus objetivos se levar não a respostas, mas a novas indagações, se motivar o leitor a ultrapassar os limites formais das disciplinas tradicionais, em busca de um olhar crítico e transdisciplinar do mundo antigo.