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Entretextos Entresexos, Campinas /SP, n. 4, p. 53-68, 2000.

O feminino, o desejo e o comportamento amoroso em Ovídio

Lourdes M. G. C. Feitosa*

"O desvelador Poeta faz emergir os substratos mais latentes e

arquétipos do Homem. Revela o escondido do incandescente

magma das coisas sendo em pureza originária".

Apresentar a biografia de Ovídio não é algo muito preciso. Poeta latino, parece ter

sido filho de uma família eqüestre, nascido na cidade de Sulmo. Foi educado em Roma e

completou sua formação em Atenas; participou durante algum tempo da vida política, mas

abandonou-a para se dedicar à poesia. Morreu no ano de 17 ou 18 d.C.1 Poeta fascinante,

minucioso na apresentação de táticas amorosas, das quais causa espanto a atualidade de muitas

dicas de beleza e conselhos para uma conquista amorosa, o que torna muitos aspectos de

seu texto, ainda hoje, um manual apropriado na arte de amar.

Para esta reflexão utilizaremos duas obras de Ovídio: Amorum Libri (Os Amores) e

Ars Amatoria (A Arte de Amar)2. Em Amorum Libri Ovídio apresenta uma situação amorosa

na qual canta as alegrias e proezas de um amor clandestino e furtivo e em Ars Amatoria,

ensina como fazer uma conquista amorosa, indicando os cuidados com o físico, as táticas

apropriadas e como preservá-la.

É passeando por esta literatura de Ovídio que analisaremos a concepção de feminilidade

aí apresentada. Para isto, merece destaque a descrição dos atributos físicos valorizados

e do comportamento amoroso estabelecido para as mulheres do primeiro século, tendo em

* Doutoranda em História do IFCH - Unicamp. Bolsista da Fapesp.

1 A biografia de Ovídio, como de grande parte dos autores latinos, é escassa e imprecisa. Os

dados apresentados foram retirados de Grimal, P. Dictionnaire des Biographies. Paris: Presses

Universitaires de France, 1958. p.1113. v. 2 e Cary, M. et alli. The Oxfotd classical dictionary. 3a.

Oxford: Clarendon Press, 1953. p. 672. De qualquer maneira, mesmo sendo imprecisa, a própria

impressão de suas obras, para a época em que foram escritas, revelam que Ovídio pertencia a

um grupo social provido de bens, já que as obras literárias em geral, as cartas oficiais e os decretos

do Senado, fazem parte da cultura escrita de Roma, ou seja, da cultura erudita.

2 Por simplicidade de indicação das obras de Ovídio, serão utilizadas as abreviaturas A para Amorum

Libri e AA para Ars Amatoria. As referências seguem os seguintes critérios: em Amorum são

mencionados, respectivamente, o nome da obra, o livro e o capítulo; em Ars Amatoria, o nome da

obra, o livro e a página. Edição utilizada destas duas obras: Paris: Panckoucke, 1836.

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vista analisar o contexto social e histórico do início do Alto Império romano.

Vale esclarecer que a relação sócio-sexual, aqui apresentada, é dada por conceitos

morais que são entendidos como um conjunto de valores e regras apresentado aos indivíduos,

bem como o comportamento real destes em relação ao prescrito, o grau de sujeição e

de transgressão às regras e valores propostos3 e o que é representado, satirizado, aceito e negado

através das relações amorosas. Desta maneira, o estudo das relações afetivas sinaliza

para imagens estéticas e posturas sexuais e morais que se encontram vinculadas à representação

dos papéis sociais definidos e modificados para e pelos homens e mulheres romanos.

1. A estética feminina idealizada

O primeiro aspecto a ser analisado nas obras de Ovídio é a apresentação do ideal estético

feminino e os artifícios para aquelas que dele quiserem se aproximar. No terceiro livro

de Amorum Libri Ovídio canta, embora indignado com a infidelidade e a falsidade de sua

amada, os seus encantos físicos:

"Quão longos cabelos que tinha antes de ser infiel, tão longos, depois que se divertiu

dos deuses, ainda os conserva. Seu semblante era branco e apresentava a cor das rosas; ainda

reluz branco e delicado. Seus pés eram pequenos, seus pés são ainda de habilidosa forma.

Tinha a feição nobre e graciosa, ainda a vejo esbelta e alta. Possuía olhos claros e radiantes

como o astro"4.

Além destes encantos físicos, a mulher deve possuir elegância discreta e manter os

seus cabelos sempre em ordem5, fazer voz melodiosa6, aprender a cantar7, ser alegre8 e saber

ler poesias: "aprender também os versos de Calímaco, os do poeta de Cós e os do velho de

Téos. Saber Safo decor ... você poderá ler também os versos do terno Propércio, ou esses do

caro Tibulo, ou aquelas passagens de Galo ..."9.

