A ANTIGÜIDADE, O MANIFESTO E A
HISTORIOGRAFIA CRÍTICA SOBRE O MUNDO ANTIGO
PEDRO PAULO A FUNARI
Há
cento e cinqüenta anos, em fevereiro de 1848, Marx e Engels
publicavam o Manifesto Comunista, obra que revolucionou a
História política moderna e que, após tantas transformações
sociais, continua atual. Recentemente, Alain Touraine
propôs que bastaria substituir “burguesia” por “globalização”
e eis o mundo atual descrito por Marx, a ressaltar, pois, a
pertinência do Manifesto para compreender o mundo capitalista.
Outros prefeririam concluir que “a luta de classes chegou ao
fim e com ela o Manifesto Comunista também perdeu sua força”,
como prefere Robert Kurz.
Neste contexto, haveria sentido em se buscar a atualidade do
Manifesto para a compreensão da Antigüidade Clássica, talvez o
ponto tratado com maior brevidade e menor profundidade? A
resposta, naturalmente, dependerá da acepção que se tenha da
vitalidade de uma obra como essa. Se por vida tomarmos o seu
oposto, a literalidade, a exegese e a descoberta de verdades
inefáveis que já se encontrariam em um corpus hermético
a ser decifrado por iluminados, então, a resposta só poderá
ser negativa. Por outro lado, se tomarmos a vitalidade em sua
acepção mais profunda, de movimento que se modifica a cada
instante, se retomarmos o sentido último da Kritik
proposta por Marx, então poderemos perceber o quão pertinentes
foram as observações do Manifesto.
As duas atitudes mentais
mencionadas, o apego exegético à forma externa do marxismo e o
uso da crítica marxista, podem ser bem exemplicados com
as diferenças entre a esterilização dos esquemas sobre a
Antigüidade, em autores como Kiakov e Kovaliev
e uma infinidade de estudos que, de uma ou outra forma, se
informam na crítica marxista. Não me parece relevante tratar
daquela corrente, senão como exercício historiográfico,
seguramente importante, mas cuja posteridade e, pois,
vitalidade não se concretiza. Nesta ocasião, tratarei de
mostrar como as discussões sobre o funcionamento e
transformações do mundo antigo têm tocado em questões
apresentadas, justamente, no Manifesto, a começar de suas
primeiras frases, que se referem, de forma explícita, à
Antigüidade:
“A História de todas as
sociedades que existiram até hoje tem sido a História da luta
de classes. Livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e
servo, mestre de corporação e jornaleiro, numa palavra,
opressor e oprimido, em constante oposição, têm vivido numa
luta ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma luta que
terminou, sempre, um uma transformação revolucionária da
sociedade inteira, ou pela ruína das classes em luta. Nas
primeiras etapas da História, encontramos, quase por toda
parte, uma complexa divisão da sociedade em várias ordens, uma
graduação variada de posições sociais. Na Roma antiga,
encontramos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos”.
Menos de sete anos antes, em
abril de 1841, Marx havia defendido in absentia sua
tese de doutoramento em Jena sobre a diferença entre a
Filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro,
trabalho que já nos está a demonstrar, a um só tempo, a
erudição clássica de Marx e sua preocupação com o mundo
contemporâneo. De fato, a própria escolha do tema de sua tese
tinha por objetivo compreender a situação filosófica após
Hegel, por meio de um exame aprofundado de um período
comparável da história da filosofia grega, o período
helenístico.
O cerne do interesse de Marx encontrava-se, não casualmente,
na Kritik, com objeto imediato em Epicuro, para, daí,
exercer uma crítica filosófica, de início, e revolucionária,
em seguida.
Para Marx, pois, a leitura das obras latinas e gregas em seu
original, para além do deleite que, aqui ou ali, deixa
transparecer,
estava a servir à causa da crítica do contemporâneo.
A primeira questão, pois,
refere-se ao caráter da classe da sociedade antiga e às
contradições decorrentes. Os paradigmas dominantes, no estudo
do mundo antigo, não têm hesitado em adotar um ponto de vista
das elites, no presente e, portanto, no passado. A própria
linguagem utilizada demonstra o comprometimento da
historiografia tradicional, como quando um autor americano
propõe que “a superioridade (sic) cultural romana
bastou para romanizar inteiras províncias <pois havia> uma
mágica (sic) associada aos membros da civilização
dominante”.
Trata-se, naturalmente, da transposição da suposta
superioridade e mágica dos americanos, que tudo
“americanizariam”, a servir de modelo para o estudo do mundo
antigo. A historiografia marxista, por sua parte, não
deixaria de denunciar esse conservadorismo um pouco ingênuo,
ao estudar o mesmo fenômeno de aculturação, pois a adoção de
costumes romanos, por parte das elites locais,
representava, antes de mais nada, uma estratégia para manter
sua hegemonia no interior da sociedade em suposta aculturação.
Suposta, pois as aristocracias locais não buscavam tornar-se
romanas, como tampouco hoje um americanófilo tenta ser
americano, mas almejavam mostrar-se superiores, ao imitarem o
dominador. Em sociedades em que as classes baixas falavam uma
língua vernácula,
o latim servia como arma de poder, assim como, hoje, o uso do
inglês, em ambiente local, pode servir para diferenciar uma
elite “de primeiro mundo”, de um lado, e os locais, de outro.
