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Publicado em: Resenha de Leandro Karnal, “Teatro da Fé. Representação religiosa no Brasil e no México no século XVI”, LPH Revista de História, 9, 181-186, 1999.
PROPOSTA DE RESENHA PARA LPH REVISTA DE HISTÓRIA DA UFOP
Leandro Karnal, Teatro da Fé. Representação religiosa no Brasil e no México do século XVI. São Paulo, Editora Hucitec, 1998, 253 pp., ISBN 85-271.0435-0.
Pedro Paulo A Funari[1]
Brasil e México parecem ter experimentado experiências históricas e culturais muito diversas e uma possível aproximação entre ambos não se apresenta como algo fácil ou natural. Na verdade, o estudo da História do Brasil acostumou-se a ensimesmar-se, sendo raras as aventuras rumo a uma História comparativa que poderia revelar-se elucidadora de insuspeitadas relações. Leandro Karnal dispôs-se a estudar o período inicial da História colonial do México e do Brasil, voltando-se para um tema a um só tempo capital para a compreensão da colonização ibérica nas Américas e pouco estudado: a representação religiosa. A delimitação cronológica abrange da campanha de Cortês, em 1519-21, no México e da chegada dos Jesuítas no Brasil, em 1549 até o término da obra do Frei Mendieta e a morte de Anchieta, nos anos finais do século XVI. O autor debruçou-se sobre um tema particularmente pouco explorado pela historiografia, em parte, talvez, por causa da ubíqua presença da documentação latina, tão presente nos primeiros séculos da História da colonização ibero-americana.
O livro começa com uma introdução (pp. 19-39), de caráter metodológico, inserindo o estudo da Representação, em sua manifestação litúrgica, nas cerimônias, alfaias e catequeses, no contexto da História Cultural e da Antropologia. Questiona, logo de início, a idéia de que culturas homogêneas européias e indígenas pudessem ser definidas, preferindo enfatizar as diversidades européias e indígenas na construção de interações culturais (p. 23). Em seguida, em os Antecedentes da Representação (pp.41-61), discute-se o contexto da ação missionária católica, descrevendo-se as estratégias dos Jesuítas (pp. 48-51), dos Franciscanos (pp. 52-56) e a reorganização da Igreja, com particular destaque para o Concílio de Trento (pp. 56-61). Adverte, de passagem, que não se deve simplificar o Concílio a uma tentativa de reforma da cultura popular, pois se tratava de diferenciar o catolicismo dos outros cristianismos, em especial pela afirmação da autoridade papal, pela veneração dos santos, pela doutrina da transubstanciação na Eucaristia, pelas indulgências, novenas e procissões, pelo celibato sacerdotal. O que antes era acessório passa a ser essencial (p.58) e o clero reorganiza-se de forma militar.
O capítulo segundo, Teatro (pp. 63-130), já se volta para a práxis missionária colonial, a começar pela Companhia de Jesus, que tem como parâmetro de civilização o colégio da Companhia. O papel dos jesuítas na constituição de uma identidade lusitana é ressaltado (pp. 63-76), destacando-se sua observação, muito pertinente, que uma “característica desta identidade não tem recebido atenção dos historiadores. Havia poucas mulheres portuguesas na colônia, daí a facilidade com que as mulheres indígenas ligavam-se aos portugueses. Ora, isto implicava que os filhos seriam educados por índias, que seriam criados e ouviriam predominantemente línguas indígenas” (p. 73, grifo acrescentado). De fato, esta era uma civilização trilíngue, indígena no dia a dia, portuguesa nas casas da Companhia e latina nas letras e, naturalmente, apenas os jesuítas dominavam os três códigos. Os franciscanos estabelecidos no Vale do México (pp. 76-89) marcaram-se pelo sentimento milenarista, pela inspiração da Igreja primeira de Jerusalém, pela rejeição aos espanhóis que não deveriam ser sequer chamados de cristãos (p. 109). O teatro religioso jesúitico (pp. 89-102) desenvolveu-se com peças em que, quase sempre, há uma disputa de espíritos pela posse da uma alma, o que Karnal relaciona à religião indígena, pouco afeita a questões teológicas européias, mas sempre ocupada com o culto aos morto e aos espíritos (p. 96). O teatro franciscano, por sua parte, marcadamente catequético, enfatiza a descrição dos adereços cênicos, com predomínio de personagens bíblicos, sendo o uso do espanhol preterido, em benefício do náuatle. Com o passar do século, desaconselham-se as peças em vernáculo, o que acabou por estimular o florescimento de um teatro sofisticado em latim, de epigramas complexos em grego e hebraico, cuja intelecção fora dos círculos eclesiásticos não eram cogitada, nem almejada. A comunicação não mediada pelo clero não devia ser incentivada (p.141).