Na definição de beleza apresentada pelo autor, a bela mulher é aquela que possui

3 Foucault, M. História da sexualidade. O uso dos prazeres. Tradução de Maria Thereza C. Albuquerque

e J. A. Guilhon Albuquerque. 6a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990. p. 26

4 "Quam longos habuit nondum jurata capillos,\ Tam longos, post quam numina lusit, habet.\

Candida candorem roseo suffusa rubore\ Ante stetit: niveo lucet in ore rubor.\ Pes erat exiguus:

pedis est artissima forma.\ Longa decensque fuit: longa decensque ma net.\ Argutos habuit,

radiant ut sidus, ocellos;" (A, 3, 3).

5 "munditiis capimur: non sint sine lege capilli" (AA, 3, p. 138).

6 "blanda canor" (AA, 3, p. 154).

7 "... discant cantare puellae" (AA, 3, p. 154).

8 "femina laeta" (AA, 3, p. 170).

9 "Sit tibi Callimachi, sit Coi nota poetae,\ Sit quoque vinosi Teia Musa senis.\ Nota sit et Sappho

...\ Et teneri possis carmen legisse Properti;\ Sive aliquid Galli; sive, Tibulle, tuum" (AA, 3, p. 154).

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pele alva. Em uma sociedade de bases rurais, na qual grande parte da população efetua

trabalhos ao sol, a cor branca simboliza o prestígio daquela que não precisa se queimar,

nem suar com a sua realização. O corpo alto e esbelto, os longos cabelos penteados e a

elegância discreta, compõem a estética da mulher que dispõe de tempo e condição financeira

para cuidar de seu físico. A boa postura, o andar e a elegância marcam a plástica de

uma mulher livre e rica. Os longos supercílios simbolizam soberba e os olhos brilhantes,

sagacidade. A testa, a boca e os membros pequenos caracterizam a sua delicadeza.

"A beleza é um dom de Deus; mas quantas mulheres podem se orgulhar de sua beleza?

A maioria de vós não recebeu tal presente"10. Através das palavras forma Dei munus, o

autor estabelece uma simetria dada pela palavra munus, em que a beleza é, ao mesmo

tempo, dada e também conquistada. Com isso, quer indicar às mulheres que o modelo de

beleza apresentado, embora fundamentado no estilo de vida aristocrático, não parece ser

inacessível às mulheres de outras classes sociais e, por este motivo, ensina inúmeros artifícios

estéticos a todas que fogem do padrão pré-estabelecido. A elas dirige conselhos

sobre as maneiras de se aproximarem do ideal de beleza vigente, destacando que todo esforço

é válido: "a mulher tinge seus cabelos brancos com o suco de ervas da Germânia"11, "não

deixa o cheiro exalar das axilas, nem as pernas cobertas de pêlos ásperos"12, "não deixa, por

negligência, os dentes amarelarem; encarrega-se de lavar o rosto ao amanhecer com água"13,

"torna a cútis branca com algum preparo e a cora com algum artifício quando for pálida"14.

Repetidamente enumera os conselhos que ajudam a dissimular os defeitos físicos:

"Esconda os defeitos do vosso corpo. Se fores baixa, senta-te para que de pé não pareças

sentada... A excessivamente delgada cobre-se com um tecido espesso e que um manto caia

solto em seu ombro. A pálida envolve o corpo em tecidos tingidos de púrpura; a morena

recorre aos tecidos de Pharos. Um pé defeituoso sempre coloca um sapato de couro branco;

uma perna fina não se mostrar sem correias. É conveniente pequenas almofadas para

encobrir desigualdades dos ombros; uma faixa envolve um peito pequeno. Fazes poucos

gestos ao falar se tens dedos grossos e tuas unhas ásperas. Aquela que tem o hálito forte não

deve jamais falar em jejum e deve se manter sempre a distância com quem conversa. Se

10 "Forma Dei munus: forma quota quaeque superbit?\ Pars vestrum tali munere magna caret"

(AA, 3, p. 136).

11 "femina canitiem Germanis inficit herbis" (AA, 3, p. 142).

12 "... ne trux caper iret in alas,\ Neve forent duris aspera crura pilis!" (AA, 3, p. 144).

13 "... ne fuscet inertia dentes;\ Oraque suscepta mane laventur aqua" (AA, 3, p. 144).

14 "Scitis et inducta candorem quaerere cera: Sanguine quae vero non rubet, arte rubet" (AA, 3, p.

144).

