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 Publicado em: Resenha de “Abolitionism in the United States and Brazil. A comparative perspective”, de Célia Marinho Azevedo, Varia Historia 17: 279-282, 1997.

 Célia Marinho Azevedo, Abolitionism in the United States and Brazil. A Comparative Perspective. Nova Iorque e Londres, Garland Publishing, 1995, 200 páginas.

 Pedro Paulo A. Funari

Departamento de História, IFCH, UNICAMP

                              A tese de doutoramento da Professora Célia Marinho Azevedo, apresentada à Columbia University, nos Estados Unidos, acaba de ser publicada na coleção de “Estudos sobre Cultura e História Afro-Americana”, de Nova Iorque. Raras são as obras de brasileiros publicadas no exterior e, ainda mais excepcionais aquelas que não se refiram apenas ao Brasil, como é o caso deste estudo comparativo do abolicionismo no dois países.  Na verdade, a abolição tem sido considerada muito mais do ponto de vista econômico e político do que de uma perspectiva social e cultural e este trabalho, portanto, cobre também uma lacuna na historiografia sobre o tema (1). O livro começa com um pequeno prefácio, seguido de uma introdução bibliográfica (ix-xxiv) e desenvolve-se por quatro capítulos principais, sobre “O abolicionismo nos dois países: uma visão geral” (págs. 3-20), “Visões do senhor de escravos” (págs. 21-48), “Visões do escravo” (págs. 49-82), “Reflexões sobre o racismo e o destino no ex-escravo” (págs. 83-120), concluindo com um “Epílogo” (págs. 121-126). Em cada tópico, as experiências do abolicionismo brasileiro e norte-americanos são analisadas, comparativamente e passo a passo.  A erudição da autora pode ser avaliada pelas 36 páginas de notas e as 444 obras citadas, entre fontes primárias e secundárias. Sua leitura, contudo, nem por isso é difícil mas, ao contrário, a suavidade do texto apresenta-se, ainda, tornada mais agradável pela beleza do estilo claro e pouco afeito ao jargão.

 

                               A bela comparação entre o abolicionista William Lloyd Garrison, nascido no norte dos Estados Unidos e alheio, de todo, à prática da escravidão e Joaquim Nabuco, antigo senhor tornado opositor do sistema, permite observar a precisão estética da autora: “falando com este senhor, Garrison sentiu-se, provavelmente, um verdadeiro outsider, incapaz de compreender a consciência e o mundo do dono de escravos. Pelo contrário, para o futuro líder abolicionista brasileiro, Joaquim Nabuco, a escravidão tinha sempre sido uma realidade tão natural como o ar que respirava. A escravidão não era uma instituição esquisita que, às vezes, ouve-se falar ou encontra-se, face a face, apenas em circunstâncias excepcionais. A escravidão era o seu mundo e moldava sua consciência tão profundamente quanto o fazia para o dono de escravos que Garrison havia encontrado na prisão de Baltimore” (págs. 16-17). Azevedo utiliza-se do conceito de “imaginário” para descrever a criação perene de figuras, formas e imagens que permite aos agentes históricos, neste caso abolicionistas, produzir sua “realidade” e sua  “racionalidade”.  O livro pode ser lido como uma oposição constante entre duas culturas irredutíveis, cujas escravidões e abolicionismos guardam semelhanças externas, em parte derivadas da sua inserção em um contexto internacional comum, e profundas diferenças ideológicas.

 

                               Os diferentes caminhos dos dois países na sua emancipação política explicam, em grande parte, os divergentes abolicionismos. A Revolução Americana e a vitória do republicanismo construíram idéias sobre a identidade nacional, a igualdade política e social e a cidadania completamente diversas do compromisso pacífico entre a Coroa portuguesa e a nova nação brasileira.  Seguindo as idéias desenvolvidas por David Brion Davis, sobre a liberdade interior e a virtude, Azevedo considera que o abolicionismo norte-americano foi o resultado de um pensamento inovador, derivado de uma nova ética de benevolência, cujo ideal de responsabilidade individual substituiu os antigos padrões, em desintegração, da caridade e da responsabilidade social de cunho medieval. Esta filosofia, surgida na Grã-Bretanha, no século XVII, confiava na capacidade humana de aprimoramento moral e opunha-se tanto à predestinação calvinista como ao apego ritualístico do catolicismo tradicional. A este ethos americano, opõe-se o caráter patriarcal da sociedade brasileira. Baseada na hierarquia e na proteção derivada das relações de compadrio, a sociedade católica brasileira, fundada no respeito à ordem vigente, que incluía a escravidão, só podia conceber o abolicionismo como...movimento dentro da lei! “Os abolicionistas brasileiros permaneceram, normalmente, determinados a combinar a abolição com o respeito das leis, o que, em um país escravista, eqüivalia a respeitar os interesses dos donos de escravos” (pág. 45).  A guerra civil americana e seus mortos representam uma quebra com o antigo regime que, no Brasil, nunca houve. Como lembra Célia Marinho Azevedo, a passagem pacífica à emancipação, no Brasil, foi acompanhada pela reforma eleitoral de 1879 que reduziu os votantes de 1.114.066, em 1874, para apenas 145.296, em 1879 (2).

