Arqueologia, História e Estratégia
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UNIVERSIDADE E CIDADANIA

UNICAMP, MARÇO DE 2001

 

A UNIVERSIDADE E A CIDADANIA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

 

Pedro Paulo A. Funari

 

Universidade e sociedade: os avatares do compadrio

 

Há tempo, tenho notado que o interesse pela educação, em geral, e pela Uni­versidade, em particular, tem partido não das autoridades e dos poderes pú­blicos, mas, precisamente, daqueles que vivenciam as questões relativas ao desenvolvimento econômico do país, tanto os empres­ários Como os economistas. Assim, prestemos aten­ção às palavras de um capitão da indústria, Luiz Gon­zaga Bertelli, atualmente, presidente-executivo do Centro de Integração Empresa-Escola e diretor da FIESP/CIESP: “O sistema educacional brasileiro há muito vem exigindo dos poderes constituídos reflexões dos aspectos relacionados à formação das futuras ger­ações de profissionais que, inegavelmente, poderão impulsionar o país para novos patamares de desenvol­vimento tccnológico, econômico e social... Em rela­cão ao ensino superior, a situação também requer medidas urgentes. Em diversos países da América La­tina, 20% ou 30% da população jovem continua estu­dando após o nível médio. No Brasil, não conseguimos ultrapassar 10%. O ensino superior não se ex­pande há mais de 15 anos, dificultando, inclusive, o aumento da produtividade do país. Está claro que o mundo do futuro exigirá muita educação” (Bertelli, 997; cf. Salgado, 1994).

E notável que um líder empresarial exponha a  questão com tanta clareza: o desenvolvimento depende do ensino, temos muito menos universitários do que países vizinhos, a produtividade não aumenta, o futuro está comprometido. Se fôssemos compulsar os documentos oficiais do MEC, CAPES e CNPq, o qua­dro seria bem outro, róseo, ufanista. Talvez se pudes­se creditar a advertência do empresário à idiossincra­sia dos empreendedores, à sua falta de conhecimento dos dados oficiais, não fosse a generalizada preocupa­ção, a esse respeito, por parte dos acadêmicos. Tem-se notado que o desenvolvimento depende de grandes esforços em educação, com elevados índices de exce­lência educacional . Economistas, como José Márcio Camargo, da PUC-RJ, ressaltam que “qualificação exige educação e treinamento. E essas são as princi­pais deficiências dos trabalhadores brasileiros”. E in­teressante notar que essa ênfase na qualificação não se restringe a uma escola, de esquerda ou de direita, ortodoxa ou heterodoxa. Um antigo ministro dos go­vernos militares, como João Paulo dos Reis Velloso (Kunf, 1993), afirma: “O sistema educacional tem duas missões. Uma é fornecer a mão-de-obra neces­sária à operação do novo modelo industrial. Outra é alimentar a inovação, produzindo ciência e tecnologia e transferindo conhecimentos do exterior”.

 

Diversos outros estudiosos, de diferentes pontos de vista, têm, igualmente, correlacionado o desenvol­vimento, em geral, à academia, em particular. Esta associação pode ser exemplificada pelo que se passa no mercado de trabalho na cidade de São Paulo, re­gião que, por seu dinamismo e concentração de ativi­dades econômicas de ponta. permite extrapo­lar seus dados para o fu­turo do pais como um todo.

Houve um aumento de quase 50% de ocupados com curso superior completo, em sete anos. Isto ocorreu sem que houvesse um empenho excepcional, por parte do Es­tado, o que permite supor que o crescimento poderia ter sido ainda mais expressivo. Os analistas econômi­cos estrangeiros fazem coro aos nacionais e destacam que o maior problema brasileiro é a educação (pace Thurow 1997), sendo os governos grandes responsá­veis por isso. Estamos investindo pouco em educa­ção, segundo José Alexandre Scheinkman, da Uni­versidade de Chicago. Até agora, restringi-me ao de­senvolvimento econômico stricto sensu, mas ele não é possível sem uma educação crítica. Segundo C. Sagan, em artigo significativamente intitulado “Democracia é impraticável sem a Educação”: “O antítodo (se. à estagnação) é um apoio vigoroso à expressão dos pontos de vista impopulares, à alfabetização ampla, ao debate sistemático, à prática do pensamento críti­co e do ceticismo em relação aos pronunciamentos das autoridades, elementos que são fundamentais também para o método científico”.