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tiveres dente escuro, ou muito grande ou mal formado, evitas o riso"15.

É clara a contraposição apresentada entre a imagem estética idealizada e a mulher

de tez escura, queimada pelo sol, ou ainda, pálida e magra, caracterizadas como marcas

da pobreza. O autor associa os aspectos negativos do perfil feminino como o cheiro de

suor, os cabelos desalinhados, ser mal arrumada, ter mau hálito, dentes amarelos e pernas

peludas, com mulheres desprovidas de bens. Os dedos grossos e as unhas ásperas são

marcas das mãos que lutam pela sua sobrevivência.

Podemos verificar que a descrição de beleza apresentada não é aleatória e genérica

para toda e qualquer mulher romana, mas delimitada e definida a partir de uma concepção

particular, ditada pelo padrão social aristocrático romano. Para as mulheres excluídas

deste padrão estético, Ovídio indica maneiras para dele se aproximarem. Com o modelo

de beleza pré-estabelecido por Ovídio, podemos questionar se as suas dicas para a

sua conquista e as táticas para uma conquista amorosa são dirigidas apenas às mulheres

plebéias ou a todas as mulheres romanas, independente de sua condição social. É o que

analisaremos a seguir.

2. A seleção do público feminino

Ao escrever os seus versos, Ovídio estabelece um público feminino selecionado para

os seus ensinamentos amorosos. Os versos abaixo revelam as primeiras imagens do perfil

idealizado:

"Deixe de lançar sobre todas as mulheres os crimes de algumas. Que cada uma seja

julgada segundo seus méritos. Se os mais jovens dos Átridas têm o direito de se queixarem

de Helena; se seu irmão mais velho acusa com justa razão Clitemestra, a irmã de Helena; se

pela perversidade de Erifile, a filha de Talaos, Anfiaraus desceu vivo aos infernos sobre seus

cavalos vivos, não o é, também, uma Penélope que se manteve casta longe de seu esposo,

retido dez anos na guerra de Tróia, e, durante dois outros lustros, viajando sobre os mares.

Olhe esta Laodamia que, para unir-se de novo ao esposo no túmulo, morreu à flor da idade;

15 "... vitium corporis abde tui.\ Si brevis es, sedeas, ne stans videare sedere; ...\ Quae nimium

gracilis, pleno velamina filo\ Sumat; et ex humeris laxus amictus eat.\ Pallida purpureis tingat sua

corpora virgis:\ Nigrior, ad Pharii confuge piscis opem.\ Pes malus in nivea semper celetur aluta;\

Arida nec vinclis crura resolve suis.\ Conveniunt tenues scapulis analectrides altis:\ Inflatum circa

fascia pectus eat.\ Exiguo signet gestu quodcumque loquetur,\ Cui digiti pingues, et scaber unguis

erunt.\ Cui gravis oris odor, nunquam jejuna loquatur,\ Et semper spatio distet ab ore viri.\ Si niger,

aut ingens, aut non erit ordine natus\ Dens tibi, ridendo maxima damna feres" (AA, 3, p. 150).

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esta Celeste que, pelo sacrifício de sua própria vida, separou da morte Admeto, seu esposo.

Receba-me em teus braços, caro Capaneu; e que nossas cinzas se confundem! Assim falou

Evadné, lançando-se no meio do fogo. A virtude é mulher pela maneira de viver e pelo nome.

Porém, não são a elas que minha arte se endereça. Convém a minha barca velas menores"

16.

Ao longo de sua poesia, Ovídio se preocupa em mostrar respeito às mulheres casadas

e às moças vigiadas, ou seja, as mulheres de famílias aristocráticas e, ainda, respeitar as leis

sociais e morais de comportamento. Cauteloso, novamente afirma: "prestai atenção às minhas

lições, jovem que o pudor e as leis permitem"17 e "novamente afirmo, eu não canto aqui

os prazeres que a lei não permite, de modo nenhum os nossos conselhos envolvem as

senhoras"18, ou ainda, "não falarei sobre a maneira de iludir a razão de um marido sagaz ou

de um guarda atento. Que a mulher casada tema ao marido; que sua vigilância seja bem assegurada;

assim convém, assim mandam as leis, o direito e o pudor"19. Garante excluir de

seu público a mulher virtuosa, de moral ‘elevada’, ligada ou destinada a uma relação legítima

e exclusiva. A esta mulher não está direcionada a flecha do amor e o autor parece, a princípio,

vincular o amor apenas às relações moralmente autorizadas pela sociedade.

A quem, então, Ovídio dirige os seus ensinamentos? Ele mesmo responde: "Tu, também

submetida a tal vigilância, tu libertada há pouco, que farás? Para enganares, vem ao

meu culto20". Mas, por que Ovídio sugere que o seu público se compõe de mulheres libertas?