O autor descreve as preocupações da Inquisição com as formas de representação, até mais do que com o conteúdo das ações (pp. 131-150), para, então, centrar-se, nos adereços cênicos: relíquias, procissões e alfaias (pp. 151-168). Lembra que não se deve alocar essas manifestações ao reino do popular, pois integravam o ideário das próprias elites desta Sociedade Estamental, cuja ênfase não estava no conteúdo, mas na forma plástica de concepção de mundo. Plasticidade presente em Igrejas, Oragos e Pinturas (pp. 169-190), ressaltando a centralidade dos prédios eclesiásticos que dominavam a paisagem colonial. Contrasta-se o assentamento ortogonal hispânico à dispersão urbana da colônia portuguesa, ambos modelos de cidade, entretanto, tendo a igreja como referência principal. No México, a monumentalidade hispânica contrapunha-se àquela indígena pré-colonial e Karnal volta-se, em particular, para os santos que denominam os templos (oragos). Nota a importância de oragos corporativos, em especial São Francisco, assim como Santiago, santo associado à luta contra o infiel, e São José dos Naturais, modelo para os nativos, laborioso, fiel, monogâmico, como se os índios devessem ser tão obedientes quanto S. José, marido de Maria, “disposto a abandonar sua honra para salvar a dela” (p.179). Assim, transparece um Catolicismo patriarcal e misógino.
Em Catequese e Representação: avaliação de um processo (pp. 191-219), o autor desce ao quotidiano da conversão dos indígenas ao catolicismo, mostrando que o uso das línguas nativas pouco conseguia fazer para resolver os problemas de intelecção de conceitos teológicos complexos e apenas plenos de sentido para quem bem conhecesse o contexto erudito europeu em que se formara. A persignação implicava o conhecimento de entidades abstratas, Pai, Filho e Espírito Santo, cujo desconhecimento fazia com que se reproduzissem apenas as exterioridades dos gestos rituais dos três sinais da cruz, na testa, boca e peito. No México, utilizava-se da pintura para ensinar os índios, por exemplo, a dizer Pater Noster: juntava-se um bandeirinha usada para o número vinte, Pantli, à fruta Nochtli! Usavam-se as imagens como mensagem catequética, de maneira que a apreensão do mundo católico se deu por cenas e imagens, antes que por conceitos. No entanto, não se imagine que esta superficialidade da conversão - como lembra a epígrafe de Oswald de Andrade citada por Karnal: “nunca fomos catequizados” – fosse particularidade americana. Em uma missa latina, índios, espanhóis e portugueses pouco diferiam em sua participação, basicamente formal. Eram os gestos rituais a definir seu catolicismo, nunca coube ao fiel atingir a compreensão de qualquer preceito, privilégio guardado ciosamente pelo clero. Suas conclusões (pp. 221-230), para além de contrastar as catequeses franciscana e jesuíta, procuram ressaltar que o próprio funcionamento do mundo colonial não pode ser concebido dissociado dos projetos catequéticos católicos. Se não se efetivou uma adoção dos conceitos doutrinários católicos, uma catequese exterior converteu todo um imenso continente à fé católica no que ela tinha de mais profundo e duradouro: a representação de mundo.