Em outras palavras, desenvolvimento econômico, treinamento da mão-de-obra, ocupação qualificada são questões que não podem ser desvencilhadas da sua dimensão social, em particular do seu contexto histórico e cultural. A academia brasileira depende, muito diretamente, de órgãos públicos de financia­mento: seria realista, para programas de pós-gradua­ção, orientadores e orientandos, praticar o ceticismo e a crítica de que fala Sagan? Neste ponto, levanta­ria o posicionamento de um colega. quando discutía­mos as novas regras do CNPq quanto às bolsas de pós-graduação. O colega dizia que devíamos pensar duas vezes antes de nos opormos a qualquer decisão daquele órgão, pois, tanto o programa de pós como os docentes, poderiam ser retaliados! “Retaliação” não parece ser uma palavra que se refira a critérios acadêmicos e, se aceitamos o que nos diz Sagan, tampouco pode haver método científico onde há me­do de retaliação.

Chegamos, assim, as aporias da nossa pós-gradua­ção no limiar do terceiro milênio. Muitos não acadê­micos, muitos mais acadêmicos, clamam por ciência, por empenho público, por verbas para a pesquisa, to­dos condicionam o desenvolvimento do país, objetivo compartilhado por tantos, à academia. Os empecilhos encontram-se nas raízes seculares de nossa estrutura social, de caráter senhorial, patriarcal, baseada no compadrio, pouco afeita à isonomia e à autonomia, infensa à crítica de que fala Sagan. A academia, em particular, já antes da nefanda reforma universitária imposta pelos militares, da qual tratei em outra oca­sião, não se constituía em exceção. José Honório Ro­drigues descreve, com palavras fortes, a situação às vesperas da reforma. Referia-se ao “baronato feudal das cadeiras”, àqueles docentes que viviam e morriam na virgindade bibliográfica”. Citê-mo-lo na íntegra: “As nossas faculdades nasceram senis, inatuais e es­clerosadas. Nasceram da fraude. Como é sabido, to­dos os professores foram nomeados por influência política, por amizades, enfim, por aquilo que se cha­ma o pistolão’ , ou porque foram fundadores. Ora, no Brasil, 95% dos professores catedráticos de História nunca escreveram nada, absolutamente nada, sobre sua própria disciplina. A tese, impublicável, é a obra única e inédita. Daí em diante não há sequer um artigo de sua autoria”.

Palavras duras, de acordo com método científico, segundo Sagan, mas por isso mesmo, impopulares. De lá para cá, muita água passou debaixo da ponte, como dizia Paulo Duarte, mas o balanço recente de outro historiador não seria muito alentador. Em artigo sig­nificativamente intitulado “Silêncio no Butantã”, a respeito da alma mater da ciência nacional, a Univer­sidade de São Paulo, Carlos Guilherme Mota não he­sita em fazer constar um quadro sombrio: “O resulta­do se traduz também em mediocridade de recursos e regras, pesquisadores juniores’ julgando pesquisado­res seniores’, compadrio pós-moderno, favores e co­ronelismo em certas areas, e assim por diante. O de­partamento hoje, não há dúvida, que ele reforça o corporativismo tacanho, nos fecha em guetos cristali­zados e endogâmicos”.