Segundo Veyne21, a liberta trazia em si o estereótipo de mulher de costumes livres, que

não vivia em núpcias legítimas. Isso acontecia porque talvez os romanos acreditassem que

elas, enquanto escravas, tinham crescido na promiscuidade, já que não existia a instituição

do casamento entre escravos, reconhecida apenas no século terceiro; mulheres não virgens,

16 "Parcite paucarum diffundere crimen in omnes.\ Spectetur meri tis quaeque puella suis.\ Si

minor Atrides Helenen, Helenesque sororem\ Quo premat Atrides crimine major habet;\ Si scelere

O\ A Eclides Talaionidae Eriphyles\ Vivus et in vivis ad Styga venit equis;\ Est pia Penelope, lustris

errante duobus,\ Et totidem lustris bella gerente viro.\ Respice Phyllaciden, et quae comes isse

marito\ ertur, et ante annos occubuisse suos.\ Fata Phere tiadae conjux Pagasaea redemit;\

Proque sui est uxor funere lata viri.\ Accipe me, Capaneu; cineres miscebimur, inquit\ Iphias; in

medios desiluitque rogos.\ Ipsa quoque et cultu est et nomine femina Virtus....\ Nec tamen hae

mentes nostra poscuntur ab arte:\ Conveniunt cymbae vela minora meae" (AA, 3, p. 128 e 130).

17 "... petite hinc praecepta, puellae,\ Quas pudor, et leges, et sua jura sinunt" (AA, 3, p. 132).

18 "En iterum testor: nihil hic, nisi lege remissum,\ Luditur; in nostris instita nulla jocis" (AA, 2, p.

114).

19 "Qua vafer eludi possit ratione maritus,\ Quaque vigil custos, praeteriturus eram.\ Nupta virum

timeat: rata sit custodia nup tae.\ Hoc decet: hoc leges jusque pudorque jubent" (AA, 3, p. 178).

20 "Te quoque servari, modo quam vindicta redemit,\ Quis ferat? ut fallas, ad mea sacra veni" (AA,

3, p. 178).

21 Veyne, P. A elegia erótica romana. Tradução de M. M. Nascimento e M. G. S. Nascimento.

São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 122-123.

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promíscuas, certamente não tinham sido educadas para se portarem como matronas, mulheres

respeitáveis.

Como alguns exemplos confirmavam este pensamento e o estereótipo era generalizado

para todas as mulheres libertas, é justificável que Ovídio escolha uma liberta para representar

uma relação amorosa que não coloque em questão a moral da mulher respeitável.

Além da liberta, poderíamos indagar se a escrava e a prostituta também fariam parte

do público ovidiano. Afirma Ovídio: "preservem-me os deuses, se me quiserem julgar culpado,

de querer estar com uma simples serva! Que homem livre gostaria de se unir a uma

escrava e envolver em seus braços um dos destruidores de chicotadas... Eu te juro por Vênus,

pelas almas de seus filhos levianos, que deste crime não sou absolutamente culpado"22 e

"uma meretriz se vende, a tal preço, ao primeiro bem sucedido: é fazendo do abandono de

seu corpo que ela adquire miseráveis riquezas... A mulher só gosta de se vangloriar, de espoliar

o homem; só ela coloca preço em suas noites, só ela ousa se colocar em locação"23.

Como Ovídio vincula afetividade e partilha, exclui de seu público estas categorias de

mulheres que, de algum modo, não podem se ligar a relações ternas. Segundo o seu parecer,

a escrava é um ser sórdido, inferior e indigno de um homem livre. Conceito melhor não goza

a prostituta, condenada por vender o seu corpo. Nenhuma relação afetiva poderia ser mantida

com tais mulheres.

Destarte, como acreditar no propósito de Ovídio de cantar apenas amores moralmente

aceitos, ou seja, os que envolvem apenas as libertas, se afirma logo após: "o prazer é menor

quando não é rodeado de perigo"24. A liberta caracteriza o prazer sem medo, reconhecido

por todos, diferente do prazer oculto, furtivo, com medo, vivido com uma mulher tutelada

pela lei e controlada pelo pai ou pelo marido. A vigilância constante supõe que neste meio os

prazeres furtivos são totalmente inibidos; mas Ovídio os descreve: "pobre marido, se para ti

não tens a necessidade de vigiar tua mulher, vigie-a ao menos para mim. O que é permitido

torna-se monótono, o que é defendido faz aumentar fortemente o desejo25". Esposas infiéis e

maridos complacentes são novamente cantados: "Tenha paciência com o rival... Maridos

22 "Di melius, quam me, si sit peccasse libido,\ Sordida contemtae sortis amica juvet!\ Quis

Veneris famulae connubia liber inire, ...\ Per Venerem juro, puerique volatilis arcus,\ Me non

admissi criminis esse reum" (A, 2, 7).