De qualquer forma, o que nos interessa, aqui, é que apenas a
consciência da existência de classes e seus interesses permite
transcender o discurso conservador do senso comum.
O modelo historiográfico
dominante mais bem articulado e difundido funda-se em uma
interpretação, de raiz weberiana, propugnado, originalmente,
por Moses Finley e hoje consolidado na chamada “Escola de
Cambridge”. Assim, os conceitos de estatutos jurídicos e de
continuum de gradação social esvazia não só o conceito
marxista de classe como, em decorrência, a possibilidade de
análise das clivagens e lutas de classes na Antigüidade.
Mais que conflitos, assim, haveria acomodação, sujeição,
aceitação dos destinos e valores atribuídos, pela elite, ao
restante da população. Sem negar a pertinência das
diferenciações de ordem jurídica, ou mesmo a importância do
status nas relações sociais no mundo antigo, William V.
Harris, ressaltaria que:
“Em todo caso, confesso que não
ficaria horrorizado com o pensamento de que a maioria dos
escravos e praticamente todos os assalariados – um grupo mal
conhecido – pode ser considerado como membros de uma mesma
classe social, a despeito das diferenças entre eles”.
Esta proposta teórica de Harris
encontra respaldo em estudos específicos, pois que uma
categoria social importante do mundo romano, o mercennarius,
ou “assalariado”, que se pensava, por analogia com o mundo
moderno, ter sido um homem livre, na verdade, era, geralmente,
um “escravo assalariado”.
A historiografia marxista tem insistido, na esteira do
Manifesto, na aplicabilidade do uso do conceito de classe para
estudar as sociedades humanas, bem como na importância da
bipolaridade
entre apropriadores e apropriados, elite e povo, estes tão
magnificamente chamados, por Walter Benjaumin, de
geknechteten, “aqueles que servem, escravos”, termo usado
para designar todos os explorados do passado, escravos,
servos, operários
De fato, à diferença dos modelos normativos de cultura,
que buscam a continuidade das relações sociais, a submissão
dos grupos e dos indivíduos às regras sociais, o marxismo tem
sempre ressaltado que os interesses e os conflitos são
características inerentes à vida em sociedade. Estudiosos das
sociedades arcaicas, como Randall McGuire e Dean J. Saitta,
têm demonstrado como o conceito de classe é apropriado para o
estudo de todas os tipos de sociedades, pois mesmo
grupos pré-históricos, mal definidos como “simples”,
podem ser considerados como igualitários e estratificados a um
só tempo e, pois, com relações de classe.
Já nas sociedades com divisão de classe, na qual os
produtores de trabalho mais-valia e os apropriadores são
distintos,
como no que se refere ao mundo romano, as contradições de
classe podem assumir contornos violentos, em particular nas
lutas dos escravos, estudados, em particular, pelos
historiadores marxistas japoneses.
Além disso, os conflitos de classe atingiam, também, os
dominantes, como destacado pela historiografia crítica.
Em seguida, admitida a
inevitável existência de conflitos, pode passar-se para a
dominação. Tradicionalmente, também, o historiador tratou do
passado a partir das idéias da elites,
aceitando, muitas vezes, seus esteriótipos e visões de mundo
comprometidos com seus interesses.
Ademais, os próprios historiadores da Antigüidade Clássica,
às vezes imersos, como vimos há pouco, em sua própria cultura
de elite, consideraram natural que, no passado, como hoje, as
elites ditassem comportamentos e idéias. No próprio interior
do marxismo, entretanto, uma leitura parcial do famosa
proposição, segundo a qual “as idéias dominantes de uma época
sempre foram as idéias da classe dominante”,
fez com que se aceitasse que uma única ideologia seria
prevalecente. De fato, as idéias dominantes são aqueles
constructos ideológicos da elite que esta tenta impor,
para que possa dominar. Dominantes, portanto, não por que
sejam prevalecentes, mas por que buscam estabelecer a
dominação de classe.
A ideologia dominante burguesa
e moderna, no entanto, não deixaria de influenciar diversos
estudiosos marxistas da Antigüidade. Um caso paradigmático
consiste, justamente, na leitura reducionista da frase, acima
citada de Marx, para afirmar que o desprezo que a elite antiga
sentia pelo trabalho manual, explícito nas fontes eruditas
antigas, seria compartilhado, como parte da “ideologia
dominante”, pelos próprios pobres e escravos.
Ellen Meikins Wood
estudou a criação do mito da plebe
ociosa, no mundo contemporâneo, e como se aplicou essa leitura
aos próprios autores antigos. Na verdade, a própria noção de
modo de produção escravista foi concebida, em muitos casos,
como meio de sustentação de um paradigma, na realidade,
elitista. Neste sentido, o estudo e a valorização das
elaborações culturais populares, daquelas camadas sociais da
Antigüidade que não seriam apenas ignaras ou imitadoras da
elite, está a indicar a fecundidade de uma abordagem menos
parcial e redutora da História àquela dos dominantes.