 

A promoção por mecanismos automáticos, como o tempo de serviço e a endogenia são dois exemplos da continuidade, em novas roupagens, do compadrio na vi­da acadêmica. O caso recente das modificações sugeridas no sistema de concessão de bolsas de pós-gradua­cão do CNPq demonstra como se pode mudar sem se aproximar da busca do mérito. O CNPq apresentou, há alguns meses, algumas propostas vagas de alteração da sistemática de concessão de bolsas de pós-graduação, cuja esperança de que se tratasse de um sistema basea­do no mérito, à semelhança daquele da Fapesp, induziu muitos pesquisadores a apoiar uma mudança que deve­ria redundar em eliminação do tráfico de influência. A leitura da versão preliminar do manual operativo, re­cém divulgado pela lnternet, demonstra, no entanto, que as alterações não caminham no sentido de valorizar o mérito de projetos, de alunos e de orientadores, mui­to pelo contrário. O pré-requisito dc que o orientador tenha perfil equivalente aos níveis de IA a lIA atenta àlógica do mérito: o julgamento deve, sempre, centrar—se na excelência do projeto, que independe dos níveis do CNPq. Sabemos que, no caso do Estado de São Paulo, muitos projetos são orientados por docentes de renome internacional, apoiados pela Fapesp, sem que, no en­tanto, o CNPq atribua conceito IIA ao orientador. As­sim, vincular a bolsa a níveis de classificação opõe-se, frontalmente, à lógica do mérito. A passagem automáti­ca do mestrado para o doutorado, com “dispensa da conclusão da dissertação de mestrado”, põe em questão qualquer seriedade da proposta, pois se o projeto de mestrado era excelente ao ter recebido bolsa por méri­to, não se pode justificar que não resulte na obtenção do título de mestre. Nem na Fapesp, nem em entidade estrangeira gabaritada, aceita-se que a suposta qualida­de de um projeto resulte na sua não conclusão e auto­mática promoção! A falta de atenção para com o méri­to do projeto perpassa toda a proposta, a tal ponto que se estabelecem relatórios.., a cada dois anos! Como po­de haver acompanhamento criterioso, por relator espe­cialista, sem o envio de relatórios, ao menos, semes­trais? O sistema de cotas demonstrou, ao longo dos anos, acentuar o tráfico de influência nos cursos e resul­tar em elevados índices de não-conclusão de disserta­ções e teses, pois os projetos não eram bem analisados, por relatores externos aos cursos, nem eram acompa­nhados, com a devida atenção e regularidade. A pro­posta do CNPq, tal como apresentada, corre o risco de perder uma oportunidade histórica de abandonar-se o uso de cotas e substituí-lo por um controle, este sim ri­goroso, da qualidade dos projetos de pesquisa, afastan­do-se, definitivamente, dos nefandos “perfis” e “classi­ficações” de orientadores, originalidade de órgãos fede­rais que não encontra amparo nos melhores centros de apoio à pesquisa, aqui ou no exterior.

A CAPES, por sua parte, precisaria redefinir, por critérios qualitativos baseados no mérito, seus métodos de avaliação. A dedicação ao estudo exige grande e contínuo esforço, Unicamente viável se houver ver­dadeira vocação intelectual. A erudição constitui a ca­racterística definidora, por excelência, do acadêmico. Erudição é o resultado do estudo prolongado e cons­tante e é neste contexto que se deve pensar na avalia­ção da pós-graduação. Nossos cursos deveriam visar a inserir nossos alunos na ciência mundial, não no com­padrio local. Segundo a imprensa, a CAPES convidou um grupo de especialistas estrangeiros para estudar os métodos de avaliação da própria CAPES e algumas das preocupações expostas pelo comitê referem-se a:

1.  quantidade e precisão dos dados coletados anualmente;

2.  padrão de distribuição de conceitos, com altíssi­mo percentual, ao longo do tempo, dos niveis mais altos (A e B);

3.   ênfase exagerada em avaliações quantitativas, em detrimento de análises qualitativas;

4. composição cientificamente pouco qualificada dos comitês de avaliação (Folha de S. Paulo, 20/7/97. 3. 7).