23 "Stat meretrix certo cuivis mercabilis aere;\ Et miseras jusso corpore quaerit opes...\ Sola viro

mulier spoliis exsultat adem tis:\ Sola locat noctes: sola locanda venit ..." (A, 1, 10).

24 "Quae venit ex tuto, minus est accepta voluptas" (AA, 3, p. 176).

25 "si tibi non opus est servata, stulte, puella; At mihi fac serves, quo magis ipse velim. Quod licet,

ingratum est; quod non licet, acrius urit" (A, 2, 19).

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assim agem com esposas legítimas..."26. As peripécias da filha para enganar o pai também

não são esquecidas: "Acrísio, em pessoa, assistiu sua filha zelosamente; todavia, a sua falta o

tornou avô"27.

Embora o poeta insista em que os seus amores são apenas os permitidos, como compreender

as infidelidades das esposas e as peripécias das filhas para enganarem seus pais? A

princípio, podemos acreditar que as suas referências sejam a casamentos não aristocráticos,

ou seja, a casamentos plebeus, em que não se configurava a preocupação com bens, com

herdeiros, nem com alianças políticas e nos quais, supostamente, a traição fosse tolerada28.

Entretanto, Ovídio afirma que os prazeres são maiores quando rodeados de perigos e eles

certamente o são quando envolvem mulheres aristocráticas, casadas ou não. Assim, sutil e

gradativamente, Ovídio insere no público das mulheres libertas e plebéias, retratadas, principalmente,

nos conselhos de etiqueta social, também a mulher da alta sociedade, livre e rica,

casada ou solteira, que prometera, a princípio, respeitar.

A inserção camuflada que Ovídio faz da mulher aristocrática parece nos revelar o

estereótipo a ela relacionado. Da mesma forma que a liberta traz consigo o conceito de mulher

liberada podemos supor, também, que a condição de mulher livre simbolize a virtude,

ou seja, a virgindade, a fidelidade e a dedicação ao marido. Mas, quais são as táticas amorosas

ensinadas por Ovídio e por quê os seus conselhos podem ser considerados danosos à reputação

destas mulheres?

Na relação amorosa descrita, o poeta aconselha às mulheres táticas apropriadas a

uma conquista amorosa e maneiras de persuadirem os homens: "Fazei, e é fácil, que nos acreditemos

amados, acredita-se facilmente naquilo que se deseja. Mulher, lance sobre um

jovem homem olhares sedutores, dê suspiros profundos e pergunte porque ele chega tão tarde.

Acrescente lágrimas e ciúmes fingido de uma pretendente rival..."29. E ainda: "Se os homens

prometem, fazei outras tantas promessas; se eles as cumprem, cumpri o combinado,

com prazer"30.

Nesse jogo galanteador estabelecido entre o casal e no qual ambos possuem papel

ativo na escolha do parceiro, a possibilidade do prazer sexual é lícito à mulher tanto quanto

26 "Rivalem patienter habe...\ Hoc in legitima praestant uxore mariti ..." (AA, 2, p. 108 e 110).

27 "Adfuit Acrisio servandae cura puellae:\ Hunc tamen illa suo crimine fecit avum" (AA, 3, p. 178).

28 Veyne, op. cit. p. 114-119.

29 "Efficite, et facile est, ut nos credamus amari:\ Prona venit cupidis in sua vota fides.\ Spectet

amabiliusjuvenem; suspiret ab imo\ Femina; tam sero cur veniatque roget.\ Accedant lacrymae,

dolor et de pellice fictus ..." (AA, 3, p. 182).

30 "Si bene promittant, totidem promittite verbis:\ Si dederint, et vos gaudia pacta date" (AA, 3, p.

166).

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ao homem e seu ápice é completo apenas quando ambos dele participam: "mulher, que o

prazer percorra desenfreado o mais íntimo de seu ser e que seja igualmente partilhado entre

vocês dois"31. Porém, à mulher que a natureza nega esta sensação venérea, Ovídio aconselha

que faça exclamações mentirosas em que as palavras e a respiração ofegante dêem a impressão

de prazer, pois: "infeliz é a mulher que tem insensível este órgão que deve dar à mulher

e ao homem os mesmos prazeres"32. Aqui, o sexo não é um dever para a mulher, como é no

casamento: "os favores que tu me prodiges em segredo, ele os exige a título de deveres"33.