 

                               O abolicionismo norte-americano fundava-se na igualdade entre os homens, entre os quais estavam os negros, o que opunha a escravidão, a um só tempo, ao cristianismo e à república. Os senhores, pecadores e infratores à  constituição ipso facto, eram não apenas combatidos como a própria escravidão nos Estados Unidos era considerada a mais detestável, a menos mitigada. É neste contexto, argumenta a autora, que, naquele país, cria-se a noção de uma escravidão mais humana, porque fundada no Direto Romano, imperante alhures. O Brasil passa a ser, na verdade, o paradigma dos benefícios de uma escravidão regrada: “No Brasil, no momento (i.e. 1833) a nação com maior população escrava, é ainda melhor. Ali o senhor é obrigado, sob ameaça de pena severa, a dar a seu escravo uma licença escrita para procurar outro dono sempre que o escravo assim o pedir; encontrada a pessoa interessada na compra, o magistrado fixa o preço” (David Child).  Com o passar do tempo, o racismo norte-americano, denunciado por diversos abolicionistas, foi contrastado ao paraíso racial brasileiro, cuja fama internacional já era reconhecida em meados do século XIX. Como lembra a autora, é interessante notar que muitas dessas idéias abolicionistas sobre o inferno racial norte-americano e o paraíso racial brasileiro foram incorporadas pelos grandes estudiosos do nosso século, Gilberto Freyre e Frank Tannenbaum (3).     

 

                               Célia Marinho Azevedo toca, en passant, em um ponto que talvez mereça alguma reflexão: André Rebouças, de origem africana, teve carreira notável graças ao esforço, trabalho, disciplina e estudo. As disciplinas estudadas incluíam latim, francês, inglês e a tradução dos filósofos gregos e romanos.  Ora, também nos Estados Unidos,  escravos, fugitivos e forros privilegiavam, da mesma forma, o estudo do latim e do grego, como demonstrou Shelley P. Haley (4). No contexto norte-americano, o domínio dos clássicos era sinal de igualdade, e quanto ao Brasil? Se aceitarmos a interpretação proposta pela autora, parece razoável supor que, ao contrário, o conhecimento erudito afastasse o indivíduo de ascendência africana dos escravos e libertos pobres e o identificasse como integrante da elite branca. Nesta direção caminha a constatação de Célia Marinho Azevedo a respeito da imagem positiva da África, nos círculos abolicionistas americanos, por oposição à terra de ignorantes, na concepção brasileira predominante. Cleópatra era negra nos Estados Unidos, enquanto Rebouças era branco, no Brasil.

 

                               Espera-se que a obra seja, o mais breve possível, traduzida e publicada entre nós. Desta forma, também o público brasileiro mais amplo, e não apenas aquele mais diretamente dedicado ao estudo de temas afro-americanos,  poderá ter acesso a uma obra cuja repercussão acadêmica já começou nos principais centros internacionais de pesquisa.

 

NOTAS

1.  Lacuna bem lembrada por Hebe Maria Mattos de Castro em “Estudos Afro-Asiáticos”, número 28, 1995, pág.102.

 

2.  De maneira independente, era o que também ressaltava Magnus Mörner em “Ibero-Americana, Nordic Journal of Latin American Studies”, número 22, 1992, pág. 20.

 

3. Esta oposição entre a tradição latina e anglo-saxônica foi ressaltada em diferentes historiografias latino-americanas; o caso cubano, estudado por Aline Helg em “Políticas sociales en Cuba después de la Independencia: represión de la cultura negra y mito de la igualdad racial”, América Negra, Bogotá, 11, 1996, páginas 63-79, apresenta paralelos interessantes a respeito.

 

4.  Em “Feminist Theory and the Classics”, organizado por N.S. Rabinowitz e A. Richlin, 1993, págs.23-43.