Não é casual que, por iniciativa da APG da USP, em Mesa-Redonda sobre a avaliação na Pós-Gradua­cão brasileira. cm 1995, estávamos a debater com um alto funcionário da CAPES - entenda-se, um acadê­mico, não um administrador — e minhas observaçõees iam na direção deste recém-divulgado relatório de es­pecialistas estrangeiros. Naturalmente, nem minhas considerações foram tomadas em consideração, nem o relatório atual tem muita probabilidade de servir a outro propósito que não seja satisfazer à exigência, meramente formal, de “controle externo” à CAPES. Como diria Alphonse Karr, plus ça change, plus c’est la même chose.

Estas considerações não signifi­cam urna desesperança, um aban­dono da luta por uma universida­de mais democrática e menos sub­metida ao compadrio, ao contrá­rio. Assim, os procedimentos da Fapesp, ainda que não se possa dizer que esta Fundação esteja isenta de procedimentos extra-acadêmicos, na medida em que a academia também não está, de­monstra que os critérios de mérito podem prevalecer e, com isso, ter efeitos importantes. A valorização da titu­lação, das publicações, em especial em órgãos que não sejam ‘da propria casa’, dos projetos científicos de im­pacto internacional, tudo isto está a apontar os caminhos para a ciência nacional. A Universidade tem de se dedicar a assuntos para os quais não existem consumi­dores ou mercados, como, por exemplo, matemática pura, física básica, sânscrito, como sugere João Sayad, contanto que esses estudos possam dialogar com a ciência mundial, algo que já ocorre e que poderia ge­neralizar-se. Para tanto, faz-se necessário não dissociar ensino e pesquisa, elegendo meia dúzia de centros e al­gumas centenas de agraciados com a pesquisa e rebai­xando os inúmeros outros para um segundo escalão, os “ensinadores”, como propõe o ex-presidente da CA­PES, Cláudio de Moura Castro. Ao contrário, se a CA­PES, o CNPq e o MEC houvessem adotado critérios de mérito, as Universidades Federais estariam, hoje, em condições de equiparar-se às Universidades pau­listas, que concentraram a pesquisa nacional. As uni­versidades do Estado de São Paulo não o fazem por qualquer característica especial dos universitários que aqui atuam, nem apenas pelas verbas que possuem mas, principalmente, pela adoção, ainda que incom­pleta e parcial, de critérios de mérito. Isso deriva, em parte também, da autonomia financei­ra da FAPESP e das Universida­des estaduais paulistas. E muito significativo que o “Jornal da Ciência”, da SBPC (1/8/97:4) te­nha publicado uma reportagem com título explícito: “Fapesp não tem clones e continua modelo não reproduzido no país:

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) foi a principal referência na mesa-redonda sobre FAPs, na reunião da SBPC. Sem­pre citada como modelo de agência para fomento de C&T, a FAPESP, por sua atuação ímpar, continua mais virtual do que real fora das fronteiras paulistas”.

Para que modelos baseados no mérito se generali­zem, não hasta a democratização da academia, pois ela depende, em última instância, da democratização da sociedade brasileira, em geral. O compadrio da univer­sidade não é senão ínfima parcela de um sistema social paternalista. E necessário mudá-lo, para que se mude a universidade, mas a própria academia é um campo pri­vilegiado de luta pela reforma social, pois, corno vimos no começo desta exposição, sem ciência não há desenvolvimento e não há ciência com compadrio.