Ao enfatizar o seu objetivo de ensinar às mulheres a arte de se fazer amar, o autor

apresenta relacionamentos amorosos nos quais a mulher participa da escolha de seu parceiro,

busca a sua satisfação sexual e a recíproca afetividade em relações furtivas e ilícitas: "as doces

palavras são o alimento do amor. É através das querelas que a mulher afasta seu marido,

que o marido hostiliza o espírito de sua mulher... Permissão a eles: as querelas são o dote

que os esposos anunciam-se mutuamente"34.

Desta maneira, podemos perceber que a apresentação evasiva do público feminino o

qual Ovídio destina os seus conselhos, em particular na obra Ars Amatoria, parece uma preocupação

do poeta em camuflar uma transgressão a moral aristocrática vigente, já que as

relações aconselhadas contrariam o modelo de casamento institucionalizado e o ideal de virtude

estabelecido para as mulheres da alta sociedade.

3. Características emocionais

Analisar os aspectos emocionais das mulheres que compõem o público selecionado

por Ovídio não é uma tarefa muito fácil. O jogo de palavras é uma característica das obras

do poeta e parece apropriado para confundir o leitor. Partimos das características apresentadas

explicitamente ao longo dos textos e procuramos fazer uma análise mais minuciosa e

crítica, seguindo o jogo realizado pelo autor.

Da frase "contanto que seja rico, o bárbaro também agrada..."35, podemos reter como

primeira idéia um perfil interesseiro da mulher, apenas preocupada com interesses puramen-

31 "Sentiat ex imis Venerem resoluta medullis\ Femina, et ex aequo res juvet illa duos" (AA, 3, p.

192).

32 "Infelix, cui torpet hebes locus ille, puella es,\ Quo pariter debent femina virque frui!" (AA, 3, p.

192).

33 "quod mihi das furtim, jure coacta dabis" (A, 1, 4).

34 "Dulcibus est verbis mollis alendus amor.\ Lite fugant nuptae que viros, nuptasque;...\ Hoc decet

uxores: dos est uxoria lites" (AA, 2, p. 78).

35 "Dummodo sit dives, barbarus ipse placet" (AA, 2, p. 88).

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te econômicos. Mas, vale observar que Ovídio indica que a mulher, ao escolher o seu parceiro,

prefere algum que não seja bárbaro, pois este é símbolo de homem rude e inculto. Isso

significa que a mulher não considera apenas o valor monetário, embora não o descarte, mas

também o conhecimento daquele que escolherá como seu parceiro. Se o aspecto financeiro

fosse o único referencial de escolha para o público feminino ovidiano, este não faria distinção

entre elas e as prostitutas, que seguramente faziam do dinheiro o seu único referencial de

escolha, a diferença "desta outra categoria de mulheres"36.

A idéia da dependência emocional também é abordada pelo poeta: "mas que a ausência

seja breve, o tempo cura o pesar, desaparece o ausente e entra um novo amor. Enquanto

Menelau estava ausente, Helena, para não ficar só, refugiou-se, à noite, nos braços de

seu hóspede. Que tolice foi essa, Menelau? Partiste sozinho deixando, sob o mesmo teto, o

teu hóspede e tua esposa. Não, Helena não pecou, aqui não se cometeu adultério. O que fez

ela? Seu marido está ausente e diante dela está um hóspede não rústico e ela teve medo de se

deitar sozinha em sua cama... Eu absolvo Helena, ela usou a bondade de um marido complacente"

37.

Ovídio utiliza-se desta história para destacar uma característica dada como natural à

personalidade feminina, a sua dependência emocional. Manifestada na sua incapacidade de

ficar sozinha e na necessidade de buscar conforto nos braços de algum homem. Parece tolice

do marido deixá-la sozinha, devendo este supor, naturalmente, que sua mulher procuraria

amparo nos braços de outro. A idéia é que a mulher busca o abrigo oferecido pelo homem

não por ter uma natureza infiel, perversa, mas em razão de seu descontrole emocional, que

não a segura nos caminhos corretos; por isso, a fidelidade feminina deveria ser garantida pela

vigilância. Entretanto, por meio desta concepção preestabelecida, Ovídio recupera a capacidade

de a mulher escolher seu parceiro. Helena buscou conforto nos braços do hóspede,

36 Veyne interpreta a frase da nota 35 apenas como interesse econômico: "Aquelas que não

estavam à venda exigiam, todavia pagamento do eleito de seu coração, pois o amor merecia

salário; não pensemos que um número maior de mulheres eram venais: tratar-se-ia apenas de

uma espécie de condição de assalariada de todas elas. Era portanto possível, em Roma, obter

com pagamento os favores de uma mulher ou de um rapaz da melhor sociedade..." Veyne, P. op.

cit. p.132. O autor atribui pagamento em troca de favores, o que parece uma análise equivocada

para a situação já que receber pagamento é diferente do desejo de receber presentes valiosos.