Não se trata, entenda-se, de esquecer o entrelaçamento
inevitável entre as classes sociais, nem muito menos de
enaltecer as classes subalternas e suas manifestações
políticas e culturais como contraposição àquelas dos
dominantes, posições não apenas redutoras da realidade como
incapazes de explicar sua inevitável interação.
Um aspecto do mundo antigo tem
causado particular discussão e se refere ao papel desempenhado
pela economia, na sociedade antiga, e a produção de
mais-valia. Marx, n’ O Capital, não hesitou em descrever a
economia antiga como, em determinados momentos, ao menos,
voltada para a produção para o mercado, a despeito da
existência da escravidão:
“No mundo antigo, a ação do
comércio e o desenvolvimento do capital mercantil levam,
sempre, a uma economia escravista; ou, segundo o ponto de
partida, pode chegar à simples transformação de um sistema de
escravidão patriarcal, orientado à produção de meios diretos
de subsistência, em um sistema voltado para a produção de
mais-valia”.
A historiografia aferrada a
uma leitura da História a partir dos pontos de vista da elite
tem ressaltado que haveria uma alteridade radical entre a
racionalidade capitalista e uma visão de mundo aristrocrática
e pouco afeita a preocupações comezinhas, no mundo antigo.
Isto explicaria a pouca atenção que prestariam à busca do
lucro, as interdições, de caráter legal e de prestígio, à
prática de atividades lucrativas e, em termos gerais,
determinaria uma vida social dominada pela honra, antes que
pelo interesse econômico.
Desinteressados, aristocratas, e mesmo simples camponeses,
pouco teriam atentado para os possíveis benefícios que
aufeririam de uma mais racional exploração da mão-de-obra. Nas
palavras de Finley, “dado que o camponês não pode despedir os
membros de sua família”, não lhe resta a possibilidade de
maximizar o lucro e minimizar os custos, gerando uma
irracionalidade inevitável.
Haveria, pois, uma “psicologia da vida ociosa” a impedir a
racionalidade econômica.
No entanto, essa subestimação do cálculo e dos
interesses econômicos dos antigos, já ressaltado por diversos
observadores,
tem encontrado inúmeros estudos de caso que contraditam suas
assertivas. Assim, os agricultores antigos calculavam seus
“lucros” e “perdas”,
“proprietários rurais escravistas que visavam à produção no
melhor dos seus interesses, ao desenvolvimento das culturas
rentáveis que lhes permitissem vender o mais possível”.
Diferentes estudiosos mostraram a importância dos mercados
locais
para a troca, a longa distância, de produtos excedentes, bem
como dos bancos,
enquanto as estradas, por tanto tempo consideradas de uso
exclusivamente militar e estratégico, têm sido interpretadas
como importantes artérias econômicas.
O assentamento humano, na Antigüidade, seguia padrões de
circulação e de troca de mercadorias
e “o livre mercado romano deve ter tido uma extensão muito
mais ampla do que se admitia até há pouco”, nas palavras de
Lietta de Salvo,
ainda que fatores políticos, redistributivos, não possam ser
deixados de lado.
A própria mediação política, por sua parte, explica-se pela
configuração das relações econômicas antigas: “as condições
econômicas de então explicam porque é que a política
desempenhava o papel principal”.
Em outros termos, a distribuição política de recursos, em
particular para grupos privilegiados, como os soldados ou a
plebe, no caso do mundo romano, não pode ser entendida senão
como reflexo de estruturas e interesses econômicos dos atores
sociais em embate.
O Manifesto, em conclusão, abriu perspectivas
genéricas de uma leitura crítica da História. Neste sentido
amplo, pode afirmar-se que os estudos modernos não deixam de
dialogar com concepções da História radicadas nas reflexões
nele contidas. A historiografia moderna que enfatiza a
alteridade, ao descrever a sociedade antiga como
essencialmente baseada no status e na honra, não deixa
de construir seu discurso em oposição ao marxismo,
mantendo-o, pois, como referencial. Por outro lado, os
inúmeros estudos que têm tratado dos interesses das classes em
confronto, bem como da complexa relação dialética entre as
interpretações e realidades atuais e aquelas referentes ao
mundo antigo, buscando uma práxis auto-reflexiva,
estão a demonstrar a vitalidade da dialética materialista. A
Antigüidade Clássica, objeto tão pouco mencionado,
explicitamente, pelo Manifesto, de forma indireta e mediada,
tem sido abordada, nestes cento e cinqüenta anos, em muitos
aspectos, sob o espectro do materialismo de Marx.
Agradecimentos
Agradeço aos seguintes colegas
que me ajudaram de diversas maneiras, em particular fornecendo
artigos e trocando idéias: J.N. Adams, Hector Benoit, César
Carrreras, Monique Clavel-Lévêque, Masaoki Doi, Fábio
Faversani, Pedar Foss, Siân Jones, William V. Harris, Philip
Kohl, Ray Laurence, Marc Mayer, Randall McGuire, José Remesal,
Dean J. Saitta, Ellen Meiksins Wood. A responsabilidade,
contudo, restringe-se ao autor.