 

A pesquisa na Universidade atual

 

                        A Universidade não pode ser concebida sem a pesquisa, elemento essencial para a sua própria definição. “Pesquisa” é uma palavra que se liga à noção de “busca aprofundada” mas, busca de quê? Naturalmente, do conhecimento, da ciência que permite compreender o universo, scientia vinces, “com o conhecimento se vence a ignorância”, como no lema da Universidade de São Paulo. Pesquisa é a quintessência da Universidade e, como bem lembrava Marilena Chauí, ela é, por definição, crítica: “por pesquisa entendemos a investigação de algo que nos lança na interrogação, que nos pede reflexão, crítica, enfrentamento com o instituído, descoberta, invenção e criação, o trabalho do pensamento e da linguagem para pensar e dizer o que ainda não foi pensado nem dito”.  Deve concordar-se com Milton Santos que o dever de ofício da Universidade é a crítica, essência da busca empreendida pela pesquisa acadêmica. Nem toda produção intelectual é resultado de pesquisa nem, por isso mesmo, possui um caráter crítico. Pode produzir-se um discurso acadêmico que apenas confirme o senso comum, transcrevendo as idéias correntes em forma de definições científicas. Tanto maior será a possibilidade de aceitação desse discurso quanto mais ele se ativer aos rigores formais da ciência. Já a verdadeira pesquisa, aquela que rompe com a falsa obviedade e com a aparente neutralidade do senso comum acadêmico sempre corre o risco de parecer o resultado de um ato arbitrário e ser acusado, até mesmo, de manipular os dados para que justifiquem uma posição prévia, ideologicamente fundamentada. Na História da Ciência os exemplos são muitos, de Copérnico a Galileu, cujas pesquisas contradiziam o senso comum acadêmico de sua época.  Em nossa época, talvez o mais célebre exemplo esteja, ao contrário, nos louros conferidos ao biólogo Trofim Lyssenko por dar foros de cientificidade às idéias dominantes na União Soviética à época de Stalin. A verdadeira pesquisa, assim, aquela que deve definir a Universidade e que nos deve preocupar, como cientistas e cidadãos, em geral, é a busca aprofundada  e crítica do conhecimento.

 

 

                        Por seu caráter crítico, a pesquisa implica em abnegação. Estamos acostumados a reconhecer no pesquisador um homem de posses modestas, cujos salários são, na melhor das hipóteses, moderados. Isto é verdade tanto no Brasil como no mundo, em geral, pois os pesquisadores universitários em toda parte são pouco remunerados. Um pesquisador britânico, cujo salário anual gira em torno de dezessete mil libras, ganha por mês uns R$ 4.500,00, pouco mais do que um empregado manual. No Brasil, tampouco se ganha dinheiro pesquisando. Um professor de escolas médias privadas pode ganhar de três a quatro vezes mais do que um pesquisador. Além disso, se a verdadeira pesquisa é crítica, ela não será, necessariamente, bem recebida, nem oportunidades são muito freqüentes de ofertas de boas remunerações, com a notável exceção da pesquisa aplicada. No geral, contudo, continua válida a observação do sociólogo alemão Max Weber de que a pesquisa exige paixão intensa, sincera e profunda. Isto não apenas pela remuneração como, principalmente, pela dedicação que ela exige e que só se torna possível com a paixão. Como estaria, neste caso, o Brasil no quadro internacional? Segundo um estudo recente, na Universidade o interesse prioritário pela pesquisa científica concerne 39% dos docentes, mais do que nos Estados Unidos (37%), México (35%) ou o Chile (33%), mas bem menos do que no Japão (72%), Alemanha (66%) ou Israel (62%). Outro indicador relevante para determinar o grau de dedicação à pesquisa refere-se à percentagem de professores universitários que consideram importante a disciplina científica a que se dedica. Neste caso, os brasileiros destacam-se, pois 95% consideram-na muito importante, em primeiro lugar em um total de 13 países investigados, enquanto na Alemanha (62%), no Japão (69%) e nos Estados Unidos (77%) essa identificação dos investigadores com sua ciência é bem menos marcada. O contraste entre os dados referentes ao interesse pela pesquisa e a importância atribuída à ciência demonstra, no que se refere ao Brasil, que deve haver motivos muito concretos que fazem com que  95% de docentes se interessem por sua ciência, mas apenas 39% dêem prioridade à pesquisa.