Embora o livro restrinja-se à representação católica na América, inspira reflexões mais amplas, a começar pela importância das representações, da plástica e da gestualidade para a formação da identidade. A importância de imagens e gestos pode ser avaliada pelo testemunho de Gregório Melisseno, em sua viagem a Florença (1438-9): “quando eu entro em uma Igreja Latina, não faço reverência às imagens dos Santos, pois não os reconheço. No máximo, reconheço Cristo, mas não O reverencio, já que não sei em que termos Ele está representado. Assim, faço o sinal da cruz e o reverencio, pois fi-lo eu mesmo, e a nada que alí está”[2]. No caso americano, a representação católica era, essencialmente, voltada para dois públicos diversos, situados nos extremos da sociedade colonial, catequizandos, de um lado, e clero, de outro. A própria disjunção entre indígenas e colonos, sentida em alguns contextos, nos quais a elite local se diferenciava dos nativos, como é o caso do México, não parece ser tão relevante no caso de Piratininga e, portanto, a massa de iletrados aprendia, em vernáculo e por imagens muito concretas, a comportar-se como católicos. As sutilezas teológicas dos curas católicos, na verdade, não se voltavam para o fiel, mas para os rivais: os protestantes.
Assim, desde o princípio, a organização eclesiástica de matriz medieval manifesta-se para os fieis na forma de músicas, autos, peças, de alta plasticidade[3], enquanto, para os próprios clérigos, edifícios, imagens, oragos, e tudo o mais, eram sinais definidores de uma identidade católica contraposta àquela, naquele momento mesmo sendo difundida, de uma nova Igreja Protestante. A Igreja Católica, seguindo a tradição medieval, comunicava-se, com os fieis iletrados, por imagens pintadas nas paredes, enquanto os reformistas haviam quebrados as imagens, substituído o latim incompreensível pelo vernáculo e o dogma pela leitura da Bíblia[4]. É neste contexto que adquire sentido a ênfase missionária na representação. A colonização é, pois, católica, em nome do rei, bonus filius et princeps catholicus[5]. Por seus próprios parâmetros, a evangelização da Igreja, ainda que exterior e formal, cumpriu os objetivos a que se tinha proposto, incorporou multidões e moldou a sociedade às suas formas de organização dos significados culturais. Os muitos iletrados e os poucos letrados condividiam comportamentos, imagens e valores controlados, em última instância, pela autoridade espiritual da Igreja.
Leandro Karnal, com uma linguagem envolvente, precisa e agradável, produziu uma obra rara, História comparada e cultural, salpicada de insights e interpretações originais, algumas delas mencionadas na primeira parte desta resenha. Abre-nos as portas para uma rica documentação latina, imprescindível para a compreensão da civilização ibero-americana e explora, com maestria e domínio verdadeiramente incomuns, as questões teológicas subjecentes à prosaica vida nos primórdios da colonização ibérica. Todos os interessados na História da cultura nas Américas lerão, com deleite e proveito, esta valiosa contribuição para o conhecimento de um passado, aparentemente tão distante, mas ainda tão presente em nossas vidas.
[1] Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C. Postal 6110, Campinas, 13081-970, SP, fax 55 19 289 33 27, pedrofunari@sti..com.br.
[2] Citado em Barbara Zeitlin, Cross-Cultural Intepretations of Imagery in the Middle Ages, Art Bulletin, 76, 1994, 4, p. 680.
[3] Cf. Luis Weckmann, La Herencia Medieval del Brasil, México, Fondo de Cultura Económica, 1993, p. 206 et passim.
[4] Cf. Matthew Jonhson, An Archaeology of Capitalism, Oxford, Blackwell, 1996, p. 105 et passim.
[5] “Bom filho e príncipe católico”, termos usados na bula Manifestis probatum, de 1179, que reconheceu o Reino de Portugal, para referir-se ao monarca católico em luta pela expansão da fé católica; cf. Stéphane Boisselier, Réflexions sur l’idéologie portuguaise de la Reconquête, xii-xive.siècles, Mélanges de la Casa de Velázquez, 30, 1, 1994, pp. 139-141.