Aqui, o interesse monetário aparece como subsidiário de um sentimento maior, que é o desejo de

manter um relacionamento com um homem rico e culto, em que os presentes garantam beleza e

status social.

37 "Sed mora tuta brevis: lentescunt tempore curae,\ Vanescitque absens, et novus intrat amor.\

Dum Menelaus abest, Helene ne sola jaceret,\ Hospitis est tepido nocte recepta sinu.\ Quis stupor

hic, Menelae, fui?...\ Nil Helene peccat; nil hic committit adul ter...\ Quid faciat? vir abest, et adest

non rusticus hospes:\ Et timet in vacuo sola cubare toro...\ Helenen ego crimine solvo.\ Usa est

humani commoditate viri" (AA, 2, p. 94 e 96).

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que era um homem não rústico. Isso mostra não uma dependência emocional nata da mulher

em relação à figura masculina, solucionada por qualquer homem. Não, Helena buscou amparo

nos braços do hóspede pois este lhe agradou, fazendo a sua escolha fundamentada em juízos

de valores que não a conduziram para os braços de qualquer homem, mas para os braços

de um homem culto.

A ênfase na necessidade de uma constante vigilância nos permite destacar um outro

aspecto do comportamento feminino, qual seja, rebeldia frente ao controle do homem. A

mulher põe em questão a autoridade masculina e exige deste constante coerção por meio de

vigilâncias e guardas, demostrando que se fosse totalmente submissa ou temerosa à autoridade

masculina, certamente não haveria necessidade de tanta vigilância.

4. A poesia ovidiana e o seu contexto histórico

Como já foi mencionado, as obras de Ovídio, em particular Ars Amatoria, apresentam

um velado jogo de palavras no qual parecem brincar com os aspectos morais vigentes,

embora o autor afirme, categoricamente, cantar apenas os amores permitidos38.

Segundo a interpretação de Paul Veyne, as obras ovidianas integram um estilo literário

específico, denominado de poesia elegíaca, em que o poeta canta, em primeira pessoa,

episódios de amor relacionados a uma mulher de vida irregular, podendo ser esta uma

mulher livre, liberta ou uma esposa adúltera, mas nunca uma senhora casta e de costumes

rígidos39. Neste aspecto, questionamos se os seus conselhos não eram dirigidos, também,

às mulheres de costumes rígidos, como bem mostra a linguagem camuflada do poeta.

As obras de Ovídio podem corresponder ao estilo literário elegíaco, no qual os

personagens e suas histórias são frutos da invenção e da criatividade do autor, como considera

Veyne, mas ele mesmo afirma que o cenário, o enredo e os julgamentos apresentados

pelos personagens evidenciam, mesmo que desordenadamente, o espaço social conhecido

pelo escritor. A obra não deixa de apresentar os recursos de linguagem da época, as formas

literárias conhecidas e todo um conjunto de idéias que apresenta e critica, enfim, um universo

que torna impossível a sua separação do lugar onde foi produzida40. Por isso, podemos

refletir sobre a inserção da obra de Ovídio em seu contexto social e o quanto este está

38 Cf. notas 30 e 31.

39 Cf. Veyne, op.cit. p.17.

40 Starobinski, J. A literatura: o texto e o seu intérprete. In Le Goff, J. e Nora, P. História: novas abordagens.

3a ed. Tradução de Henrique Mesquita. Rio de Janeiro: F. Alves,1976, p. 134.

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presente em suas poesias.

Ao longo da República romana podemos verificar que a relação legítima, ou seja, o

matrimônio, representava, para a aristocracia, uma prática de sucessão e de transmissão de

bens através de herdeiros, levando-se em consideração uma série de interesses específicos

como o valor do dote, uma herança e alianças políticas41. O casamento constituía, principalmente,

um ato político dirigido para estabelecer entre as famílias um pacto de ajuda mútua

relativo à vida familiar e política42; enfim, uma instituição marcada pelo estigma estratégico43.

Com isto, uma jovem aristocrática era zelosamente "guardada" para o casamento e o

seu futuro esposo era escolhido por seu pai.

Contudo, os motivos que estimulavam estas alianças tendiam a se modificar com a

transformação do regime político. As carreiras republicanas, com suas eleições e a luta permanente

pelo poder, conduziam a alianças políticas entre as famílias que, com o império,

diminuíam sua importância44.