 

                        Uma explicação deve encontrar-se na precariedade das condições de apoio à pesquisa. As condições materiais são, muitas vezes, insatisfatórias e precárias, as bibliotecas e os laboratórios pouco equipados, os gabinetes de trabalho, quando existentes, desaparelhados e infensos ao trabalho intelectual. Nas instituições privadas, raramente se paga pela pesquisa e, nas públicas, remunera-se o docente mas, freqüentemente, não há infra-estrutura para permitir sua execução minimamente adequada. As autoridades sempre ressaltam que o país é pobre e, por isso, não se poderia dispensar verbas substanciais para pesquisa. Contudo, outros países aplicam em pesquisa, percentualmente, muito mais do que o Brasil. Mesmo assim, no período 1999/2000, a produção científica brasileira cresceu 365%, superando, em muito, o aumento da produção científica mundial, que cresceu 104% no período. Em 1990, o Brasil formou mil doutores, atingindo em 1999 5 mil doutores e 15 mil mestres (Rose 2000:45).

 

  Talvez ainda mais importante, seja a própria concepção de que a precariedade é natural que deva ser questionada. Afinal, para que serve um pesquisador, sem condições de pesquisar? Em outros termos, haveria que dar condições mínimas para que os docentes pudessem pesquisar.  Em termos institucionais, as fundações estaduais de amparo à pesquisa têm tido um papel de destaque, tendo à frente a FAPESP, no sentido de financiar a investigação acadêmica a partir de critérios de mérito e com fundos ingentes. No entanto, na maioria dos Estados da federação isso não ocorre, seja pela debilidade da economia local, seja, principalmente, pela não liberação dos recursos orçamentários que deveriam ser destinados à Fundação Estadual. Os órgãos federais, por sua parte, nem sempre se guiam por critérios científicos nas concessões e possuem, ainda, políticas muito tímidas naquilo que deveria ser sua principal missão: a diminuição das diferenças entre as unidades da Federação. A vocação das instituições federais está em programas como os Mestrados Interinstitucionais, que visam a titulação e estímulo à pesquisa nas universidade periféricas. Em 1997, 55% das bolsas de pós-graduação do CNPq não resultaram em defesas de teses, pois o controle das bolsas não se dava com a necessária proximidade e rigor. Esse desperdício de recursos põe em risco a própria dedicação à pesquisa e a solução, como tudo que se refere à pesquisa, está em tornar prioritário o julgamento de mérito. Fundamento da dedicação é a certeza de que há igualdade de oportunidades e de condições, como lembra Chauí, algo que não ocorre hoje.

 

                        Para que isto ocorra, além de Fundações Estaduais fortes, autônomas e baseadas em critérios de mérito, de Instituições federais que, além disso, se voltem para a diminuição das desigualdades regionais, há que incrementar os fundos de apoio à pesquisa em cada Universidade. Os institutos de pesquisa são peças-chaves, com o desenvolvimento de formas organizacionais flexíveis e dinâmicas, capazes de facilitar e agilizar a produção científica-tecnológica, como ressalta o Presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Eloi S. Garcia (1998:A1). Em 2000, um diagnóstico sobre Ciência e Tecnologia no Brasil constatava o baixo investimento nacional em C&T (Novaes 2000:A2) Este apoio não se restringe à infra-estrutura, tão precária em toda parte, nem aos projetos específicos, mas deve abranger o universo dos jovens pesquisadores em formação. Embora as pesquisas de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado tenham aumentado de forma espetacular, em todo o Brasil, ainda haveria que expandir muito a formação de pesquisadores. A maior universidade do país, a Universidade de São Paulo,  teve 1.276 teses de doutoramento defendidas em 1997, com um total de 8.990 doutorandos, no mesmo ano. Não são números pequenos, mas seria possível expandir muito, se considerarmos que havia 3,9 graduandos por doutorando, enquanto na UNICAMP, por exemplo, havia 2.,6 graduandos por doutorando; na UNESP havia 7,6 graduandos por doutorando. Se este é o quadro nas universidades que mais pesquisam no país, pode-se supor que alhures a situação seja menos favorável.

