Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: Pedro Paulo Abreu Funari, Resenha de “Ensaio sobre a mobilização política na Grécia Antiga”, de José Antonio Dabdab Trabulsi, Phoinix, 7, 2001, 384-386.

 

DABDAB TRABULSI, J.A. Ensaio sobre a mobilização política na Grécia Antiga. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

 

            Este ensaio é a tradução, sem alterações, do livro publicado na França, em 1991, pelo atual professor titular de História Antiga da UFMG, dando ao público brasileiro a oportunidade de travar contato com suas reflexões originais sobre temas muito relevantes, tanto para os estudiosos da Antigüidade, como do mundo moderno. O livro insere-se nas abordagens de matriz marxista característicos dos estudiosos da Antigüidade de Besançon, na França. O ensaio divide-se, de forma cronológica, em quatro capítulos, o primeiro sobre o alto arcaísmo, o segundo sobre a época arcaica, o terceiro sobre a época clássica e o último sobre os excluídos e a mobilização política.

 

            Já na introdução, o autor concorda com Moses Finley e considera que é no mundo das cidades (poleis) que podemos observar a mobilização política, excluindo, portanto, tanto os períodos helenístico e romano imperial, como as outras sociedades antigas. Ao tratar do alto arcaísmo, Dabdab estuda Homero não tanto como representante do antigo mundo palacial, mas como contemporâneo das poleis. Os reis homéricos não seriam o wanax micênico, caracterizado como um soberano à maneira oriental, com poder incontestado, pois vivem um mundo de assembléias. Nestas, no entanto, prevaleceria o unanismo, neologismo do autor para referir-se à unanimidade ou, então,  a cisão. Essa ideologia fluiria da elite para o povo, pois os valores da nobreza se teriam difundido pelas camadas não nobres da sociedade, de maneira que a sociedade guerreira dos poemas homéricos já apresenta, em potência, o mundo políade. Os valores da nobreza teriam, assim, fluído para a massa.

            O estudo do período arcaico dá continuidade ao mesmo modelo sociológico, segundo o qual os valores surgem nas elites e se espraiam para o povo. A exigência igualitária, elaborada inicialmente nos círculos aristocráticos e guerreiros ter-se-ia alargada até a democracia. O demos ambicionava penetrar nos quadros aristocráticos. Ressurge, então, o discurso da oposição entre o Ocidente e o Oriente, pois o autor se pergunta como o Grécia se destacou do modelo oriental. Ressalta que a instabilidade era percebida como coisa ruim, buscava-se a coesão interna e a “harmonia”. Apresenta, em seguida, uma  “” “ousadia”, nas palavras de Ciro F.S. Cardoso, nas orelhas do livro, ao comparar a tirania grega arcaica e a ditadura populista latino-americana, cujos pontos em comum seriam o alargamento das bases sociais do poder, o favorecimento parcial do povo e o desenvolvimento, ainda que parcial, da consciência  social das camadas populares.

 

            A época clássica é caracterizada como mobilizadora para a exclusão. As festas populares, como as dionisíacas, são consideradas como um mecanismo alienante, assim como as procissões e as representações teatrais. O ostracismo é explicado pelo medo generalizado no tecido social da stasis e de suas conseqüências, em busca do bom entendimento cívico. O papel da escravidão merece destaque, ao final do volume. O autor reafirma que a ideologia é um instrumento de controle de uma parte, a elite, sobre o todo social, ainda que reconheça que é delicado saber em que medida os escravos incorporavam a ideologia dominante que tentava impor-lhes a dicotomia ócio/escravidão. Em seguida, contudo, volta a um modelo holístico, ao considerar que o tipo social e psicológico do cidadão só existe em relação ao mundo da dependência e que toda a ética do mundo antigo se funda nisso.

 

            Os modelos analíticos postos em ação pelo autor partem de alguns pressupostos bastante consolidados no discurso científico mas que têm sido questionados. Considera-se a sociedade grega como um todo, cujos valores seriam compartilhados também por todos. Os modelos normativos de cultura, contudo, têm sido criticados por deixarem em segundo plano as diversidades e contradições sociais. Em decorrência do modelo normativo, segundo o qual haveria valores compartilhados por todos, assume-se uma concepção holística, na qual a elite formularia valores, aceitos ou mesmo almejados pelo resto da população. Este seria o caso do desprezo pelo trabalho, formulado como dicotomia skholé/douleia. Em seguida, e como conseqüência, surge uma oposição, também holística, entre dois tipos de civilização ou culturas, a Grécia (ou Ocidente) e o Oriente. No entanto, tem-se mostrado como tais construções são criações recentes. Ellen Meiksin Wood adverte que o desprezo pelo trabalho deriva do mito da idle mob e é, portanto, uma invenção moderna. Martin Bernal e Edward Said mostram como a dicotomia Oriente/Ocidente tampouco é antiga. Carlo Ginsburg ressalta que o modelo holístico, ao considerar a elite como difusora de seus valores para o resto da sociedade, acaba por desconsiderar as especificidades e interesses de amplos segmentos, reduzidos à emulação do ethos aristocrático. No que se refere ao teatro grego, reduzi-lo à alienação é subestimar tanto o teatro, como o povo.

 

            Estas observações não diminuem, de forma alguma, os grandes méritos do volume. O autor soube utilizar-se de modelos analíticos consagrados apresentando, de forma original, uma série de interpretações inovadoras. Os poemas homéricos são reintroduzidos em seu contexto histórico, no século VIII, dispensando-se à mobilização política um estudo aprofundado e comparativo tampouco usual. O ostracismo é tratado como elemento central, em sua explicação holítica, assim como a escravidão, tema sempre difícil para um modelo normativo de sociedade, é apresentada como elemento central, ainda que conceitualmente externo à koinonia, para a noção de “invenção grega da liberdade”. Além desses méritos na lógica interna, não se poderia deixar de mencionar a relevância do volume no contexto brasileiro, pois são estudos como este que permitirão compreender a relevância da Antigüidade para nosso contexto contemporâneo. Por todos estes motivos, recomenda-se, portanto, vivamente, a leitura deste belo livro. 

 Pedro Paulo A. Funari