No início do Império já era possível perceber aspectos de crise pelo qual atravessava

a instituição matrimonial, com a multiplicação dos divórcios, a extensão do concubinato

entre livres e libertos e a diminuição do número de crianças legítimas45. O próprio

imperador Otávio César Augusto (27 a.C. a 14 d.C.), preocupado com a situação, fez

uma série de revisões nas leis que regulamentavam o comportamento social, tentando

resgatar os valores aristocráticos colocados em questão. Inibiu o casamento entre pessoas

muito jovens; a freqüente mudança de matrimônio e impôs um limite aos divórcios46. Ele

próprio reconheceu publicamente os escândalos da casa imperial quando baniu a sua filha

Júlia pela impudicícia e orgias noturnas47; posteriormente também o fez o imperador

Nero (54 a 68 d.C.) através da denúncia do adultério de sua esposa Otávia. Essa atitude

caracterizava o reconhecimento público do pai ou do marido da mulher que cometera a

falta, a sua não complacência com o vício e uma maneira de inibi-lo na sociedade.

41 Corbier, M. Les comportements familiaux de l’aristocratie (II siècle avant J. C. - III siècle après J.

C.). AESC. Paris. v. 6, p. 1267-1285, nov./dez,1987, p. 1270.

42 Grimal, O amor em Roma. Tradução de Hildegard F. Feist. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 88

43 Benabou, M. Pratique matrimoniale et représentation philosophique: le crépuscule des stratégies.

AESC. Paris. v. 42, n.6, p. 1255-1266, nov/dez, 1987, p. 1256.

44 Corbier, op. cit. p. 1277.

45 Benabou, op. cit, p. 125.

46 "Quumque etiam immaturitate sposarum, et matrimoniorum crebra mutatione, vim leges eludi

sentiret, tempus sponsas habendi coarctavit, divortiis modum imposuit". Suetone, Octavius Augustus,

34.

47 "Divus Augustus filiam ultra impudicitiae maledictum impudicam relegavit et flagitia principalis

domus in publicum emisit: admissos gregatim adulteros, pererratam nocturnis comissationibus

civitatem, forum ipsum ac rostra ..." Seneca, De Beneficiis, 4, 32.

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Parece que as leis de Augusto tentavam restringir as relações sexuais ao casamento

como alternativa para a manutenção da família aristocrática romana e as suas linhagens

legítimas. Entretanto, Suetônio relata a veemente oposição surgida contra a severidade

da revisão da lei do matrimônio, tendo esta sido aprovada somente após supressões

ou abrandamentos das penas48. Com isto, podemos deduzir que estas leis afrontavam diretamente

o comportamento costumeiro da prática extra conjugal romana, realçado nas

obras de Ovídio.

Considerações finais...

Podemos verificar que as obras ovidianas apresentam uma imagem idealizada de

comportamento feminino fundamentada na virgindade, na castidade e na fidelidade. Entretanto,

descrevem mulheres que escolhem os seus parceiros e buscam a sua realização sexoafetiva

fora dos laços legítimos e além dos limites estabelecidos pelo status social, sem estarem

irracionalmente sujeitas à emoção, à necessidade biológica ou à interesses puramente

econômicos.

Consideramos que a análise apresentada destas poesias tem a sua importância justamente

por não se limitar ao discurso proferido, mas em refletir como e por que isso foi retratado.

Se não houvesse algum tipo de representação no imaginário coletivo da época, por quê

escrever-se-ia sobre esses amores e valores de compreensão pouco acessível aos seus leitores?

Veyne tem razão ao afirmar que a questão da sinceridade na obra, tem "o mérito de

ser um cálculo para uma idéia mais interessante, o da sinceridade do imaginário..."49. A elegia

de Ovídio não é um retrato da sociedade, nem uma biografia do autor, mas certamente

uma réplica humorística de temas e situações satirizadas a partir de um conjunto de valores

presentes nesta sociedade que passava por mudanças e na qual as relações amorosas tendiam

a não funcionar mais do mesmo modo. E Ovídio nos indica estas alterações por meio de um

estreito contexto sócio-amoroso que se procurou analisar neste texto.

Agradecimentos:

48 "Hanc quum aliquanto severius quam ceteras emendasset, prae tumultu recusantium perferre

non potuit, isi adempta demum lenitave parte poenarum, et vacatione triennii data, auctisque

praemiis". Suetone, Octavius Augustus, 34.

49 Veyne, 1985. p. 106

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Agradeço ao Prof. Pedro Paulo A. Funari pela leitura e sugestões apresentadas a este

texto e à FAPESP, pelo apoio financeiro a esta pesquisa.