 

                        Os jovens pesquisadores necessitam de bolsas. Ao contrário do que dizem os que defendem a privatização das universidades públicas, seus alunos não são ricos. Em 1998, constatou-se, após um estudo coordenado por Carlos José de Lima sobre o perfil socioeconômico dos alunos das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), que a maioria não poderia  arcar com uma mensalidade, por menor que fosse. Nas Universidades mais concorridas, como a USP e a UNICAMP, o quadro não é muito diferente. Nesta última, com o maior número de candidatos por vaga, em 1999, 52,8% dos ingressantes provinham de famílias com renda até R$ 2.600,00, sendo que 7,3% viviam em famílias com renda familiar entre R$ 130,00 e R$ 650,00. Neste contexto, a viabilização das vocações para a pesquisa passa, necessariamente, pela bolsa de Iniciação Científica e, depois, de Pós-Graduação. Um papel de destaque, neste contexto, tem o programa do CNPq/PIBIC, ao permitir a pesquisa já na graduação. Neste sentido, a política das agências financiadoras de limitarem o valor das bolsas e, ao mesmo tempo, exigirem dedicação exclusiva tem sido questionada por diversos analistas. O Professor Júlio César Voltarelli (Clínica Médica, USP de Ribeirão Preto) defendia, já em 1997, que houvesse a permissão da concomitância de outras funções remuneradas. A pesquisa, se analisada pelo mérito apenas, não poderia exigir do bolsista dedicação exclusiva, pois os resultados objetivos deveriam bastar para avaliar se a concessão da bolsa está sendo pertinente. Não é à toa que bolsas sem um sistema de avaliação eficaz, mas com exigência de dedicação integral, não resultem em teses, como vimos acima, enquanto muitas teses são defendidas por pesquisadores que recebem remuneração. Isto se explica, justamente, porque é a dedicação do pesquisador que gera resultados e, muitas vezes, as atividades remuneradas contribuem para que o pesquisador adquira conhecimentos mais amplos e que poderão ser úteis, ainda que indiretamente, para sua pesquisa.

 

         Elói Garcia, da Academia Brasileira de Ciências,  ressaltava, há pouco, que países que negligenciam a importância do investimento em pesquisa amargam uma perene condição periférica. O Brasil já tem sofrido, como outros países em situação semelhante, um brain drain, com a perda de grandes pesquisadores que se instalam no exterior. Como já se disse, não são tanto os salários a atrair nossos pesquisadores, mas as condições de trabalho. O futuro da nação depende, também, da existência de uma pesquisa que esteja em condições de integrar-se àquela universal. Tampouco podemos nos contentar com um arremedo de pesquisa, “descobrindo a pólvora”, como se existisse uma pesquisa de ponta que pudesse prescindir da inserção na ciência internacional. Paroquialismo não se coaduna com pesquisa: se italianos ou japoneses têm que publicar e, até mesmo, apresentar seus projetos de pesquisa, em seus países, em inglês, não há porque ser diferente no Brasil. Os desafios da pesquisa universitária no Brasil são, pois, muitos. A reflexão crítica, a dedicação à ciência, a luta por mais adequadas condições de trabalho são tarefas mais necessárias do que nunca, mas o essencial já possuímos: a paixão.  

 

           

 

 

Pedro Paulo A. Funari é professor do Departamento de História da UNICAMP; atua como assessor do CNPq, CAPES, FAPESP, FFAE-UNICAMP, entre outras instituições de pesquisa brasileiras, além de autuar como Pesquisador Associado da Illinois State University e Universidad de Barcelona.