Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: Resenha de C.R. Cròs, La civilisation afro-brésilienne, Perspectivas, 20/21, 1997/8, 311-313.

 

Pedro Paulo Abreu FUNARI[1]

CRÒS, C.R. La Civilisation Afro-Brésilienne. Paris: Presses Universitaires de France, 1997. 128p.

 

                               O etno-sociólogo Claudi R. Cròs, da Universidade Blaise-Pascal, produziu um livro polêmico e inovador, crítico das visões tradicionais, sobre aquilo que chama de “civilização afro-brasileira”. Por “civilização”, entende não somente a cultura, stricto sensu, como os aspectos políticos, econômicos e sociais que a Sociologia e a Antropologia pretendem estudar (p.8). Diversas “civilizações” coexistem em uma mesma sociedade, com seus valores próprios e, no caso brasileiro, o autor sugere que, aqui, estejam presentes as civilizações ameríndia, ocidental (ou luso-brasileira) e afro-brasileira, esta última objeto do volume publicado pela editora Presses Universitaires de France. Este divide-se em três “livros”: sobre as origens africanas dos escravos no Brasil (p.14-46), sobre a gênese da comunidade afro-brasileira (p.47-92) e sobre a sociedade afro-brasileira, o negro livre? (p.93-124). Estes dois últimos livros compreendem o escravo na fazenda, o escravo do sertão, a resistência dos escravos, a evolução da escravidão, todos no livro dois, e o Brasil mulato do século XIX, o povo afro-brasileiro (demografia), as comunidades do interior, as religiões e os valores afro-brasileiros, no livro três.  Um breve conclusão fecha a obra.

 

                               O livro primeiro destaca-se pelo tratamento detalhado das origens dos africanos que aqui foram trazidos pelo tráfico negreiro, com a apresentação de muitas tabelas demográficas e com mapas descritivos das destinações de africanos bantos e sudaneses no Brasil e dos grupos étnicos na própria África. Este primeiro livro condensa, de forma ampla mas precisa, o contexto histórico da vinda dos africanos para o Brasil. O segundo livro procura explicar a gênese da comunidade afro-brasileira, a partir das fazendas nordestinas escravistas, “verdadeiros feudos” (p.48), cuja essência estava na casa-grande patriarcal, com seu chefe de família todo-poderoso, dono da vida e da morte, com prerrogativas de justiça e de polícia (p.52) e cujos servidores eram alojados na senzala, palavra banto. A escravidão sertaneja ligava-se aos vaqueiros, “esses grandes feudais” (p.63) e aos bandeirantes e seus “feudos” (p. 64), seguindo a interpretação de Luiz Mott, assim com de outros autores (e.g. Galliza), sobre a importância da escravidão para a criação de gado no sertão (p.65-66),

 

                               A resistência dos escravos, com destaque para o quilombo dos Palmares, é tratado como prova, seja da inconformidade dos negros (p.80), seja de sua aliança com grupos brancos menos comprometidos com o grande latifúndio (p.81). O livro terceiro trata do negro no Brasil recente. Começa destacando a importância da miscigenação étnica no Brasil, a diferença dos Estados Unidos, com o predomínio de mulatos, constituindo um Brasil mestiço (p. 104). Neste quadro geral, Cròs ressalta as disparidades regionais, pois apenas no Nordeste predominavam, em 1980, os mulatos (65,8%) e os negros atingiam o maior percentual (6,7%), em contraste com a região Sul (12,1% mulatos e 2,7% negros), de modo que a média geral do país (54,2% brancos, 5,8% negros, 38,9% mestiços) encobre diferenças notáveis. Em seguida, o autor destaca,  justamente, a singularidade das comunidades rurais afro-brasileiras do interior, originadas de antigos quilombos e de outros assentamentos, demonstração das particularidades locais e da manutenção de autonomias e isolamentos.

 

                               Em sentido oposto, Cròs enfatiza a generalização das religiões e dos valores afro-brasileiros, no contexto da sociedade brasileira como um todo. Rejeitando a terminologia de Roger Bastide, que se referia a “religiões africanas no Brasil”, o autor prefere destacar a originalidade da criação em solo americano, denominando-as de “religiões afro-brasileiras” (p.110-111). Destaca algumas características que se expandem para a sociedade em geral, como as noções de possessão pela divindade, o caráter pessoal da divindade, a popularização de personagens como Ifá, Exu, Iemanjá, de forma que o sincretismo religioso africano no Brasil ultrapassa, em muito, o quadro das comunidades negras stricto sensu. Os valores afro-brasileiros, ainda segundo o autor, também se expandem e se espraiam por toda a sociedade brasileira. Assim, destaca o animismo e os valores comunitários, em especial aqueles que constituem uma verdadeira “sociedade paralela que funciona à margem da sociedade dominante luso-brasileira” (p.123). O espiritismo da Umbanda, em especial no Sudeste industrializado, constitui um processo de valorização do homem de cor, em reação a uma sociedade feita pelos e para os brancos, como já propunha Roger Bastide. Por fim, constitui-se uma “civilização do ritmo”, dominada pelo ritmo sincopado da música e nas outras manifestações estéticas, com sua recusa de imitar o real e com a dança dos volumes na escultura.

 

                               No conclusão, Cròs propõe que “graças a seus valores religiosos fundados no animismo e no espírito comunitário, graças a seu domínio dos ritmos, não somente a comunidade afro-brasileira muito contribuiu para a sociedade nacional, como soube criar uma civilização afro-brasileira, próxima da civilização negro-africana, mas original. Atualmente, tem um peso político e reivindica uma igualdade real. Tomou consciência de sua identidade, mais, sem dúvida, do que a comunidade afro-americana, nos Estados Unidos, dividida por sua maior heterogeneidade social” (p.125). Conclusão talvez surpreendente, se consideramos que, no Brasil, muitas vezes, tomamos a comunidade afro-americana como padrão daquilo que deveria ser feito por aqui. No entanto, o volume de Cròs atenta para a originalidade da experiência brasileira, caracterizada não pela separação, mas pelo contato, marcada não tanto pela frieza das relações capitalistas, como pelas seculares tradições européias (aquilo que o autor chama de “feudalismo luso-brasileiro”), ameríndias e africanas, sempre misturadas. Não é à toa que Cròs seja autor de outro volume, sobre “A civilização ameríndia: os povos autóctones no Brasil”, pois, como destaca, o país se compõe de três grandes vertentes. Pode não se concordar com todo o quadro interpretativo proposto pelo autor mas talvez sua maior contribuição, para o leitor brasileiro, esteja, justamente, na visão distante que se nos oferece da nossa sociedade. Em nosso meio, poucos se aventurariam a estudar e publicar sobre negros e indígenas, na medida em que a Antropologia acaba por isolar os especialistas de uns ou de outros. Da mesma forma, embora etno-sociólogo, Cròs não se exime de tratar da História dos afro-brasileiros, unindo, desta forma, Sociologia, Antropologia e História (para não mencionarmos a Lingüística), em salutar atitude interdisciplinar também pouco usal. Trata-se, pois, de uma excelente introdução a um incomum olhar crítico sobre a “civilização afro-brasileira”.


 

[1] Departamento de História - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - UNICAMP - 13081-970 - Campinas -SP.